O impacto da vida digital na vida familiar

 

No começo da semana, Ethevaldo Siqueira, comentarista do Mundo Digital, nos apresentou parte dos resultados de pesquisa mundial feita pela Ipsos Public Affairs, encomendada pela fabricante de biscoitos Oreo, que mostram que o convívio entre crianças e adultos está praticamente desaparecendo e um dos fatores que mais influíram nesta mudança radical na vida familiar e no isolamento das pessoas é, em grande parte, o uso intensivo da tecnologia digital. Meninas e meninos estão conectados na internet, nos celulares, nos games e na televisão, enquanto pais vivem obcecados pelos dispositivos e aplicativos que lhes oferecem aumento de produtividade e ganhos financeiros. Nas palavras do próprio Ethevaldo: a vida em família pode entrar para a lista de espécies ameaçadas de extinção.

 

A maioria dos pais pesquisados acredita que as crianças estão crescendo mais depressa do que as das gerações anteriores, diz que seus filhos deveriam ter mais tempo para simplesmente serem crianças, e confessa que não se diverte diariamente com eles.

 

Enquanto escrevo este post, estou em uma mesa redonda na qual há três computadores conectados, ocupados por mim e meus dois filhos, em uma sala que combina espaço de trabalho, estudo, som e televisão. Sempre preferimos manter os terminais longe dos quartos para evitar o isolamento e garantir, de alguma forma, nossa interação. Um deles está jogando em rede com amigos e o outro aproveita a máquina, em um chat, para estudar para a prova do dia seguinte. A todo momento trocamos impressões, tiramos dúvidas e mostramos uns aos outros aspectos interessantes que encontramos na internet. Costumamos nos levantar para fazer um lanche juntos – agora há pouco, demos uma bela colherada em um brigadeiro que minha mulher deixou pronto antes de ir trabalhar -, às vezes apenas conversamos, e quando o assunto na televisão está mais interessante nos jogamos em um sofá e fazemos uma sessão coletiva. É bem provável que a internet, em especial, nos tome mais tempo do que deveria, nos emaranhando nas interligações digitais; além disso, tem a caixa de correio sempre me chamando, a troca de informação nas redes sociais e outras demandas que surgem a partir do computador. Tenho certeza, porém, que não fosse o acesso que este me oferece não seria possível realizar a maior parte do meu trabalho em casa e isto me afastaria deles, me levando a chegar tarde, desperdiçar tempo no trânsito, na fila do banco e na visita a lojas e casas de serviço.

 

A diretora global da Oreo, Sheeba Philip, com os dados da pesquisa em mãos, comentou que “precisamos restaurar e reconquistar o espírito da infância em todo o mundo”, contou-me Ethevaldo, em nossa conversa na CBN. Concordo com ela, mas não devemos nos enganar e fazer das máquinas bode expiatório de um problema que, me parece, é mais da vida humana do que digital: a dificuldade dos pais de definirem prioridades, e colocarem no topo desta lista a sua família.

8 comentários sobre “O impacto da vida digital na vida familiar

  1. Uma das formas mais rudimentares de transferência de cultura e conhecimento era a conversa dos “velhos” ao redor da fogueira. Os jovens e as crianças ouviam sobre os grandes feitos e desafios enfrentados pelos ancestrais e como isso contribuiu para a sobrevivência atual ou para a melhoria de vida. Esse ouvintes eram meninos e meninas cuja admiração e curiosidade impregnavam o ar.
    É bom lembrar que a expectativa de vida vem aumentando ao longo do tempo e que houve uma época em que os sábios anciãos tinham no máximo 40 anos de vida.
    Assim estamos perdendo, de várias maneiras, o costume do ritual de contar estórias ao redor da fogueira – perda para nossos jovens e crianças e falha nossa “neo-anciãos”. Quando foi a última vez que contamos estórias sobre os nossos avós para nossos filhos? A fogueira dos i-trecos está consumindo nosso relacionamento pessoal e familiar, tomara que possamos nos redimir!

    • Wilson,

      E se nossa expectativa de vida aumentou, deveríamos ter mais tempo para sermos crianças, para sermos adolescentes, para sermos jovens, para amadurecermos, porém temos desenvolvido uma educação que acelera o crescimento de forma cruel.

      • Micael,

        A impressão que tenho às vezes é esta mesmo: de que algumas pessoas têm vontade de fugir de suas responsabilidades. E desculpas não nos faltam.

  2. Ótimo artigo Milton, concordo contigo que a tecnologia não pode servir de desculpa para um problema muito mais profundo, qual seja, há um crescente distanciamento familiar, onde os pais arranjam as mais diversas justificativas: não ter tempo, trabalho, etc. e assim passam a tercerizar os momentos e a responsabilidade na convivência com os filhos.

  3. Como dizia Vicente Mateus, a virtualidade "é uma faca de dois legumes"
    Ouço, leio comentarios afirmando que com o advento da virtualidade as familias estão se afastando cada vez mais, apesar de todos conviverem sob o mesmo teto!
    A pura verdade!
    Já ouvi amigo que teve que chamar uma das filhas para jantar pelo MSN.
    “O jantar esta na mesa filha”
    Por outro lado quem sabe usar pode realizar muitas coisas, fazer muitos amigos.
    Portanto, equilibrio, bom senso devem ser observados.
    Muitos se fanatizam e tornam-se viciados em internet, games, chats, mensageiros instantaneos.
    Até que sem menos perceberem acabam ficando sós.

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