“E o vento levou … a nossa Imprensa ?”

 

Por Julio Tannus

 

 

A notícia de primeira página da Folha de S. Paulo de 29/03/12 “Morumbi é o bairro com mais roubo a casas em SP” carece de explicação. Isto nos lembra do verso de Dominguinhos:

 

Na pressa que tava

Não pude esperar

Eu vivo fugindo pra outro lugar

Aonde a tristeza não saiba que fui

E a felicidade vá lá

 

Me pegue de novo no colo

Me faça de novo menino

Não deixe que eu morra de medo

Não deixe que eu durma sozinho

 

Chega um tempo na vida

Em que a gente presta atenção

Vê que nem tudo no mundo

Carece de explicação

 

Ou seja, tal afirmativa contempla apenas o número de casas roubadas, mas não considera o total de casas existentes no bairro na comparação feita com as demais regiões consideradas na matéria.

 

Como pesquisador, indagamos: É censo ou pesquisa por amostragem? Se por amostragem, qual o tipo de amostra? Qual o tamanho do universo de cada região, ou seja, quantas casas existem em cada região? E o tamanho de cada amostra pesquisada? Qual o coeficiente de confiança? E o erro amostral? E assim por diante…

 

A nosso ver uma notícia correta, precisa e isenta seria algo como: na comparação com o mesmo período do ano passado; ou, proporcionalmente ao total de casas existentes no bairro o índice de casas roubadas é de x% com um erro amostral de y% para mais ou para menos, etc.

 

E aí nos perguntamos, seguindo o arrazoado do Sr. Alberto Dines no programa Roda Viva da TV Cultura de 19/3/12: “não há liberdade de imprensa?” ou “a iniciativa privada no Brasil não dá liberdade?” e também “ela se deixa infiltrar por setores religiosos, políticos, comerciais?”

 

Para então concluirmos: É, padece de explicação!

 

Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada,
co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier)

21 comentários sobre ““E o vento levou … a nossa Imprensa ?”

  1. Acho gravíssima esta notícia como foi publicada. Primeira página, no alto, do jornal mais lido do país.
    E, muito mal feita tecnicamente, pois informa algo de forma incompleta.
    Não vou nem entrar no mérito da evidente manipulação.
    Estou esperando a resposta do Ombudsman da Folha à correspondência que enviei.
    É o segundo ataque em pouco tempo às casas. O primeiro foi feito pela Veja, e coincidentemente a revista mais lida do Brasil.
    Lamentável.

    • Carlos e Júlio,

      Não superestime a capacidade do jornalista e do jornalismo. E lembre-se do que disse Carlos Eduardo Lins e Slva, ex-ombudsman da Folha: “80% dos erros dos jornalistas são por pressa, preguiça ou ignorância”. Não que tal pensamento justifique nossos erros ou impeça que se fale em responsabilidade da notícia mal apurada, mas coloca a falta de ética e a má-fé nos restantes 20%. O que leva o Morumbi para a manchete e para a capa da revista é o interesse que esta região tem e a curiosidade da audiência. O mesmo ocorre com os Jardins, em SP, Copacabana, no RJ, e Moinhos de Vento, em Porto Alegre – apenas para citar os que conheço. Crimes, assaltos, furtos nestas regiões sempre terão mais destaque. É o preço da fama. Quanto ao uso errado de estatísticas, não me surpreende, poucos nas redações sabem trabalhar bem os números. O melor de todos é José Roberto de Toledo, que em sua coluna no Estadão cansa de desfazer os mitos que criamos a partir de estatísticas lidas de forma distorcida – por desconhecimento, reforço, nãopor conluio com o mercado imobiliário.

  2. Júlio, como jornalista fico envergonhada com esse tipo de negligência. Cada vez que vejo uma notícia distorcida, mal explicada, preguiçosa como esta me convenço de que o enfraquecimento do jornalismo nas redações não está sendo à toda. Em todo mo país, pessoas com pouca idade, pouca experiência, e claro, pouco salário estão sendo cada vez mais cortejadas por chefias sedentas de manipulação. É a imprensa vencendo o bom jornalismo. Ainda bem que temos espaços como este para debatermos com seriedade o que bem mal se noticia.

  3. Querida Maria Paula, os seus comentários só valorizam o que coloquei no texto acima.

    Meu Caro Milton, que tivéssemos muitos José Roberto de Toledo permeando os meandros do jornalismo hoje.

    Sobre os nossos tempos atuais, relembro sempre a leitura do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, no seu livro Vida Líquida. Para o autor o que importa na vida atual não é a duração; unicamente a velocidade. Bauman nos lembra de uma epígrafe, citando Emerson: “Quando patinamos sobre gelo quebradiço, nossa segurança depende da nossa velocidade”. Além disto, a “vida líquida” não pode ter apenas uma direção, mas muitas. Trata-se de “ligar-se ligeiramente a qualquer coisa que se apresente e deixá-la ir embora graciosamente”.

  4. Bom dia Julio.
    Pra mim, um veículo de comunicação é como um hospital. Com a diferença do tratamento nos diários ser para todos os pacientes que ele alcance, enquanto nas instituições de saúde, é individual.
    A imprensa move a população para lá ou para cá. Médicos também, ainda que sejam apenas um por vez. Mas o arrasto da imprensa é forte, amplificado, se um único grupo detiver vários veículos, que dirá, todos eles. Por isso é que essas pequenas doses de glicerina na veia da sociedade, fazem um estrago danado!
    Agora, médicos vão parar na cadeia, perdem a credencial, hospitais fecham e médicos e hospitais também são livres para escolher o tratamento.
    Já os jornais livres que são, nunca tem culpa no cartório. Julgamento e condenação tem que ser individual e a sociedade se divide ainda mais!
    Os Ombudsmen me recordam a desculpa que as agencias de classificação de risco deram na crise de 2008.
    Afinal, a sociedade é reflexo da imprensa que tem, não é?
    Veja então onde estamos.
    Abraço Júlio.

  5. As casas que se cuidem. E, não é , que as revistas VEJA e ÉPOCA foram buscar o economista Edward Glaeser para defender a urbanização vertical?
    Hoje, em destaque em ambas, os espaços nobres destas publicações estão dedicadas à reverência dos prédios. Quanto mais altos melhor.

  6. Importante acrescentar que nas estatísticas que dependem de Boletim de Ocorrência, temos distorções ainda maiores. Se os moradores do Morumbi, por exemplo, por serem pessoas da classe “A” sentirem-se seguras em registrar o B.O. enquanto de outras regiões terem como praxe jamais registrar nada na polícia por medo, precaução ou outra razão qualquer, a matéria fica ainda mais grotesca.
    Abs

  7. Júlio,
    Esse problema do uso dos números sem critério vem de longe… Mas como não há penalização e sempre alguns ganham com isso… Parabéns por levantar a lebre!

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