Minha cidade adotiva faz 240 anos

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Permitam-me que escreva sobre uma cidade que está completando 240 anos, fundada que foi por açorianos em 1772. É de onde envio todas as quintas-feiras esta coluna para o blog do meu filho. Quem vem me concedendo um pouco do seu tempo para ler as que, no passado, eu próprio chamaria de mal traçadas linhas, sabe a qual aniversariante me refiro. Já para quem me acompanha pela primeira vez, informo que Porto Alegre é o meu assunto de hoje. Minha relação com esta que é uma das principais metrópoles do país começou há 76 anos. Nasci em Caxias do Sul, na casa dos meus avós e onde nasceu e morou minha mãe e seus dez irmãos. Nunca perguntei aos meus pais, falta de curiosidade da qual me arrependo até hoje, com quantos dias de vida me trouxeram para Porto Alegre. Creio que dificilmente tenha passado de uma semana. Fotos em preto e branco confirmam que o meu primeiro aniversário foi festejado na Rua Conselheiro Travassos, bairro da zona norte. Em outra fotografia, apareço sentado na janela da frente da primeira casa em que morei na capital gaúcha, a poucos metros da rua inundada pela cheia de 1936, do Guaíba, rio que, de repente, passaram a chamar de lago. Esta foto foi tirada em setembro, um mês antes que eu completasse um ano.

 

Tirante o ano e meio que sofri num internato na cidade de Farroupilha, por sinal, apenas 18 quilômetros distante de Caxias, foi em Porto Alegre que estudei até conseguir o meu primeiro emprego como radialista, profissão que exerço ainda hoje. Foram quatro anos na Rádio Canoas e depois, na recém inaugurada Guaíba, com passagem pelo Canal 2. Como jornalista escrevi colunas esportivas no Correio do Povo e na Folha da Tarde. Integrei, também, os departamentos de criação de três agências: Standard, Publivar e Idéia.

 

Não imaginem que, ao fazer este relato, esqueço que sou caxiense de nascimento. Tenho muita saudade da Caxias dos meus avós, da minha mãe, dos meus tios e inúmeros primos. Visitei-a incontáveis vezes, inclusive em campeonatos gaúchos, como narrador da Rádio Guaíba. Foi lá até que fiz minhas primeiras narrações esportivas. Mendes Ribeiro, meu chefe, escalava os neófitos para narrar os jogos disputados lá, que começavam meia hora antes que os de Porto Alegre. Tal qual fez o meu filho que, tendo desembarcado em São Paulo em 1991, virou paulistano de coração por vários e bons motivos que ele mesmo não cansa de repetir, eu adotei Porto Alegre e Porto Alegre me adotou. Afinal, por iniciativa de um de seus vereadores, o saudoso Isaac Ainhorn, falecido em 2006, tornei-me Cidadão Honorário de Porto Alegre e, nesta semana, em que minha cidade adotiva festeja seus 240 anos, torço para consiga resolver,mesmo que paulatinamente, os problemas que todas as grandes cidades não podem se furtar de enfrentar.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

9 comentários sobre “Minha cidade adotiva faz 240 anos

  1. Bom dia Milton,

    Não me recordo qual era o nome mas foi em um filme que vi falar da nacionalidade do coração. Lembro que a personagem era um senhor japonês, ele retrucava um jovem americano que de alguma maneira o maltratava por ele ser estrangeiro.
    O senhor, dizia mais ou menos assim:
    “Você não fez nada para ser americano, apenas nasceu aqui, não teve chance de escolher, mas este passou a ser o seu lugar. Eu por outro lado, escolhi vir pra cá e depois de chegar é que adotei como meu.”
    Penso como ele. É depois de ter consciência que se faz as escolhas. São Paulo e Porto Alegre se beneficiaram com elas e neste mês, pra Porto Alegre, parabéns!

    • Na última vez que estive em Porto Alegre, no Carnaval, tive a oportunidade de repassar por alguns lugares em que vivi minha infância e adolescência (sem nostalgia). Adorei rever a casa de meus avós – paterno e materno – e lembrar daqueles momentos em que não imaginava o que iria acontecer comigo mais à frente. Ainda tomarei coragem para escrever sobre estas visitas.

  2. Prezado senhor Mílton,

    sou uma de seus leitores e, se me permite, seus escritos sempre escorrem por muito-bem-traçadas linhas.

    Também sou um desses seres que pendura o chapéu em mais de uma cidade. Na verdade, sempre brinquei, falando sério, que sou paulucha. Afinal foi em Porto Alegre que tive meus dois filhos.

    Como o senhor, espero que, melhorando as pessoas, as cidades sigam melhorando. Será inevitável.

    Tchim tchim!
    maria lucia

  3. Sou fã de seus textos poéticos. Peço-lhe que descarte o "senhor" antes do meu nome. De minha parte,vou tratá-la por você,com sua licença. Um grande abraço e obrigado por ser leitora das minhas “mal traçadas linhas”.

  4. Tal Milton Jung pai tal Milton Jung filho. Ouço seu filho todas as manhãs na CBN. Cheguei aqui via tuiter e foi muito bom. Seu encanto por Porto Alegre é o reflexo de sua convivência com ela, seu crescer, seu amadurecer, seu trabalho.
    Muito bom ter chegado aqui e conhecido um tiquim da história de dois grandes colegas radialistas. Em tempo: comecei a ler um livro do Milton filho, que peguei com meu filho – terminando jornalismo, mas com a manha do rádio quinemqui o pai dele – interrompi e vou retomar do começo. Um abração aos dois, do Oleari.

    • Oswaldo,

      Seu comentário aqui registrado foi uma das coisa mais bacanas que me aconteceram nesta semana. É muito legal saber o quanto as pessoas reconhecem nosso esforço, mas, principalmente, lembram tão bem do trabalho que meu pai sempre realizou no jornalismo. Tenho rogulho de ver isto.

  5. Parabéns pelo texto e parabéns para Porto Alegre. Ainda não tive oportunidade de conhecer Porto Alegre, mas convivi com muitos Gauchos no Matogrosso do Sul e seu que são gente boa. Muitos deles sintonizavam a Radio Guaiba e Farroupilha nas Ondas Curtas e contavam “causos” de porto Alegre e região. Quando passou o filme Coração de Luto onde contava a história de Teixeirinha tive meu primeiro contato com um cantor Gaucho. E hj sou fã de um tal de Milton Jung Gremista e Gaucho. Os Gauchos estão sempre no meu caminho. Hj em Matogrosso do Sul o Vaneirão faz sucesso para quem adora dançar. Sou de Porto Murtinho MS que este ano vai completar o seu Centenário em 13 de junho. Mas adotei Sampa como minha segunda Cidade.

    • Daniel,

      Prazer tê-lo neste espaço e saber que foi Porto Alegre e meu pai que motivaram sua presença por aqui (e comentário, também). Temos muitas coisas em comum como admirar algumas coisas do Sul e adotarmos São Paulo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s