Por Milton Ferretti Jung
Em uma dessas quintas-feiras escrevi ou, se preferirem, digitei um texto no qual confessei que aprecio os animais, especialmente, é claro, os domésticos. Entenda-se, como tal, cães e gatos. Não esqueci que uma leitora do blog ficou braba comigo porque, ao tratar de gatos, acentuei que esses são interesseiros, o que não chega a ser uma ofensa à classe dos bichanos. Foi, isto sim, uma constatação que fiz, fruto da minha longa experiência com felinos domésticos e, de maneira alguma, diminui a minha admiração por eles. Minha gata Micky, dona de um pelo negro e volumoso por ser, provavelmente, resultado do cruzamento de uma angorá com um gato preto sem raça definida, visita o meu quarto, pela manhã, e mia até que eu acorde e lhe faça carinhos. Depois de ser alimentada por mim ou por Maria Helena, minha mulher, com miados exigentes, pede que um de nós abra a janela do living para que ela ganhe a rua de onde volta correndo se vê pessoas estranhas. Isso me deixa tranquilo quanto à sua segurança. Fosse mansinha, se deixaria pegar. Antes dela, tive o Sammy, um gatão legal, que desapareceu sem deixar rastros. Creio que foi morto. Sinto saudade dele até hoje.
Gosto tanto de gatos quanto de cães, mas Maria Helena não compartilha deste gosto. Consolo-me ao visitar minha filha. Ela divide o seu apartamento com Malu, uma lhasa dominadora, que adora crianças e pára a fim de olhar meninos que andam de skate. Por falar em cães, chamou-me a atenção um artigo publicado na edição de Zero Hora, dessa segunda-feira, pelo Presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil de Porto Alegre, Valter Souza. O título do artigo é “A morte do cachorro e do trabalhador”. Ele começa lembrando a execução de uma cadela pitbull por um vigilante do Hospital Universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, fato ocorrido no dia 6 de abril e que ganhou grande repercussão na mídia e nas redes sociais, retratando a comoção dada a agressividade do ato. Valter Souza concorda que as pessoas fiquem revoltadas diante de episódios como o lembrado, mas compara a repercussão desse com as mortes de cinco trabalhadores da construção civil, em Porto Alegre. Salienta que “infelizmente, tais mortes não são focalizadas a partir da dimensão humanas dessas tragédias”. E pergunta: “Se nos revoltam tiros que matam um cachorro, por que não bradar contra o risco de vida diário em obras que alicerçam o crescimento das cidades, porém cuja execução feita com a imprevidência que custa a vida humana?”. E acrescenta Valter Souza: “A ira da comunidade e dos familiares dos mortos em acidentes de trabalho deveria merecer mais atenção da mídia, das autoridades e do cidadão que desabafa nas redes sociais. Conclui com esta frase:”Quando isso acontecer e melhorarem as condições gerais de trabalho, o respeito aos direitos básicos dos trabalhadores e a civilidade, certamente os fatos serão retratados com a dimensão real e não midiática”. Por mais que goste dos animais, assino embaixo.
Milton Ferretti jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton jung (o filho dele)
Caro Milton, ao ler seu texto duas situações emergiram na minha mente:
O livro de Christoph Türcke – Sociedade Excitada. Reproduzo aqui um brevíssimo texto: “É sabido que jornalistas e redatores se dedicam a divulgar notícias, e isso significa selecionar notícias. Relatar é algo que se pode fazer em relação a muitas coisas: que ontem choveu granizo… que um pastor alemão quase foi atropelado. Mas quem se interessaria, senão aos envolvidos…?” E assim por diante. A análise que o autor faz sobre a imprensa, a meu ver, é primorosa.
A música do Chico Buarque, Construção:
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Milton,
A visão de mundo dos meios de comunicação não é capaz de fazer que nos vejamos uns nos outros como realmente somos. Sem a devida interpretação, fica desde sempre parecendo que o Brasil inteiro se resume a parte pequena dos que moram em São Paulo e no Rio. Não está retratado sequer, a representação correta das pessoas nestas duas cidades.
O presidente do Sindicato tem toda razão em afirmar o que é fato simples de ser constatado comparando quem existe para a comunicação e propaganda e as pessoas que encontramos na rua todos os dias.
Eu também endosso o que ele escreveu.
Abraço forte.
ah! Mílton pai,
a dimensão real, o olhar limpo, o pensar livre, a humanidade, a generosidade, a solidariedade, a coragem, o respeito, o engajamento, a amorosidade. Continuamos perseguindo essas joias.
Mando um au-au para a minha xará Malu.
beijo,
Já transmiti o au-au para sua xará,cara Maria Lucia Solla. Ela respondeu com outro au-au. De minha parte,um abraço.