De adolescência

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Tiago, meu querido neto adolescente. Quero dizer que tua vovó malu adora adolescência e adolescente. Foi a fase que mais curti na minha vida e nas vidas dos  meus filhos: do teu pai e do tio Luiz. Acho incrível a maneira como tudo o que a gente já viu, até esse ponto da vida vivida aqui na Terra, fica querendo se encaixar. Ideia, conceito, disso eu gosto, daquilo não, e do que é mesmo que eu gosto?  A gente atinge um estado agudo de caída de ficha e de crescimento e transformação em todos os nossos corpos. Curiosidade,  certeza e incerteza, preguiça e excesso de atividade solitária; tudo tem cara e cadência  de  incoerência.

 

Tem gente que cataloga as emoçōes do adolescente, tentando  entender seu comportamento, a cada guinada da sociedade, como se essa fosse uma fase terrível. Eu no entanto vejo a adolescência como um momento supimpa, massa, da hora, em que tudo em nós está ligado. Todos os fios. De e para todos os lados, de baixo para cima e de cima para baixo. É um dos pontos altos da nossa vida. Mas não vejo como catalogar muito menos como explicar a erupção interminável de vulcões internos e externos. Todo mundo passa por essa oportunidade de descobertas e abertura da consciência de quem somos e o que e como vivemos o presente da vida. Você sabe de tudo isso melhor do que eu porque está no enredo agora. Eu só vejo parte da história da minha adolescência pela câmara antiga da minha memória, e olha que ela anda rateando. E vai ratear feio um dia não muuuuuuuito distante.

 

Mas antes que isso aconteça, quero que você saiba que estou sempre aqui para você, venha você a ser na vida o que você quiser. Só fico torcendo para que tuas escolhas sejam sempre feitas em parceria da mente com o coração. Que tuas escolhas sejam aquelas que te dão prazer hoje, mas que esse prazer não seja fugaz. Que dure no dia seguinte, e no seguinte, e no outro ainda e sempre.

 

Fico aqui quieta no meu ninho, torcendo para que você aproveite cada momento dessa fase que dizem que vai dos treze aos dezenove, mas não acredito que esse enquadramento da adolescência possa acontecer. Como enquadrar a ventania e a tempestade? Como enquadrar o desejo de liberdade e de apoio, tudo ao mesmo tempo? O ter tanto para dizer e não querer dizer nada. A minha adolescência, para te dar um exemplo, foi ao menos até os meus vinte e três. A fase aguda, quero dizer. Depois ela foi mudando de tom, mas eu me agarrei a ela com unhas e dentes, sem machucá-la, com carinho é claro, e ainda carrego muito dela comigo. Gosto da vida, sou profundamente grata por ela e me esforço para prolongá-la com a melhor qualidade possível.

 

Você vai subindo a escada da vida, e eu vou descendo. Não há momentos mais coincidentes que o teu e o meu. A gente se encontra nos degraus de mesma altura, na escada que sobe, você, e na escada que desce, eu; e por ali ficamos um pouco. Quero aproveitar esse encontro temporal contigo e fortalecer a nossa relação de hoje e a que ainda está por vir.

 

Quero também que você saiba que te amo muito e que sou muito orgulhosa de ser tua avó. Admiro teu dom para o desenho e para a música, e a tua alma de artista.

 

Beijo grande para você e para os teus irmãos,
da vovó malu.

 

Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

12 comentários sobre “De adolescência

  1. Lú é isto mesmo, que correta e sensível a tua colocação sobre adolecescência e seus momentos e ansiedades, bjs e parabéns aos netos que curtem esta vovó tão especial. Maryur

  2. Amiga Maria Lucia,
    Bom dia.
    Concordo consigo é maravilhoso ter uma sensibilidade artistica e é motivo de inquestionável orgulho,insisto que deve-se trabalhar o dom artistico.
    BJS
    Farininha.

  3. Querida Lu
    Muito lindo o escrito para teu neto adolescente. Mais linda a des rição da escada em que vocês em algum momento da vida se encontrarão, embora em mãos diferentes. Uma avó descendo e um menino subindo. Esta representação é figurativa espacial, física pois estas em plena ascendência nas tuas escritas.
    Um carinhoso abraço
    Anna

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