De susto

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

A vida é assim, por vezes um lago calmo, por outras um mar revolto; e o segredo para sofrer menos é manter a calma e não perder a esperança. Fácil dizer difícil fazer, mas com treino se consegue quase tudo.

 

Segunda-feira passada, dia quatro de junho, íamos meu filho e eu pela Marginal Pinheiros. Meu filho dirigindo o carro dele, e eu de carona ao seu lado. Íamos quietos. Exauridos pela pressão de dias difíceis, em busca de alívio. O tráfego era denso, mas ainda sem congestionamento. Não chovia, não ventava, e o sol ainda não tinha terminado a tarefa de brilhar neste canto do mundo. Fazia a sua parte, como sempre faz desde o começo dos tempos, e nós fazíamos a nossa, cada um na sua medida, segundo sua capacidade.

 

À nossa frente ia um carro pequeno, vermelho, dirigido por uma moça. Trafegávamos na pista da esquerda da via expressa. Nosso destino, a Marginal do rio Tietê. Pedi ao meu filho que ligasse o rádio e sintonizasse na 90.5 para ouvirmos as notícias na CBN. O assunto era o de todos os momentos nos últimos tempos, a bandalheira generalizada entre os dirigentes, que escolhemos para cuidar do interesse social, e seus tentáculos egocêntricos, gananciosos e criminosos. Bandidos. Verdadeiras quadrilhas. Eu ouvia atenta, de coração apertado, sentindo que minha esperança insistia em me abandonar, na força contrária do meu esforço para mantê-la viva e por perto. Estava triste e sonolenta. Tínhamos saído mais cedo para evitar o sufoco do congestionamento, mas a fila de carros já se adensava.

 

Os carros foram brecando, até que o carro vermelho à nossa frente parou. Meu filho, atento, parou também. Foi aí que o mundo virou de cabeça para baixo, a tristeza tomou forma de dor, e a sonolência virou desespero. Atrás de nós, uma ambulância transportava um menino de quinze anos, que tinha sofrido uma cirurgia num hospital de São Paulo, acompanhado de seus pais, Voltavam para Catanduva, cidade onde moram. Além deles, conduzindo a ambulância, apenas um motorista desatento e apressado. Não havia um médico acompanhando o paciente. Essa ambulância, que vinha em alta velocidade, não parou e nos atingiu violentamente, nos atirando contra o carro da frente. O baque foi forte demais. Meu corpo frágil foi projetado para frente como se tivesse sido arremessado por um estilingue e, com a mesma violência, voltou para trás. Uma dor lancinante se apossou de mim. Meu peito, apertado pelo cinto de segurança, queimava e me apresentava a uma dor que eu nunca sentira.

 

Quatro e cinquenta. Meu filho ligou para 190. Pediu socorro policial e uma ambulância. Um carro da CET chegou rapidamente e fechou todas as pistas, para remover os carros acidentados até a faixa zebrada que separa a pista expressa do acesso à pista local, que tem entrada para a Avenida Rebouças. Desimpediram o tráfego que engordava em ritmo acelerado. E nós? Ali ficamos. Eu, gemendo pela dor insuportável, mal conseguia respirar. Meu filho, desesperado, assistia ao meu sofrimento, fazendo o que podia. Ligava insistentemente para a polícia e para amigos que tinham contato com policiais que também tentavam ajudar por telefone. Cada um apelando aos contatos possíveis e aos que porventura estivessem por perto. A moça do carro vermelho era dentista. Pediu para ver a minha boca e mediu meus batimentos cardíacos, dizendo que iria embora porque o carro dela estava bem. Só tinha amassado um pouco o pára- choque, e ela tinha pressa. Algo nos dizia que a documentação dela ou a do carro não estivesse em ordem e ela preferiu ir embora. Disse que também iria tentar falar com a polícia no 190, para que viessem nos socorrer.

 

Cinco e meia. Seis horas. Sete, sete e meia. Oito horas. A noite caía e a dor subia. Por volta das oito e meia chegou a ambulância do Samu. Dra. Naira e o motorista me imobilizaram com perícia e rapidez admiráveis, me instalaram na ambulância e me levaram ao hospital mais próximo. A dor foi comigo. Se apegara a mim. A polícia, no entanto, só deu o ar da graça por volta das nove e meia da noite. O carro foi rebocado pelo guincho da companhia seguradora, e meu filho foi à delegacia para o procedimento necessário nessas situações. O caso era de lesão corporal grave. Meu filho pediu a um amigo que fosse ao hospital e me acompanhasse. Enzo não saiu do meu lado nem por um instante. A polícia também esteve no hospital para verificar os fatos e a minha situação. Fui parcialmente imobilizada devido a contusões graves no osso esterno e na musculatura que o suporta, e ganhei um colar cervical que protege a medula espinhal e imobiliza o pescoço. Meu filho só foi liberado da teia burocrática, à uma e meia da manhã.

 

É importante dizer que, apesar da demora inimaginável do socorro, a equipe do Samu me atendeu com perícia e carinho. No entanto eu, apesar de pagar alta mensalidade por um plano de saúde, precisei esperar na maca da ambulância, num dos corredores do hospital que transpirava sofrimento e dor. Enfermeiros e médicos cansados e apressados corriam para lá e para cá. A dra. Naira precisou correr atrás de um médico para que me atendesse. Ela dizia que não podia entender a demora do pessoal do 190 em chamá-los. Disse também que deram a eles a posição errada de onde estava o nosso carro, e que por isso tiveram que rodar um bocado até nos encontrarem.

 

Hoje, aqui estou, felizmente pra mim, viva e de volta ao jogo da vida. As dores insistem em não me abandonar, apesar dos remédios fortíssimos para driblá-las. O colar mantém meu pescoço onde deve estar. Meu filho fica atento a tudo, dia e noite. Me ajuda a deitar, a sentar, a levantar e a me alimentar. Inverteram-se os papéis. É ele quem cuida de mim.

 

E nós dois, o que temos a dizer? Só podemos agradecer à vida, pela vida, e aos amigos que torcem por nós e que têm mantido contato diário. Ao Dr. Cristóvão Colombo dos Reis Miller, amigo querido que nos orienta na sequência dos procedimentos legais e pelas orações dos que estão longe.

 

Durante esse tempo todo, quatro dias e dezenove horas, não me sai da cabeça a oração que diz:

 

Senhor, dá-me serenidade para aceitar o que não pode e não deve ser mudado. Dá-me força para mudar tudo o que pode e deve ser mudado, e sabedoria para distinguir uma coisa da outra.

 

Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

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14 comentários sobre “De susto

  1. Mike Lima!

    Fico entristecido com o lamentavel e grave acidente por você comantado acima
    Por outro lado fico feliz em saber que você “está bem” sã e salva!
    Agora “só curtir” seu novo adereço no pescoço e depois que passar isso tudom correr para o abraço!
    Isso também passa!
    Quando falo que lá em cima nos 40000 pés de altitude estamos mais seguros, muitos ainda duvidam
    Mesmo voando na velocidade 0.03 mach
    bola “pra frente” muié!
    Tamos aqui viu!
    Se cuida ai direitinho, sem muitas estravagancias ok?
    PR-AIN

  2. Querida Lú, que bom reconhecer a tua fé e a garra de sempre! Mas o propósito de tudo isso me pareceu bem claro, o fato de que precisavas ser cuidada, e estás sendo por quem talvez precisasse fazê-lo.
    Por aqui conta com minhas orações diárias, bjs aos 2. Maryur

  3. Estimada maria lucia,
    Que bom que Deus estava consigo e estará sempre,pela pessoa bondosa e carinhosa para com seus filhos e amigos em geral.
    Espero que tudo se acalme rapidamente.
    Beijos
    Farininha.

  4. Maria Lucia os votos de breve restabelecimento, e muita energia positiva para a retomada.
    Não é por acaso que o trânsito de São Paulo tem sido permanentemente lembrado e criticado .
    É hora realmente de aumentar a pressão para que medidas sejam tomadas.
    Abraço

  5. Sua postura é admirável ; desejo uma recuperação bem rápida para uma pessoa que se mostra sempre autora de sua história em um momento em que a maioria se mostra vítima .
    Abraços de admiração e respeito.

  6. Cara Malú,
    mi dispiace di saperti sofferente. Deve essere stata una botta fortissima: un’ambulanza è come un camion. Spero che presto tu stia meglio.
    Ti auguro una pronta guarigione,
    a presto,
    Cicci

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