Por Julio Tannus
Há alguns anos, um amigo meu nascido e crescido em São Paulo recebeu uma herança. Cansado das contravenções impunes e da pesada carga tributária sem retorno, tomou nas mãos o globo terrestre e passou a meditar sobre qual país seria ideal para morar. A Suíça foi o escolhido. Passou então a morar em um condomínio de luxo e comprou um belíssimo automóvel.
Após alguns dias no novo domicílio, ao entrar em seu apartamento, toca o interfone e uma voz pede que compareça a entrada do condomínio. Dá de cara com um policial, que com uma fita métrica nas mãos mostra que seu carro foi estacionado alguns centímetros além da guia, e, portanto ele, o policial, iria autuá-lo por desrespeito a lei.
Passado algum tempo, após multas e mais multas, chega ao condomínio bastante irritado e dá um tapa em uma planta. Ao entrar em seu apartamento o zelador lhe informa que acaba de multá-lo por agressão a vegetação. Foi a gota d´agua! Arruma as malas e retorna a São Paulo.
Outro dia desses, ao recordar esse episódio, passei a observar com mais atenção o comportamento de nós paulistanos.
No trânsito: motoristas falando ao telefone celular enquanto dirigem. Carros parados em fila dupla com pisca alerta ligado em vias de mão dupla, e, portanto, impedindo a passagem de veículos indo na mesma direção. Carros fazendo conversão sem acionar o pisca-pisca. Pedestres que atravessam fora da faixa. Carros que não respeitam pedestres. Motociclistas aos montes vindo em ambos os lados dos automóveis em alta velocidade, sem qualquer regulamentação, etc…
No Metrô: ninguém ou quase ninguém obedece aos avisos

Nas escadas rolantes: apesar dos avisos, nenhum deles é seguido pela maioría dos usuários

E assim por diante…
Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Nada de excessos. Entretanto se tiver que optar pelos extremos, é melhor ficar com a Suiça. Ou não?
Julio,
O excesso da Suiça, educa. A malemolencia brasileira, deseduca. Adoramos impor regras aos outros, desde que estas não atinjam nosso direito (mesmo que não o tenhamos). Exemplo são os radares na cidade, que queremos sinalizados para poder tirar o pé do acelerador quando um estiver no caminho.
Carlos Magno e Milton, assino em baixo seus comentários. Precisamos nos educar para aprender a viver coletivamente! Em um projeto que participei no passado, a nível mundial, sobre tendências sócio-culturais, o caráter nuclear de nós brasileiros foi definido como “individualista expressivo”.
O problema de educação, a meu ver, não é somente, aquela que assistimos nas salas de aula das escolas, também é aquela em casa, com nossos pais, comentários como os deste blog, programas governamentais, entidades especializadas, etc.
Passa também por uma questão cultural de nossa parte, em que a lei e a ética, assim como uma doença, têm que pegar.
É difícil incluirmos as regras quando a maioria sequer consegue ter recursos para basicamente alimentar-se.
Passamos muito tempo sem educar, sem conscientizar e sem responsabilizar. Isto tem que ser no dia-a-dia. Se perdermos o bonde, o outro demora e temos atraso.
Estamos correndo atrás e é uma corrida contra uma forte maré.