De luxo

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Adoro domingo. Acordo com certeza daquilo que quero e do que não quero e me deixo levar pelas surpresas do dia, se houver. É o descompromisso com o externo que me encanta. Os minutos passam, os eventos batem à porta, quando batem, e eu abro ou não. Posso ler, escrever, pensar, meditar, dormir, ver uns filmes, comer pipoca, cozinhar se me der na telha, criar, ouvir música, papear, aprender. Tem luxo maior? Um dia inteiro pra mim; oportunidade escancarada de ficar comigo mesma e com aqueles que amo e que me fazem bem, de preferência sem sair do meu ninho.

 

Ah! se a gente pudesse sempre praticar o ócio criativo sem culpa. Se a gente se aceita e gosta da própria companhia, então é um prato cheio. Jardim, sol e um bom livro que me leva a memórias e sonhos que tecem em mim um presente de infinitas dimensões. Minha oficina cheia de pano, linha, flor, brilho, renda, chita, botão, recheio… um exército de seres inanimados se oferecendo para vir a ser.

 

Valentina na caminha curte o seu presente, e nos fazemos companhia silenciosa e compreensiva, cada uma a seu modo. Estamos juntas há quatro anos e respeitamos nossos limites numa dança bem dançada, sem pisar nos pés uma da outra. Quando quer comer ou beber água senta na minha frente, dá lambidinhas no focinho, e fica me encarando, um olhinho no norte e o outro no nordeste, o que lhe confere um charme irresistível.

 

iPad e iPhone na mesa redonda – sou macmaníaca assumida – para ter a possibilidade de manter contato com o mundo lá fora. Faz anos que cancelei minha assinatura de jornal diário. Compro quando quero, leio o que quero, onde e quando quero. Isso é luxo!

 

Sempre que mergulho em mim vejo muito mais e melhor o lado de fora, ouço o chamado de uma florzinha rara que brota valente num vaso abandonado e superlotado, recebo a visita barulhenta de pássaros famintos pela banana fincada na primavera, brinco de alquimista no fogão e me emociono com a delícia de um simples omelete com pão fresquinho e uma salada de tomate e cebola só com azeite e sal, ou simplesmente gelatino no sofá. Neste inverno relâmpago que atinge São Paulo mantenho a lareira acesa, vivinha, e fico lendo as formas que o fogo me oferece. Curto meu filho e nossas cachorras e a chegada de um amigo aqui, outro ali, pra tomar um café e só ficar perto, falando abobrinha e rindo muito.

 

Calça de pijama divertida, chinelos comprados em Embu das Artes – numa tarde deliciosa com o Cláudio, a Karen e a Sofia, dando muita risada -, meias tricotadas pela minha sogra, a Dona Ruth, que me conhece muito bem, e… preciso de mais?!

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

10 comentários sobre “De luxo

  1. Mama,

    Curta sem moderação alguma o domingo! Curta o sol, curta o Luiz, curta a Valentina, o papá delicioso que vai fazer, mesmo que frugal… Curta o livro, e o nada se o nada for delicioso de não fazer…

    Curta a vida!

    Com todo amor, aqui das terras de Figueira… também curtindo tudo que me cerca e me chama…

    Beijos!
    Pi

  2. Mike Lima

    Nada maus ficar a toa num domingo como hoje totalmente cavok
    Afinal, em certo ponto de nossas vidas temos mais direitos do que deveres e obrigações

    E eu aqui com um baita de uma sinusite e mais ites

    Bem feito!

    Quem mandou ficar no sabado inteiro lixando uma parede preparando-a para repinta-la.

    Atcimmmmmmmmmmmmmm!

  3. Filho meu,

    a moderação não deu as caras, o sol insistiu em passar o dia aqui conosco, alguns amigos ligaram pra saber de nós e você estava aqui, mesmo sem estar.

    beijo da mãe que te ama muito, desde sempre e para sempre,

  4. Alpha India, meu amigo,

    e põe cavok nisso! Depois tem gente que diz que São Paulo tem céu sempre cinza. Foi um espetáculo mais lindo que o outro. E a lua ainda menina, crescendo, e a gente antevendo o esplendor que chega logo, logo!

    Ah! os direitos e obrigações! Taí um tema que me encanta.

    Parabéns pela parede! Também pintei uma parede aqui em casa. Não agora. Já faz algum tempo. Você já deve ter visto numa das minhas fotos, aquela parede cor de vinho que tem a Madona com o Menino Jesus no colo (na casa de quem não tem Jesus no coração…), mas me fantasiei de bandido, com um lenço cobrindo o nariz, feiro filme de faroeste. Dica pra tua próxima parede.

    Não há solução, como me disse meu amigo Colombo dos Reis Miller, há apenas ação.
    E vamo que vamo, né?

    Beijo e boa semana,

  5. Olá Lú
    Ah! Que maravilha que tem gente como tu que curte o domingo para fazer o que dá na telha. Desejo mais domingos para ti. O repouso merecido de quem todas as semanas tem a responsabilidade de nos fazer refletir sobre pontos da vida. Dona Ruth já não consegue fazer meias. Então curte as que tem.
    Abraço,
    Anna

  6. Primeiramente, maravilhoso é poder estar presente em um texto maravilhoso de Maria Lucia Solla, a nossa querida Malu.
    Com é bom estar em um descanso ao redor de tudo que gostamos, amamos e nos sentimos bem. Só mesmo em um domingo para podermos curtir tudo isso!

    Malu, o bolo ta esfriando!

    Beijo grande.
    Karen

  7. Anninha, minha chuaga,

    Quando quiser vir passar um domingo aqui, vou adorar!
    Deixo até você vestir as meias que eu trato com um carinho só. Uso sempre, sempre no inverno, e eu mesma lavo. Coisa de amor, sabe?

    Dá um beijo muito especial e um abraço carinhoso na vó Ruth, e considere-se beijada e abraçada.

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