Travestir na Oi e rebolar no Walmart

 


Por Carlos Magno Gibrail

 

 

A Oi foi condenada a pagar R$ 14 mil de indenização a um funcionário que se sentiu humilhado pela obrigação de se vestir de mulher em evento da empresa. A ação de 2009 foi julgada em 31 de outubro pelo TST, quando o relator, ministro Emanoel Pereira, afirmou que é dever do empregador: “primar pela adoção de regras que incentivem o empregado de forma positiva, com premiações, jamais de forma negativa ou depreciativa, expondo o trabalhador a situações vexatórias, como no caso, onde o autor foi obrigado a se vestir de mulher”.

 

Em fevereiro de 2011 a Walmart teve que pagar R$ 140 mil a um ex-diretor que se sentiu humilhado por ter que rebolar na hora do grito de guerra criado por Sam Walton, fundador da rede. A sentença do Juiz de Barueri consta: “o ato do Walmart é medieval. Mudos e calados, os funcionários, tratados como bonecos e servos da gleba, devem se submeter a todo tipo de ordens e caprichos de seu dono”.

 

As sentenças, embasadas sob o aspecto jurídico e, também, diante do conhecimento técnico referente à teoria administrativa e psicológica da motivação, expõem duas grandes corporações como praticantes de métodos anteriores ao século XX.

 

Elton Mayo, de Harvard, em 1927, contratado pelo National Research Council e pela Western Electric Company de Chicago, no bairro de Hawthorn, realizou experiência que originou a Escola de Relações Humanas. Um grupo foi submetido a diferenças de conforto. Independentemente de melhora ou piora, a produtividade sempre aumentou. A participação na pesquisa motivou. Surgia então o “homem social” diante do “homem econômico” da Escola de Administração Científica de Taylor. A partir daí vieram várias teorias como a hierarquia das necessidades de Maslow, a teoria de Herzberg com os fatores higiênicos e motivacionais, McGregor com a teoria X e Y, dividindo o homem em negativo e positivo, Herbert Simon e a Teoria Comportamentalista assinalando que para a eficiência não basta a satisfação no trabalho e a Escola Cognitivista de Jean Piaget onde o homem e o mundo interagem e se desenvolvem. E o homem passou de econômico, social, organizacional, para funcional. Nenhum destes e nenhuma das teorias de motivação receitariam travestir ou rebolar.

 

Há, entretanto controvérsias.

 

No Walmart, a cultura implantada por Sam nas bizarrices públicas, inclusive a sua aparição em Wall Street dançando a hula (na foto), levam alguns observadores a atribuir estas esquisitices ao sucesso mundial alcançado. Não acredito, pois o que Sam Walton possuía verdadeiramente de forma exponencial era uma visão estratégica genial aliada a um imenso espírito empreendedor. A Walmart é hoje a maior do varejo mundial faturando US$ 450 bilhões e a terceira do ranking geral. Gritos de guerra e bullying nos palcos da empresa e nas aberturas das jornadas devem servir apenas para afastar alguns novos talentos que não estão dispostos a estas práticas.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

 

4 comentários sobre “Travestir na Oi e rebolar no Walmart

  1. Muito bem explanado Carlos, os abusos dos mais visíveis aos mais individuais e pouco sensíveis, tem que ser coibidos e a melhor mensagem neste sentido é a que fala onde estas empresas ouvem sem a mais mínima sombra de dúvida, o faturamento anual.
    É preciso limite para o que pode ser feito por quem detém poder financeiro. Acabei de assistir a um documentário sobre o mesmo Walmart e fiquei sem palavras até para comentar o seu texto.
    As informações no documentário, ‘Wal-Mart, o alto custo do preço baixo’, são peça a ser considerada pelos legisladores antes que nos transformemos numa sociedade de gente servindo empresas e não o contrario.
    Abraço

  2. Carlos,

    Minha experiência no assunto tem como base as entrevistas semanais do Mundo Corporativo e as inúmeras palestras para as mais diversas empresas do Brasil. Das coisas que me incomodam é a crença de que a aplicação de algumas técnicas bizarras são o motivo do sucesso de uma empresa quando o caminho a ser percorrido passa mesmo é pelo planejamento estratégico, pesquisa, inovação e criatividade (e travestir funcionários passa longe do meu conceito de criatividade)

  3. Sérgio, o problema é que estas posturas heterodoxas, para dizer o mínimo, se alastram. Há um solo fértil de executivos que se impressionam com novidades ou aceitam consultorias inaceitáveis sob o aspecto técnico.
    Maus profissionais há em todas as áreas.
    Se você entrar em Shoppings Centers antes da abertura poderá presenciar vários gritos de guerra, e se tiver sorte até quem sabe, trabalhadores rebolando ou fazendo ginástica.
    Lamentável.

  4. Milton, tenho a impressão que existem consultores , executivos e principalmente autores de livros, que vem de áreas sem afinidade ao conhecimento de administração e pensam que estão descobrindo coisas já pesquisadas e observadas há mais de século. É só ir às livrarias e comprar as boas obras existentes.
    No mundo corporativo, tão bem conduzido por você, a par de riquíssimas entrevistas, de vez em quando aparece autores que visivelmente nunca tomaram conhecimento do conhecimento pré existente da matéria que pretendem se aprofundar.
    Na obra de Sam Walton fica claro que ele usou o instinto animal do empreendedor e a perspicácia que Deus lhe deu para com toda a sagacidade descobrir segmentos e brechas de mercado. No seu livro diz que não admitia e nem gostava de funcionários de formação acadêmica e só com absoluta necessidade, algum tempo depois , teve que se curvar aos especialistas vindos da universidade.
    Plagiando Jô Soares, hoje em dia aparece gente escrevendo livro, que nunca leu livro.

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