Procura-se: locutor esportivo de TV

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Domingo, ao término da partida de futsal que deu o campeonato mundial à seleção brasileira, embalado pela emoção do espetáculo, fiquei à espera da premiação. Até entendi o abrupto corte da Globo encerrando a transmissão, priorizando a grade da programação. O que comecei a não apreciar foi o falatório do locutor do Sportv, cujo ápice do desagrado foi escutá-lo comentar que iria se calar para que pudéssemos ouvir o som do show das medalhas, mas não se calou. Nem no momento musical nem nas falas dos protagonistas. Mudei então para a Bandeirantes, ato que imediatamente tive que recuar, pois lá o falatório do locutor ainda era maior.

 

Frustrado, mas no embalo para uma análise como consumidor, lembrei que talvez o rádio ainda deva estar influenciando os profissionais da TV. Fui conferir no Google e para a minha surpresa, praticamente todos os cursos de locução ou narração são de radio e TV. Ora, numa era de especialização e, principalmente, de grande desenvolvimento tanto para o rádio quanto para a TV, é aconselhável a mesma base? Imagine se as telenovelas ainda carregassem influência das radionovelas. E se os cursos fossem para artistas de rádio e TV? Bem, a dramaturgia é idêntica. Será?

 

Encontrei ainda no Google um excelente artigo do Mílton Jung (leia aqui). Valioso como testemunha por ocasião da Copa na África, como protagonista inovador pela RedeTV e como âncora de rádio, que lhe confere rara autoridade para análise. Ficou evidente que nesta área não se toma conhecimento nem de McLuhan, com o seu veredicto “os meios são a mensagem” nem com o Marketing, que certifica o consumidor como o centro do mercado.

 

Quem gosta de futebol não quer saber do óbvio nem do que já está na tela. Comentários precisam considerar que a maioria destes telespectadores entende e gosta de futebol. Não devem ser feitos durante a bola correndo se não forem pertinentes para não se tornarem impertinentes e irritantes. Imagens fora do contexto nem pensar enquanto o jogo está em andamento. Mostrar todo o banco de reservas no início do jogo, quando a tensão inicial ainda persiste é a prova que os boleiros não foram consultados.

 

A verdade é que em termos de futebol tudo é passado, arcaico, pois só para o futebol a TV ainda não chegou. Nem para a arbitragem, muito menos para a narração.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos, e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

17 comentários sobre “Procura-se: locutor esportivo de TV

  1. Pois acompanhei na época a inovação do Milton Jung na narração de jogos de futebol pela RedeTV, uma locução diferenciada.
    Lamentavelmente o que temos hoje em dia na TV são torcedores/narradores, acompanhados de uma turma que fala pelos cotovelos.
    Como sou do tempo em que acompanhava futebol pelo rádio, mesmo quando assistia o jogo ao vivo no Olímpico e tínhamos ótimos narradores, sinto saudades daqueles tempos.
    Hoje, com o delay, não posso ver na TV e ouvir pelo rádio.
    Da-lhe curso pra turma! Ou fazer com que vejam o papel ridículo que estão fazendo.

  2. Carlos e Gunar,

    Claro que fico lisonjeado por ter meu nome lembrado no texto e no comentário. E por estas citações agradeço a vocês. Mas, como escrevi no artigo publicado no Portal Terra (tem o link no texto acima), creio que o modelo que tentei desenvolver com o patrocínio de Juca Kfouri poderia ser testado por pessoas mais competentes e que vivenciassem o futebol com mais profundidade. É inegável, ao mesmo tempo, que o padrão atual ainda agrada muita gente, apesar dos “reclamões” como nós.

  3. Bela análise, como não poderia ser diferente feito pelo querido Carlos Magno.
    Essa é uma verdade que escuto a muitos anos mesmo sendo filho de locutor esportivo. Evidente que o meu Pai sempre teve o bom senso de saber que a TV mostra o que não precisa ser dito e com isso na verdade pouco sobra pra falar porque a imagem fala muito. Ainda mais com a tecnologia inegável dos nossos dias. Com certeza com tudo isso que se sabe muitos são os que reclamam principalmente destas figuras que acabam virando personalidades televisivas e com isso a necessidade de estar sempre querendo se fazer presente. Afinal trabalham em um veículo onde mostra a imagem mas ficam falando somente em frente a um microfone e aparecendo no intervalo do jogo. Dependendo do ego do sujeito ele não consegue ficar calado e acaba por narrar o que se vê. Acho que a TV chegou para o futebol na imagem perfeita, porém na locução só terão aprendido a lição quando pararmos de escutar a torcida ao fundo gritando em coro: hei Galvão vai to………………….

  4. Generalizar é sempre ruim. Seja para um lado ou para o outro. O ato de transmitir uma competição, seja de qual esporte for, não é tão simples quanto aparenta, Há muitas vezes problemas técnicos que o telespectador ou o ouvinte não têm, nem precisam ter, ideia que acontecem. Demanda também por parte dos profissionais um estudo prévio sobre a modalidade, equipes e atletas envolvidos. Isso sem falar no estilo de cada um exercer sua profissão, assim como o estilo desejado pela emissora na qual trabalham. Talvez faltem mesmo melhores locutores de TV, comentaristas, assim como professores, médicos, motoristas de taxi, políticos. Mas acredite: a maioria trabalha duro para agradar até aos mais exigentes.

    • Clement,

      Bom ter craques da bola/microfone por aqui. Sei o esforço de cada profissional para oferecer o melhor do conhecimento, habilidade e atitude – essenciais para a boa comunicação. Discutir, porém, o papel que exercemos e entender as demandas do público podem ajudar a corrigir excessos e omissões. No texto, o Carlos centrou-se na transmissão esportiva da televisão, mas deveríamos ampliar o debate para nosso trabalho no rádio. O modelo narrador, comentarista e repórter persiste desde muito tempo sem que se buscasse alguma fórmula alternativa. Está na hora de experimentar sem medo e diferenciar. Criarmos uma Fábrica de Ideias, na qual o conhecimento coletivo fosse incentivado e compartilhado talvez nos ajudasse, tanto quanto a pesquisa sugerida pelo Carlos.

  5. Gunar, além de falarem demais, abordam assuntos extra jogo. Para quem está assistindo a partida o que se quer é ver a bola em jogo.Isto sem considerar que muitas vezes a imagem escolhida também é errada, como no caso da repetição das faltas. Muitas vezes ainda estão repetindo o lance faltoso e se perde a imagem da bola que volta a rolar.
    Posso imaginar você assistindo um GreNal fixado na bola e o locutor informando quantos jogos já fizeram, quem ganhou mais , etc.

  6. Milton, acredito que a maioria que assiste jogos de futebol é de boleiros, ou seja, gente que gosta da bola e de vê-la em jogo. Discussões extra jogo não devem ser bem vindas.
    No tênis, depois de muitas reclamações os locutores agora ficam calados durante os pontos. Antes ficavam falando e nem dava para ouvir o som da batida na bola. Evolução significativa.
    Quem sabe um dia chegaremos lá, com locutores falando apenas sobre o jogo, sem necessariamente usar a forma do rádio. Sem narração, apenas comentários
    inteligentes.

  7. Christian Jung, é muito bom ter a sua participação no Blog, principalmente para comentar um assunto que é de certo modo da sua área. Na medida em que você é um profissional da locução social e política. Com certeza tão complexa quanto ao assunto em pauta.
    Já que citou o Milton pai, gostaria de saber a opinião dele, consagrado locutor esportivo no rádio, sobre a locução esportiva na TV dos dias de hoje.

  8. Paulo Julio Clement, grato pela participação, com um comentário plenamente abalizado. Gostaria de acrescentar que na minha ótica há falta de pesquisa de consumidor. A segmentação dos veículos e dos telespectadores deveria ser levada em consideração. Do meu ponto de vista o cliente de futebol procura na TV ter a sensação presencial do espetáculo. Neste sentido vem o exemplo do Tênis , que se procura focar na bola em andamento, incluindo o som das batidas, sem interferência de locução.De tantas reclamações os locutores não tiveram saída se não atendê-las. No futebol se você estiver no estádio, o som e o acompanhamento pleno da bola é essencial. É aí que a TV poderia acrescentar com informações inteligentes e pertinentes.

  9. Você colocou o dedo na ferida ao criticar os narradores,Carlos Magno Gibrail. Está absolutamente correto. A maioria fala demasiadamente. Cansam a minha feira. Na defesa dessa turma,feita pelo Paulo Júlio Clement,foi ocioso citar problemas técnicos. Não são esses que – em mau português,mas vá lá – me enchem o saco. O pior é que pago para ter o “direito” de assistir aos jogos mal narrados.

  10. Pablo Ventura, ninguém hoje duvida que no mundo atual a única certeza é a mudança. Pena que esta certeza não tenha chegado ao futebol.
    O tênis , que é outro esporte que acompanho como jogador amador e espectador, é um exemplo de modificação na locução, dentre outras inovações. E, por pressão dos telespectadores o infernal falatório durante a disputa dos pontos fica hoje livre de palavras. Apenas o som da batida da bola.É bem verdade que ainda insistem em tratar os telespectadores como estreantes. Ficam ensinando o bê a bá. Troca de bolas, tie braker, etc.

  11. Milton, seria interessante levantar as pesquisas existentes na área. Se é que existem. Todos sabemos que nas telenovelas as emissoras monitorizam com as qualitativas.
    Tarefa boa de pesquisa para o nosso colunista especializado em pesquisa de mercado.
    Que tal Julio ?

  12. Caro Gibrail,sua sugestão é uma ordem. Em geral,os narradores que atuam na televisão,tanto os do futebol quanto os dos outros esportes,são oriundos do rádio. Nesse,fazia-se necessário que,no futebol,especialmente,levássemos aos ouvintes muita emoção.Lembro, e/ou informo a quem não sabe, que fui narrador. Éramos os olhos dos que nos escutavam e,por isso,tínhamos de relatar tudo o que ocorria no gramado e,como não,fora dele. Os narradores, que migraram para a televisão,entendem, até hoje, ser necessário dizer tudo o que veem,com medo de desgostar os telespectadores. Os que nunca trabalharam no rádio,por sua vez, imitam os que dele saíram. O resultado é um só:quem assiste aos jogos pela televisão, se obriga a ouvir incontáveis obviedades. É como se fôssemos todos deficientes visuais. O diabo é que temos de os aturar ou zerar o som da TV. A imagem,no televisor,chega com atraso (“delay”) em relação à transmissão radiofônica.

  13. Milton pai, conforme imaginava, a sua contribuição ao tema seria de suma relevância.
    Aproveito para lhe contar que aos 10 anos de idade queria ser locutor de futebol. Naquela ocasião havia um pequeno objeto de plástico que imitava o eco do rádio. Eu passava horas irradiando gols do Flamengo. Não tanto Oduvaldo Cozzi e mais Geraldo José de Almeida e Fiori Gigliotti.
    Hoje talvez irradiasse gols do São Paulo e mais José Silvério.
    Grande abraço e gratíssimo pela sua exposição.

  14. Julio e Milton, para escrever o artigo encontrei material no meio acadêmico. São enfoques na tipologia existente e no histórico. Todos que tive oportunidade de consultar dão bastante espaço ao rádio, o que é lógico, por ser a origem e ter mais tempo de existência.
    Daí o pedido de auxilio a um especialista em pesquisa.

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