O Medo na Pós-Modernidade

 

Por Julio Tannus

 

Por que vivemos em condomínios fechados? De carros com vidros escurecidos? De carros blindados? Dentro de shopping centers? Com medo de perder o emprego? Temos medo da violência urbana, do terrorismo, da exclusão social, de ficarmos para trás. Sentimo-nos sós e desprotegidos. Vários pensadores tem se debruçado no assunto, buscando entender o porquê desse medo que nos assola cotidianamente.

 

A modernidade veio com a promessa de vida melhor, mais segura, e nós apostamos nela, que traria desenvolvimento da ciência, a vida seria pautada pela racionalidade humana que é o lugar de certeza, segurança. Teríamos uma vida organizada e civilizada, com a ciência e a tecnologia bem desenvolvidas, a tal ponto que finalmente viveríamos sem o medo contínuo. Mas as esperanças se frustraram e, hoje, alguns séculos depois, novamente vivemos uma era de temores. A vida que os teóricos do Iluminismo avistaram para os indivíduos da era da modernidade é bem diferente da que temos hoje.

 

Esperava-se que os medos pudessem ser contidos; no entanto, como o sociólogo polonês Zygmunt Bauman explica, no ambiente que vivemos hoje, a luta contra o medo é uma tarefa para toda a vida.

 

Como nos conta Carlos Henrique Aguiar Serra e Flávia Mendes Ferreira em seu texto “Medos e Pathos: o indivíduo na (pós)-modernidade”:

 

Uma possibilidade interpretativa que consideramos no nosso trabalho é a formulada por Fredric Jameson no texto “Pós-modernidade: a lógica cultural do capitalismo tardio”. Este autor parte da premissa de que na pós-modernidade há uma inexorável fragmentação do sujeito. Assim, o que se coloca, portanto, nos dias atuais, contexto de pós-modernidade, é uma crise identitária, mais, uma fragmentação da identidade.

 

Para Bauman, o Estado não pode mais cumprir sua promessa de proteção neste tempo de globalização e mercados extraterritoriais. Assim, o que mais amedronta são os perigos que podem vir de qualquer lugar e o número de perigos aumenta cada dia mais. Sabemos que as ameaças são muitas (das pessoas nas ruas, de alguma coisa acontecer ao nosso lar, de uma catástrofe natural, de perder o emprego, etc.), mas o que se tenta é administrar o medo, ou seja, tornar a vida com medo algo tolerável.

 

Os perigos são percebidos como administráveis, mas são também percebidos como companhias permanentes, pois nunca iremos nos sentir livres de todas e qualquer ameaça, em estado de paz completa, mas ao contrário, sempre haverá algo a nos atormentar, ou mesmo que não seja uma ameaça real, em nosso imaginário sempre há algo a nos ameaçar. A vida dos indivíduos da sociedade atual está longe de ser livre das ameaças, ao contrário se tornou uma longa luta contra os perigos genuínos ou supostos que nos traz medo, uma luta impossível de ser vencida.

 

Chamamos a atenção também para outro aspecto que sinaliza para um desencontro e distanciamento entre modernidade e pós-modernidade: a perda da historicidade na pós-modernidade. Entendemos que esta perda de historicidade se coaduna com a tese central de Jameson acerca da “fragmentação do sujeito”. Na pós-modernidade nada tem lugar definido e mais, que a “primeira vítima do período pós-moderno, sua ausência misteriosa, é a ‘história modernista’” (JAMESON, 1996).

 

Assim sendo, numa tentativa de conclusão, os indivíduos vivenciaram e vivenciam, ainda hoje, na modernidade e pós-modernidade, medos, crises e particularmente, no que se constitui como o principal sintoma presente tanto na modernidade como na pós-modernidade: o pathos.

 

Pathos é uma palavra grega que significa paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento e assujeitamento.

 

Berlinck afirma que quando o pathos acontece, “algo da ordem do excesso, da desmesura se põe em marcha sem que o eu possa se assenhorear desse acontecimento, a não ser como paciente, como ator“ (BERLINCK, 2OO0).

 

Por fim, identificamos que os medos, e o pathos humano, assumem no atual estágio do capitalismo tardio, na pós-modernidade, uma dimensão considerável. Na verdade, se potencializaram e muito, e uma das possibilidades de superá-los é enfrentá-los, administrá-los e quem sabe, que os indivíduos sejam capazes de produzir fantasias catárticas, libertárias e prazerosas.

 

Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada e escreve, às terças-feiras, no Blog do Mílton Jung

4 comentários sobre “O Medo na Pós-Modernidade

  1. Bom dia Julio.

    Nada como um pouco da História se repetindo.
    Os feudos da Idade Média mudaram de muros e os vigias tem outros olhos. O motivo é que não muda, e continuará tão vivo quanto o último de nós nessa terra.
    Tenho cá comigo a tese de que alguma coisa não se pode precificar e portanto não existe uma empresa grande ou pequena que as possa comercializar. Por esta minha tese, o Estado não falhou em prover cidadania e segurança, mas falhou permitindo o agigantamento do Capital e da falsa sensação que tudo se compra, tudo tem preço.
    Do que não se pode comprar, cidadania é o produto mais vistoso e só uma instituição abarcativa como o Estado pode prover. Por outro lado, as transacionais, tem esse viés de desmonte do que é público e impõe aos Estados que as proteções sociais desapareçam para que elas possam vender seus produtos, livres. Tanto mais fraco o Estado, mais agressivas.
    É como eu vejo o que nos aconteceu. Não gostamos de equilíbrio e caminhamos entre os opostos, a exemplo de como estava a França faz uns duzentos e poucos anos vamos ficando outra vez. E alguma coisa me diz que desta feita, muito mais cabeças vão rolar. Ou como na canção da Shirley Bessey, ”Just a little bit of history repeating”

    Abraço Julio e boas Festas!

  2. Meu Caro Sérgio, a solidariedade e o coletivo seguem sendo possibilidades de enfrentar o medo mas, como implementá-los na nossa sociedade fragmentada e individualista?
    Forte abraço e tudo de bom a você e família em 2013!

  3. Bom dia Julio.

    ensinando o indivíduo a ligar menos a TV e voltar a ler um pouco mais. Até por que, eu não vejo muito sentido em partir do extremo individual para o extremo coletivo. O sentido é recolocar cada coisa no seu devido lugar. Ou ao menos, mais perto do seu lugar, como seria mais provável. Um autor para onde costumo voltar com alguma freqüência nestes tempos de medos e incertezas é Milton Santos. Existe um documentário sobre a obra dele que acho muito interessante e compartilho.

    Abraço grande Julio.

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