A sociedade andrógina de Domenico De Masi

 

Por Julio Tannus

 

Tenho me referido aqui a alguns autores e suas reflexões sobre a época que vivemos atualmente. Em geral suas considerações são negativas. Já o professor de Sociologia do Trabalho da Universidade de Roma, Domenico de Masi, faz uma análise positiva. Aqui vai:

 

Enquanto a sociedade rural precisou de sete mil anos para produzir a sociedade industrial, a sociedade industrial precisou de somente duzentos anos para produzir a sociedade pós-industrial. O que entendo por sociedade pós-industrial? Entendo que é uma sociedade cujo epicentro não existe mais a produção de bens materiais em grande escala, mas sim a produção de bens imateriais em grande escala, ou seja, a produção de serviços, de informação, de estética, de símbolos e de valores.

 

Os valores da sociedade industrial eram o racionalismo e a produtividade… E o racionalismo da sociedade industrial era um racionalismo distorcido em relação ao racionalismo que quiseram os iluministas. Os iluministas, no final do século XVI, contrapunham a razão humana à completa falta de uma pesquisa científica, à magia. Na indústria, porém, o racionalismo iluminista foi aplicado de maneira pragmática.

 

Quando as indústrias falam de racionalismo querem dizer isto: tudo o que é bom é racional; tudo que é racional é masculino; tudo que é masculino tem a ver com a produção e tudo o que tem a ver com a produção é feito nos locais de trabalho. Contrariamente, tudo o que é emotivo é negativo; tudo que é emotivo é feminino; tudo o que é feminino tem a ver com a reprodução e tudo o que tem a ver com a reprodução é feito em casa.

 

Por isso, a indústria separou nitidamente os locais de vida e os locais de trabalho; o tempo de trabalho do tempo livre. E quando termina o trabalho, todos voltam para casa na mesma hora. E quando começa o trabalho, todos devem ir para a ele na mesma hora. E quando chegam as férias, todos a tiram ao mesmo tempo. Um escritor italiano diz que, nas horas de pico, até o adultério é impossível! Tudo é complicado. Ora, a tudo isto a sociedade pós-industrial contrapõe uma situação completamente diferente. Os valores da sociedade pós-industrial são de outro tipo. A sociedade industrial apreciava a executividade acima de tudo, a obediência, a ductilidade, a conformidade. A sociedade pós-industrial aprecia sobretudo a flexibilidade e a criatividade. A sociedade industrial apreciava sobretudo a prática. A sociedade pós-industrial, a estética. Se um relógio é duzentas vezes mais preciso do que o necessário, qual a necessidade de aperfeiçoá-lo ainda mais, do ponto de vista prático? Aquilo que hoje distingue dois relógios não é a prática mas sim o design. A estética é um dos grandes valores da sociedade pós-industrial. E um outro valor é a emotividade, que é conjugada com a racionalidade. Não mais só a racionalidade, não mais a emotividade como um fator negativo, mas a emotividade como um fator importantíssimo da alma humana. E a sociedade pós-industrial aprecia ainda a subjetividade. Não mais somente coisas de massa, consumo de massa, política de massa, sindicato de massa, tempo livre de massa, mas cada um quer ser apreciado como único. Como indivíduos únicos. Kirkegaard dizia: “Gostaria que sobre meu túmulo estivesse escrito: Aqui jaz aquele único”. Ora, emotividade, subjetividade e estética são três valores tipicamente femininos, dos quais os homens descuidaram durante os duzentos anos da sociedade industrial e que só as mulheres continuaram a cultivar. Por isso, junto com a criatividade, a flexibilidade, a emotividade, a estética, um outro valor importante é a feminilização. Isto é, a sociedade pós-industrial não é nem homem, nem mulher: é andrógina. É uma sociedade na qual são apreciados tanto os valores tipicamente femininos, como os valores tipicamente masculinos. E cada homem descobre que tem em si mesmo uma parte feminina, da mesma forma que as mulheres descobrem que têm em si mesmas certas capacidades que eram típicas dos homens. As sociedades que ainda não perceberam a feminilização são sociedades bárbaras. Infelizmente, acredito que no próximo século não existirá a paridade entre o homem e a mulher, mas que as mulheres serão superiores por um pequeno detalhe: as mulheres podem ter filhos sem ter um marido enquanto que os homens não podem ter filhos sem ter uma mulher.

 

Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier)

2 comentários sobre “A sociedade andrógina de Domenico De Masi

  1. Muito bem escolhido este trecho de Domenico De Masi. Posso testemunhar que esta superioridade feminina é efetiva, principalmente trabalhando com marketing de moda. A educação masculina de gerações passadas criaram estereótipos de masculinidade que redundaram em várias miopias para os homens.

  2. Incrível esta aventura de, finalmente, tentar deixar cair os preconceitos e reconhecer que tanto temos a aprender com os homens. No mundo corporativo, vejo o quanto eles têm características que nós, mulheres, lutamos por conquistar. Por outro lado, vejo os homens tentando ser mais sensíveis, menos pragmáticos, mais afetuosos em suas relações. É imprudente criar estereótipos, mas há, sim, algumas características inerentes aos gêneros, embora eu sempre observe ótimas exceções. Será que estamos mesmo finalmente entendendo que o grande sentido da vida é o aprendizado? Entre culturas, entre gerações, entre gêneros? Realmente precisamos parar de criticar os novos tempos (exatamente como nossos pais faziam…) e praticar este “olhar bom” para as mudanças que, de tão rápidas, nos deixam meio tontos e inseguros – e por isso tão críticos.

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