Conte Sua História de SP: Liberdade, liberdade !

 

Por Ethel Naomi
Ouvinte-internauta da CBN

 

Ouça este texto que foi ao ar no CBN SP, sonozirado pelo Cláudio Antonio

 

“Estagiei” numa pensão no bairro Liberdade: de 1975 a 1980 – século XX, como toda oriental saída do oeste do Estado de São Paulo, para tentar uma vida diferente do provincianismo interiorano. O local-dormitório ficava na Rua dos Estudantes e na Tomás Antonio Gonzaga. Eu trabalhava durante o dia e ia direto para o pré-vestibular, posteriormente à universidade. No retorno, chegava de ônibus na Praça João Mendes, descendo a Rua Conselheiro Crispiniano, às vinte e três horas ou mais de meia-noite. As lojas do comércio fechadas, abertas as boates e restaurantes, frequentados pelos bons vivants, boêmios. Sentia-me protegida pelas prostitutas que aguardavam pelos clientes nas temperaturas geladas do inverno.

 

Certa ocasião, fomos acordadas pelos gritos de uma mulher, que buscava seu homem na boate em frente à nossa janela. Também me lembro dos comentários do jornaleiro nordestino da esquina, que madrugava, presenciava cenas e receava vender publicações proibidas pela ditadura: ele não sabia diferenciar quais materiais seriam considerados “perigosos”.

 

Neste ambiente interessante, eu vivia alienada das torturas nos porões, pois no interior, cantávamos o “eu te amo, meu Brasil, eu te amo” decretado pelo ditador Garrastazu Médice. Acreditava que existia respeito nos espaços das diversas “tribos” e sentia-me relativamente livre.

 

O que me intrigava era o nome do bairro: Liberdade, bem como do inconfidente, pois nesta época, o ambiente comercial era – e é até hoje -, tipicamente oriental. Antes mais da colônia japonesa e dos primeiros restaurantes chineses; hoje, são muitas as lojas coreanas. Não compreendia: o ambiente de emigrantes asiáticos não combinava com os nomes libertários, muitos deles nem falavam a nossa língua. Além disso, havia ainda existência de duas igrejas católicas, uma no caminho da Rua dos Estudantes, nos fundos de uma pequena quadra, enfeitada com lanternas orientais (a dos Aflitos) e outra maior, de cor cinza na Avenida Liberdade, as duas sempre com odor de parafina. Na esquina da avenida, ao lado do metrô, hoje, os afrodescendentes vendem ervas, procuradas devido à comprovação do benefício fitoterápico; na época não estavam na moda.

 

Após décadas, tive a oportunidade de esclarecer, participando do curso sobre a história da cidade de São Paulo, palestra do professor Nicolau Sevcenko, publicada no livro Incursões na Entropia Paulista, São Paulo Uma Viagem no Tempo, Série 2 Nossa História, Apoio institucional do CIEE.

 

Hoje de nome Avenida Liberdade, no século XIX, a rua limitava o antigo distrito da Glória, até o Largo da Pólvora, este um lugar maldito da cidade. Tratava-se de um monte, conhecido como Morro da Forca. Devido à altura, o patíbulo fora estabelecido desde 1775, por ordem do vice-rei, para exemplificar a justiça implacável de sua majestade imperial, supliciando exemplarmente os réprobos, recalcitrantes e insubordinados: escravos revoltosos.

 

Nos espaços circundantes, estendia-se o primeiro Cemitério Geral, dos Aflitos – 1779, destinado aos condenados e escravos. Como os africanos fossem bantos, iorubás ou nagôs, sua tradição centrava no culto dos antepassados e a igreja dos Aflitos tornou-se o centro da religiosidade popular. Além disso, em 1821, um ano antes da independência, o cabo Francisco José das Chagas e o praça Joaquim José Cotindiba, ambos negros, encabeçaram um motim pelo pagamento dos soldos em atraso, foram presos e condenados à morte. O cabo foi executado primeiro, quando foi a vez do enforcamento de Chagas, a corda se rompeu, nas três tentativas e também na ultima com laço de couro. Ele então foi executado no chão, por um major, para revolta da população, que acreditava na intervenção divina, como causa das cordas rompidas; (a comutação da pena era condição para libertar o condenado quando ocorria e era praticada no mundo todo). Porém o militar da vez, embebido de ódio, assassinou o soldado, pela arma.

 

Chagas foi venerado como santo. A lenda diz que as velas acesas para ele jamais se apagavam, mesmo à noite e nas intempéries. Para abafar o sentimento popular de suplicio e crueldade, a igreja católica e as autoridades transferiram a antiga e humilde igreja do morro, construindo outra na esquina da atual Avenida Liberdade, a Santa Cruz dos Enforcados. Mesmo hoje, o sincretismo é praticado nas duas igrejas (igualmente na dos Aflitos). Há muitas velas derretidas no pequeno labirinto sombrio, nas entradas ao lado, ala separada do culto oficial. Sobretudo, os vendedores de ervas permanecem nesta esquina, como se pontuasse um lugar não somente sagrado, mas de resistência, às injustiças praticadas pelas autoridades neste país de desigualdade: de aparência verde-amarelo, mas, de fato, de diversas cores.

 


Conte a sua história de São Paulo, envie um texto para milton@cbn.com.br ou marque uma entrevista, em áudio e vídeo, no site do Museu da Pessoa.

2 comentários sobre “Conte Sua História de SP: Liberdade, liberdade !

  1. De 1958 até 1968 vivi na Librdade, tinha uma pequena

    marcenaria na rua Galvão Bueno. Saudade daqueles tempos,

    revividos na minha memória ao ler o texto acima. Na época

    do governo militar, abriguei na minha marcenaria dois

    amigos que eram procurados ambos faleceram, de causa

    natural, fazem poucos anos. Isto é, sobreviveram a

    ditadura. Poucas pessoas levavam a sério a repressão, a

    menos que tivessem o propósito de “aprontar”. A autora do

    texto dá o testemunho exato daquela época. Eu terminara o

    serviço militar uns poucos anos atras e conhecia bem os

    militares de profissão. Eram pessoas comuns. Havia, porém,

    uma minoria de cretinos, covardes, prepotentes e

    recalcados que desonraram as Forças Armadas do Brasil.

    Essa minoria contamina todos os escalões e jamais será

    extirpada, faz parte da natureza humana. Meu respeito aos

    poucos que morreram com uma arma na mão defendendo um

    ideal e meu despreso aos covardes que sobreviveram e hoje

    recebem da “viúva”, polpudas indenizações e nababescas

    aposentadoria.

    Hoje as restrições à liberdade individual continuam as

    mesmas e desde sempre. mas aqui também faz parte da

    natureza humana. Os canalhas são minoria, mas estão sempre

    por cima.

  2. Seria interessante colocar em discussão o abatimento das despesas com empregados domésticos na declaração do IR, afinal assumimos todos os encargos de uma pessoa jurídica e deveríamos ter o mesmo direito da não incidência de IR sobre essa despesa. Isso aliviaria a classe média e por consequência seria um fator a mais para não haver demissões que são as preocupações de toda a sociedade.
    Henrique Fernandes Ribeiro

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