De irmão sobrevivente, da tragédia em Boston e de mais uma fenda aberta no coração de todos nós

 

Por Maria Lucia Solla

 

Olá,

 

 

não nos esqueçamos, nem por um segundo, que esses meninos desequilibrados poderiam ser teus filhos, poderiam ser meus, poderiam ser você, eu, ele ou ela. O jovem, e o não tão jovem, tende a buscar um ídolo, um norte para a sua existência, sem se dar conta de que ídolos hipnotizam e se alimentam da energia de quem os segue, a fim de existirem. É a sua dependência, a sua fragilidade que nos atraem, não o contrário. Cria-se então uma relação parasitária que leva, com o teu consentimento, o dever e o direito de escolha a cada segundo da tua vida. Vamos manter isso em mente, também.

 

Eu, romântica que sou, depois de ter sofrido muito com mais esse atentado, imagino esse menino doente, que sobreviveu até agora apesar de si mesmo, de castigo numa saleta espartana, sem janelas, para que seja forçado a olhar para dentro de si. Na saleta, uma cama macia que sustente seu físico, para que possa dormir quando seu ego se sentir exausto de tanta enfermidade, e para que possa ser acolhido por anjos que farão o que deve ser feito na sua consciência desestruturada e na sua alma dilacerada.

 

Ele deverá, durante a manhã, todos os dias, assistir, vigiado para que não feche os olhos nem os ouvidos, ao vídeo que escarrou para o mundo o resultado da sua inconsciência e do seu fanatismo seja lá pelo que for.
Deverá ouvir, em alto e bom som, gritos de seres humanos encurralados por sua covardia e a de seu irmão, por seu fanatismo bolorento e por aquele de seu irmão.
Deverá assistir à queda do senhor que corria a maratona e que poderia ser seu avô.
Deverá ouvir o relato de vítimas que falam para câmaras e microfones, com os rostos manchados de sangue e a alma, para sempre, tatuada de dor e horror. De novo, e de novo, e de novo, até a manhã virar tarde.

 

Deverá, à tarde, todos os dias, trabalhar, carregando correntes que liguem suas pernas uma à outra, como auxiliar de enfermagem.
Deverá lavar feridas de gente que sofre, para que os enfermeiros apliquem a bandagem necessária à cura.
Deverá observar de bem perto os cuidados com a gente queimada, e sentir o cheiro nauseante de sua carne na luta pela vida.
Deverá banhar idosos que já não conseguem controlar o sistema fisiológico, assistir a terapias com crianças que perderam as pernas, e com elas a chance de um dia simplesmente andar. Isso que fazemos sem nos darmos conta, todo dia, toda hora, sem muitas vezes ou quase nunca sentirmos gratidão por isso.

 

Esse menino, à noite, deverá estudar. Muito. Lerá, ou melhor, ouvirá a leitura das ideias de grandes e pequenos homens que criaram e que destruíram, de altruístas, egoístas e populistas gananciosos. Ouvirá contos de fadas – que toda criança deve ouvir. Lerá a notícia no jornal do dia da tragédia engendrada por ele e por seu irmão, e assistirá novamente aos depoimentos do horror causado por ele e por seu irmão. De novo, e de novo, e de novo, até decorar os traços de pais cujos filhos sofrem, de mães que não morreram ali, mas que carregarão, dali para frente, corpos e mentes ocos.
Deverá ouvir também, é evidente, os depoimentos de seus familiares e de seus amigos.
Deverá se dar conta do egoísmo que mora no fanatismo.
Deverá se dar conta da burrice construída pacientemente pela certeza, que é a origem de todo mal.
Deverá se dar conta de que a vida resiste apesar dele, apesar de mim, apesar de nós, apesar da tua fraqueza e da minha, e da fraqueza maior, insisto, que é fortalecida pela altivez e arrogância de toda e qualquer certeza.

 

Meu Deus, o que será de nós!

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

4 comentários sobre “De irmão sobrevivente, da tragédia em Boston e de mais uma fenda aberta no coração de todos nós

  1. Lú, lendo teu texto, sensível , profundo e emocionado a tristeza e perplexidade qu e ainda nos acometem ficaram mais expostas. Que lição de piedade e humanidade. Bjs amiga e que Deus se apiede de todos nós. Maryur

  2. Mike Lima

    Estes supostos terroristas americanos com certeza deverão ser julgados condenados a pena de morte ou no minimo prisão perpetua

    Em quanto aqui no Brasil, se tivesse acontecido o mesmo, com certeza a nossa hábil e eficiente policia também teria pegos os safados

    Só que aqui, Brasil, seriam presos, poderiam em poucas horas sairem pela porta da frente de uma delegacia para responder o processo em liberdade e se condendos fossem, poderiam pegar uma pena de 200 anos, mas como alei permite que fiquem preso somente por trinta anos, mais beneficios das leis protetoras de marginais, etc estariam nas ruas em menos de cinco anos.

    Quantos terroristas tivemos no passado e hoje estão ai as soltas mandando e desmandando o pais?

    Cavok sempre!

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