Centro de SP precisa é de Virada Social

 

Por Dora Estevam

 

 

A Virada Cultural aparece anualmente com anúncios na mídia oferecendo o que há de melhor no centro de São Paulo. Âncoras e colunistas se alegram em fazer chamadas das atrações. Atividades que prometem desde a descoberta de um novo artista, passando pelo melhor quitute e, até mesmo, o melhor show. Será que estes “coleguinhas” jornalistas andam pelo centro da cidade, local privilegiado para instalação dessas atrações? Não, não andam. Se andassem as pautas seriam bem diferentes e as prioridades seriam os casos sociais, graves, que circundam todos os locais programados para a realização da Virada Cultural, sem exceção.

 

As chamadas para o evento exercem um poder de sedução: vá ao centro da cidade que lá tudo é muito bonito. Ou, vá até lá conhecer onde tudo começou. Ou venha ao centro de metrô, use a bicicleta para chegar em alto estilo e gastando pouco. Ah! para que tamanha hipocrisia, gente? Estou há semanas circulando pelo centro da cidade e a realidade é muito, mas muito diferente deste discurso que tenho visto, assistido e lido. Não é nada disso. O centro está repleto de monumentos e patrimônios históricos graças a um pequeno grupo que se uniu para preservar o pouco que resta em pé. É impressionante o número de pessoas que circulam por ali sem eira nem beira, em busca de nada. Pessoas que vivem nas ruas, que moram nas ruas, que fazem das ruas e das praças seus dormitórios. É visível – e olfativo – o problema social que existe nesta região.

 

Vou dar um exemplo bem prático: na Praça da Sé, em frente, ao lado, nas costas, em volta, o que você imaginar, tem moradores de rua dormindo ou acordado, como preferir. Se acordados, os estragos vão longe; em uma das minhas aproximações para observar o que acontece lá por pouco não presenciei um incêndio: um indigente alcoolizado ateou fogo nos poucos cobertores que ele e os colegas faziam uso. A polícia, que fica bem em frente à Igreja, na praça, foi chamada. Mas o que fazer, não tem de onde tirar água para beber, o que dirá para apagar o fogo. Agora me responde: o que a polícia tem com isso? Alguma dúvida que este problema não é da polícia e sim social? Da polícia, começa a ser quando esta mesma pessoa que mora ali na rua, na praça, passa fome, aí tem uma Virada Cultural como essa que enche de gente e esta pessoa com fome vai lá e rouba o cidadão. Aí o problema deixa de ser social e passa a ser de polícia. Consequentemente do Estado. Meu Deus, isso tem fim?

 

 

Não dá para esconder tanta gente. O mau cheiro das ruas é uma coisa absurda. As pessoas andam fazendo caretas nas ruas, eu mesma não consigo respirar, me desculpe, mas é insuportável o cheiro. Sem falar na sujeira das ruas. Eu estava com uma garrafa de água nas mãos e um morador me pediu implorando por sede. Como um ser humano pode presenciar isso e não fazer nada. A poucos passos avistei o cenário em frente a Igreja da Sé com um imenso balão no qual vão projetar vários filmes; ao lado, banheiros químicos e, adornando o cenário, os moradores da praça. Revoltados com a movimentação de pessoas que insistiam em fotografá-los. Como não registrar as cenas surreais? As fotos que ilustram este post foram na Sé, na Quintino Bocaiúva, na Praça João Mendes…entre outras ruas.

 

 

Aproveito para registrar que não tem sequer um centro de informações na praça da Sé, quem tira todas as dúvidas das pessoas que passam por lá são os policiais militares. Eu fiquei atrás deles por vários minutos e presenciei a rotina dos dois policiais do posto: em 12 horas de trabalho, eles não têm banheiro à disposição e não tem água para beber. Usam os banheiros dos bares “podres” que existem nas redondezas e o tempo todo ficam respondendo perguntas das pessoas que passam por lá, sem parar: Ah, por favor, onde fica a rua tal? Onde fica o prédio tal? Como faço para chegar na avenida tal? Em média, estes funcionários atendem a 1.300 pessoas por dia. E ainda presenciei uma cidadã que não estava se sentindo bem e pediu para se sentar dentro da guarita. No mínimo, ela estava apavorada e em pânico com o movimento, sei lá. A prefeitura precisa providenciar uma central de informações (turísticas), urgentemente. Com dois militares na praça Praça da Sé, por onde transitam cerca de 700 mil pessoas por dia, como fazer o serviço de segurança funcionar? Centro de informações, urgente! Separar turismo de segurança, já! E os casos não ficam só nas perguntas sobre localização, não, vão além, há casais que brigam em casa e aparecem para dar queixa na polícia da praça. Pode?

 

Fazer Virada Cultural no Centro da cidade com este cenário é uma hipocrisia total. Desculpem-me o desabafo, mas não aquentei.

 

Dora EStevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, no Blog do Mílton Jung, aos sábados.

5 comentários sobre “Centro de SP precisa é de Virada Social

  1. Crack na Virada Cultural
    Quem foi à Virada não teve a mesma sorte de Suplicy

    Parabéns, Dora !.. pelo artigo de conteúdo. Você é mais uma testemunha que a cidade fede. Se escrever mais um artigo como este, será vista pelas autoridades municipais como mulher problema. O assunto que aborda é essencialmente político. Depende da boa vontade de quem está no poder para resolvê-lo.

    A Virada Cultural reunia pessoas de um lado e o crack destruía do outro.

    São Paulo vive o auge da continuidade da administração municipal . Basta ir à SPTruis para ver.

    […] Não tenha dúvida , cedo ou tarde aparecerá alguém para enfrentar os desafios siciais de São Paulo com independência – com a coragem de mexer na estrutura podre de interesses do lixo, com a coragem de questionar o faz de conta de algumas ONGs que fingem cuidar de moradores rua ; abrigando em seu seio político funcionários fantasmas. Quando surgir alguém colocando-se a disposição para administrar a cidade com este pensamento e compromisso algo novo acontecerá -, pelo bem da cidade e da política . Coragem ainda de olhar nos olhos dos homens fortes do setor imobiliário e dizer : não quero o seu dinheiro para a minha campanha, aí sim São Paulo começará a mudar […]

    É urgente uma auditoria nos gastos com moradores de rua na cidade de São Paulo. O próprio Ministério Publico sabe disso. Jamais tal iniciativa sairia da Câmara Municipal de São Paulo.

    Daniela Mercury daria início a Virada Social , se na abertura da Virada Cultural exigisse dos governos programas efetivos e pemanentes de combate ao crack.

    Os viciados aproveitaram a Virada Cultural para fazer a ‘Virada do Crack’. Por volta das 18 h de sábado , nas imediações da rua dos Gusmões , na Luz, e outras cercanias, a ” virada do crack” bombava. Muitos visitantes que se deslocaram para Virada Cultural aderiram à festa ou piquenique de rua dos excluídos. Perguntei : São Paulo é uma cidade light ?

    Se nada for feito, a Virada Cultural que no fundo é uma boa ação para agitar o Centro moribundo, transformar-se – á no maior pólo exportador de crack da América Latina.

    É lamentável o clima de baderna na Virada Cultural , a mais violenta desde a sua criação : gente esfaqueada e baleada , inúmeros focos de confusões, pedradas na República e pauladas na Praça da Sé – os batedores de carteira fizeram a festa . Quem teve a carteira furtada não teve a mesma sorte do senador Eduardo Suplicy . Sequer foi recebido pelo ajudante de palco para um apelo.

  2. Quem assistiu pela TV ou pela internet a baderna que foi no Congresso Nacional a votação da questão portuária, sabe que há total coerência entre o descaso da cidade e o baixo nível dos representantes do povo.
    Que tal começarmos pela Câmara e pelo Senado?
    Iniciaria obrigando-os a ficarem sentados e em silêncio enquanto algum colega esteja falando.
    Ao mesmo tempo a compostura e a civilidade deveriam ser obrigatórias, como não usar celular, computador, sentar-se como gente, etc.
    Entretanto São Paulo tem absoluto destaque quando se trata de cobrar. Estado e Município estão afiadíssimos neste quesito.
    Será que já não está passando da hora e cobrarmos também?
    Dimenstein e Suplicy provaram um pouco desta desordem. Daniela deu o seu recado. Não vamos parar, ou vamos?

  3. Devanir Amâncio, muito obrigada pela leitura e comentário.Não dá para acreditar que esta festa foi realizada no cenário em que se encontra o centro.
    A violência era prevista. Será que as pessoas que foram assaltadas vão refletir melhor antes de incentivar a próxima festa?
    Vamos ver.

    Obrigada e boa semana!

    Dora Estevam

  4. A Virada Cultural e a Câmara de Vereadores
    A violência na Virada Cultural de São Paulo passou dos limites…O mínimo que a Câmara de São Paulo ou Ministério Público deveria fazer é convocar os envolvidos na realização do evento…

    Dora , estive com o vereador José Américo (PT) por algumas vezes no ano passado . Os garis da região central de São Paulo votaram em peso nele . É possível que tenha recebido desses trabalhadores cerca de 3 mil votos. Certamente não teria voltado à Câmara sem a votação deles. Tudo isso de votos ? É ! Como ? O vereador defendeu a retomada imediata do PPR – Programa de Participação no Resultados para eles ( as empreiteiras não pagam), inclusão cultural na cidade inteira.

    Infelizmente depois das eleições não responde mais nossos e-mails. Enclausurou-se na Câmara Municipal .

    Em julho passado o alertei em uma reunião com alunos da PUC e garis, entre muitos outros assuntos, sobre o perigo da Virada Cultural se transformar em ambiente propício à violência, consumo de drogas , álcool e prostituição. A forma que é feita hoje colabora para isso. A exclusão da periferia na organização, principalmente. Disse a ele sobre a necessidade de organizar pequenos eventos culturais nos extremos da cidade, envolver artistas de rua em eventos culturais menores nas escolas municipais, nas comunidades.

    Ainda disse ao vereador e candidato José Américo que o maior desafio de Haddad caso eleito seria o centro de São Paulo , que havia se transformado em uma grande periferia subumana , sufocado por problemas sociais de todas as ordens. Sugeri que adotassem políticas públicas de resgate ao social como criar abrigos e restaurantes comunitários decentes para a população de rua, mini – hospitais. A própria Prefeitura administrar . Em tudo ele dizia : “Concordo plenamente.”

    O Centro, castigado pela pobreza absoluta – com homens , mulheres e crianças abandonadas precisa ser reerguido socialmente; ética e moralmente. Os grandes empreendimentos, importantes para uma cidade da grandeza de São Paulo não devem simplesmente estar a serviço do quartel de interesses entrelaçados ao poder político -, valores e questões que desconsideram o humano.

    Os vereadores deveriam ser os responsáveis direto pela revitalização do Centro, e por uma cidade mais humana . São pagos para isso.

    Em nome da revitalização do Centro já se gastou muito dinheiro público. Já se ganhou fortunas.

    Mais de 10 milhões de reais na República, mais de 12 milhões na Praça da Sé , e a Praça Roosevelt ?

    O mastro da Praça da Bandeira, no Anhangabaú custou quase 1 milhão de reais – foi construído com defeito. Em uma semana a bandeira rasga. Obra improvisada .

    O nosso Fernando Haddad estará credenciado a cargos maiores se mandar investigar o mastro da bandeira do Brasil que balança estraçalhada há mais de um mês em frente ao seu Gabinete.

    Os problemas de São Paulo são vultosos .Poderíamos enveredar em assuntos fantasmas . Fantasma é moda em São Paulo há muito tempo. Ninguém quis mexer na história dos garis fantasmas. E os Telecentros fantasmas da Prefeitura ? ONGs recebem por serviços como se trabalhassem nesses equipamentos , mas os Telecentros deixaram de existir há muito tempo. Também alertei o vereador José Américo sobre isso , em uma reunião que tive com ele, acompanhado de Júlio Navega, do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (CDMSP), em seu gabinete , em 2012. A assessoria do secretário municipal de Serviços, Simão Pedro, também foi informada, em janeiro deste ano.

    Dora, a violência na Virada Cultural de São Paulo passou dos limites, até os mendigos ficaram com medo, dezenas deles se esconderam na Baixada do Glicério durante o evento . O mínimo que a Câmara de Vereadores ou Ministério Público deveria fazer é convocar os envolvidos na realização do evento para os devidos esclarecimentos . As festas juninas caseiras e saraus do Capão Redondo , Zona Sul , são bem mais organizados.

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