O "Mais Médicos" e o meu direito de escolher a profissão

 


Por Milton Ferretti Jung

 

O “Mais Médicos” da presidente Dilma me fez lembrar de episódios que vivi a propósito da época em que comecei a pensar na profissão para a qual eu imaginava ter mais aptidão. Cursava, então, o Clássico no Colégio Marista Nossa Senhora do Rosário, em Porto Alegre. O meu pai fazia gosto de que me formasse em Direito. Creio que, se ele, na sua juventude, não precisasse trabalhar para garantir o sustento dos meus avós, teria optado pela advocacia. Ele apreciava assistir a júris, no Tribunal de Justiça, na capital gaúcha. Fez um curso de guarda-livros; ainda jovem, assumiu a gerência de uma drogaria – a Vargas – e de um laboratório, o Regius. Depois,p assou a trabalhar com máquinas de escrever e calculadoras. Foi, ao mesmo tempo, representante de um laboratório que, entre outros produtos, fabricava o tônico chamado Capivarol e um óleo para cabelo, o Óleo de Ovo. Viajei com meu pai por boa parte do Rio Grande do Sul, distribuindo o Almanaque do Capivaral (os almanaques, nos anos 50, eram muito apreciados pelas pessoas simples). O Citroën do meu velho estava sempre cheio dos preciosos livrinhos.

 

Lá pelos meus quinze anos, passei por uma experiência que dinamitou, praticamente, a esperança paterna de me ver advogado. Nas festas da igreja que eu frequentava e nas quais conheci a que viria ser a mãe dos meus filhos, a Ruth, morta em 1986, havia um serviço de alto-falantes batizado com o nome de Voz Alegre da Colina. Naquele tempo, a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus estava em construção e, mercê das festas, angariava-se dinheiro para dar sequência às obras. Um belo dia, na minha casa, não sei por que, alguém resolveu ligar o “Wells Radio”, aparelho importado dos States (não funciona mais por falta de válvulas, mas ainda existe) e ouvimos a Rádio Canoas anunciar que realizava teste para locutores. Apresentaram-se uns 200 candidatos. Três foram aprovados. Este que lhes escreve foi um deles. Fiquei quatro anos na Canoas, cujos estúdios sempre foram em Porto Alegre) e, em 1958, transferi-me para a Rádio Guaíba, onde estou faz 55 anos. Meu pai acabou sendo meu ouvinte.

 

Fosse vivo, e estaria escutando o Mílton na CBN. Não poderia ouvir o Christian, o meu filho mais novo, porque ele é mestre de cerimônias do Governo do Estado e embora use o microfone, atua em cerimônias raramente levadas ao ar nas rádios. Já a minha filha optou pelo magistério e gasta a sua voz tentando controlar crianças de cinco anos de idade, um legítimo sacrifício para quem tem de atuar no sistema de turno integral.

 

Se é que algum dos meus raríssimos leitores esteja se perguntando o que o “Mais Médicos” tem a ver com tudo o que escrevi até aqui, eu respondo: se o meu pai, em vez de ter torcido para que eu virasse advogado, tivesse de lidar, hoje, com um filho médico, ele gostaria de o ver trabalhando na profissão na sua cidade ou em algum distante lugarejo deste imenso Brasil? “Que vengan, entonces, los cubanos, pero que tengan que someterse a exames para probar su capacidad”.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista, meu pai e quase foi advogado. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

3 comentários sobre “O "Mais Médicos" e o meu direito de escolher a profissão

  1. Algumas profissões são exercidas por profissionais (deveriam ser todas e todos) que amam o que fazem. E se assim fosse, não se pode olhar onde trabalho, mas sim estar satisfeito com o que faz.
    Fica claro que no caso dos médicos, muitos querem mais a profissão pelo status, pelo dinheiro que dá e pelo “abrir” portas que o médico consegue. E como lá no interior poucas portas tem…

  2. Mílton Pai, bom dia!

    vejo o assunto dos médicos no Brasil, pela primeira vez, observado com carinho, pelo olhar do social, da família. Médico é gente, certo? É filho, pai, irmão, amado ou não.

    O viver me parece cada dia mais árido, vislumbrado por deslumbrados vidrados em cifras e ideias. Longe dos ideais. Ideia engrandece o sujeito. Ideal engrandece a nação.

    Mas falamos sobre isso aqui, a boca pequena, nesta saleta aconchegante, porque o rótulo de loucos e alienados toma o lugar de rótulos não tão antigos assim, que afastavam as pessoas dos rotulados.

    Parabéns pelo teu olhar, beijo e bom fim de semana,

  3. Caro Sr. Milton:

    Acredito fortemente, que a juventude de hoje, escolha sua profissão, iniciando sua jornada, cercada de idéías e ideais, pautados sempre em obter o melhor desempenho dentro de sua área. Alguns com sonho de ser diplomata, morar em longínquas terras, motivados pelo anseio de travar conhecimento com diferentes paises, suas culturas, economia, modus vivendi, estreitando laços, formando seus próprios conceitos, contemplando suas aptidões. Transfiro este pensamento para todas nossas profissões ditas liberais, tais como advogados e engenheiros,e para outras, uma infinidade delas, funções e atividades que surgiram atualmente e, naturalmente para os médicos, dentre os quais me incluo. Meu falecido pai foi, eu sou, meu marido o é e meu casal de filhos estudam para o ser. Nestas 3 gerações, nosso país mudou bem como a sua população, medicamentos foram criados , técnicas cirúrgicas aperfeiçoadas, o método diagnóstico e a descoberta de muitas patologias evoluiram, e, o médico sempre, em todos os momentos, esteve presente em nossas vidas, do alfa ao omega. Reflitamos sobre o mecanismo de sua árdua formação, com muito, mas muito estudo, provas, estágios, plantões, dedicação, especializações.. É um longo período, compreendendo o ensino fundamental ( 9 anos ), colegial ( 3 anos), 6 anos de universidade, 3 anos de residência ( algumas demandam até 5 anos) para então poder estabelecer-se profissionalmente. Alguns, como muito bem observou o sr., em rincões distantes, longe das famílias, as quais em numerosos casos, sacrificaram-se financeiramente para formar o filho, para que enfim, pudesse ele seguir sua aptidão. Nosso momento na saúde encontra-se delicado, vítima de várias opiniões e distorções. Torçamos para que nossa gente seja bem assistida, jamais prejudicada por algo ou alguém, torçamos para que todos possam celebrar suas aptidões e vocações orgulhosamente em sua plenitude. Grande abraço.

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