Suicídio de Vargas por um pré-adolescente

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Em 24 de agosto de 1954, com 12 anos, já tinha um pré-conceito de Getúlio Vargas. Ao passar férias na fazenda de meu avô, em Paraty, sempre ouvia críticas ao ditador que para enfrentar as tropas paulistas em 32 tinha brutalmente confiscado todos os bens da propriedade – promissora fabricante de aguardente e exportadora de banana e café. Além disso, a atribulada eleição de 50, quando parecia que o Brigadeiro Eduardo Gomes iria ganhar, Vargas, que tinha no currículo dois golpes de Estado e demais arbitrariedades comuns às ditaduras, o acusa de repudiar os votos dos “marmiteiros” e vence. Inclusive com o apoio dos paulistas que, no passado, tinham combatido até a morte o Estado Novo de Getúlio.

 

Foi uma eleição contagiante, até para crianças, tal o barulho dos carros de som, dos jingles e dos exaltados discursos. Era impossível ficar alheio. As cidades ficavam forradas de cartazes, faixas, panfletos e cédulas. Muitas cédulas. Discutia-se política como se falava de futebol. Um clima de tensão e paixão que se prolongou pelos anos seguintes, impulsionada por temas polêmicos como o monopólio do petróleo, corrupção e golpe de Estado. Não dava para passar nas bancas de jornal e não ler as manchetes da Tribuna da Imprensa e da Última Hora. Veio o atentado a Carlos Lacerda com a morte do major Vaz para impulsionar o clima já exaltado. Gregório, o homem de confiança de Vargas foi confirmado tanto como autor intelectual do crime como corrupto. O populismo do Presidente se esvaziava e a oposição crescia a ponto de Getúlio escolher o suicídio como a única saída digna.

 

No dia 24 de agosto não houve aula, mas uma surpreendente troca de posições que nunca mais esquecerei. As cenas de aprovação e até de adoração ao Herói Morto foram marcantes. Na volta à escola a mesma mudança de valores. Lacerda é o demônio, Vargas o santo.

 

Agora, revendo o passado, chego à conclusão que tanto a proximidade do fato quanto o distanciamento são essenciais para uma boa avaliação do episódio histórico.

 

Quanto a Getúlio Vargas, daria o crédito de ter se afastado de Mussolini e se aproximado dos Estados Unidos contra Hitler. Da CLT, da CSN, e da visão industrial, assim como da perspectiva de estadista que possuía. ”O Petróleo é Nosso” foi mais obra do partido de Lacerda, a UDN, tanto que o projeto que firmou o monopólio foi do udenista Aliomar Baleeiro e o primeiro Presidente da Petrobrás foi o também udenista Juracy Magalhães. O mérito de Vargas é a ideia inicial e a assinatura final. Assim como, começo e término de sua atuação política são caracterizados por acertos e desacertos. Ainda assim foi a mais marcante da história moderna do Brasil.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

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