Quem diria, os separatistas estavam por aqui

 

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É no mínimo curioso receber mensagens pedindo a separação de São Paulo do restante do País, especialmente do Nordeste, desde a divulgação dos números finais da eleição presidencial deste ano. A cisão unilateral está apoiada no que consideram ser um absurdo: ser comandado por uma presidente, no caso Dilma Roussef, que teve apenas 35,69% dos votos do eleitorado paulista – provavelmente nordestinos que vem se aproveitar das nossas riquezas, dizem alguns. Que voltem para seus estados de origem e se submetam às ordem superiores. E na República Independente de São Paulo ficaríamos apenas nós, os puros de alma, combatentes da corrupção, defensores dos bons costumes e bem informados. As manifestações de indignação e em defesa da divisão ganha caráter oficial quando assinada por gente de alto coturno com representatividade no Palácio Nove de Julho que, talvez, sonhe em transformá-lo em palco da resistência. Tudo bem que os arroubos políticos se resumiram às redes sociais, mas se ouvirem muitos aplausos temo que decidam subir à tribuna.

 

Têm todo meu respeito os que estão incomodados com a derrota na eleição, é um direito nos inconformarmos sempre que uma batalha é perdida, mas defender a separação do Estado de São Paulo em função de resultados obtidos nas urnas é não compreender a dinâmica da democracia, se não bastasse ser um absurdo. Como sei que São Paulo é muito maior do que estes que se descontrolam – e em alguns meses mesmo estes já estarão envolvidos em outras disputas – chego a me divertir, especialmente pela ironia do destino.

 

Desde que cheguei em São Paulo, em 1991, por mais de uma oportunidade fui acusado de ser separatista. Sim, você, caro e raro leitor deste blog, não tem ideia do que muitas vezes tenho de ler e ouvir. O ataque é baseado no fato único e exclusivo de ter nascido no Rio Grande do Sul, onde, no século 19, grupos se rebelaram contra o governo imperial do Brasil e declararam independência, fundando – sem sucesso, diga-se – a República Rio-Grandense. De vez em quando, surge uma ou outra voz por lá retomando o assunto e acreditando que o Rio Grande se bastaria, mas são gritos que não ecoam há muito tempo nos pampas.

 

Verdade, também, que os gaúchos tendem a exacerbar seu orgulho pelo estado em que vivem, conservam suas raízes, preservam o chimarrão e a bombacha, usam o sotaque sulista para reforçar sua identidade e não se envergonham de entoar o hino rio-grandense (registre-se, de letra e ritmo belíssimos). Orgulho, sim, mas sem deslumbramento nem desrespeito ao restante do Brasil. História e comportamento que talvez confundam pessoas desinformadas como essas que procuravam me atingir sempre que me ouviam criticando os problemas de São Paulo.

 

As agressões, geralmente por e-mail, eram mais frequentes na época em que apresentava o CBN São Paulo, a medida que as reportagens e entrevistas que realizava tinham o foco no estado e capital paulistas. Costumavam me mandar de volta para casa já que, segundo eles, eu estaria descontente com a vida que levava por aqui. Não eram capazes de entender que ao reclamar a falta de estrutura, desrespeito no atendimento ao cidadão, ambiente poluído, congestionamentos intermináveis, entre outros problemas comuns do nosso cotidiano, o fazia por força da profissão e por gostar muito de São Paulo.

 

Talvez o que mais me incomodava (e me incomoda, nos raros momentos em que ainda sou chamado de separatista) é o fato dessa gente não entender o quanto gosto de São Paulo. Trabalhar aqui foi escolha minha, por admirar a força desta região. Construí minha carreira, minha casa e minha família; meus filhos são paulistanos, assim como minha mulher (isto ao menos me valeria um passaporte brasileiro, em caso de secessão, não?). Nestes 23 anos desenvolvi projetos em favor da cidade que me orgulham muito como o programa Conte Sua História de São Paulo, que está no ar desde 2006 e se transformou em livro, no qual moradores e pessoas que tiveram alguma experiência na capital paulista registram sua memória. Tem ainda o Adote um Vereador – apesar de que este, para esta turma, é uma forma que encontrei de reclamar da política na cidade. Hilário.

 

Quem diria, depois de tantos anos ouvindo que sou um separatista, hoje me deparo com pessoas defendendo que São Paulo dê seu grito de independência, se liberte do restante do Brasil. Descubro que apenas usavam sua própria régua moral para me julgar. Vamos combinar o seguinte: somos todos brasileiros, independentemente de onde tenhamos nascido, onde vivemos e como votamos. E como brasileiros, o que temos é o que as urnas nos ofereceram. Saibamos então aceitar as diferenças, reduzir as desavenças e trabalhar para que cada vez mais nossos destinos sejam traçados por nós mesmos, sem depender deste ou daquele governo. Valorizemos as características de cada um dos 26 estados e do Distrito Federal, mas convencidos de que fazemos parte de um só país.

18 comentários sobre “Quem diria, os separatistas estavam por aqui

  1. Ninguém,a não ser a nossa família,imagino eu,sentiu mais do que os irmãos do Milton,Jacqueline e Christian – a mãe deles faleceu em 86 – e eu, que acompanhei os seus primeiros passos quando estreou em rádio, na Guaíba de Porto Alegre, como repórter esportivo, Todos nós ficamos surpresos ao saber que,tendo viajado para São Paulo pouco antes do Natal de 1990 para acompanhar o casamento de um colega paulista,tinha feito,com sucesso, um teste na Globo. De lá para cá até sentar praça da Rádio CBN,o Milton passou a ter,em São Paulo,o seu segundo amor. Voltou a Porto Alegre para casar com uma paulistana e com Abigail,que conheceu por lá,estão criando os meus dois netos,o Gregório e o Lorenzo. Seguimos,nós que – ficamos em POA – a Jacque,o Christian e eu – sentindo falta da presença do Milton e daquele que compôs,agora,o ramo paulista de nossa família. Nem preciso lembrar que ele foi o criador do Adote um Vereador e do Conte a sua história de São Paulo,pois isso ele já fez acima deste texto. Arrisco-me a ser chamado de pai-coruja,mas confesso que sou fã do radialista,do e deste filho que muito me orgulha e poderia estar fazendo sucessso na TV. Isso se não desse preferência a ser,antes de tudo,um pai que,acima de tudo,ama os seus filhos.

  2. Sou a favor de uma maior autonomia fiscal/jurídica dos estados perante a união. Acho muita sacanagem São Paulo Arrecadar quase 42% de impostos federais e nada receber em troca. Aliás, recebe sim 10% em investimentos que mais tarde tem que devolver com juros. Depois somos taxados de incompetentes, por um governo que não investe nada aqui. Só isso. Não quero separação apesar que faria um bem enorme para todos pois muitos estados teriam que andar com as próprias pernas..Quanto SP manda pra união em PIS/Cofins em impostos sobre a água?? Recebe quanto de investimentos? – só pra citar um exemplo – Nesse caso cabe a máxima: “Brasil pra que te quero?”

  3. Milton, sou de Matogrosso do Sul, cheguei em Sampa em 1980 com 15 anos. Amo São Paulo. Conheço muita gente que nasceu aqui e não vi ninguém falar em separação. Acredito que tem muitas opiniões no facebook e redes sociais falando do assunto de separação e preconceito contra nordestinos. Mas são opiniões isoladas. Que eu saiba não tem um grupo ou entidade brigando por isso. Como São Paulo é uma mãe e recebe todas as pessoas de diversos Estados e países do mundo todo, não quer dizer que o post que alguém colocou de preconceito contra nordestinos e separação seja de gente que nasceu em Sampa. Mas vamos supor que seja 1% da população que pensa dessa forma. Então não podemos dizer que São Paulo quer a separação. Isso acaba virando um preconceito tbém contra quem mora aqui e nem sequer ofendeu ninguém e pediu a separação. Ouço nos posts do facebook: Os coxinhas de SP, Paulista é todo preconceituoso, A elite da direita, Paulista é todo burguês, A elite branca de SP contra o Nordeste. Os playboizinhos de Sp piram só de saber que os filhos das empregadas domésticas vão sentar na mesma sala que eles e por ai vai. Ou seja, ofendem o povo de SP. Não vejo nenhum movimento popular pedindo separação. Isso tá igual o não vai ter Copa. Deu em nada.

    • Daniel: como escrevi, creio que mesmo estes que hoje escrevem a favor da separação esquecerão o tema, em breve; o preconceito surge de várias formas e com diferentes alvos; já em relação aos que se revoltaram e pedir a separção, apresentou-lhe um: Coronel Telhada PSDB, que obteve 204 mil votos, segundo deputado estadual mais votado nesta elieção.

    • São Paulo, é uma mãe?? Pois, saibam, que nós estamos cansados de pagar tantos impostos ao “Desgoverno Federal” e não receber nada em troca, além disso, de nós precisarmos do nosso próprio dinheiro, temos que devolver com juros depois. SP não aguenta mais receber pessoas de origem diversas, nossa população está inchada. Além disso, temos que pensar no futuro da nossa pátria (SP). Temos peculiares que devem serem respeitadas. Por isso, venho convidar todos os Paulistas, a conhecer o MSPI (Movimento São Paulo Independente) que luta pela liberdade de nossa pátria. No final das contas, sempre as pessoas de bem, o trabalhador acaba pagando pelos acomodados e irresponsáveis. Do jeito que tá não dá pra ficar. Lute por essa justa causa!
      #Orgulho de ser Paulista

  4. Sou paranaense radicado em São Paulo há 36 anos, acima de tudo sou brasileiro, tenho muito orgulho por defender a cidade que me acolheu.
    Assim como eu, milhares de nordestinos levam a vida por aqui orgulhosamente.
    Esta revolta separatista parte de maus perdedores, que embalados pela mal política de um “nordestino” que se fiz representante dos humildes. Não passa de um personagem muito bem representado por aquele que se transformou em magnata (lobista de empreiteiras) às custas da exploração da pobreza. Até eu que ando vendendo a almoço para comparar o jantar sou considerado classe média, que na interpletação do artista sou parte da “ZELITE BRANCA”.
    É o resultado das urnas e temos que respeitá-lo até aprendermos a valorizar nossos votos.
    Parabéns por mais este belo texto Milton!

    • Neste caso ganhei duas vezes: o pai e você, gaúcho de quatro costados e craque do basquete gremista. grande abraço e parabéns pelos artigos que você escreve no seu blog.

  5. Creio que não devemos deter-nos nas classificações de Bolchevics X no – liberais. O presidente FC teve sua importância na implementação do plano real e controle inflacionario, da nessa sorte Lula na sua social democracia, o curioso é que já estiveram ombreados na luta pelas diretas e redemocratizacao do país. O princípio da indissolubilidade veda a secessão e no mínimo expressa a ignorância do Estado em qual vive, sob a égide da CF/88. O que está em pauta é queremos um Estado Social ou queremos um Estado Liberal. Qual a melhor proposta para a Terra de Santa Cruz? Vivam os Gaúchos com seus chimarroes, baianas com berimbaus, pernambucanos com o frevo, Maranhão ses com o bumba – meu – boi, etc. E os Paulistas com todo mosaico brasileiro e que a todos acolhe.

  6. Essa questão estrategicamente colocada se trata de nuvem de fumaça.
    Milton, gostaria de ver a CBN comentando a ingerencia politica do Foro de São Paulo sobre nosso pais e ultimas Declarações de Maduro em Caracas exaltando vitoria da Companheira Dilma, reforçando projeto “Progressista” (leia-se Comunista) .

  7. Não tenho orgulho por ser brasileira mas tenho orgulho de ser paulista. Triste, eh verdade, mas eh um fato. Não consigo deixar de me sentir injustiçada pela discrepância entre os impostos pagos e pelo valor que retorna ao estado. O sentimento de ”quero independência” fica quase inevitável. Inatingível mas inevitável.

  8. Milton! boa tarde! Infelizmente seus colaboradores no liberdade de expressão, foram infelizes hj, pois como podem condenar aqueles que se expressão quanto os irmãos nordestinos, se queremos igualdade, primeiro temos que ter respeito a opiniões contrárias as nossas, ou então devemos dar um microfone a quem deseja falar.

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