Meter-se em camisa-de-onze-varas

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Sempre gostei de ditos populares ou,se quiserem,provérbios,adágios e uma série de outros sinônimos. Nos textos que envio para o Mílton,volta e meia,uso um deles. Um que ainda não havia feito parte dos postados por mim neste blog e,talvez,seja dos mais antigos,é o que reza “meter-se em camisa-de-onze-varas”. Este nome,segundo se sabe,vem da expressão “pano de varas”. Era como se chamava um tecido grosseiro com o qual vestiam os condenados à morte,no tempo da Inquisição, ao serem levados para o suplício. Por que me lembrei deste dito? Ele me veio à cabeça,sem mais nem menos,quando buscava um provérbio capaz expressar o que minha filha Jacqueline e eu,por razões diferentes,sofremos a partir da semana passadas por vestirmos, me atrevo a a dizer,tal espécie de camisa. Não chegou a ser um suplício,mas provocou um baita incômodo.

 

Relato primeiro o sofrido pela Jacque,cujo resultado parece estar próximo. Ela e a Malu,sua cachorrinha,começaram a ter o sono prejudicado pelo calor,que chegou com vontade. Para o amenizar ou até mesmo acabar com a canícula,nada melhor do que um “split”. Jacque pesquisou nas lojas que trabalham com tal tipo de aparelho e escolheu um LG. Comprou-o pela internet e aguardou,ansiosa,a sua entrega no edifício onde mora. Então,já de posse do split,buscou a única assistência técnica da LG autorizada a fazer a instalação. Eu disse,reparem bem,a única autorizada da empresa, em Porto Alegre a instalar o aparelho. A LG deixou claro na nota do produto não se responsabilizar se o split ou qualquer produto dessa fabrica seja instalado por uma firma não autorizada. Minha filha,obediente e confiante, chamou a autorizada para fazer o serviço. E logo se arrependeu com a má vontade do “técnico com 11 anos de experiência” que,a certa altura”,fechou a porta do quarto no qual instalava o split e evitou a entrada da dona do aparelho. Ela só foi chamada a entrar na peça quando o “especialista” deu o trabalho por encerrado. Esse e o seu auxiliar foram logo embora para que a Jacque não se desse conta de que foram colocados dois parafusos na parte debaixo do split e um desses rachou a peça em que foi aparafusado. Aí,Jacqueline iniciou uma série de ligações telefônicas para a empresa antes de mais nada e,depois,para a “autorizada”,na qual foi tratada grosseiramente pela pessoa que atendeu a ligação. Essa acabou informando que o mesmo técnico com 11 anos de experiência iria olhar o aparelho e dar o seu veredito sobre os parafusos etc. O sujeito disse que a peça danificada seria substituída. O aparelho terá,porém,de ser levado,”oportunamente”,para a única assistência técnica autorizada pela LG,o que me deixa espantado. Um empresa,que produz produtos caros,me desculpe a LG,não pode oficializar o trabalho de apenas uma firma. Ah,o servicinho custou 500 reais para a Jacque,tirante,o preço do split.

 

Agora conto a minha parte na camisa-de-onze-varas. Minha carteira de habilitação venceu no dia 29 de outubro e,como todos os motoristas sabem, tem-se até um mês após a data natalícia para renovar o documento. Bem antes de os 30 dias terminarem,providenciei no pagamento da taxa de 100 reais,cobrada nos bancos autorizados, e logo me apresentei para o exame médico na CFC da minha zona,com o que,se não fosse reprovado, poria no bolso uma carteira novinha em folha. Já renovei inúmeras carteiras de habilitação. Em uma dessas vezes,exigiram-me até um exame a ser feito num computador de um Centro de Formação de Condutores,no qual se respondia uma série de questões sobre trânsito. Estudei com afinco e passei com nota alta. Fiz outras renovações e sempre me dei bem. Eu havia visitado o meu oftalmologista um dia antes do exame e estava tranquilo quanto à minha visão. Nunca tinha imaginado que a médica que me fez inúmeras perguntas sobre minha saúde,perguntou se já tinha sofrido operação e tive de dizer-lhe os nomes dos remédios que uso no dia a dia. Aí,apontou para o quadro com letras que vão das mais diminutas as grandonas. Ela queria que eu lhe dissesse que letras compunham a penúltima coluna. Não tinha como atender à sua ordem e não entendi até agora por quê eu necessitava enxergar aquelas letrinhas pequeninas. Para que,me perguntei,eis que no trânsito não há nada tão minúsculo quanto as letras que ela me mandara ler. Não as li. Aí,a doutora Délia – esse o nome dela – me liberou,não sem antes me informar que eu teria 90 dias para me reapresentar e fazer novo exame. Nesta terça-feira,11 de novembro,data em que entrego a coluna para o Mílton,voltei ao CFC e fiz o exame com um médico,o dr.Antônio,que rapidamente me aprovou. Entre o exame de uma e de outro – a médica e o médico – fiz,antes de voltar ao Centro de Formação de Condutores,uma pesquisa na Zona Sul de Porto Alegre,onde moro. Todas as pessoas que conheceram a médica foram unânimes em classificá-la de exageradamente exigente. Para não dizer coisa pior. Espero não vestir mais nenhuma camisa-de-onze-varas.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

3 comentários sobre “Meter-se em camisa-de-onze-varas

  1. Quando resolvi instalar um split no meu quarto, não foi dessa, e também tive uma surpresa. Apesar de não pedirem para me ausentar do quarto, verifiquei que na primeira chuva seguinte meu quarto estava inundado.
    A água da chuva havia passado pelo buraco na parede feito pelos técnicos e quase precisei de um caiaque para acessar o local.
    Mais gastos para o tapamento e reparação da parede.
    A minha constatação para os prestadores de serviços, de todos os tipos, é que eles são de péssima qualidade e de preço elevado.
    Aqui em São Paulo não é diferente do Rio Grande do Sul e o custo, pelo apresentado, é bem maior.
    É difícil, para nós consumidores, convivermos com tantos problemas e ainda pagando caro.

  2. Milton pai, ao velho ditado, uma velha experiência. O atendimento é a etapa mais importante dos produtos e serviços. A unica maneira de controlar é a espionagem aleatória. Ou seja, compradores camuflados. E, que as equipes de vendas, ou os prestadores de serviços estejam avisados.
    E, meritocracia nas equipes. Aos bons os prêmios.
    Life is Good?

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