Conte Sua História de SP: os doces que eu ajudava fazer e o sabor do troco no bolso

 

Por Ricardo Aleixo

 

 

Desde muito cedo descobri que vivia em uma cidade que aceitava gente de todo o mundo como iguais. Uma família imigrante havia se mudado para próximo de nossa casa num Brooklin ainda cheio de mato e cavas (espécie de lagoa restante da exploração de areia). Imediatamente minha família fez amizade com o Sr. Carlos (seu nome não era esse pois ele era alemão de nascimento), sua esposa Dona Margarida (seu nome não era esse pois ela Grega), a Iaiá (a Mãe de Dna.Margarida) e a Helena (nome verdadeiro pois era brasileira). Como não tinham mais familiares por aqui, acabamos por ter boa amizade, afinal nossa família tinha italiano e espanhol do lado de meu pai e português e baiano por parte de minha mãe.

 

No fim do ano, muitos dias eram gastos em produzir quitutes conforme as tradições das duas famílias. Reunidas, punham-se na cozinha as mulheres a fazer doces (a culinária grega tem absoluta semelhança com a árabe, afinal se misturam em Istambul), charutinhos recheados, panetones (tinha sem frutas para me alegrar pois não gostava das frutas cítricas) e muitas outras coisas. Lembro disso não porque ajudasse muito na cozinha, com minha pouca idade mais atrapalharia se tentasse.

 

Mas alguns dois ou três doces dependiam totalmente da minha participação.

 

Com pouco mais de nove anos, eu era o encarregado de ir pegar a encomenda daquele tipo de macarrãozinho que é comum em alguns doces que hoje vemos nas casas de comida árabe. Ia de ônibus até o centro. Tinha aprendido o caminho no ano anterior com a Margarida e precisava andar uma meia hora para lá chegar. O fornecedor ficava num tipo de sobreloja na Rua 25 de Março, que eu acessava subindo uma longa escada com dois patamares até chegar lá em cima. Lá encontrava o homem que fazia a tal massa. Numas mesas enormes (maiores ainda para uma criança de nove anos) ele as fazia com um tipo de chuveiro de balde sobre umas folhas de papel manteiga. Embrulhava-os e eu pagava e descia aquela baita escada com um embrulho enorme nos braços. Não caí nunca nem sei por conta de quem, deve ser do tal Alá do turco que fazia a massa.

 

Na rua, fazer um taxi entender que um garoto daquele tamanho queria fazer uma corrida era outra dificuldade, mas sempre tinha alguém que me ajudava. Era uma cidade de gente cordial e educada. Rapidamente ia de volta para casa com a massa no banco de trás do taxi todo feliz por ter conseguido realizar minha missão. O rapidamente demorava praticamente uma hora, não por trânsito, mas as avenidas Tiradentes, Nove de Julho e Santo Amaro eram na verdade umas ruas comuns com mão dupla e razoavelmente cheias de carros e ônibus.

 

Lembro docemente agora desses tempos, pois fico até admirado em como, numa São Paulo já populosa, no inicio dos anos 60, uma criança como eu tinha a liberdade de ir ao centro da cidade para pagar as contas da família o que me dava experiência suficiente para ir retirar a encomenda da tal massa.

 

No início dos meses minha mãe separava o dinheiro necessário para cada conta e juntava-o, embrulhava-o e fazia uns macinhos para os pagamentos correspondentes. Eu pegava um ônibus no Brooklin, e lá ia para o ponto final embaixo do viaduto do Chá. Macinhos na mão. Contas & dinheiro. Nunca fui roubado.

 

Subia a escadaria e dava rapidamente no prédio da Light (esquina da Xavier de Toledo com o Viaduto do chá – hoje há um shopping por lá) e nele pagava a conta de luz. Pronto, um maço a menos e uma conta paga no bolso.

 

Atravessava a Xavier, e entrada no Mappin, bem em frente. Sempre tinha algum carnê relativo às de compras que  nem se lembrava mais relativas a que. Pronto, depois do homem do elevador avisar: “crediário, roupas de cama, mesa e banho)” saía do elevador e depois de uma filhinha, que não demorava tanto ,mais um maço pago.

 

Agora era ir ao DAE (Departamento de Águas e Esgotos do Estado). Esse ficava bem mais longe, o que era muito bom pois podia passear pela cidade. Por cima do Viaduto do Chá pegava a Rua São Bento que parte da Praça do Patriarca e ia em direção ao Largo São Francisco. Ali minha mãe tinha me mostrado a Igreja e pouco acima um prédio enorme onde é a Faculdade de Direito da USP. Dali seguia até a Rua Riachuelo para pagar a conta de água. Pronto, mais uma conta pro bolso.

 

Aí era hora de contar o troco que tinha recebido.

 

Somado, eu tinha que reservar o dinheiro do ônibus para a volta. Algumas vezes, não todas, sobrava o suficiente para um sanduíche de linguiça que uma lanchonete servia na Rua São Bento. Se não sobrasse, não ficava chateado. Era assim mesmo, a vida era dura naquele tempo. E estando por ali sempre valia a pena dar uma passeada pela cidade.

 

Numa travessa da Líbero ficava a loja do Sr. Armando, de relógios e canetas, além dele vender, os consertava. Era meu vizinho que, aos sábados de noite, me chamava para sua casa para tomar um pouco de vinho com pão italiano, parmesão e aliche. Seus filhos não gostavam já eram adolescentes e iam para algum bailinho.

 

Tinha a Michelangelo que vendia produtos de arte e papelaria, que vitrine adorável para uma criança. Muitas vezes visitada depois. Na Conselheiro Crispiniano havia uma loja de departamentos (acho que era a Sears) que tinha um subsolo onde havia uma casa de chá, algumas vezes fomos lá: minha mãe, minha irmã e eu. Nos dávamos tempo para viver, os segundos eram muito maiores que os atuais.

 

E as lojas de instrumentos musicais na Barão de Itapetininga? Enchia-nos os olhos, como eram bonitos e perfeitos. Às vezes, da Barão eu cruzava a Praça da República, em frente ao Caetano de Campos (ah que lindas as alunas daquela escola) e ia ao Largo do Arouche, onde meu pai trabalhava como gerente de uma loja de tecidos importados. Naquele tempo a roupa era feita por costureiras e alfaiates.

 

Uma vez o Gigio (um dos melhores alfaiates da capital e amigo de meu pai) me fez um terninho, se usei uma vez foi muito, mas que era bonito era. Tropical inglês, com calça curta claro. Por vezes visitava a Tecidos L.Caldas, a loja que meu pai gerenciava, o Primo Carnéro, famoso lutador com quase dois metros de altura. Céus quando o conheci pareceu-me um gigante.

 

Dependendo da hora voltava para casa com meu pai que pegava um carro de aluguel que era chamado lotação. Era muito grande, cabiam uns 8 ou mais passageiros.

 

Eu era muito feliz naqueles tempos idos.
Feliz como nunca mais consegui ser.

 


Ricardo Aleixo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais uma capítulo da nossa cidade, envie seu texto para milton@cbn.com.br

4 comentários sobre “Conte Sua História de SP: os doces que eu ajudava fazer e o sabor do troco no bolso

  1. Cheguei em São Paulo, vindo do interior deste Estado, no dia 25 de outubro de 1965.
    Até me casar, em 1979, morei no Viaduto Nove de Julho, 160, em frente ao Bar Estadão, famoso
    pelo Sanduiche de Pernil.
    Meu único emprego foi na Light/Eletropaulo, onde me aposentei com 30 anos de serviço.
    Durante bons anos trabalhei na Rua Xavier de Toledo, 23. Que saudade!
    Hoje me dedico à Poesia e no 25 de janeiro gosto de exaltar os valores da minha Sampa querida
    com versos como estes:

    25 de Janeiro de 2015
    CIDADE DE SÃO PAULO
    461 ANOS

    Apesar dos nocivos predadores,
    Dos contumazes agressores,
    Dos impunes malfeitores,
    Dos passivos moradores,
    Dos narcisos sonhadores,
    Dos chacais aproveitadores,
    Sampa não perde o encanto,
    Sua alegria supera o pranto.
    Solidária e hospitaleira,
    Postura de metrópole altaneira,
    Dignificada pelo Amor da maioria,
    Sedutora no compasso da magia,
    Seu viço, sua história, sua verdade,
    São Paulo, minha acolhedora Cidade,
    Meu grito no infinito não é solitário,
    -Parabéns por mais este aniversário!-
    461 anos entre a paz e a turbulência,
    Saldo positivo no filtro da indulgência.

    Poeta Alceu Sebastião Costa
    Cambuci

    A Cidade de São Paulo não merece
    maus tratos.

    • Alceu,
      Pois deve então ter sido colega de um tio meu na Light que trabalhava na área de projetos o Ivan Cunha.
      Realmente dá saudades, mas nem por isso devemos perder a esperança de um dia talvez décadas à frente, tenhamos uma cidade tão acolhedora e civilizada como já o fora.
      Abr

  2. Caro Ricardo,
    O quadro de funcionários era muito grande, mas o nome não me é estranho, pois sempre trabalhei em RH. Certamente o seu tio Ivan Cunha tem bons motivos para amar Sampa como nós a amamos.
    Concordo com vc: perder a esperança…JAMAIS!
    Fraternal abraço.
    Alceu

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