Conte Sua História de SP: meu encontro com D. Eva em Moema

 

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira
Ouvinte da CBN

 

 

Olá D.Eva!

 

Espero que minha carta a encontre cheia de vida como quando a conheci. Nossas vidas se cruzaram dias atrás. Foi no cruzamento de duas movimentadas avenidas de nosso bairro, Moema. Preparava-me para atravessar quando a vi do outro lado ensaiando o mesmo. Se tudo desse certo, iríamos nos encontrar no cruzamento das ruas. Se tudo desse certo…

 

Num “flash”um temor me assola: suas frágeis pernas e braços, carregando um carrinho de feira abarrotado de suprimentos, fardos de água em uma mão e uma garrafa na outra, teriam a agilidade necessária para a empreitada? Movida pelo medo de que algum carro a atingisse, saí em sua direção o mais rápido que pude. Postei-me ao seu lado para juntas atravessarmos. Ofereci ajuda e a senhora, um tanto ofegante, agradeceu-me e aceitou. Apenas para ajudar na travessia, não me permitiu segurar o carrinho.

 

Sãs e salvas após atravessarmos, comento sobre o peso que carregava, reitero meu pedido para puxar o carrinho e acompanhá-la até seu destino. A senhora aceita, mas me entrega apenas a garrafa de água.

 

Percebo um forte sotaque e ponho-me a conversar. Caminhamos juntas dois quarteirões, suficientes para saber que D.Eva, com 90 anos e um 1,5 metro de altura, imigrante romena, esta mesmo é preocupada comigo: ”cuidado esquina mais perigosa que a anterior”, alertava-me.

 

D.Eva, como me esquecer de seu olhar atento para os dois lados? E de sua voz? Ecoa até agora ao me dizer certeira: “vamos,vamos”. E fomos em direção ao seu prédio. Naqueles últimos metros, outra revelação bombástica.

 

– “Morei cinco anos debaixo da terra”, disse D.Eva.
– “Debaixo da terra? Como assim?”
“Sim, saía apenas para procurar comida à noite.Tempos difíceis os da Segunda Guerra”!

 

Paro minha caminhada para recuperar o fôlego e enxugar as lágrimas. Dona Eva prossegue e já sinaliza ao porteiro sua chegada…

 

“Por favor, D. Eva, deixe-me levar até o elevador”, pedi a ela.

 

Neste instante, percebo que meu desafio maior aproximava-se. A entrada escolhida pela senhora foi a da garagem com uma longa e íngreme rampa. A senhora, tal qual uma jovem e habilidosa “skatista”, desliza em direção à garagem, enquanto prendo minha respiração. Não esquecerei o sorriso largo da senhora ao voltar-se para trás e olhar-me com ar de vitória absoluta e total.

 

Despedimos-nos no térreo, não sem antes receber inúmeras, incontáveis e maravilhosas bênçãos.

 

Perdi a direção, o rumo e o motivo pelo qual sai naquela manhã. Nada mais importava, mediante a beleza da lição de força e de vida que recebi. Perguntava-me como não a havia visto antes? Somos vizinhas próximas e há mais de 20 anos! São Paulo nos acolheu generosamente. Minha família emigrada da Grécia, fugindo da mesma guerra e a senhora da Romênia.

 

D.Eva, que benção tê-la encontrado naquele dia! Nossas ruas se cruzado! Nossas vidas se encontrado aqui em São Paulo!

 

PS: Eva tem origem no hebraico :”Hawwá”,que quer dizer ” Cheia de vida”.

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