Conte Sua História de São Paulo 466: de pé descalço e a caminho da padaria, em Moema

 

Sérgio Slak
Ouvinte da CBN

 

 

Moro em Moema, na zona Oeste. Nasci em São Paulo. Estou com 61 anos. Tenho muito orgulho em dizer que sou paulistano. Com sete anos, vivia no bairro de Vila Ema, na zona Leste. Com a morte de meu pai nos mudamos para a casa de meus avóes paternos.

 

Era uma casa térrea em um terreno de 400 metros quadrados. Não era de luxo. Era ampla, com quartos grandes, cozinha espaçosa, e uma sala deliciosa de se ficar. O quintal era um sonho. Tinha jabuticabeira e dois pés de figo. Tinha também uma parreira de uva. Todo ano se colhia as frutas nas próprias árvores.

 

Meu avô era aposentado e havia vários canteiros no qual ele plantava verduras, e regava todos os dias com a água que retirava do poço. Moema era muito diferente naquela época. Ruas com pouco movimento. Todas eram de mão dupla. Alguns terrenos eram baldios. Então, a gente jogava bola por ali mesmo. Costumava andar descalços e seguia a pé sozinho até a escola.

 

Em 1974, meu avô vendeu a casa para uma construtora e com a parte da herança da minha mãe mudamos para um sobradinho de vila, no próprio bairro. Logo muitos prédios começaram a ser construídos. Foi inaugurado o Shopping Ibirapuera. E de repente Moema se transformou.

 

As ruas deixaram de ser tranquilas. O trânsito aumentou. A maioria virou mão única. Hoje, tempos prédios de alto padrão e das poucas casas que restaram a maioria é usada para fins comerciais. Algumas resistiram. Como é o caso da minha.

 

Apesar das mudanças, sigo muito feliz em morar aqui. Ao passear pelas calçadas, fecho os olhos e revivo minha infância. Me sinto de pés descalços a caminho da padaria onde comprava pão e leite. No trajeto da escola, que ficava a mais de um quilômetro dali. E brincando no quintal da casa do meu avô.

 

Sérgio Slak é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: meu encontro com D. Eva em Moema

 

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira
Ouvinte da CBN

 

 

Olá D.Eva!

 

Espero que minha carta a encontre cheia de vida como quando a conheci. Nossas vidas se cruzaram dias atrás. Foi no cruzamento de duas movimentadas avenidas de nosso bairro, Moema. Preparava-me para atravessar quando a vi do outro lado ensaiando o mesmo. Se tudo desse certo, iríamos nos encontrar no cruzamento das ruas. Se tudo desse certo…

 

Num “flash”um temor me assola: suas frágeis pernas e braços, carregando um carrinho de feira abarrotado de suprimentos, fardos de água em uma mão e uma garrafa na outra, teriam a agilidade necessária para a empreitada? Movida pelo medo de que algum carro a atingisse, saí em sua direção o mais rápido que pude. Postei-me ao seu lado para juntas atravessarmos. Ofereci ajuda e a senhora, um tanto ofegante, agradeceu-me e aceitou. Apenas para ajudar na travessia, não me permitiu segurar o carrinho.

 

Sãs e salvas após atravessarmos, comento sobre o peso que carregava, reitero meu pedido para puxar o carrinho e acompanhá-la até seu destino. A senhora aceita, mas me entrega apenas a garrafa de água.

 

Percebo um forte sotaque e ponho-me a conversar. Caminhamos juntas dois quarteirões, suficientes para saber que D.Eva, com 90 anos e um 1,5 metro de altura, imigrante romena, esta mesmo é preocupada comigo: ”cuidado esquina mais perigosa que a anterior”, alertava-me.

 

D.Eva, como me esquecer de seu olhar atento para os dois lados? E de sua voz? Ecoa até agora ao me dizer certeira: “vamos,vamos”. E fomos em direção ao seu prédio. Naqueles últimos metros, outra revelação bombástica.

 

– “Morei cinco anos debaixo da terra”, disse D.Eva.
– “Debaixo da terra? Como assim?”
“Sim, saía apenas para procurar comida à noite.Tempos difíceis os da Segunda Guerra”!

 

Paro minha caminhada para recuperar o fôlego e enxugar as lágrimas. Dona Eva prossegue e já sinaliza ao porteiro sua chegada…

 

“Por favor, D. Eva, deixe-me levar até o elevador”, pedi a ela.

 

Neste instante, percebo que meu desafio maior aproximava-se. A entrada escolhida pela senhora foi a da garagem com uma longa e íngreme rampa. A senhora, tal qual uma jovem e habilidosa “skatista”, desliza em direção à garagem, enquanto prendo minha respiração. Não esquecerei o sorriso largo da senhora ao voltar-se para trás e olhar-me com ar de vitória absoluta e total.

 

Despedimos-nos no térreo, não sem antes receber inúmeras, incontáveis e maravilhosas bênçãos.

 

Perdi a direção, o rumo e o motivo pelo qual sai naquela manhã. Nada mais importava, mediante a beleza da lição de força e de vida que recebi. Perguntava-me como não a havia visto antes? Somos vizinhas próximas e há mais de 20 anos! São Paulo nos acolheu generosamente. Minha família emigrada da Grécia, fugindo da mesma guerra e a senhora da Romênia.

 

D.Eva, que benção tê-la encontrado naquele dia! Nossas ruas se cruzado! Nossas vidas se encontrado aqui em São Paulo!

 

PS: Eva tem origem no hebraico :”Hawwá”,que quer dizer ” Cheia de vida”.

Conte Sua História de SP 460: a sapataria do seu Otacílio

 

Por Marina Zarvos Ramos de Oliveira

 

 

Caro Sr. Otacílio

 

Dias destes fui surpreendida com o anúncio de “aluga-se” afixado na porta da sapataria, na avenida dos Jamaris, 442, em Moema. Confesso que fiquei atônita, sem chão. Como assim, aluga-se? E o “seu Tacílio” – maneira carinhosa como todos o tratavam? Suspendi a respiração e um pensamento funesto atravessou-me como um raio. Tentava entender aquele vazio quando passa por mim uma amiga:

 

– Você sabe o que aconteceu com seu Tacílio? pergunto um tanto temerosa.
– Ele parou de trabalhar, responde sem titubear.

 

Trocamos algumas poucas palavras, pois o tempo na cidade grande não nos permite aprofundar e estreitar os laços, infelizmente. Prossegui meu caminho num misto de sentimentos, enquanto segurava a sacolinha com meus sapatos avariados. E agora?Quem cuidará deles? Murmurava e andava a esmo. Tentava me convencer de que Moema tem comércio farto, que não seria difícil reparar meus sapatos. Mas não era apenas o profissional que conserta sapatos que perdíamos. Perdíamos, perdemos, o nosso querido Tacílio… Pessoa ímpar, artesão no ofício de consertar calçados. Pessoa doce, meiga, serena, de sorriso fácil com os lábios e com os olhos.

 

Estabeleceu-se há 50 anos em Moema e desde sempre cuidou com extrema competência de sua clientela – traduzida nas orientações de como cuidar dos sapatos, no cumprimento da data de entrega, na habilidade em coser, engraxar, lustrar, colar, reformar e reparar tudo que fosse necessário para que saíssemos com os velhos “novos sapatos” reluzentes.
Cuidou também de seu espaço, pintava a pequena sapataria com esmero e organizava as prateleiras que o acompanhavam há cinco décadas, no mínimo. Cuidou como poucos da natureza, plantou as duas frondosas árvores que mais pareciam colunas de um templo, que adornavam a entrada de seu singelo negócio.

 

Diariamente, exceto às segundas, lá estava ele detrás do balcão, sentado em seu banquinho, a martelar e polir. Por volta de 11 horas era possível sentir o aroma de tempero caseiro. Ele abria a marmita e fazia a refeição ali mesmo, altar em que celebrava a vida com seu ofício.

 

Às cinco da tarde, outro aroma. Perfume agradável misturado às graxas e tintas. Era “seu Tácilio” a se preparar para ir embora. Perfumava-se, aprumava-se e baixava a pesada porta. Foi assim desde que aqui cheguei, menina ainda. Lá se vão 46 anos.
Esse ilustre vizinho acompanhou de seu banquinho toda a transformação do bairro. Lugar pacato e rico em brejos, que atraía cavalos em busca de saciar a sede; lugar da algazarra e do pouso de pássaros, nos primórdios. Anos depois, lugar dos grandes “pássaros de aço” com sua algazarra ensurdecedora noite adentro, em pousos, vez ou outra, catastróficos. Acompanhou a pavimentação das ruas, a chegada do Shopping, o ”boom’ imobiliário, o ”point” das chopperias e, recentemente, do metrô, nos subterrâneos da mesma avenida Ibirapuera, em que outrora correra o bonde. Sempre de seu banquinho.

 

Nos últimos tempos “seu Tacílio“ sofreu alguns duros golpes, eu imagino. Ao menos um ele confidenciou. Por ocasião das grandes chuvas do início do ano, uma das árvores plantadas por ele, desabou. Quem testemunhava seu zelo e amor por elas solidarizou-se. Ele, num misto de tristeza profunda e de impotência, frente às forças da natureza e do descaso público, disse: “elas estavam com cupim, mas a prefeitura nada fez .. Se ela tivesse caído para o lado de cá e não o de lá, teria me matado na hora. Meu telhadinho não teria agüentado.

 

Sim, sim. Agora compreendo o senhor ter baixado a porta e devolvido o espaço ao senhoril. Foi descansar, saborear as refeições ao lado das pessoas queridas, perfumar-se para elas, sorrir para elas e ser cuidado por elas. Teria sido muito triste se a “árvore–coluna” tivesse caído para o lado de cá. Muito triste. Cuidemos, então, para que a outra não desabe sobre nós todos, que sequer a olhamos muitas das vezes, na correria e no sem-tempo do cotidiano. Que permaneça como um símbolo. Símbolo da passagem de alguém como o Seu Tacílio para nos inspirar e nos lembrar de que a beleza e a simplicidade caminham juntas (com sapatos lustrados), quando desejamos encontrar a felicidade.

 

O senhor fechou a velha porta e abriu novos caminhos, fique com a certeza de ter feito o seu melhor sempre. Sábia decisão. Parabéns! O senhor saiu de nosso convívio, sem aviso, mansa e delicadamente. Saiu tão silenciosamente como quando chegou. Só quem passava por ali, viu o caminhão retirando seus pertences e o último baixar da porta. Privilegiados, que puderam abraçá-lo e despedir-se.

 

Desejo que, continue a ser muito feliz e que a vida nos promova um reencontro. Sua ausência o tornará mais presente em nosso bairro, em nossa memória e em nosso coração.

 

Um abraço carinhoso, senhor Otacílio

 

Marina Zarvos Ramos de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Seu Otacílio, também. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Vaga ‘solta’ causa confusão na Ciclofaixa

 

Ciclofaixa de Moema

Enfurecido, o homem de cabelo e barba brancos vociferava em direção ao fiscal da CET. Primeiro, com os braços abanando pela janela do carro, para, em seguida, sem perder a maestria dos gestos violentos, se postar ao lado de um Marronzinho que parecia intimidado. A voz continuava alta, pois a ideia era mesmo chamar atenção dos poucos que passavam em volta para o sistema de estacionamento implantado ao lado da Ciclofaixa, nas avenidas Pavão e Rouxinol, em Moema, zona sul de São Paulo. Para se livrar do reclamante ou por também estar convencido do erro da CET, o fiscal repetia, constrangido: “Eu sei, eu sei”.

Assisti ao espetáculo, nesse sábado, quando fui (de carro) até Moema apenas para ver como havia ficado a ciclofaixa, pois até então havia me baseado nas informações passadas por diferentes fontes. A ausência de ciclistas no trajeto foi uma das coisas que me incomodaram, talvez justificada por estarmos em meio a um feriado. Verdade que a ciclofaixa de lazer que funciona aos domingos e feriados também começou com baixa adesão para chegar aos milhares de ciclistas.

Fica evidente que boa parte das lojas no trajeto não sofrerá prejuízo pela redução de vagas de estacionamento. A maioria ou tem calçada rebaixada e frente recuada, permitindo que os clientes estacionem diante do comércio, ou tem manobrista. Não identifiquei nenhuma das tais lojas que fecharam, conforme denunciam os moradores e comerciantes que estão descontentes com a ciclofaixa.

O mais grave são as vagas ao lado da ciclofaixa criadas para amenizar o impacto provocado pela proibição de estacionar em boa parte do trajeto. Os carros parecem ficar soltos no meio da rua e, como a sinalização não é clara, o motorista que vem dirigindo seu automóvel na faixa de rolamento de repente se depara com um outro parado a sua frente, sem se dar conta de que está estacionado e não aguardando o trânsito andar. O risco de acidente aumenta. E potencializa as reclamações como a do senhor que tentava ganhar a briga no grito.

Não fiquei até o fim do bate-boca, pois tinha coisa mais interessante para fazer em um sábado à tarde. Erros na implantação, porém, precisam ser consertados rapidamente pela CET sob o risco de reforçar o coro dos indignados com a ciclofaixa, a não ser que o objetivo seja o de provar que a ciclofaixa não dará certo em São Paulo – no que não acredito.

Pedale em Moema antes que a ciclofaixa acabe

 

Ciclofaixa de Moema em foto do Blog O Bicicreteiro, de André Pasqualini

Uma ação judicial deve ser apresentada para forçar a CET a acabar com a ciclofaixa implantada há menos de uma semana, em Moema, zona sul de São Paulo. São comerciantes e moradores que compartilham da ideia de que o melhor para uma cidade é o carro, e iniciaram coleta de assinatura pedindo o fim da faixa exclusiva de bicicletas. Entendem que o trânsito ficará mais complicado, os amigos e parentes não terão onde estacionar e os clientes vão comprar em outra freguesia. Ganhou destaque a afirmação de uma comerciante assustada com a possibilidade de perder consumidoras, senhoras milionárias que não conseguirão pedalar de salto alto. Conseguem se quiserem, mas não precisam, pois podem estacionar seus carros um quarteirão ao lado e caminhar até a loja como fazem nos shopping centers, por exemplo.

Os ciclistas contra-atacaram e abriram petição pública com o objetivo de mostrar o apoio da população à ciclofaixa de Moema, além disso vão colocar suas roupas mais bacanas e seus sapatos de salto alto e promover uma bicicletada chic, batizada “Milionárias de Bike”, no dia 19 de novembro, sábado, a partir da uma da tarde (atenção para a data, pois o evento foi adiado). Querem mostrar que a bicicleta não afasta, agrega. Não congestiona, faz fluir. Não desvaloriza, ao contrário, pois Moema pode se transformar em referência para todas as cidades brasileiras como “um bairro alinhado com a mobilidade urbana em favor de pessoas”, como ocorre com Londres, Paris e Nova Iorque.


Leia o post completo no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

A foto deste post é da Ciclofaixa de Moema e foi tirada por André Pasqualini do Blog O Bicicreteiro

A ciclofaixa de Moema e o respeito ao espaço público

 

Começo por esclarecer que não fui até lá. Escrevo baseado nas reportagens, comentários em blogs e no Twitter e no que conhecemos das pessoas e hábitos de São Paulo. Houve muita confusão no primeiro dia de funcionamento da ciclofaixa no bairro de Moema, zona oeste da capital, com carros estacionados em local proibido ou parados em locais permitidos mas injustificáveis, motoristas e ciclistas desorientados, sinalização atrapalhada e organização precária. Todos aspectos que podem ser facilmente resolvidos com ajustes simples e um pouco mais de tempo. Há, porém, questões bem mais complexas que a cidade ainda precisará encarar, a começar pela cultura em favor do automóvel que nos domina. Mais do que isso: há um egoísmo que nos pauta e cega, impedindo a reflexão sobre a necessidade do convívio entre os diferentes e o entendimento de que o espaço público é do público, portanto de todos. Comentários publicados neste blog deixam evidente o tamanho do problema (leia o post “por que punir Moema com ciclovia?”).

Muitos de nós ainda imaginamos que o estacionamento diante de nossas casas e prédios é área privada na qual apenas nós ou nossos autorizados podem ocupar. Ai de quem se atreve parar ali, corre o risco de ver seu carro alvejado. Somos os mesmos que reclamamos, porém, quando restaurantes e bares agem assim diante de seus estabelecimentos para privilegiar os clientes.

Estamos pouco nos lixando se as estações de metrô ou pontos de ônibus são distantes e mal localizados, mas nos incomoda profundamente se temos de deixar nossos carros uma quadra atrás. Curioso é que em shopping podemos subir vários andares, percorrer enormes corredores e nos perder em labirintos de lojas até encontrar a nossa favorita. E pagamos caro pela vaga, sem reclamar.

O que mais me incomoda, contudo, é a dificuldade das pessoas em dialogar, conversar de forma civilizada, sem ofender, dando tempo para ouvir o contraditório, tendo chance de refletir sobre o que o outro pensa, quem sabe até repensar. Seja como for, a faixa pintada no piso e as bicicletas desenhadas no asfalto são sinais de que alguma coisa começa a mudar nesta cidade. A lentas pedaladas, mas estão mudando para melhor.

A foto deste post é do site Vá de Bike, que fez avaliação da ciclofaixa de Moema e apontou alguns problemas na semana que antecedeu a inauguração do sistema.

Conte Sua História de SP: Meu pai do Ipiranga

 

Mayra Moya é filha do seu Antonio que nasceu em São Paulo no início do século passado. A história dele está diretamente ligada a da cidade e a forma como os bairros se desenvolveram, em especial o Ipiranga:


Ouça a história de Antonio Moya sonorizado por Cláudio Antonio

Foi em 13 de outubro de 1920 que cheguei a São Paulo. Recebi o nome do meu pai e avô: Antonio Moya Carlete. Meus pais, imigrantes, recebiam o primeiro de cinco filhos, no bairro do Ipiranga.

O pai era espanhol, de Calasparra/Mursia; minha mãe, de família italiana, de Venezia Giulia. Se conheceram e se casaram em S. Paulo.

Nós moramos durante muitos anos na Rua Almirante Lobo, no bairro do Ipiranga. Pude acompanhar o crescimento do bairro e da cidade através da construção de casarões imponentes, das muitas linhas de bonde e da chegada de imigrantes.

Minha infância e adolescência foram muito felizes. Meus tios, irmãos do meu pai, moravam todos vizinhos. Espanhol, italiano e português se misturavam em nosso vocabulário, mas não tínhamos problemas em nos comunicar com toda família e amigos.

Lembro do Grupo Escolar São José, onde fiz o curso primário. Ficava perto do Museu da Independência e o longo trajeto era sempre uma aventura com primos e muitos amigos.

Quando eu tinha uns 10 anos, lembro que as boiadas passavam 3 vezes por semana, vindas da Estação de Trem, pela Rua do Manifesto, subindo a Almirante Lobo em direção ao matadouro na Vila Mariana. Era perigoso e tínhamos que ficar dentro de casa pois sempre havia a possibilidade de um estouro da boiada, mas a gente se divertia.

Na Revolução de 1932, anunciavam nas rádios que os paulistas estavam vencendo. No entanto, as tropas oficiais passaram em frente de casa para tomar o palácio do Governo. Como não conheciam a cidade, ficavam pedindo informações como chegar ao centro de SP. A gente falava que era só seguir a linha do bonde.

Na década de 1940 fiz curso de pilotagem na Escola Santos Dumont e no Campo de Marte, enquanto concluia a Contabilidade. Cheguei a ser convocado para a guerra, mas enquanto estava esperando para viajar, a guerra acabou.

Me casei em 1945 e em seguida fui morar na R. Agostinho Gomes, também no Ipiranga. E foi nessa casa, na década de 1950, que nasceram meus três filhos.

Em 1960 mudamos para Santos, onde ficamos por cerca de 10 anos.

Voltamos para cá, no início dos anos 70, desta vez para o bairro de Moema. Na época era um lugar tranqüilo e pouco movimentado. Quando chegamos, na Av. Ibirapuera ainda passava o bonde que vinha da Vila Mariana e ia até Sto. Amaro. A Av. dos Bandeirantes era só um projeto… As avenidas Rubem Berta e 23 de Maio estavam em construção. Os comentários eram que não havia tantos carros para tantas avenidas…

Realmente, na década de 1970 era muito fácil e tranquilo circular por essas avenidas e pelo bairro.

Ficamos por cerca de dois anos na Av. Sabia, bem perto do Largo de Moema e depois construí uma casa, na Av. dos Carinás, onde estamos até hoje.

Chegamos antes do Shopping Ibirapuera e vimos ele ser construído e mudar as características do bairro.

O bairro cresceu de uma maneira incrível.

Foi aqui que minha esposa e eu assistimos aos nossos filhos se formarem, casarem e os netos começarem a chegar. São seis netos e um bisneto.

Infelizmente, depois de 64 anos juntos, minha esposa nos deixou. Partiu em 2009, deixando muitas saudades e boas lembranças.

Antonio Moya Carlete é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa enviando seu texto ou marcando uma entrevista no Museu da Pessoa.

“Por que punir Moema com ciclovia ?”

 

bicicleta rua

A pergunta que abre este post foi feita pela presidente da associação dos moradores de Moema, Lygia Horta, ao fim do debate sobre o projeto de criação de ciclovias no bairro da zona sul de São Paulo, promovido pelo CBN SP. Do outro lado, estava André Pasqualini, do Instituto CicloBR, autor da proposta que ganha forma na Companhia de Engenharia de Tráfego.

O diálogo entre um cicloativista e uma tradicional moradora de Moema expôs com clareza e sem dissimulação pontos de vista antagônicos e representativos. Confesso que fiquei chocado com algumas afirmações (e perguntas) que foram feitas, e ao mesmo tempo satisfeito. Em meio a um debate eleitoral no qual candidatos escondem suas verdadeiras razões e se expõem apenas após o crivo dos homens do marketing, a sinceridade dos entrevistados é bem-vinda.


Ouça o debate entre André Pasqualini (ClicloBR) e Lygia Horta (Associação dos Moradores e Amigos de Moema), no CBN SP

Ouça a notícia sobre o projeto que cria ciclofaixas em Moema

Discordo da ideia de que a criação de ciclofaixas assim como a formação de pistas segregadas para transporte público possam prejudicar a qualidade de vida de uma região – desde que feitas dentro de parâmetros razoáveis, em especial quando me refiro aos corredores de ônibus. Mas a cidade é plural e abriga visões completamente diferentes, por isso viabilizar a convivência dos contrários é um desafio para a autoridade pública. E para a própria sociedade.

Tem-se de pesar os interesses em jogo, os privilégios propostos e os conceitos que movem cada grupo social deste enorme condomínio em que vivemos. E decidir em favor da cidade.

Moema vem sofrendo transformações desde a criação da ciclofaixa de lazer que liga alguns parques, no domingo pela manhã. No fim de semana, aumentou a circulação de bicicletas internamente. Não apenas de pessoas que “vêm de fora”, mas de moradores da região que passaram a experimentar este modelo de transporte. Não por acaso é alvo desta iniciativa em estudo pela prefeitura.

Respeitando as opiniões contrárias e sempre disposto a abrir espaço para o debate público, sou a favor de que a cidade seja riscada de ciclofaixas em todos os cantos e bairros. Moema inclusive.

Conte Sua História: Retalhos de minha infância

 

Márcia OvandoA invasão da rua 25 de Março ainda não havia ocorrido, apesar de as lojas de confecção já estarem lá, quando Márcia Ovando se mudou com os pais e as irmãos – o irmão mais novo ainda não havia nascido. Fez amigos e conhecidos, muitos dos quais continuaram a visitá-la quando deixou o apartamento da 25 por uma casa em Moema, outro bairro que tinha cenário distante daquele que conhecemos, atualmente.

Márcia foi personagem do Conte Sua História de São Paulo quando contou lembranças dos tempos de meninas. No depoimento ao Museu da Pessoa, descreveu com emoção a prisão do pai, vítima do regime militar, e com alegria a vivência com famosas personalidades da televisão.

Ouça o depoimento de Márcia Ovando, sonorizado por Cláudio Antonio

Você também pode participar. Agende uma entrevista pelo telefone 2144-7150 ou no site do Museu da Pessoa e Conte Sua História de São Paulo.