O (meu) sonho olímpico

 

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Tocha olímpica em foto de Rio2016/Fernando Soutello

 

Se o jornalismo sempre foi meu destino, por alguns anos tive a ilusão de ludibriá-lo como professor de educação física. Cheguei a passar na UFRGS – a federal do Rio Grande do Sul -, depois de quase tropeçar no teste físico que me obrigava a arremessar pelota. Fiz algumas cadeiras e alguns semestres antes de desistir da faculdade, especialmente devido as aulas de anatomia, que me levavam a dissecar cadáveres e explicar para que servia cada um daqueles músculos que acabara de mutilar. O cheiro de formol foi mais forte que o meu desejo de concluir o curso

 

A faculdade não terminei, mas ensinei crianças a jogar basquete, entretive alunos de escola pública e aprendi muito em um projeto com meninos e meninas especiais. O esporte sempre fez parte da minha vida, especialmente na infância e adolescência quando joguei futebol e basquete – este último por 13 anos. Portanto, no jornalismo era esse o tema que me seduzia e a primeira oportunidade de estágio que surgiu, em 1984, foi para produzir o programa “Esporte Amador na Guaíba”, único dedicado ao tema no rádio gaúcho. Um sonho.

 

Minha primeira experiência foi muito rica, a começar pelo mentor que tive: Alex Pussieldi, hoje comentarista de natação na SportTV. Graças ao programa, fiz minha primeira viagem “internacional”, quando vim a São Paulo para cobrir o I Meeting Internacional de Atletismo, em 1985, que tinha Joaquim Cruz e Zequinha Barbosa como atrações. Poucos anos depois, a força do futebol me fez migrar para os gramados, quando trabalhei como repórter, até ser levado para o departamento de jornalismo, de onde nunca mais saí (minto: em 2000/2001 tive rápida experiência de narrador de futebol e tênis, na RedeTV!).

 

Independentemente do que tenha acontecido no restante da carreira, o esporte sempre me atraiu e me emocionou. A história de superação dos atletas, as vitórias alcançadas nos segundos finais e as derrotas milimétricas me sensibilizam a ponto de chorar ou vibrar e, às vezes, chorar e vibrar ao mesmo tempo.

 

Alguém haverá de dizer que atletas, equipes, modalidades e competições estão a serviço de interesses econômicos e hegemônicos. Resumir o esporte a essas questões, porém, é desmerecer o esforço de cada ser humano envolvido na prática esportiva. É não compreender o poder de transformação que o esporte pode provocar nas mais diversas comunidades.

 

Imagino que você, caro e raro leitor deste blog, é um dos muitos brasileiros incomodados com os desmandos das autoridades que organizam os Jogos Olímpicos no Rio. É provável que preferisse ver o dinheiro investido no evento voltado às áreas mais necessitadas no Brasil. E hoje faça comentários indignados ou mau humorados com cada fato negativo que aparece no noticiário.

 

Espero também nunca perder o poder de me indignar com a injustiça, mas não quero que isto seja suficiente para tirar o brilho nos olhos de todas às vezes que vejo o feito desses grandes nomes do esporte. Quero me dar o direito de torcer pelos atletas brasileiros, muitos dos quais campeões por sua coragem e persistência. Gente vencedora desde o início, pois acreditou que poderia driblar o destino que lhe haviam traçado.

 

Espero muito pelo início dos Jogos Olímpicos, ciente de que o ouro não ofuscará os erros, e certo de que cada atleta que ali chegou merece nossa torcida. A minha, com certeza, eles terão, pois levam à frente o sonho que todo atleta tem de um dia disputar uma Olimpíada.

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