Conte Sua História de SP: a vida devolveu à minha boneca os seus pés

 

Por Elza Conte

 

 

Faz mais de 60 anos e ainda parece que sinto aquela alegria por estar chegando a hora de encontrar minhas amigas para brincarmos nas calçadas da Conselheiro Lafayette. Todos os dias treinávamos religiosamente pulos diferentes de corda. Ahhhh as brincadeiras de roda!!!! Amarelinha? às vezes deixávamos os meninos participarem….tão arrelientos, com aquelas bolinhas de gude tão sem graça, e aquelas figurinhas de jogadores de futebol, que na brincadeira de Pif e Paf, faziam tanto barulho, que poderiam acordar nossas bonequinhas, dormindo silenciosamente nos seus carrinhos, enquanto brincávamos e não podíamos segurá-las…

 

Como era costume na época, os brinquedos eram muito reverenciados pelas crianças. A boneca do ano que estava sempre primorosamente vestida era o único presente, ganho no Natal anterior, evidentemente fruto de bom comportamento… (cá entre nós, meu pai era um ser muito generoso, mesmo com alguns desvios de comportamento, ele dava um jeito de arranjar alguma desculpa, para pelo menos no natal, ganharmos o nosso brinquedinho tão esperado)….

 

Bem, na minha vida de várias recordações lindas, havia meu irmão mais velho, arteiro de marca maior, me escolheu com vítima preferida… Ele adorava me ver chorar… E eu chorava mesmo…o que para ele certamente, era uma diversão…

 

Certo dia, quando entro no meu quarto, a bonequinha do ano, estava pendurada no lustre, onde ele houvera treinado boxe com ela. Ao ver aquela cena grotesca, que para mim, digna de todos os horrores, quase desmaiei. Ao salvar minha filhinha… ela perdeu os pés…. Meu Deus! E agora? Como explicar esta situação para minhas amigas, uma delas a madrinha da boneca?

 

O batizado acabara de acontecer. Quem foi o padre? Logicamente meu irmão mais velho que fazia o papel com perfeição. A missa foi em latim, imagine só. Que batizados deliciosos. Após a cerimônia, era servido um guaraná (excepcionalmente permitido para a cerimônia) em minúsculas tacinhas, de joguinhos infantis, e docinhos da padaria cortados em quatro.

 

Interessante, agora lembrei que havia apenas madrinhas e não padrinhos das nossas bonecas. Mas que feministas éramos? Na festinha o único menino que participava era o Padre e meu irmão mais novo, como seu possante carrinho. Ressalte-se que na época, tomávamos refrigerante, um copo, apenas no almoço de domingo.

 

No dia seguinte, logo ao acordar, minha mãe havia conseguido, não sei como, uma mantinha, para cobrir a pobre boneca sem os pés. Quando ela me entregou a mantinha para cobrir a boneca, disse-me a frase mais importante que ouvi em toda a minha vida, e para a qual eu delego a importância que dou ao ser humano com que convivo:

 

Filha, uma mãe ama seus filhos e os seres mais humildes nesta vida, com ou sem os pés…

 

Eu achei aquela solução na época divina. Eu poderia mostrar para todas as minhas amigas a minha boneca e com uma manta.

 

Quando saí para a rua, uma chuva de papéis prateados homenageou a mim e minha bonequinha. Disseram-me que era a comemoração dos 400 anos de São Paulo….Lógico não acreditei….A festa era minha.

 

Esta história foi contada inúmeras vezes dentro do meu círculo pessoal de amizades…. E todos acham sempre muita graça do comportamento de meu irmão, o que sem dúvida marca com algo importante em minha vida.

 

Muitos anos depois, e sabendo da história da boneca, um grande amigo meu quis dar-me um presente: conseguiu uma cópia da fotografia em meu computador e encomendou um quadro para um pintor, que faz reproduções em tela de fotografias.

 

No dia em que este meu amigo veio me entregar o presente, muito sem graça, disse-me:

 

– Elza, eu queria lhe dar este quadro de presente, mas o pintor achou muito estranho a boneca sem pés e os pintou.

 

Pela segunda vez na vida, eu chorei por causa dta boneca:

 

– A vida devolveu à minha boneca os seus pés…..

 

Minha doce saudade do meu irmão mais velho, ser humano maravilhoso que hoje vive entre as estrelas.

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