Conte Sua História de São Paulo 463: a tristeza do palhaço, no Butantã

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

Recordo que na minha infância passada no Jardim São Domingos, no Butantã, zona Oeste, era comum periodicamente instalarem-se circos e parques nos terrenos baldios existentes em abundância naqueles anos de 1960. Região ainda em formação, distante do centro, era praticamente um descampado com poucas residências e um comércio capenga, formado por uma única avenida que abrigava a padaria, a farmácia do Zé, o salão de barbeiro do João, o Ligeirinho, o Armazém dos Gregos, um açougue, e mais de uma dezena de botecos, desses onde o estoque principal é variado, variado nos tipos de cachaças, e ainda as mesas de bilhar.

 

Se o luxo e as chamadas coisas boas de consumo não eram acessíveis para nós garotos da periferia, a felicidade era farta. Tudo nos contentava: o jogo de bola no campinho ao lado de casa, a pipa com a armação de varetas de bambu, o carrinho de rolimã, o jogo de taco, a bolinha-de-gude, o peão e outras brincadeiras de custo zero.

 

O circo me fascinava, cuja paixão perdura até hoje. Lembro-me que freqüentemente se instalavam por vezes parques de diversões com brinquedos limitados, em precárias condições de segurança, e por outras alguns circos mambembes.

 

Dos parques tenho na memória as falas do serviço de alto falantes que repetidamente dava a nota:

 

-“Venham se divertir e passar horas agradáveis no Parque de Diversões Flor da Serra”

 

– “Agora, no intervalo musical uma canção que alguém presente no recinto oferece à garota trajando blusa cor de rosa e saia preta como prova de admiração.”

 

Com relação ao circo, além da fascinação, está vivo na memória fato ocorrido num domingo à tarde, quando o Circo e Teatro Jóia, do palhaço Rebian, estreava as novas lonas impermeabilizadas com um produto inflamável.

 

O locutor Ditinho anunciava as atrações:

 

“Grande tarde hoje no circo Jóia. No picadeiro: Rebian, o palhaço que fez rir mais de 5 mil crianças no ginásio do Ibirapuera, e no palco o astro do rádio e da televisão, o ídolo da mini guarda, Ed Carlos. Quem não vier o que é? É goiaba!”

 

Casa cheia, mas naquela tarde não pude ir, não tinha como pagar. O espetáculo se desenrolava com atrações variadas antecedendo o ídolo que à época ainda fazia sucesso. De repente gritaria geral:

 

Fogo! Fogo!

 

O caos é instalado. Do campinho onde jogávamos futebol, víamos a fumaça cinza se elevando, corremos em direção ao circo. Na contramão encontrei com o estimado amigo Eugênio, ainda mais branco em desabalada carreira rua abaixo. Quando nos viu parou para dizer:

 

Pegou fogo no circo.

 

Os bombeiros não chegaram a tempo de apagar o incêndio. Sobrou apenas o mastro central. Dentre todos os espetáculos que eu presencie em um circo aquele foi o que mais me marcou: no centro do picadeiro, Rebian abraçado à mulher grávida, com os filhos ao redor, choravam desolados. Nunca mais me esqueci de Rebian e sua família encenando a tragédia da vida real naquele picadeiro, em meio às cinzas que outrora proporcionara tanta alegria.

 

Essa é uma pequena homenagem ao palhaço Rebian, o Carioca, do Circo e Teatro Jóia, que me fez soltar muitas gargalhadas na infância e contestar desde então a frase que diz que “alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo”.

 

É não!

 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.

3 comentários sobre “Conte Sua História de São Paulo 463: a tristeza do palhaço, no Butantã

  1. estou com dificuldades de postar minha história de São Paulo, moro na Zona Leste Vila Matilde a mais de 70 anos, estou postando a história de Vila Matilde visite vilamatildeemfoco.blogspot.com , e também estou no museu da pessoa.net procure por Orlando
    meu e mail odagostinho@yahoo.com.br

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