Conte Sua História de São Paulo: a elegância dos passeios no Centro com carrões americanos, terno e chapéu

 

Por Douglas de Paula e Silva

 

 

Nasci em 1955 na Lapa, na Rua Faustolo. A casa era pequena, existe até hoje, e ficava em frente a uma mercearia, tão comum naquela época. Lá só existia o comércio de rua e alguns poucos magazines, no centro. Morávamos próximo da Praça Cornélia, onde fica a Igreja de São João Vianei, onde meus pais se casaram. Minha avó materna morava na mesma praça. A família de meu pai, de origem italiana, calabresa, morava na Av. Celso Garcia, no Brás.

 

São Paulo era meio europeia. Isso ficava claro quando íamos ao Centro, normalmente de lotação, naqueles carrões pretos americanos da década de 1940, ultra-espaçosos, em que cabiam seis a oito pessoas facilmente.

 

Todos se vestiam muito bem. As mulheres com vestidos rodados, casacos, salto alto; os homens, preferencialmente de paletó e chapéu. A grande maioria, homens e mulheres, fumava muito, independentemente de onde estivessem. A cidade era ordeira, bonita.

 

As minhas lembranças do corte de cabelo na Clipper, loja de departamentos que ficava no Largo Santa Cecília, do Bazar Lord e do Mappin são ainda muito claras.

 

Já tínhamos televisão, algo raro e caro naquela época.

 

Meu pai trabalhava no Aeroclube de São Paulo e tinha como amigo um piloto que ia rotineiramente para os Estados Unidos. Num belo dia, ele apareceu com uma TV usada, que tinha uma tela pequena, num móvel de madeira enorme, onde assistíamos à TV Tupi e à Record. Havia um ponto de ônibus em frente de casa e as pessoas ficavam olhando para dentro da nossa sala maravilhadas.

 

No inicio dos anos 60 meus pais começaram a construir uma casa num bairro distante chamado Planalto Paulista, na Avenida Ceci. Quando íamos para lá, acompanhar a obra, era uma aventura já que a maioria das ruas ainda era de terra, excetuando algumas principais como a Avenida Indianópolis, que ligava o Parque do Ibirapuera à Avenida Jabaquara, onde estava a Igreja de São Judas. O bairro era próximo do Aeroporto de Congonhas e da TV Record, que ficava na Avenida Moreira Guimarães. O caminho natural da zona Oeste para a Sul era pela “Estrada das Boiadas”, atual Avenida Diógenes Ribeiro de Lima ou pela Av.enida Brasil, Henrique Schaumann, Heitor Penteado e Aurélia.

 

Quando mudamos para lá havia poucas casas ainda. Eu, acostumado com um bairro urbano como a Lapa, de repente me vi num lugar que tinha poucas opções. Tínhamos como vizinhos um vila humilde, com casas pequenas, todas juntas num único corredor estreito. Fiz amizade com aquelas crianças que se divertiam muito nas brincadeiras de rua. Algumas delas, com sete, oito anos, já fumavam e meu pai, também fumante inveterado, ficava muito preocupado. Me chamavam de “menino rico” e, apesar da distância social, convivíamos muito bem. Numa das vezes, fui almoçar na casa de um dos meninos da vila e comi torresmo pela primeira vez na minha vida. Era realmente muito bom.

 

Ficamos muito pouco tempo naquela casa. Depois de um temporal nossa casa, que ficava na parte baixa da rua, ficou com dois palmos de água com lama e só me lembro da minha mãe e as vizinhas removendo aquela lama toda. Meu pai ficou desgostoso e vendeu a casa. Nos mudamos para um conjunto de sobradinhos, na Alameda dos Uapés, a duas quadras da onde estávamos, onde minha mãe com 91 anos mora até hoje.

 

 

Os anos 60 se passavam. Algumas outras famílias iniciaram a sua vida no mesmo lugar, com seus filhos na mesma idade que a minha. Todas as famílias se conheciam e aquela rua de terra unia a todos, como uma pequena vila. Fazíamos festas juninas, churrascos e era muito bom e divertido. Alguns anos depois celebramos o asfaltamento da rua que infelizmente colaborou para acabar com aquele contato constante que tínhamos. As casas eram todas abertas, com jardins e muros baixos. As pessoas se sentiam seguras. Meu pai vinha almoçar em casa e sempre deixava o carro na rua com os vidros abertos.

 

Veio a morte de Kennedy, sabia que existia uma “Guerra Fria” e veio Março de 1964. Meu pai, oriundo da Aeronáutica, dizia “agora a bagunça vai acabar” e via na chegada dos militares algo positivo, assim como a grande maioria da classe média paulistana. Isso foi mudando aos poucos, na medida que ele tomava conhecimento das arbitrariedades que ocorriam quando conversava com seus amigos da Aeronáutica.

 

Embora corintiano, devido ao meu pai, não era fanático por futebol. Acompanhava as Copas, como a de 1966, na Inglaterra, onde fomos desclassificados por Portugal, que tinha o genial Eusébio. Só havia a transmissão por rádio e víamos os jogos pela televisão 24 horas depois, gravados em vídeo tape. Milhares de pessoas iam para a Praça da República “assistir” aos jogos num painel eletrônico, cheio de lâmpadas, que mostravam, provavelmente, onde a bola estava com base na locução do rádio. Fiori Gigliotti e Pedro Luiz eram os grandes locutores da época.

 

São Paulo tinha muitos carros americanos e europeus e meu pai os adorava, teve vários deles, todos com mais de 10 anos de uso mas que estavam perfeitos. Eram mais baratos e melhores que os pequenos fuscas e gordinis nacionais.  Dentre esses, ele comprou uma perua Dodge, imensa, daquelas com friso de madeira nas portas, e adorava levar eu, meus amigos, os pais dos meus amigos, para jogar bola no Ibirapuera no gramado entre a Bienal e a Oca. O apelido da perua era “Jabiraca”. Me recordo que num desses domingos, em 1968, ocorreu o primeiro transplante de coração no Brasil onde “João Boiadeiro” foi operado pelo Dr. Euryclides de Jesus Zerbini e meu pai ficou muito orgulhoso. Ele falou para mim: lembre-se sempre disso. João Boiadeiro morreria 28 dias depois mas o feito do Dr. Zerbini teve muita repersussão.

 

Estudava pela manhã e ia para a casa dos meus amigos à tarde; só bastava avisar a minha mãe e não havia motivos para preocupação. Já ganhávamos algum dinheiro vendendo “papagaios”, as “pipas” atuais, alguns gibis já lidos, na feira mais próxima. Já andava de ônibus e adorava ir até a Avenida Paulista visitar Consulados onde conseguia posteres e folhetos que me faziam sonhar com a Europa tão distante. Ia muito também ao Aeroporto de Congonhas, principalmente quando algum time de futebol ia viajar. Tinha autógrafos do Pelé, Rivelino, Ademir da Guia, Coutinho… todos os grandes jogadores da época. Cortava o caminho pelo Córrego da Traição, onde está hoje a Avenida Dos Bandeirantes.

 

A chegada dos anos 70 foi marcada pela Copa no México, a primeira com transmissão ao vivo e em cores, porém poucos conseguiram ver os jogos em cores já que as TV’s eram raras e muito caras. O Brasil ganhou e houve muita comemoração na Avenida Indianópolis, com os carros passando embadeirados, buzinando e com muita gente acompanhando. A chegada da seleção foi apoteótica e aumentou o clima do “milagre brasileiro” o “Ame-o ou Deixe-o”, amparadas pelas músicas ufanistas de Dom e Ravel. Ouvíamos muito rock progressivo e não preciso dizer que abominávamos a dupla

 

Fiz o colegial no Brasílio Machado, na Vila Mariana, em frente ao Museu Lasar Segall. Fiz amigos que mantenho até hoje passados mais de 40 anos. Numa das nossas saídas. Era época de Natal e a decoração da cidade foi feita com estrelas grandes, iluminadas, que a deixaram especial. Depois de um belo cheese-salada, passando em frente ao Obelisco dos Heróis de 32 resolvemos entrar. O guarda permitiu que fossemos até o topo do Obelisco por uma longa escada em caracol. Ao chegarmos no topo havia um pequena escada para uma pequena claraboia. Abrindo-a sentimos um frio na barriga pela altura em que estávamos e pela vista que tínhamos da imensa cidade. Conseguíamos ver a cidade toda, desde o Estádio do Morumbi até o Pico do Jaraguá, fora a imensidão verde do Parque do Ibirapuera e dos Jardins. 

 

Ainda hoje nos lembramos de tudo isso.

 


Douglas de Paula e Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

2 comentários sobre “Conte Sua História de São Paulo: a elegância dos passeios no Centro com carrões americanos, terno e chapéu

  1. É uma história boa. O conteúdo espelha direitinho uma São Paulo do tempo a que refere. E, além disso, está otimamente narrada. E um texto´”grande”, nada cansativo, ao contrário. O que mais dizer? Ora, parabéns!

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