A senhora da esquina dos Jardins

 

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Em meio as ruas arborizadas dos Jardins, região nobre de São Paulo, quase sempre encontro o sinal fechado ao atravessar a rua Groelândia, no caminho para a rádio. Ainda está escuro, pois é finalzinho de madrugada. A frequência com que a cena se repete, nestes sete anos em que apresento o Jornal da CBN, completados no dia 28 de fevereiro, mais do que uma coincidência, reflete a disciplina no acordar, tomar café, pegar o carro e seguir o meu caminho.

 

Logo no início, olhava para os lados e se não percebia nenhum carro prestes a cruzar a via, seguia em frente. Poderia justificar que naquela escuridão, passar o sinal vermelho era transgressão permitida em nome da minha segurança. Mentira! Era em nome da minha pressa mesmo. Que poderia ser provocada pelo desejo de chegar logo ao trabalho ou, provavelmente, por essa mania de estarmos sempre correndo na cidade grande sem saber o motivo.

 

Somente fui perceber a desnecessária e irresponsável transgressão após levar um tremendo susto. Sem nenhum carro se aproximando do cruzamento, resolvi arrancar e fui surpreendido pela presença de uma senhora que estava no meio fio a espera para atravessar a rua.

 

Demonstrou conhecer bem o mal-hábito dos motoristas da madrugada. Ficou parada na calçada, apenas aguardando eu partir, apesar de a faixa de segurança estar à disposição dela. Quando a vi, já não tinha mais como voltar atrás. O carro havia avançado e a culpa do risco assumido, tomado minha consciência.

 

Fiquei olhando a senhora pelo retrovisor querendo pedir desculpas e pensando em voltar para reiniciar a cena. O máximo que consegui foi ser atingido pelo desdém do olhar daquela pedestre. De alguém acostumada a sobreviver diante do desrespeito dos motoristas e resignada com a nossa ignorância.

 

Foi um dia difícil aquele. Um dia que jamais me abandonou. Porque voltei dia após dia a cruzar pela mesma rua. E sempre que o sinal fecha e eu paro o carro, volta a imagem da senhora, com as duas mãos agarradas na alça da sacola pendurada no ombro, cabelo preso em um coque e saia longa quase cobrindo os pés. É como se fosse minha consciência chamando-me à responsabilidade. Alertando-me para o respeito que tenho de ter sempre e em qualquer situação com o outro.

 

Não, não pense que a imagem da senhora é coisa da minha cabeça. É ela mesma que, assim como eu, disciplinada, passa no local sempre no mesmo horário.

 

Nessa sexta-feira, vou encontrá-la pela última vez, pois semana que vem o endereço do meu trabalho vai mudar. Prometo, porém, que nunca mais esquecerei dela. Estará em cada esquina, em cada cruzamento e em cada sinal fechado pelo qual eu passar.

 

Obrigado, aprendi muito com a senhora!

Um comentário sobre “A senhora da esquina dos Jardins

  1. Pois é caro Milton, ainda bem que apreendeu a lição. Vou citar um exemplo oposto: Ano passado estive em Varsóvia, capital da Polônia. Muitas vezes voltava, para o hotel onde estava hospedado, a pé. Várias vezes ficava muito impressionado com o fato que tarde da noite, sem qualquer veículo circulando, as pessoas se dirigiam a faixa de pedestres e ficavam aguardando o sinal verde para a travessia.

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