A perda, a dor e o vazio do luto no jornalismo

 

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Perda, dor, vazio. São sentimentos que surgem com o luto. Com os quais o jornalista precisa negociar diariamente. O noticiário está sempre nos provocando com os assassinatos na porta de bar, os crimes de família e as tragédias anunciadas.

 

Cheguei em São Paulo, em 1991, e minha rotina era contar a história de mortes ocorridas em desabamentos de terra, comuns nas encostas da cidade de São Paulo, nos períodos de fortes chuvas.

 

Na madrugada, era enviado ao cafundó do Judas para fazer imagens de um assassinato. Ao chegar, lá estava o cadáver estendido na calçada. Coberto por páginas de jornais ou um papel alumínio a esconder seu rosto. Imagens feitas, informação apurada, sonora gravada. Segue para a próxima pauta. Para o próximo assassinato. De madrugada nunca encontramos um batismo a registrar. Só crimes e velórios.

 

A morte não saiu das minhas pautas, mesmo quando deixei as ruas — mesmo quando troquei a reportagem pela apresentação de telejornais, em 1993. Foi-se Ayrton Senna, em 1994. E eu falei por horas da comoção do povo brasileiro, em seu velório. Foi-se Mário Covas, e tive de relatar a tristeza de São Paulo, em 2001. No mesmo ano, transmiti ao vivo o terrorismo do “11 de Setembro”, em Nova Iorque. O primeiro baque surgiu quando parei para pensar nas dezenas de passageiros que estavam dentro do avião arremessado contra o World Trade Center. Depois foi a vez de olhar aquelas pessoas jogando-se do alto dos prédios. E quando as torres vieram abaixo, segurei-me para sustentar a voz e ser fiel aos fatos.

 

No entanto, as mortes passam, os cadáveres são esquecidos, alguns sequer registrados. A perda, a dor e o vazio ficam como legado dos parentes das vítimas —- pessoas que talvez nunca mais na vida você encontrará. E a sua vida, a minha vida, segue. Amanhã tem outra pauta para cobrir, outra história para contar. O salário cai na conta, os boletos chegam, a comida tem de estar no prato. Até uma nova tragédia.

 

Em 2016, a mais difícil delas. O acidente com o avião da Chapecoense, sabendo que entre os passageiros estava um amigo querido e respeitado por todos, Deva Pascovicci. Engoli o choro, engasguei com as lágrimas, parei de falar. Tinha vontade de desistir. Mas apresentei o Jornal da CBN até o fim mesmo sabendo qual seria o fim daquela história. Somente à noite, diante da televisão e abraçado em um dos filhos consegui chorar copiosamente como o coração pedia.

 

No jornalismo, tendemos a disfarçar os sentimentos. Construímos um personagem diante do fato triste porque temos a obrigação de retratar a realidade. Sem envolvimento. Frio. Calculista. Capaz de fazer qualquer pergunta por mais óbvia que pareça. Desconfiando sempre. Questionando na primeira oportunidade. Coisa de jornalista.

 

Dan Harris, correspondente da ABC News e âncora de televisão, cobriu guerras e tragédias. Considerava-se forte o suficiente para encarar as mais tristes situações da humanidade. Preocupava-se apenas com a qualidade do material levado ao ar e com a exposição que alcançaria. Brigava pelas melhores pautas, discutia com editores em busca de mais espaço na cobertura. Era obcecado pelo trabalho. Ao fim e ao cabo, voltava para casa sem se importar com a morte dos outros, sem se preocupar com nada nessa vida — a não ser sua ascensão profissional.

 

Um dia, Harris congelou na frente das câmeras. Teve um ataque de pânico diante de milhões de telespectadores. Em rede nacional. Descobriu depois que era como se todos os fantasmas das mortes registradas por ele se realizassem dentro de sua mente ao mesmo tempo. Foi o início de uma profunda reflexão sobre a vida. E o começo de uma odisseia pelo mundo da espiritualidade.

 

Ele conta essa história no livro “10% mais feliz”, publicado pela Sextante, no Brasil, no qual relata como driblou todos os seus preconceitos e medos em relação a meditação. Daniel Goleman, jornalista científico e psicólogo, apresenta-o “como o melhor livro sobre meditação para os não iniciados, os céticos e os curiosos”. Para mim, um livro que ajuda a pensar o jornalismo. A nossa tarefa de contar ao público o que vimos. O que sabemos. A verdade. Doa a quem doer. E entender que muitas dessas verdades vão doer dentro de nós e precisamos administrar esses sentimentos.

 

Harris medita. Eu não consigo. Não tentei. Mas choro. Foi assim quando soube da barragem que soterrou centenas e centenas de pessoas, em Brumadinho. Chorei baixinho na minha casa. Foi assim quando a repórter confirmou a morte de 10 meninos no Ninho do Urubu. Chorei em silêncio diante do microfone e se revelei minha dor foi na voz embargada.

 

Hoje, não estava mais na redação quando soube da morte de Ricardo Boechat.

 

Se um dia chorei por centenas, noutro por dezenas, hoje chorei por um colega. E essa dor é mais dolorida do que todas porque é uma dor muito próxima da gente. De alguém que estava ali ao nosso lado —- um pouco além do dial onde sou sintonizado todas as manhãs, no Jornal da CBN. Alguém que com seu jeito de fazer jornalismo na Band News FM, nos obrigava a pensar que jornalismo estávamos fazendo. Que radiojornalismo estávamos realizando. Que poucas horas atrás, estava diante do microfone fazendo aquilo pelo qual somos apaixonados: jornalismo.

 

E com a morte de Boechat lá vieram novamente aquelas sensações impertinentes do luto: perda, dor, vazio. Sensações que não tenho dúvida serão muito mais fortes no coração da Veruska, sua “doce Veruska”, e dos seis filhos que perderam o pai — o cara que a gente pode contar naquela hora em que pinta um dilema na nossa vida, naquele momento de felicidade que precisa ser compartilhado ou que vai dar um abraço revelador para conter nossa tristeza. A eles toda nossa solidariedade e o pedido que Deus amenize esse sofrimento e os console.

 

Pouco antes de sentar diante deste computador para compartilhar com você esse momento de tristeza que encaro —- e imagino que seja a de milhares de admiradores e colegas — deparei com a fala de Flora Tucci, psicanalista e filósofa, sobre o luto, registrada pelo jornal O Globo:

 

“Então, o melhor é se permitir passar pelo processo de transformação gerado por esse “adeus”, que vai nos preparar para os caminhos que podem surgir no futuro. É importante viver isso para deixar o novo chegar”.

 

Seja lá o que for esse novo que nos foi reservado, que jamais deixemos que a perda, a dor e o vazio caiam no lugar-comum dos sentimentos. Eu choro. Jornalistas choram, sim. Chorar é preciso!

9 comentários sobre “A perda, a dor e o vazio do luto no jornalismo

  1. Silêncio intenso na minha alma. Difícil não ouvir mais o Boechat todos os dias. Todas as manhãs na minha cozinha, ele , a Carla Bigatto , o Zé Simão , e muitos outros jornalistas adoráveis. Dia 11 dolorido. Salve Ricardo Eugênio Boechat.

  2. É muita tristeza em nosso país em um período muito curto de tempo…quantas mortes, quanta tragédia! E se tratando do Boechat, nós nunca estamos preparados pra perder alguém, principalmente quando esse alguém é uma pessoa tão especial como ele! A empatia que ele tinha com o público cativou a todos os expectadores fiéis de seus programas. O Brasil e todas as pessoas que o conheceram nunca irão se esquecer do brilhante trabalho que ele fez!
    Parabéns Milton Jung pelo texto lindo e emocionante!!! Que Deus nos conforte e nos dê forças pra superar esse ano de 2019, que não está nada fácil!

  3. Chorei várias vezes e pensei porquê? Tantos outros poderiam ir antes… quais ou qual o motivo dessa seleção? Penso agora… quem sabe não será nos tornamos mais humanos. E nessa humanidade chegarmos a certeza maior. A única coisa que certa na vida é a morte, portanto, vamos viver intensamente e fazer da nossa vida o nosso melhor. Vamos mudar o mundo a partir da nossa mudança. Um forte abraço.

  4. Milton: O jornalismo perdeu uma voz brilhante e profissionalíssima, merecedora de todas as homenagens. Que seu legado possa inspirar novas gerações. Que tragédias como essa não mais ocorram, que nosso povo não precise lamentar desmandos, que o sofrimento dos que ficam encontre força na fé e na esperança divina. Seu texto é tocante e verdadeiro. Grande abraço.

  5. Também chorei. Ele me fazia pensar, Quantas vezes a sua indignação nao era a minha, conseguia nas palavras expressar os nossos sentimentos e revoltas, eu nao ria das piadas com Jose Simao, eu ria das risadas. E nao ouvir sua voz crítica, me é muito estranho, e sim, eu chorei sim. Dona Mercedes, doce Veruska, “seu Adamastô”, figuras que no minimo me geravam simpatia e empatia. Pra mim ele ainda é, pq ainda estou ouvindo sua voz ecoando… ele ter virado manchete de jornal foi uma das piores notícias que recebi. Que haja consolo nos corações de seus amados.

  6. SAUDADE
    DE UM PALADINO DA VERDADE

    A PASSAGEM, INEXORÁVEL E PREMATURA, DO NOSSO QUERIDO
    RICARDO BOECHAT
    PARA A ETERNIDADE, COLHEU-O NO VIÇO DO SEU PLANTIO, MAS NÃO ESVAIU DA MEMÓRIA DOS
    SEUS FAMILIARES, AMIGOS E ADMIRADORES O SUAVE PERFUME DA SAUDADE.
    Poeta Alceu Sebastião Costa

  7. Sou jornalista, trabalhei com Boechat na Band do Rio e também já perdi as contas dos desastres, tragédias e mortes com que já me deparei.
    Estive na cobertura em Brumadinho, em Mariana, nos deslizamentos na região serrana do Rio, em desabamentos, incêndios, em muitos tiroteios nas favelas cariocas.
    Parece que criamos uma casca para não sofrer, não sentir a dor… Mas, na realidade, é uma ilusão. Absorvemos o sofrimento das pessoas que entrevistamos, sentimos a perda, sofremos… Se o nosso papel é contar a verdade, narrar os fatos, não dá para fugir destas pautas. No entanto, concordo que é preciso chorar e sentir. Ser “humano” é a parte mais importante do nosso trabalho.

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