A perda, a dor e o vazio do luto no jornalismo

 

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Perda, dor, vazio. São sentimentos que surgem com o luto. Com os quais o jornalista precisa negociar diariamente. O noticiário está sempre nos provocando com os assassinatos na porta de bar, os crimes de família e as tragédias anunciadas.

 

Cheguei em São Paulo, em 1991, e minha rotina era contar a história de mortes ocorridas em desabamentos de terra, comuns nas encostas da cidade de São Paulo, nos períodos de fortes chuvas.

 

Na madrugada, era enviado ao cafundó do Judas para fazer imagens de um assassinato. Ao chegar, lá estava o cadáver estendido na calçada. Coberto por páginas de jornais ou um papel alumínio a esconder seu rosto. Imagens feitas, informação apurada, sonora gravada. Segue para a próxima pauta. Para o próximo assassinato. De madrugada nunca encontramos um batismo a registrar. Só crimes e velórios.

 

A morte não saiu das minhas pautas, mesmo quando deixei as ruas — mesmo quando troquei a reportagem pela apresentação de telejornais, em 1993. Foi-se Ayrton Senna, em 1994. E eu falei por horas da comoção do povo brasileiro, em seu velório. Foi-se Mário Covas, e tive de relatar a tristeza de São Paulo, em 2001. No mesmo ano, transmiti ao vivo o terrorismo do “11 de Setembro”, em Nova Iorque. O primeiro baque surgiu quando parei para pensar nas dezenas de passageiros que estavam dentro do avião arremessado contra o World Trade Center. Depois foi a vez de olhar aquelas pessoas jogando-se do alto dos prédios. E quando as torres vieram abaixo, segurei-me para sustentar a voz e ser fiel aos fatos.

 

No entanto, as mortes passam, os cadáveres são esquecidos, alguns sequer registrados. A perda, a dor e o vazio ficam como legado dos parentes das vítimas —- pessoas que talvez nunca mais na vida você encontrará. E a sua vida, a minha vida, segue. Amanhã tem outra pauta para cobrir, outra história para contar. O salário cai na conta, os boletos chegam, a comida tem de estar no prato. Até uma nova tragédia.

 

Em 2016, a mais difícil delas. O acidente com o avião da Chapecoense, sabendo que entre os passageiros estava um amigo querido e respeitado por todos, Deva Pascovicci. Engoli o choro, engasguei com as lágrimas, parei de falar. Tinha vontade de desistir. Mas apresentei o Jornal da CBN até o fim mesmo sabendo qual seria o fim daquela história. Somente à noite, diante da televisão e abraçado em um dos filhos consegui chorar copiosamente como o coração pedia.

 

No jornalismo, tendemos a disfarçar os sentimentos. Construímos um personagem diante do fato triste porque temos a obrigação de retratar a realidade. Sem envolvimento. Frio. Calculista. Capaz de fazer qualquer pergunta por mais óbvia que pareça. Desconfiando sempre. Questionando na primeira oportunidade. Coisa de jornalista.

 

Dan Harris, correspondente da ABC News e âncora de televisão, cobriu guerras e tragédias. Considerava-se forte o suficiente para encarar as mais tristes situações da humanidade. Preocupava-se apenas com a qualidade do material levado ao ar e com a exposição que alcançaria. Brigava pelas melhores pautas, discutia com editores em busca de mais espaço na cobertura. Era obcecado pelo trabalho. Ao fim e ao cabo, voltava para casa sem se importar com a morte dos outros, sem se preocupar com nada nessa vida — a não ser sua ascensão profissional.

 

Um dia, Harris congelou na frente das câmeras. Teve um ataque de pânico diante de milhões de telespectadores. Em rede nacional. Descobriu depois que era como se todos os fantasmas das mortes registradas por ele se realizassem dentro de sua mente ao mesmo tempo. Foi o início de uma profunda reflexão sobre a vida. E o começo de uma odisseia pelo mundo da espiritualidade.

 

Ele conta essa história no livro “10% mais feliz”, publicado pela Sextante, no Brasil, no qual relata como driblou todos os seus preconceitos e medos em relação a meditação. Daniel Goleman, jornalista científico e psicólogo, apresenta-o “como o melhor livro sobre meditação para os não iniciados, os céticos e os curiosos”. Para mim, um livro que ajuda a pensar o jornalismo. A nossa tarefa de contar ao público o que vimos. O que sabemos. A verdade. Doa a quem doer. E entender que muitas dessas verdades vão doer dentro de nós e precisamos administrar esses sentimentos.

 

Harris medita. Eu não consigo. Não tentei. Mas choro. Foi assim quando soube da barragem que soterrou centenas e centenas de pessoas, em Brumadinho. Chorei baixinho na minha casa. Foi assim quando a repórter confirmou a morte de 10 meninos no Ninho do Urubu. Chorei em silêncio diante do microfone e se revelei minha dor foi na voz embargada.

 

Hoje, não estava mais na redação quando soube da morte de Ricardo Boechat.

 

Se um dia chorei por centenas, noutro por dezenas, hoje chorei por um colega. E essa dor é mais dolorida do que todas porque é uma dor muito próxima da gente. De alguém que estava ali ao nosso lado —- um pouco além do dial onde sou sintonizado todas as manhãs, no Jornal da CBN. Alguém que com seu jeito de fazer jornalismo na Band News FM, nos obrigava a pensar que jornalismo estávamos fazendo. Que radiojornalismo estávamos realizando. Que poucas horas atrás, estava diante do microfone fazendo aquilo pelo qual somos apaixonados: jornalismo.

 

E com a morte de Boechat lá vieram novamente aquelas sensações impertinentes do luto: perda, dor, vazio. Sensações que não tenho dúvida serão muito mais fortes no coração da Veruska, sua “doce Veruska”, e dos seis filhos que perderam o pai — o cara que a gente pode contar naquela hora em que pinta um dilema na nossa vida, naquele momento de felicidade que precisa ser compartilhado ou que vai dar um abraço revelador para conter nossa tristeza. A eles toda nossa solidariedade e o pedido que Deus amenize esse sofrimento e os console.

 

Pouco antes de sentar diante deste computador para compartilhar com você esse momento de tristeza que encaro —- e imagino que seja a de milhares de admiradores e colegas — deparei com a fala de Flora Tucci, psicanalista e filósofa, sobre o luto, registrada pelo jornal O Globo:

 

“Então, o melhor é se permitir passar pelo processo de transformação gerado por esse “adeus”, que vai nos preparar para os caminhos que podem surgir no futuro. É importante viver isso para deixar o novo chegar”.

 

Seja lá o que for esse novo que nos foi reservado, que jamais deixemos que a perda, a dor e o vazio caiam no lugar-comum dos sentimentos. Eu choro. Jornalistas choram, sim. Chorar é preciso!

Avalanche Tricolor: o dia em que o futebol ficou sem graça

 

Grêmio 6×0 Avenida
Gaúcho/Recopa — Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

 

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Jogadores e Renato prestam homenagem aos meninos mortos no Flamengo Foto LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Tinha taça em jogo. E taça a gente quer ganhar sempre. Em campo, estava o que havia de melhor à disposição de Renato — e ao longo da partida ainda entraram alguns jogadores que, provavelmente, deixarão o time ainda melhor. O toque de bola era o que aprendemos a gostar. A categoria do passe se fez presente desde o minuto inicial. A movimentação intensa abriu caminho para o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto gol —- e que baita gol foi esse último. Aliás, difícil escolher o mais bonito. De cabeça. De cavadinha. Com dribles. Com força. No ângulo. Gol para todos os gostos. A torcida assoviou para dar ritmo à equipe. Bateu palmas no mesmo compasso do futebol jogado. Cantou seus cantos. E relembrou o grito de “é campeão”!

 

Tinha tudo para ser um jogo perfeito. Mas foi sem graça. Uma graça que se perdeu na morte de dez garotos, vítimas da tragédia no Ninho do Urubu, na sexta de madrugada. Garotos que, como muitos daqueles que vestiram, vestem ou vestirão a camisa do Grêmio, só queriam ter o direito de jogar futebol. De sorrir pelo drible bem dado. De comemorar nos braços do torcedor o gol bem feito. De levar para a família a alegria de uma vida mais bem estruturada.

 

Um gurizada como Everton e Luan —- que começa na base a construir sua própria história e ser protagonista da história do seu time de coração. Que abre mão da infância e da adolescência —- aceita a rotina de treinos intensos, a distância da família e as condições que lhe oferecem para dormir, comer e morar — porque sabe que seu talento está prestes a abrir-lhe às portas para uma vida mais digna. Com o respeito dos outros. A admiração de muitos. O olhar orgulhoso da mãe e do pai, quando o tem. Dos parentes e amigos, também.

 

Os meninos do Flamengo são meninos como os nossos. Imaturos por adolescentes que são. Inseguros diante de uma vida que mal está começando. Ao mesmo tempo, corajosos. Capazes de superar qualquer dificuldade porque só assim terão espaço no campo do futebol. Sabem que os ídolos nos quais eles se inspiravam também tiveram de trilhar essa caminhada. Só não sabiam o que o destino havia reservado a eles. Destino? Talvez caiba melhor nessa frase a irresponsabilidade, o descaso, o desrespeito, a crença de que nada vai dar errado … essas coisas que se transformaram em lugar-comum nesse país que assiste aos seus jovens morrerem queimados em boates e alojamentos, suas famílias serem soterradas pela lama da mineração e sua gente ser levada pelas águas das enchentes. Tão comum quanto a impunidade que se segue a essas tragédias.

 

Bem que tentei sorrir a cada gol marcado pelo meu Grêmio. Mas o som dos trompetes militares entoando o toque fúnebre, na cerimônia que se realizou antes da partida, ficou em meus ouvidos e me fez lembrar a cada minuto de jogo que um daqueles dez meninos mortos poderia um dia estar ali na Arena do Grêmio fazendo aquilo que tanto desejavam em vida: dar alegria ao torcedor. 

Fé e ideologia não serão capazes de conter os efeitos do aquecimento global

 

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Duas pessoas morreram em ônibus soterrado na Niemeyer. Foto: Bárbara Souza/CBN

 

Acordei logo cedo com a voz de uma autoridade carioca no rádio oferecendo aos ouvintes a garantia de que a prefeitura do Rio estava preparada para enfrentar as dificuldades impostas pela tormenta que havia atingido a cidade na noite anterior. Seiscentos homens estavam nas ruas para atender a população, as equipes da noite foram reforçadas por aqueles que estavam encerrando o expediente, alertas foram emitidos com base no monitoramento dos radares do clima e sirenes tocaram em áreas de risco.

 

Suas palavras não eram coerentes, porém, com a descrição que repórteres faziam ao vivo ou com as fotos e vídeos que já circulavam na internet. O lobby de um hotel era comparado a um navio naufragando, o barro ocupava o salão de uma academia de ginástica, um homem era levado pela correnteza ao som de gritos de moradoras que gravavam a cena, ruas e avenidas estavam tomadas pela água e pessoas buscavam proteção de maneira improvisada —- a maior parte contando mais com a sorte do que com qualquer apoio oficial.

 

A impressão era que um furacão havia passado pela cidade e deixado seu rastro por todos os cantos. Os técnicos fizeram questão de esclarecer que os furacões estão no topo de uma escala que vai do grau 0 ao 12 e registram velocidade de 118 quilômetros por hora ou mais. O que aconteceu no Rio foi uma tempestade, que está no grau 10, e se caracteriza por ventos de 89 a 102 quilômetros por hora.

 

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Chuva colocou Rio de Janeiro em estágio de crise. Foto: Reprodução/TV Globo

 

Ao morador do Vidigal e da Rocinha, duas das áreas mais devastadas pela tormenta, tanto faz o nome oficial daquilo que eles assistiram e sofreram ao longo da noite e madrugada. Para eles e para os demais cariocas —- mesmo aqueles protegidos em prédios mais altos ou em suas casas em bairros mais bem estruturados — foi um caos. Um desespero sem fim.

 

O Rio já encontrou seis pessoas mortas desde o início do temporal — duas delas soterradas, quando tentavam voltar para a casa, na avenida Niemeyer. A terra deslizou na carona de uma árvore centenária que despencou morro abaixo até atingir o ônibus onde estavam os dois passageiros e um motorista —- esse conseguiu escapar com vida. Por sorte. Ou por Deus, como até os descrentes costumam dizer.

 

É com a sorte — e talvez com Deus —- que devemos contar enquanto os administradores das nossas cidades não são capazes de investir na mudança estrutural necessária para os novos tempos. Cruzamos os dedos para que no momento da tormenta já tenhamos chegado a um lugar minimamente seguro. E oxalá nossos parentes e amigos mais próximos também tenham conseguido.

 

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Uma pessoa morreu no Vidigal Foto: Marcelo Carnaval/ Agência O Globo

 

Um mínimo de interesse nos estudos do clima nos faria entender que não sobreviveremos por muito tempo enquanto acreditarmos que nosso destino será traçado pelo acaso. Sorte e azar não são elementos a se ponderar quando cientistas comprovam que a temperatura global aumenta a níveis sem precedentes — 16 dos 17 anos mais quentes registrados aconteceram neste século e nos últimos 40 anos, a temperatura media global esteve acima da média do século 20.

A medida que as temperaturas globais aumentam, eventos climáticos extremos se repetem com mais frequência, com mais custo e com mais destruição. Sabe aquelas chuvas que acontecem uma a cada mil anos? Foram registradas seis vezes, em 2016, nos Estados Unidos —- esse mesmo país que é comandado por um presidente que questiona o aquecimento global. Cidades litorâneas —- como o Rio —- estão muito mais expostas agora aos efeitos das marés altas do que estiveram em todos os tempos. Nos últimos 50 anos, aumentaram de 364% para 925% as inundações, nas três costas dos Estados Unidos.

 

As medidas paliativas e as palavras vazias não serão suficientes para conter as tragédias que tendem a se repetir a cada ano. Ambientes urbanos como o da cidade do Rio, que tem uma geografia a desafiar administradores, ou a de São Paulo, com sua extensão territorial inimaginável, não podem se dar ao luxo de esperar mais tempo até iniciarem de forma inteligente e planejada ações que mitiguem os impactos provocados pelo clima.

 

Repensar a forma de ocupação do solo, criar áreas para absorção da águas das chuvas, ampliar a quantidade de árvores para diminuir o efeito das ilhas de calor, deslocar famílias dos pontos de alto risco, reurbanizar favelas, recuperar córregos, riachos e rios, rever os modelos de transporte e reduzir a emissão de carbono são algumas soluções já há muito conhecidas e, por mais complexa que seja a implantação destas medidas, quanto mais tempo demorarmos para atuar piores serão os efeitos sobre a qualidade de vida do cidadão.

 

E para o nosso azar — perdão, uso a expressão apenas por força do hábito —- o que vemos avançar no Brasil, em lugar de politicas públicas que adaptam as cidades para esse novo tempo, é o discurso de políticos negacionistas ambientais. Uma gente cega pela sua fé e ideologia, incapaz de compreender que as evidências científicas são contundentes. Retumbantes. Destruidoras, se levarmos em consideração o que aconteceu no Rio nas últimas horas.

 

A persistirem os sintomas, a análise mais crua e certeira — tanto quanto mal-educada —- que ouvimos foi a de um cidadão carioca, voltando para a casa em meio ao temporal, aparentemente bêbado, que se intrometeu na cobertura ao vivo de uma repórter da Globonews para decretar: —- “Tá todo mundo f….., essa m…. aqui”

Brumadinho: subestimamos nosso poder de destruição

 

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Foto: Rodney Costa/Eleven/Agência O Globo publicada no site CBN.com.br

 

Os que já enfrentaram o risco de afogamento no mar sabemos o desespero que bate quando percebemos que não há como puxar o ar para os pulmões. No início, prendemos a respiração como reação de sobrevivência e tentamos nos orientar em busca da superfície. As ondas passam por nossa cabeça e a impressão é de que o caminho para o alto está bem mais distante. Apesar de estarmos a apenas alguns segundos enfrentando aquele situação, parece a eternidade. Se você como eu já tomou um caldo na praia, daqueles que deixa seu “GPS” sem norte, sabe quão ruim é a sensação. Nunca — ainda bem —- fui além desses segundos. De uma maneira ou outra encontrei a superfície, talvez porque estivesse muito mais raso do que pudesse imaginar. Os que estudam nossas reações dizem que ir além desses instante pode ser fatal. Ao desespero junta-se a ansiedade. A água escapa pela boca, chega a laringe. Parte vai para o estômago, outra para o pulmão. A troca gasosa deixa de funcionar. O oxigênio não entra e o gás carbônico não sai. Os efeitos começam a ser sentidos no cérebro. No pulmão, os alvéolos não suportam a pressão. Os glóbulos vermelhos são destruídos. O potássio se espalha. O corpo se contrai. O coração para. Morte.

 

Tenho imaginado essa cena desde que na tarde de sexta-feira recebi a primeira informação sobre o rompimento da barragem da mineradora Vale, em Brumadinho, Minas Gerais. A experiência que havíamos presenciado três anos antes em Mariana nos preparou para as imagens que assistiríamos em seguida. Uma onda de lama se formando e avançando sobre casas, lojas, hospedarias. Pessoas e famílias soterradas. Seres humanos que estavam vivenciando mais um dia de suas vidas, no trabalho, na prestação de serviços, nos afazeres domésticos, descansando, em um momento de lazer. O mar de rejeitos —- formado por restos de minério, sílica e derivados de amônia — provocou estrondos no caminho que percorria. Uns descreveram como um trem descarrilado; outros como se vários caminhões estivessem tombando — foi o que li na edição dominical de O Globo.

 

Na minha cabeça, a morte por afogamento se assemelhava a agonia enfrentada por aquelas mães e pais, filhos e filhas, avós e avôs, médicos e mineradores, caminhoneiros e cozinheiros — uma gente para quem só fomos apresentados agora através de reportagens que contam suas histórias de vida e logo serão números de uma estatística triste de descaso e irresponsabilidade. Nunca vai se saber ao certo o que cada um viu ou imaginou que estava ocorrendo. Se acreditaram que seriam capazes de sair do meio da lama, encontrar a superfície. É provável que a força e a velocidade da lama, em um movimento que se equivaleria ao tsunami, tenham causado impacto sobre as pessoas que estavam no seu caminho sem dar chance delas entenderem que a morte se aproximava. Sempre será uma incógnita como essas pessoas morreram — algumas  talvez jamais serão encontradas porque o corpo é sugado para debaixo da terra pela formação da lama.

 

O que sabemos é que morreram porque mais uma vez subestimamos nosso poder de destruição. O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, disse nesse domingo que todas as ações de segurança recomendadas por especialistas reconhecidos internacionalmente foram realizadas: “100% dentro de todas as normas e não houve solução”. Para em seguida afirmar que “vamos criar um colchão de segurança bastante superior ao que tem hoje para garantir que nunca mais aconteça um negócio desse”.

 

Garantir? 

 

Que garantia é essa? 

 

Talvez a mesma garantia que ouvimos quando a Vale e sua parceira BHP foram responsáveis pela maior tragédia ambiental já registrada no mundo, que matou 19 pessoas e contaminou o Rio Doce, em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015. Ou a garantia que nos deram logo após registrarmos a morte de 242 pessoas no incêndio da Boate Kiss, em  Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que completou seis anos nesse sábado. Ou a garantia das autoridades de que a vistoria de prédios seria mais rigorosa no Rio de Janeiro, desde que 17 pessoas morreram na queda do edifício Liberdade — lembrada semana passada, em reportagem do Jornal da CBN, na data em que completou sete anos. 

 

Em Mariana e arredores, famílias ainda esperam suas casas serem reconstruídas, a indenização definitiva ainda não saiu e ninguém foi condenado pela tragédia. Em Santa Maria, familiares dos mortos e as vítimas que sobreviveram lamentam que não houve avanços por parte das autoridades responsáveis na luta por justiça e os réus ainda aguardam julgamento. No Rio, menos da metade dos 130 mil prédios que deveriam realizar a autovistoria predial a cada cinco anos estão em acordo com a lei. E as vítimas? Cada uma se vira como pode. Sem ajuda dos responsáveis pelo desabamento. Sem justiça.

 

Aliás, é a única garantia que realmente temos nesse país. De que independentemente da frequência com que as tragédias ocorram, de onde ocorram e por que ocorram, seremos vítimas de irresponsabilidade, de desrespeito e de injustiça.

Peixonautas

 

O autor do texto que você acompanhará a seguir foi escrito por Matheus Mascarenhas, um garoto que acaba de completar 13 anos e já apareceu por estas bandas com outro artigo no qual falava sobre a intolerância que reina no país. Matheus escreveu “Peixonautas” e ganhou mais um prêmio literário. Esteve comigo no lançamento do livro, em Campinas, na noite desta quinta-feira, ao lado do pai dele, Henrique, e me entregou este texto que, segundo Matheus, foi dedicado a mim. Minha gratidão a Matheus. E aproveite essa reflexão sobre a morte:

 

Matheus Milton Jung

 

Por Matheus Mascarenhas

 

Todos os dias, presenciamos todo tipo de morte que se possa imaginar:
mortes de humanos, mortes fulanas, mortes cicranas, mortes dos animais,
mortes morais e intelectuais, mortes de todas as laias possíveis. Mas mesmo
assim, na maioria das vezes quase nenhuma dessas mortes rotineiras nos
impacta sentimentalmente, somente fazem parte de nosso cotidiano. A única
contrariedade no assunto acontece com as mortes que nos impactam, que nos
atingem, nos sentimentos, principalmente. Elas são as mortes mais difíceis de
confrontar. São as mortes das pessoas, animais, ou ideias que valorizamos e
amamos. Um exemplo prático é o óbito de uma avó, algo tão ruim quanto a dor
da dissecação de um membro. A diferença entre essas duas dores é que uma
delas nunca acaba, contudo, a semelhança é que as duas deixam suas marcas.
Enfim, essa é nossa realidade e é nela em que vivemos.

 

Essa tese ponderada acima, calhou-se a mim, hoje, quatro de Agosto de
2018, e foi ela que me motivou a escrever esse texto. A tese: morte, na minha
vida foi sempre algo inédito, a transpasse de algo valorizado por mim, sempre foi uma novidade discrepante e que nunca fora cobiçada por mim; jamais a senti.
Essa peculiaridade da vida, hoje bateu na minha porta e foi recebida por mim,
como a mais excêntrica e divergente peculiaridade de toda minha vida. A própria
personificação da realidade, a qual me acudiu em meio a um monótono sábado.
O que poderia ser? Para vós, com asseveração, é uma morte fútil, como todas as
milhares de mortes rotineiras. Todavia, essa morte para mim é uma daquelas que
você resguarda por sua vida inteira, embora, não sendo uma das mais
consideráveis. Finalmente vos revelo o que se adviu: o singela falecimento do
meu peixe de estimação.

 

Um fabuloso Betta splendens, raça comum para estimação. E como o
nome já diz, eu portava uma extraordinária estima por aquele peixe. Comprei-o
há exatos 2 anos e 13 dias, como presente, imaginando ser somente uma
“decoração” ou enfeite, todavia, eu estava incorreto. Esse meu amigo Betta de
corpo preto e cauda avermelhada foi mais do que um amigo, foi um companheiro
de vida, por esses 2 anos. Mesmo que seja pouco, esse pequeno e fascinante
animal, transformou de alguma forma meu cotidiano e minha vida. E quando me
lembro da cena, a alimentá-lo com cinco bolinhas de ração, me decorre uma
extrema tristeza e desolação, minha mente e coração se enchem de lágrimas só
de lembrar daquela módica ação.

 

Enfim, depois de toda essa amargurada história, pude, através da primeira
experiência de morte lembrável e impactante na minha vida, descobrir que o
amor e tristeza, ambos considerados extremos distantes um do outro, na
verdade são os dois sentimentos mais próximos que podem existir. O apego a
algo é o fator que cria a tristeza e impõe em algum momento um barreira para
felicidade, o paredão da prostração e melancolia. Isso é um fato e não pode ser
mudado.

 

Um paradigma singelo e medíocre pode ser simplesmente o encerramento
de algum programa de televisão ou série favorito. É dado o seguinte: nos
momentos em que é possível assistir a esta série ou programa, se personifica a
sensação de conforto e veneração à ambas. Porém, em algum momento quando
as gravações se encerram, o sentimento primordial se personifica (raiva e ódio),
depois, entram em vigor outros sentimentos, menos perigosos, contudo, mais
persistentes (tristeza e desolação), os quais são os responsáveis pela criação da barreira que não nos permite obter a visão do amor pela série, mas sim a
lamentação pela própria.

 

Esse foi um paradigma obtuso, porém, muito lúdico quando se é levado a
representar o que o amor pode causar. E nesse experimento arremata-se a
dúvida da veracidade da seguinte hipótese: o amor cura a tristeza.
Ao explorar a ponderação em casos práticos variados, pude totalizar que,
a hipótese do “amor ser a cura da tristeza” é errada, errônea, falsa, e finalmente incongruente. A verdadeira hipótese e conclusão real é a seguinte: “O amor leva a tristeza”, de qualquer forma. Sempre o ato de amar alguém ou algo, em algum momento, se transformará e levará a tristeza e melancolia. O amor é perigoso.

 

Essa é a lógica mais real e massacradora que pode explicar quase, senão todos os
problemas psicológicos das pessoas, porém inapreensível para muitas outros
indivíduos. Enfim, não querendo mais me aprofundar, nesse assunto, digo: o
amor cria barreiras; e infelizmente essa é a verdade. Para elucidar, vos lembro
que, já disse Platão uma vez: “Amor: uma perigosa doença mental”, enaltecendo
de uma vez a tese que afirma a procedência dos problemas mentais por conta
do amor.

 

Ao final como conclusão vos digo: mesmo pelo amor ser o causador dos
problemas, barreiras mentais e tristeza, não deixe de amar. Eu concordo em
parte com a frase de Platão, porque mesmo que ele rotule o amor como sendo
perigoso, eu apoio e quero que as pessoas não parem de amar para não caírem
no precipício das outras tristezas, as de não amar. Então conclui-se que é
melhor amar e depois sofrer uma tristeza que pode às vezes ser quebrada com
uma simples lembrança de um sentimento feliz, do que viver sem amar, sempre
triste, com medo de onde a aventura do afeto pode lhe levar.

 

Quase terminando a prosa, acabo de me lembrar de um anúncio em tela
de televisão no qual estava escrito: “Peixonautas, toda terça – quatro da tarde”, e me veio a lembrança mais profunda: do corpo do meu peixe morto no seu
aquário. As lágrimas me vêm, porém, num piscar de olhos, me lembro de todas as
melhores lembranças com meu animal, experiências, brincadeiras, conversas, e
no final, abro um sorriso e penso: “Ele está melhor do que eu”. E no final não me torno um amargurado resguardador da melancolia e desolação da perda. Na
verdade, sou um quebrador das barreiras desses problemas, e assim me
considero um Peixonauta feliz.

Sem palavras para Cony

 

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Ensaio escrever algumas palavras sobre Carlos Heitor Cony desde sábado quando fui informado da morte dele, ocorrida na noite anterior, no Rio de Janeiro. Cony teve o corpo cremado, nesta terçao-feira, e suas cinzas serão levadas para algum local especialmente escolhido por ele e descrito em documento registrado em cartório. Apesar do tempo e de sua passagem, a palavra certa ainda não apareceu. Escrevo uma, deleto. Substituo por outra, desisto. Recomeço. Busco uma palavra para identificá-lo e não encontro. Busca que se iniciou logo que fui convidado pelo Roberto Nonato a falar na rádio CBN, minutos após termos noticiado o falecimento de nosso comentarista.

 

O Arthur Xexéo, que dividiu com Cony o protagonismo do “Liberdade de Expressão”, no ar desde 2001, no Jornal da CBN, e também esteve comigo na conversa com o Nonato, foi direto ao ponto: o Cony era o cara mais culto que conheceu em toda sua vida. A cultura dele realmente era impressionante. Não refugava tema algum que lhe fosse oferecido para comentar no “Liberdade”. Quando muito, pedia para ser o último a falar, como se quisesse antes saber o que pensava seu companheiro de quadro – o que lhe permitiria, se fosse o caso, discordar sem constranger. Assim podia também perceber qual o melhor caminho a percorrer e, especialmente, como dar ao tema, por mais mundano que fosse, uma abordagem histórica.

 

Às vezes arriscávamos, dentro do estúdio, com a equipe do Jornal da CBN, antecipar o que o Cony nos diria sobre determinada notícia. Já estava há tanto tempo no ar com a gente que sabíamos um pouco do que pensava sobre tudo. Mas ele sempre nos surpreendia, seja pelas palavras usadas para se expressar, seja pela história compartilhada, seja pela sinceridade que marcava sua opinião. Uma opinião que não temia rótulos nem patrulha. Oferecida com humor, ironia e deboche, conforme a situação.

 

Lembro que sempre que abordávamos o poder dos bicheiros e o envolvimento deles no crime organizado, Cony preferia se ater a figura do apontador do jogo, que ficava aguardando os apostadores na calçada: um homem bom, inofensivo e amigo, era o que dizia. Ele era assim mesmo: capaz de descrever com romantismo os casos mais escabrosos do noticiário assim como analisava com crueza e sem perdão outros tantos assuntos.

 

Não tinha medo de ser contraditório: falou no “Liberdade”, quando completou 90 anos, que nas festas de aniversário, cantava apenas o “parabéns à você” e se negava a desejar “muito anos de vida”: – Ninguém merece isso, justificou-se. Por outro lado, era categórico ao dizer que, apesar de todos os males da velhice, gostaria de continuar vivo se pudesse escolher.

 

Impressionava-me era a dedicação que tinha com o trabalho. Mesmo aos 91 anos, e diante de dificuldades expostas por doenças que enfrentou nos últimos tempos, não abria mão de sua participação no “Liberdade”. Costumava dizer que estar ao vivo, na rádio, o deixava mais vivo. Declarou em entrevista – que reproduzimos nesta segunda-feira, no Jornal – o orgulho que tinha pela repercussão dos seus comentários na rádio. Logo ele que tem livros que são “campeões de audiência”.

 

Aliás, reescrever “O Beijo da Morte”, ao lado da jornalista Anna Lee, certamente era outro grande motivo para se manter vivo e atento. O livro, sucesso desde que chegou às livrarias em 2003, será relançado em breve com novos capítulos e notas suplementares, além de um novo nome: “Operação Condor”, conforme nos contou em entrevista, nessa segunda-feira, a própria co-autora, ao Jornal da CBN.

 

Cético, provocador, inteligente, contraditório, polêmico, sincero, genuíno, romântico … Temo que qualquer uma dessas e outras palavras que surjam não sejam fidedignas a estatura intelectual e humana do Cony. E talvez por isso minha busca iniciada no sábado não faça o menor sentido. Quem sou eu para querer defini-lo com palavras? Cony falava por si mesmo e seus livros e obras estarão sempre aí à disposição para quem quiser conhecê-lo melhor. Eu não perderia essa oportunidade de jeito nenhum.

 

Conhecer Cony é um privilégio para todos nós, seus leitores e admiradores.

Avalanche Tricolor: entendi o recado, Everson!

 

Avaí 2×2 Grêmio
Brasileiro – Estádio da Ressacada, Florianópolis/SC

 

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Everson Passos aqui embaixo, ao lado do Roberto Nonato, no estúdio da CBN

 

Esta Avalanche não escrevo para você, caro e raro leitor. E tenho certeza de que você entenderá. Também peço encarecidamente aos amigos que reproduzem esta Avalanche em seus blogs dedicados ao Grêmio que poupem seus leitores das minhas palavras, mesmo porque não vou falar do resultado desta noite de domingo. O que falarei aqui é algo muito particular que não gostaria de ver exposto especialmente à sanha intolerante que toma conta da sociedade contemporânea. Mas preciso escrever. Para mim sempre foi a melhor maneira de arrancar a tristeza do coração.

 

Hoje, vou dedicar esta Avalanche a um colorado. Um cara que era capaz de vestir a camisa encarnada (ou estilizada) na alegria e no sofrimento. Nos momentos extremos em que seu time vencia, especialmente quando vencia o meu, ou diante de derrotas copiosas. Ele fazia questão de mostrar-se solidário nesses instantes. Solidário a sua paixão, como muitos de nós torcedores costumamos ser.

 

Falo aqui de Everson Passos, que morreu sexta-feira, dia 27 de outubro, após ter sofrido, há três meses, um derrame cerebral que o tirou a consciência e o desconectou da vida. Foi meu colega na CBN e teimo em acreditar que chegou a trabalhar com o pai lá na Rádio Guaíba de Porto Alegre. Se não o fez, com certeza conheceu meu pai enquanto atuava como jornalista no Rio Grande do Sul, pois o pai foi nosso assunto em comum em mais de uma oportunidade.

 

Ele falava pouco, resmungava muito, dizia certas verdades e nunca nos deixava ser levado pela ilusão das vitórias. E não falo aqui das coisas do futebol, não. É dá vida mesmo. O Everson tinha os dois pés no chão (a não ser quando estava montado em uma bicicleta) e nos colocava no devido lugar sempre que nos atrevêssemos devanear.

 

Chegava a ser engraçado na maneira de se portar diante dos fatos. Olhava de revesgueio, como costumamos dizer lá no Rio Grande, tinha um ar desconfiado e nas poucas palavras que proferia dizia muito.

 

Ao meu lado apresentou algumas edições do Jornal da CBN quando se revelava ainda mais rigoroso com a leitura dos textos. O mesmo rigor que usava no momento de redigir ou editar as reportagens. Um rigor que não se voltava aos colegas, mas a ele próprio.

 

Foi esse mesmo rigor que fez com que ele decidisse voltar para o Rio Grande do Sul. Deixou a rádio e São Paulo porque acreditava que tinha uma missão muito mais importante: cuidar da mãe que vivia sozinha desde a morte do pai. O destino lhe pregou uma peça. Poucos meses depois de chegar a terra natal sofreu o derrame e a mãe ficou para lhe dar carinho e apaziguá-lo até a morte.

 

E mesmo na morte, Everson não deixou de ser Everson.

 

Ao morrer com apenas 51 anos, sem precisar dizer uma só palavra, nos manda um recado ao estilo dele. Escancara a fragilidade do ser humano e nos faz ver como desperdiçamos nossos momentos com picuinhas, desentendimentos baratos entre amigos, colegas de trabalho, torcedores e mesmo irmãos, pais e mães. É como se estivesse nos dizendo: vai cuidar da sua vida!

 

Valeu, Everson! Anotei o recado.

Avalanche Tricolor: morre em Israel, o homem mais velho do mundo, “irmão-gêmeo do Grêmio”

 

Botafogo 1×0 Grêmio
Brasileiro – Nilton Santos/RJ

 

Diante da decisão gremista de não levar o Brasileiro como prioridade, preservando-se para a Copa do Brasil e a Libertadores, peço licença a você, caro e raro leitor, para abrir mão também de escrever a Avalanche deste domingo. Nesse caso, porém, você perceberá que o titular será substituído por um craque das letras (além de gremista, é lógico). Refiro-me a Airton Gontow que privilegiou este espaço – e desde já o agradeço por este carinho – com o texto que conta a incrível história de um judeu, sobrevivente dos campos de concentração, morto na sexta-feira, que descobriu, quase ao fim da vida, ser gremista ou um “irmão-gêmeo do Grêmio”, como o próprio Airton o identificou.

Por Airton Gontow

 

Yisrael

Yisrael Kristal e a camisa do Imortal em sua homenagem (foto: Bernardo Kopstein Schanz)

 

Faleceu sexta-feira, 12 de agosto, em Israel, o “Homem Mais Velho do Mundo”. Sobrevivente do Holocausto, Yisrael Kristal completaria 114 anos dentro de um mês. Kristal ganhou o certificado da organização Guinness World Records após a morte do japonês Yasutaro Koide, aos 112 anos e 312 dias. “Todos têm o seu próprio destino, não há segredos”, disse ao receber o título.

 

De família judia ortodoxa, Kristal nasceu no vilarejo de Zarnow, na Polônia, em 15 de setembro de 1903. Aos 17 anos, mudou-se para Lodz, também na Polônia, onde sua família abriu uma fábrica de doces. Em 1940, foi deportado para o campo de concentração de Auschwitz, onde perdeu a mulher e os dois filhos. Após ser resgatado com 37 quilos, mudou-se em 1950 para Israel. Casou-se novamente e passou a viver em Haifa, cidade ao Norte de Israel (a terceira maior do País), onde abriu uma confeitaria.

 

Não gostava muito, como acontece com muitos dos sobreviventes do Holocausto, de falar sobre o período passado nos campos. Mas declarou ao israelense Haretz: “Dois livros poderiam ser escritos sobre um só dia ali”. Sobre como prosseguiu após a grande tragédia, afirmou: “tudo o que nos resta é continuar trabalhando o mais duro que pudermos e reconstruir o que está perdido”.

 

No ano passado, Kristal comemorou, com 100 anos (um século!) de atraso, o seu Bar-Mitzvá, cerimônia judaica que marca a passagem de um garoto para a vida adulta, aos 13 anos. Não tinha vivenciado o importante rito de passagem devido à Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918).

 

Apesar de atento ao mundo atual e de toda a tragédia vivida no passado, Yisrael era crítico do mundo moderno, especialmente da falta de atitude dos jovens. “O mundo piorou. Não gosto da permissividade. Tudo é permitido. Os jovens de antes não eram tão atrevidos como agora. Tinham que pensar sobre uma profissão e sobre como ganhar a vida. Viravam carpinteiros, alfaiates e agora tudo é feito com alta tecnologia. As coisas são fáceis, não exigem esforço e não há o trabalho manual que existia no passado”, disse ao jornal israelense.

 

Um fato curioso. Yisrael Kristal era “irmão-gêmeo” do Grêmio. A descoberta da coincidência das datas foi do jornalista gaúcho Léo Gerchmann. Ao ler as notícias sobre a “longevidade campeã” do senhor Yisrael, depois da morte de Yasutaro Koide, Gerchmann (autor de livros como “Somos Azuis, Pretos e Brancos”, ‘COLIGAY – Tricolor e de todas as cores” e “Viagem à Alma Tricolor em 7 Epopéias”) entrou em contato com Beto Carvalho, diretor de Marketing do Grêmio.

 

A equipe agiu rapidamente. Uma camiseta foi confeccionada e enviada para Israel, onde foi recebida pelo gaúcho Nelson Burd, que vive próximo a Haifa e foi de trem até a casa de Yisrael Kristal. Na época, escreveu Burd: “Foi emocionante. Ele ficou muito feliz. A filha dele, Shula, estava lá também. O Bernardo Kopstein Schanz fez as fotos. Yisrael Kristal não sabia que nós íamos até lá. A filha dele preferiu não contar, pois ele ficaria ansioso, na espera. Ele usa aparelho auditivo, precisou colocá-lo para falar com a gente…Ele ficou muito feliz, surpreso. Contamos sobre o Grêmio, a coincidência, tudo. Ele ficou radiante. A imortal coincidência o comoveu. Na verdade, a todos nós. Ele ria e chorava ao mesmo tempo. Dizia: ‘é o meu aniversário; é a minha data na camisa’”.

 

Assim como o Tricolor Gaúcho, Yisrael agora é Imortal. Kristal que não se quebra! Imortal para seus dois filhos, seus netos e bisnetos. E para todos que viram seu exemplo de vida e de superação.
O Guinness World Record ainda não informou quem será agora declarado “o homem mais velho do mundo”.

 

Airton Gontow é jornalista, cronista e diretor do site de relacionamento Coroa Metade.

Ecos do carnaval: roteiro de acidentes é lugar-comum no Brasil

 

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Vítimas de acidente são atendidas no Sambódromo (reprodução site CBN)

 

 

Perdão pelo lugar-comum. Sei que poucas coisas são tão antigas quanto a expressão “ecos do carnaval”. Leio e ouço isso desde os tempos em que a mãe pintava um pinico na minha testa e me convencia que era o suficiente para estar fantasiado para o baile de carnaval dos Gondoleiros, clube da zona norte de Porto Alegre do qual meu avô era sócio remido – e reproduzo aqui essa informação pois lembro que na infância imaginava que esta categoria de associado era destinada às famílias nobres e, portanto, tinha orgulho de contar aos amigos.

 

 

O uso da palavra “eco” é uma desculpa que costumamos usar quando queremos voltar a escrever sobre assuntos que parecem esgotados, mas ainda reverberam na nossa cabeça. É o meu caso neste momento.

 

 

Mesmo depois de três semanas seguidas de festa, o carnaval ainda nos oferece subsídios para reflexão, especialmente diante dos acontecimentos no Sambódromo do Rio de Janeiro, onde dois carros alegóricos, da Paraíso do Tuiuti e Unidos da Tijuca, estiveram envolvidos em acidentes ferindo ao menos 30 pessoas, entre as quais algumas com gravidade.

 

 

Um dos diretores da Liesa – Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro – Elmo José dos Santos comparou os dois acidentes na Marques de Sapucaí a desastres de avião, mas não para revelar a dimensão da tragédia: “Tudo pode acontecer. O avião não cai? O avião não foi feito para cair, mas ele também cai. Então tudo pode acontecer”.

 

 

Infeliz comparação.

 

 

Apesar do clamor popular que acidentes de avião geram, por motivos óbvios, é inegável a seriedade com que os agentes envolvidos – fabricantes, companhias aéreas, engenheiros, pilotos, autoridades entre outros – tratam a questão da prevenção. Atitudes como as que levaram a tragédia da Chapecoense são raras. Se em lugar de desdenhar da gravidade dos acontecimentos no Sambódromo, o dirigente se espelhasse na forma como o setor aéreo atua, provavelmente estaríamos aqui apenas comemorando o título da Portela (aliás, eu nem estaria aqui escrevendo).

 

 

Por coincidência, ao mesmo tempo em que nossos carros alegóricos se envolviam em acidentes, no Rio, o mundo se mostrava escandalizado com a gafe proporcionada pela organização do Oscar, o maior prêmio do cinema internacional.

 

 

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Gafe histórica no Oscal (Reprodução site CBN)

 

 

Apenas para relembrar: os apresentadores Warren Beaty e Faye Dunaway anunciaram “La la land” como melhor produção quando o vencedor na categoria havia sido “Moonlight”. A PwC – PriceWaterhouseCooper, auditoria contratada para a apuração dos votos dos 6.600 jurados do Oscar, assumiu a responsabilidade pelo erro, imediatamente. Um de seus funcionários, no mínimo descuidado, entregou o envelope trocado aos apresentadores, enquanto ainda curtia o resultado de uma selfie com Emma Stone, vencedora na categoria melhor atriz.

 

 

A retratação não foi suficiente para a PwC, uma das empresas de auditoria e consultoria mais conhecidas do mundo, presente em 157 países, cerca de 223 mil colaboradores e receita bruta de US$ 35,9 bilhões, em 2016. Sua história não resistiu ao erro humano e a organização do Oscar cancelou o contrato e a parceria que durava oito décadas. Manchou seu legado.

 

 

Aqui no Brasil, a Liesa premiou as escolas responsáveis pelos carros alegóricos acidentados ao decidir que, neste ano, não haveria rebaixamento para não prejudicar as agremiações. E, sem pestanejar, isentou de culpa o engenheiro Edson Marcos Gaspar de Andrade, que certificou o carro da Paraíso do Tuiuti. Um engenheiro pra toda obra, como destacou em manchete o jornal O Globo, ao constatar que ele tem longa ficha de serviços prestados à Liga e a nove das 12 escolas de samba do grupo principal, no Rio.

 

 

O mais triste é perceber que tanto quanto a expressão “ecos do carnaval”, o comportamento da Liga das Escolas de Samba diante dos acidentes é lugar-comum no Brasil. A maneira leniente com que a Liesa trata o assunto é a mesma que permitiu a morte de 242 jovens na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), e causou o maior desastre ambiental que se tem notícia, além de ter matado 19 pessoas e deixado milhares sem abrigo, em Mariana (MG). Infelizmente, não faltariam exemplos se quiséssemos estender essa lista de tragédias. E não nos faltarão no futuro. Ao menos enquanto políticas de segurança e prevenção não se transformarem, estas sim, em lugares-comuns no Brasil.