Meu minuto de silêncio

 

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O minuto de silêncio que antecede o início de partidas de futebol é protocolar. Geralmente pedido pelo clube da casa ou por autoridades com a intenção de homenagear pessoas queridas —- muitas públicas, outras celebridades e algumas conhecidas da comunidade local. Há minutos de silêncio marcantes como o da tristeza pelo acidente aéreo da Chapecoense ou pela morte dos garotos do Flamengo — apenas para citar os mais recentes. Por contraditório que seja, um dos mais bonitos foi o proporcionado pela torcida do Botafogo que cantou um samba por um minuto em homenagem a Beth Carvalho. Nelson Rodrigues dizia que no Maracanã se vaia até minuto de silêncio como forma de descrever a irreverência do torcedor de futebol no Rio de Janeiro. A verdade é que na maior parte dos estádios nem sempre há o respeito devido e o grito de guerra de torcidas organizadas se sobrepõe ao silêncio dos demais.

 

Na segunda-feira à noite, sentei-me à frente da televisão, na casa da Saldanha Marinho, em Porto Alegre, para assistir ao Grêmio no Campeonato Brasileiro. O jogo era em Maceió, Alagoas, e antes de se iniciar o árbitro sinalizou a homenagem tradicional. O repórter de campo informou que o silêncio se fazia para lembrar alguém querido do clube da casa, o CSA.

 

O silêncio se fez dentro de mim.

 

Não fazia muito, eu havia participado da cerimônia de encerramento que marcara a despedida de meu pai, Milton Ferretti Jung, de 83 anos, que morreu no domingo pela manhã, em Porto Alegre. Nas últimas 24 horas, a dor da perda se fazia forte no coração. Havia experimentado uma montanha russa de emoções, em que no vale havia uma tristeza profunda por saber que jamais poderia abraçá-lo e beijá-lo novamente. E no cume, o orgulho de ouvir amigos, colegas de trabalho, ouvintes do passado com suas memórias e histórias a revelar a dimensão que o pai teve na vida de muita gente.

 

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Imagem de arquivo de jornal 

 

Estar sentado naquela sala, onde praticamente nasci e vivi minha infância e adolescência, era uma tentativa de resgate dos tempos em que passeava de mãos dadas com o pai, em direção ao estádio Olímpico ou a caminho da rádio Guaíba, onde trabalhou por 56 anos. Naquela sala, assistimos juntos às primeiras imagens a cores da TV que ele comprara. Sentamos no sofá para ouvi-lo contando as aventuras de viagens ao exterior, proporcionadas pelas coberturas esportivas. Nos atirávamos no tapete para acompanhar as sessões de slides que ele reproduzia na parede, um por um, cada qual com sua história —- e histórias que se repetiam sessão por sessão como se fosse a primeira vez que estivesse nos contando.

 

O minuto de silêncio no jogo que deveria ter se iniciado parecia não acabar mais.

 

Lembrei-me de quando estive com o pai na final do Campeonato Gaúcho de 1977, de quando comemoramos o Mundial de 1983 e das várias vezes em que ele me abraçou para sustentar meu choro por uma derrota qualquer. De quando invadiu o campo suplementar do Olímpico para brigar com o árbitro que havia expulsado o filho dele injustamente —- sim, sempre que fui expulso o juiz havia sido injusto comigo. De outras tantas, que ele sofreu sentado na arquibancada das quadras de basquete enquanto torcia por mim.

 

Pensei como ele foi importante para me fazer jornalista.

 

No apoio incondicional a todas as minhas decisões — menos aquela de partir com 20 e poucos anos para trabalhar em Florianópolis (ainda bem que ele não deixou). Mesmo aquelas que me levaram para longe dele como o dia em que decidi morar em São Paulo e ele não tinha mais como me impedir. No  dia em que me permitiu narrar a fuga de presos do Presídio Central de Porto Alegre, apesar de ter de tirar parte do Correspondente Renner do ar e invadir a Hora do Brasil. No gol do Grêmio que compartilhou comigo, na época repórter de campo.

 

 

 

Agradeci no minuto de silêncio, que já se estendia por um jogo inteiro, pela forma como o pai se comportou com os colegas de trabalho, pela retidão na conduta pessoal e profissional e pela maneira humilde com que recebia elogios e reconhecimento. Pelo jeito meio desajeitado de revelar seu amor pelos filhos, mesmo que esses gestos parecessem tão difíceis para quem cresceu sob outra orientação. Por ter aprendido, mesmo que tarde, a dizer: “eu te amo”. Agradeci até pela angústia que o consumia sempre que eu saía para à noite. Porque de sua personalidade e seus valores, aprendi muito para a vida.

 

O silêncio não estava mais dentro de mim, estava por toda parte. Porque nada era mais importante do que a memória que eu estava construindo naquele instante com a ajuda de todas aquelas pessoas que tinham me abraçado horas antes no Crematório Metropolitano São José, me enviado mensagens com lembranças vividas com meu pai, me encaminhado gravações do passado e homenagens feitas no presente —- como a dos locutores esportivos da Rádio Globo que cantaram o gol repetindo o bordão que marcou a carreira do pai.

 

No silêncio, agradeci a Deus por ter me permitido vivenciar tantos momentos incríveis com meu pai e por ter colocado tanta gente boa ao meu lado nesse instante de tristeza. Uma gratidão que, tenho certeza, é também do Christian e da Jacqueline, meus irmãos, tanto quanto da Abigail, minha mulher, do Lorenzo e do Gregório, meus filhos.

 

O espetáculo não pode parar?

 

 

Por Carlos Magno Gibrail

  

 

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Tales Cotta em desfile na SPFW foto: Instagram

  

 

Há 25 anos, Ayrton Senna abandonava a corrida em Imola para falecer no hospital. A corrida não foi interrompida, afinal a F1 é o espetáculo em que a convivência com a morte é real. E a morte não foi espetacularizada. A espetacularização veio pelo carisma internacional de Senna e pela paixão nacional que despertava no Brasil. Foi natural. Um fenômeno de popularidade.

  

 

Há 5 dias, na passarela da SPFW, o modelo Tales Cotta saiu do desfile da OCKSA após ter caído na passarela para o hospital. A direção da marca continuou a apresentação, sem alarde. A seguir, às 18h50, veio a informação à direção do SPFW que Cotta tinha falecido, às 18h40m.

  

 

Paulo Borges, diretor da SPFW, evitando a espetacularização da morte do modelo tomou a decisão de continuar com o evento. E decisão tomada após consulta com as pessoas envolvidas nas duas marcas que deveriam seguir com o espetáculo. Entretanto, a espetacularização começou pelas mídias sociais em seu ritmo característico:

“Via o evento fora do mundo tóxico da moda, mas era ilusão”
 

 

“Chega a ser macabro, desfilando no mesmo espaço do morto”
 

 

“Dinheiro e aparência é mais importante que uma vida”

O auge coube ao cantor Rico Dalasam que contratado para atuar no desfile da CAVALERA, o último desta edição do SPFW, exaltado, disse:

“Não era para ninguém estar aqui. O garoto acabou de morrer e vocês estão aqui como se a vida não valesse nada. Enquanto os vivos não lamentarem a morte dos negros, dos brancos e da humanidade das pessoas, a agonia vai estar no travesseiro de todo mundo agonia no travesseiro de todo mundo”

O contraponto veio da mãe do modelo, Heloísa Cotta.
 

 

Paulo Borges, em sua mensagem pela internet, destacou a compreensão e o apoio da mãe de Cotta na relação que mantiveram durante os momentos difíceis que vivenciaram — o que pode ser constatado no Instagram em que a OCKSA se desculpa por ter continuado o desfile e a mãe deixou registrado o seu pensamento:
 

 

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Os desfiles de moda que servem como centros de evolução da moda têm alguma similaridade com a F1 que é um contribuinte para a evolução do automóvel.
 

 

Assim como na F1, que progride na segurança dos pilotos estudando inclusive os acidentes, a MODA precisa tomar esse episódio de Cotta e checar as condições físicas e emocionais dos modelos, cuja atuação exige muito equilíbrio pela carga de exposição e emoção.
 

 

Em resposta a enorme quantidade de críticas contra a MODA, ressalto que a MODA é um raro produto que não corre risco de extinção. As funções psicológicas, sociais e econômicas não podem ser ignoradas. Os players de sucesso são, por obrigação do mercado, pessoas que se preocupam com as pessoas.
 

 

Paulo Borges em sua explanação reafirmou com categoria esta convicção:

”Estou na MODA pelas pessoas e não pelas ROUPAS”

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

A perda, a dor e o vazio do luto no jornalismo

 

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Perda, dor, vazio. São sentimentos que surgem com o luto. Com os quais o jornalista precisa negociar diariamente. O noticiário está sempre nos provocando com os assassinatos na porta de bar, os crimes de família e as tragédias anunciadas.

 

Cheguei em São Paulo, em 1991, e minha rotina era contar a história de mortes ocorridas em desabamentos de terra, comuns nas encostas da cidade de São Paulo, nos períodos de fortes chuvas.

 

Na madrugada, era enviado ao cafundó do Judas para fazer imagens de um assassinato. Ao chegar, lá estava o cadáver estendido na calçada. Coberto por páginas de jornais ou um papel alumínio a esconder seu rosto. Imagens feitas, informação apurada, sonora gravada. Segue para a próxima pauta. Para o próximo assassinato. De madrugada nunca encontramos um batismo a registrar. Só crimes e velórios.

 

A morte não saiu das minhas pautas, mesmo quando deixei as ruas — mesmo quando troquei a reportagem pela apresentação de telejornais, em 1993. Foi-se Ayrton Senna, em 1994. E eu falei por horas da comoção do povo brasileiro, em seu velório. Foi-se Mário Covas, e tive de relatar a tristeza de São Paulo, em 2001. No mesmo ano, transmiti ao vivo o terrorismo do “11 de Setembro”, em Nova Iorque. O primeiro baque surgiu quando parei para pensar nas dezenas de passageiros que estavam dentro do avião arremessado contra o World Trade Center. Depois foi a vez de olhar aquelas pessoas jogando-se do alto dos prédios. E quando as torres vieram abaixo, segurei-me para sustentar a voz e ser fiel aos fatos.

 

No entanto, as mortes passam, os cadáveres são esquecidos, alguns sequer registrados. A perda, a dor e o vazio ficam como legado dos parentes das vítimas —- pessoas que talvez nunca mais na vida você encontrará. E a sua vida, a minha vida, segue. Amanhã tem outra pauta para cobrir, outra história para contar. O salário cai na conta, os boletos chegam, a comida tem de estar no prato. Até uma nova tragédia.

 

Em 2016, a mais difícil delas. O acidente com o avião da Chapecoense, sabendo que entre os passageiros estava um amigo querido e respeitado por todos, Deva Pascovicci. Engoli o choro, engasguei com as lágrimas, parei de falar. Tinha vontade de desistir. Mas apresentei o Jornal da CBN até o fim mesmo sabendo qual seria o fim daquela história. Somente à noite, diante da televisão e abraçado em um dos filhos consegui chorar copiosamente como o coração pedia.

 

No jornalismo, tendemos a disfarçar os sentimentos. Construímos um personagem diante do fato triste porque temos a obrigação de retratar a realidade. Sem envolvimento. Frio. Calculista. Capaz de fazer qualquer pergunta por mais óbvia que pareça. Desconfiando sempre. Questionando na primeira oportunidade. Coisa de jornalista.

 

Dan Harris, correspondente da ABC News e âncora de televisão, cobriu guerras e tragédias. Considerava-se forte o suficiente para encarar as mais tristes situações da humanidade. Preocupava-se apenas com a qualidade do material levado ao ar e com a exposição que alcançaria. Brigava pelas melhores pautas, discutia com editores em busca de mais espaço na cobertura. Era obcecado pelo trabalho. Ao fim e ao cabo, voltava para casa sem se importar com a morte dos outros, sem se preocupar com nada nessa vida — a não ser sua ascensão profissional.

 

Um dia, Harris congelou na frente das câmeras. Teve um ataque de pânico diante de milhões de telespectadores. Em rede nacional. Descobriu depois que era como se todos os fantasmas das mortes registradas por ele se realizassem dentro de sua mente ao mesmo tempo. Foi o início de uma profunda reflexão sobre a vida. E o começo de uma odisseia pelo mundo da espiritualidade.

 

Ele conta essa história no livro “10% mais feliz”, publicado pela Sextante, no Brasil, no qual relata como driblou todos os seus preconceitos e medos em relação a meditação. Daniel Goleman, jornalista científico e psicólogo, apresenta-o “como o melhor livro sobre meditação para os não iniciados, os céticos e os curiosos”. Para mim, um livro que ajuda a pensar o jornalismo. A nossa tarefa de contar ao público o que vimos. O que sabemos. A verdade. Doa a quem doer. E entender que muitas dessas verdades vão doer dentro de nós e precisamos administrar esses sentimentos.

 

Harris medita. Eu não consigo. Não tentei. Mas choro. Foi assim quando soube da barragem que soterrou centenas e centenas de pessoas, em Brumadinho. Chorei baixinho na minha casa. Foi assim quando a repórter confirmou a morte de 10 meninos no Ninho do Urubu. Chorei em silêncio diante do microfone e se revelei minha dor foi na voz embargada.

 

Hoje, não estava mais na redação quando soube da morte de Ricardo Boechat.

 

Se um dia chorei por centenas, noutro por dezenas, hoje chorei por um colega. E essa dor é mais dolorida do que todas porque é uma dor muito próxima da gente. De alguém que estava ali ao nosso lado —- um pouco além do dial onde sou sintonizado todas as manhãs, no Jornal da CBN. Alguém que com seu jeito de fazer jornalismo na Band News FM, nos obrigava a pensar que jornalismo estávamos fazendo. Que radiojornalismo estávamos realizando. Que poucas horas atrás, estava diante do microfone fazendo aquilo pelo qual somos apaixonados: jornalismo.

 

E com a morte de Boechat lá vieram novamente aquelas sensações impertinentes do luto: perda, dor, vazio. Sensações que não tenho dúvida serão muito mais fortes no coração da Veruska, sua “doce Veruska”, e dos seis filhos que perderam o pai — o cara que a gente pode contar naquela hora em que pinta um dilema na nossa vida, naquele momento de felicidade que precisa ser compartilhado ou que vai dar um abraço revelador para conter nossa tristeza. A eles toda nossa solidariedade e o pedido que Deus amenize esse sofrimento e os console.

 

Pouco antes de sentar diante deste computador para compartilhar com você esse momento de tristeza que encaro —- e imagino que seja a de milhares de admiradores e colegas — deparei com a fala de Flora Tucci, psicanalista e filósofa, sobre o luto, registrada pelo jornal O Globo:

 

“Então, o melhor é se permitir passar pelo processo de transformação gerado por esse “adeus”, que vai nos preparar para os caminhos que podem surgir no futuro. É importante viver isso para deixar o novo chegar”.

 

Seja lá o que for esse novo que nos foi reservado, que jamais deixemos que a perda, a dor e o vazio caiam no lugar-comum dos sentimentos. Eu choro. Jornalistas choram, sim. Chorar é preciso!

Avalanche Tricolor: o dia em que o futebol ficou sem graça

 

Grêmio 6×0 Avenida
Gaúcho/Recopa — Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

 

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Jogadores e Renato prestam homenagem aos meninos mortos no Flamengo Foto LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Tinha taça em jogo. E taça a gente quer ganhar sempre. Em campo, estava o que havia de melhor à disposição de Renato — e ao longo da partida ainda entraram alguns jogadores que, provavelmente, deixarão o time ainda melhor. O toque de bola era o que aprendemos a gostar. A categoria do passe se fez presente desde o minuto inicial. A movimentação intensa abriu caminho para o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto gol —- e que baita gol foi esse último. Aliás, difícil escolher o mais bonito. De cabeça. De cavadinha. Com dribles. Com força. No ângulo. Gol para todos os gostos. A torcida assoviou para dar ritmo à equipe. Bateu palmas no mesmo compasso do futebol jogado. Cantou seus cantos. E relembrou o grito de “é campeão”!

 

Tinha tudo para ser um jogo perfeito. Mas foi sem graça. Uma graça que se perdeu na morte de dez garotos, vítimas da tragédia no Ninho do Urubu, na sexta de madrugada. Garotos que, como muitos daqueles que vestiram, vestem ou vestirão a camisa do Grêmio, só queriam ter o direito de jogar futebol. De sorrir pelo drible bem dado. De comemorar nos braços do torcedor o gol bem feito. De levar para a família a alegria de uma vida mais bem estruturada.

 

Um gurizada como Everton e Luan —- que começa na base a construir sua própria história e ser protagonista da história do seu time de coração. Que abre mão da infância e da adolescência —- aceita a rotina de treinos intensos, a distância da família e as condições que lhe oferecem para dormir, comer e morar — porque sabe que seu talento está prestes a abrir-lhe às portas para uma vida mais digna. Com o respeito dos outros. A admiração de muitos. O olhar orgulhoso da mãe e do pai, quando o tem. Dos parentes e amigos, também.

 

Os meninos do Flamengo são meninos como os nossos. Imaturos por adolescentes que são. Inseguros diante de uma vida que mal está começando. Ao mesmo tempo, corajosos. Capazes de superar qualquer dificuldade porque só assim terão espaço no campo do futebol. Sabem que os ídolos nos quais eles se inspiravam também tiveram de trilhar essa caminhada. Só não sabiam o que o destino havia reservado a eles. Destino? Talvez caiba melhor nessa frase a irresponsabilidade, o descaso, o desrespeito, a crença de que nada vai dar errado … essas coisas que se transformaram em lugar-comum nesse país que assiste aos seus jovens morrerem queimados em boates e alojamentos, suas famílias serem soterradas pela lama da mineração e sua gente ser levada pelas águas das enchentes. Tão comum quanto a impunidade que se segue a essas tragédias.

 

Bem que tentei sorrir a cada gol marcado pelo meu Grêmio. Mas o som dos trompetes militares entoando o toque fúnebre, na cerimônia que se realizou antes da partida, ficou em meus ouvidos e me fez lembrar a cada minuto de jogo que um daqueles dez meninos mortos poderia um dia estar ali na Arena do Grêmio fazendo aquilo que tanto desejavam em vida: dar alegria ao torcedor. 

Fé e ideologia não serão capazes de conter os efeitos do aquecimento global

 

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Duas pessoas morreram em ônibus soterrado na Niemeyer. Foto: Bárbara Souza/CBN

 

Acordei logo cedo com a voz de uma autoridade carioca no rádio oferecendo aos ouvintes a garantia de que a prefeitura do Rio estava preparada para enfrentar as dificuldades impostas pela tormenta que havia atingido a cidade na noite anterior. Seiscentos homens estavam nas ruas para atender a população, as equipes da noite foram reforçadas por aqueles que estavam encerrando o expediente, alertas foram emitidos com base no monitoramento dos radares do clima e sirenes tocaram em áreas de risco.

 

Suas palavras não eram coerentes, porém, com a descrição que repórteres faziam ao vivo ou com as fotos e vídeos que já circulavam na internet. O lobby de um hotel era comparado a um navio naufragando, o barro ocupava o salão de uma academia de ginástica, um homem era levado pela correnteza ao som de gritos de moradoras que gravavam a cena, ruas e avenidas estavam tomadas pela água e pessoas buscavam proteção de maneira improvisada —- a maior parte contando mais com a sorte do que com qualquer apoio oficial.

 

A impressão era que um furacão havia passado pela cidade e deixado seu rastro por todos os cantos. Os técnicos fizeram questão de esclarecer que os furacões estão no topo de uma escala que vai do grau 0 ao 12 e registram velocidade de 118 quilômetros por hora ou mais. O que aconteceu no Rio foi uma tempestade, que está no grau 10, e se caracteriza por ventos de 89 a 102 quilômetros por hora.

 

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Chuva colocou Rio de Janeiro em estágio de crise. Foto: Reprodução/TV Globo

 

Ao morador do Vidigal e da Rocinha, duas das áreas mais devastadas pela tormenta, tanto faz o nome oficial daquilo que eles assistiram e sofreram ao longo da noite e madrugada. Para eles e para os demais cariocas —- mesmo aqueles protegidos em prédios mais altos ou em suas casas em bairros mais bem estruturados — foi um caos. Um desespero sem fim.

 

O Rio já encontrou seis pessoas mortas desde o início do temporal — duas delas soterradas, quando tentavam voltar para a casa, na avenida Niemeyer. A terra deslizou na carona de uma árvore centenária que despencou morro abaixo até atingir o ônibus onde estavam os dois passageiros e um motorista —- esse conseguiu escapar com vida. Por sorte. Ou por Deus, como até os descrentes costumam dizer.

 

É com a sorte — e talvez com Deus —- que devemos contar enquanto os administradores das nossas cidades não são capazes de investir na mudança estrutural necessária para os novos tempos. Cruzamos os dedos para que no momento da tormenta já tenhamos chegado a um lugar minimamente seguro. E oxalá nossos parentes e amigos mais próximos também tenham conseguido.

 

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Uma pessoa morreu no Vidigal Foto: Marcelo Carnaval/ Agência O Globo

 

Um mínimo de interesse nos estudos do clima nos faria entender que não sobreviveremos por muito tempo enquanto acreditarmos que nosso destino será traçado pelo acaso. Sorte e azar não são elementos a se ponderar quando cientistas comprovam que a temperatura global aumenta a níveis sem precedentes — 16 dos 17 anos mais quentes registrados aconteceram neste século e nos últimos 40 anos, a temperatura media global esteve acima da média do século 20.

A medida que as temperaturas globais aumentam, eventos climáticos extremos se repetem com mais frequência, com mais custo e com mais destruição. Sabe aquelas chuvas que acontecem uma a cada mil anos? Foram registradas seis vezes, em 2016, nos Estados Unidos —- esse mesmo país que é comandado por um presidente que questiona o aquecimento global. Cidades litorâneas —- como o Rio —- estão muito mais expostas agora aos efeitos das marés altas do que estiveram em todos os tempos. Nos últimos 50 anos, aumentaram de 364% para 925% as inundações, nas três costas dos Estados Unidos.

 

As medidas paliativas e as palavras vazias não serão suficientes para conter as tragédias que tendem a se repetir a cada ano. Ambientes urbanos como o da cidade do Rio, que tem uma geografia a desafiar administradores, ou a de São Paulo, com sua extensão territorial inimaginável, não podem se dar ao luxo de esperar mais tempo até iniciarem de forma inteligente e planejada ações que mitiguem os impactos provocados pelo clima.

 

Repensar a forma de ocupação do solo, criar áreas para absorção da águas das chuvas, ampliar a quantidade de árvores para diminuir o efeito das ilhas de calor, deslocar famílias dos pontos de alto risco, reurbanizar favelas, recuperar córregos, riachos e rios, rever os modelos de transporte e reduzir a emissão de carbono são algumas soluções já há muito conhecidas e, por mais complexa que seja a implantação destas medidas, quanto mais tempo demorarmos para atuar piores serão os efeitos sobre a qualidade de vida do cidadão.

 

E para o nosso azar — perdão, uso a expressão apenas por força do hábito —- o que vemos avançar no Brasil, em lugar de politicas públicas que adaptam as cidades para esse novo tempo, é o discurso de políticos negacionistas ambientais. Uma gente cega pela sua fé e ideologia, incapaz de compreender que as evidências científicas são contundentes. Retumbantes. Destruidoras, se levarmos em consideração o que aconteceu no Rio nas últimas horas.

 

A persistirem os sintomas, a análise mais crua e certeira — tanto quanto mal-educada —- que ouvimos foi a de um cidadão carioca, voltando para a casa em meio ao temporal, aparentemente bêbado, que se intrometeu na cobertura ao vivo de uma repórter da Globonews para decretar: —- “Tá todo mundo f….., essa m…. aqui”

Brumadinho: subestimamos nosso poder de destruição

 

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Foto: Rodney Costa/Eleven/Agência O Globo publicada no site CBN.com.br

 

Os que já enfrentaram o risco de afogamento no mar sabemos o desespero que bate quando percebemos que não há como puxar o ar para os pulmões. No início, prendemos a respiração como reação de sobrevivência e tentamos nos orientar em busca da superfície. As ondas passam por nossa cabeça e a impressão é de que o caminho para o alto está bem mais distante. Apesar de estarmos a apenas alguns segundos enfrentando aquele situação, parece a eternidade. Se você como eu já tomou um caldo na praia, daqueles que deixa seu “GPS” sem norte, sabe quão ruim é a sensação. Nunca — ainda bem —- fui além desses segundos. De uma maneira ou outra encontrei a superfície, talvez porque estivesse muito mais raso do que pudesse imaginar. Os que estudam nossas reações dizem que ir além desses instante pode ser fatal. Ao desespero junta-se a ansiedade. A água escapa pela boca, chega a laringe. Parte vai para o estômago, outra para o pulmão. A troca gasosa deixa de funcionar. O oxigênio não entra e o gás carbônico não sai. Os efeitos começam a ser sentidos no cérebro. No pulmão, os alvéolos não suportam a pressão. Os glóbulos vermelhos são destruídos. O potássio se espalha. O corpo se contrai. O coração para. Morte.

 

Tenho imaginado essa cena desde que na tarde de sexta-feira recebi a primeira informação sobre o rompimento da barragem da mineradora Vale, em Brumadinho, Minas Gerais. A experiência que havíamos presenciado três anos antes em Mariana nos preparou para as imagens que assistiríamos em seguida. Uma onda de lama se formando e avançando sobre casas, lojas, hospedarias. Pessoas e famílias soterradas. Seres humanos que estavam vivenciando mais um dia de suas vidas, no trabalho, na prestação de serviços, nos afazeres domésticos, descansando, em um momento de lazer. O mar de rejeitos —- formado por restos de minério, sílica e derivados de amônia — provocou estrondos no caminho que percorria. Uns descreveram como um trem descarrilado; outros como se vários caminhões estivessem tombando — foi o que li na edição dominical de O Globo.

 

Na minha cabeça, a morte por afogamento se assemelhava a agonia enfrentada por aquelas mães e pais, filhos e filhas, avós e avôs, médicos e mineradores, caminhoneiros e cozinheiros — uma gente para quem só fomos apresentados agora através de reportagens que contam suas histórias de vida e logo serão números de uma estatística triste de descaso e irresponsabilidade. Nunca vai se saber ao certo o que cada um viu ou imaginou que estava ocorrendo. Se acreditaram que seriam capazes de sair do meio da lama, encontrar a superfície. É provável que a força e a velocidade da lama, em um movimento que se equivaleria ao tsunami, tenham causado impacto sobre as pessoas que estavam no seu caminho sem dar chance delas entenderem que a morte se aproximava. Sempre será uma incógnita como essas pessoas morreram — algumas  talvez jamais serão encontradas porque o corpo é sugado para debaixo da terra pela formação da lama.

 

O que sabemos é que morreram porque mais uma vez subestimamos nosso poder de destruição. O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, disse nesse domingo que todas as ações de segurança recomendadas por especialistas reconhecidos internacionalmente foram realizadas: “100% dentro de todas as normas e não houve solução”. Para em seguida afirmar que “vamos criar um colchão de segurança bastante superior ao que tem hoje para garantir que nunca mais aconteça um negócio desse”.

 

Garantir? 

 

Que garantia é essa? 

 

Talvez a mesma garantia que ouvimos quando a Vale e sua parceira BHP foram responsáveis pela maior tragédia ambiental já registrada no mundo, que matou 19 pessoas e contaminou o Rio Doce, em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015. Ou a garantia que nos deram logo após registrarmos a morte de 242 pessoas no incêndio da Boate Kiss, em  Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que completou seis anos nesse sábado. Ou a garantia das autoridades de que a vistoria de prédios seria mais rigorosa no Rio de Janeiro, desde que 17 pessoas morreram na queda do edifício Liberdade — lembrada semana passada, em reportagem do Jornal da CBN, na data em que completou sete anos. 

 

Em Mariana e arredores, famílias ainda esperam suas casas serem reconstruídas, a indenização definitiva ainda não saiu e ninguém foi condenado pela tragédia. Em Santa Maria, familiares dos mortos e as vítimas que sobreviveram lamentam que não houve avanços por parte das autoridades responsáveis na luta por justiça e os réus ainda aguardam julgamento. No Rio, menos da metade dos 130 mil prédios que deveriam realizar a autovistoria predial a cada cinco anos estão em acordo com a lei. E as vítimas? Cada uma se vira como pode. Sem ajuda dos responsáveis pelo desabamento. Sem justiça.

 

Aliás, é a única garantia que realmente temos nesse país. De que independentemente da frequência com que as tragédias ocorram, de onde ocorram e por que ocorram, seremos vítimas de irresponsabilidade, de desrespeito e de injustiça.

Peixonautas

 

O autor do texto que você acompanhará a seguir foi escrito por Matheus Mascarenhas, um garoto que acaba de completar 13 anos e já apareceu por estas bandas com outro artigo no qual falava sobre a intolerância que reina no país. Matheus escreveu “Peixonautas” e ganhou mais um prêmio literário. Esteve comigo no lançamento do livro, em Campinas, na noite desta quinta-feira, ao lado do pai dele, Henrique, e me entregou este texto que, segundo Matheus, foi dedicado a mim. Minha gratidão a Matheus. E aproveite essa reflexão sobre a morte:

 

Matheus Milton Jung

 

Por Matheus Mascarenhas

 

Todos os dias, presenciamos todo tipo de morte que se possa imaginar:
mortes de humanos, mortes fulanas, mortes cicranas, mortes dos animais,
mortes morais e intelectuais, mortes de todas as laias possíveis. Mas mesmo
assim, na maioria das vezes quase nenhuma dessas mortes rotineiras nos
impacta sentimentalmente, somente fazem parte de nosso cotidiano. A única
contrariedade no assunto acontece com as mortes que nos impactam, que nos
atingem, nos sentimentos, principalmente. Elas são as mortes mais difíceis de
confrontar. São as mortes das pessoas, animais, ou ideias que valorizamos e
amamos. Um exemplo prático é o óbito de uma avó, algo tão ruim quanto a dor
da dissecação de um membro. A diferença entre essas duas dores é que uma
delas nunca acaba, contudo, a semelhança é que as duas deixam suas marcas.
Enfim, essa é nossa realidade e é nela em que vivemos.

 

Essa tese ponderada acima, calhou-se a mim, hoje, quatro de Agosto de
2018, e foi ela que me motivou a escrever esse texto. A tese: morte, na minha
vida foi sempre algo inédito, a transpasse de algo valorizado por mim, sempre foi uma novidade discrepante e que nunca fora cobiçada por mim; jamais a senti.
Essa peculiaridade da vida, hoje bateu na minha porta e foi recebida por mim,
como a mais excêntrica e divergente peculiaridade de toda minha vida. A própria
personificação da realidade, a qual me acudiu em meio a um monótono sábado.
O que poderia ser? Para vós, com asseveração, é uma morte fútil, como todas as
milhares de mortes rotineiras. Todavia, essa morte para mim é uma daquelas que
você resguarda por sua vida inteira, embora, não sendo uma das mais
consideráveis. Finalmente vos revelo o que se adviu: o singela falecimento do
meu peixe de estimação.

 

Um fabuloso Betta splendens, raça comum para estimação. E como o
nome já diz, eu portava uma extraordinária estima por aquele peixe. Comprei-o
há exatos 2 anos e 13 dias, como presente, imaginando ser somente uma
“decoração” ou enfeite, todavia, eu estava incorreto. Esse meu amigo Betta de
corpo preto e cauda avermelhada foi mais do que um amigo, foi um companheiro
de vida, por esses 2 anos. Mesmo que seja pouco, esse pequeno e fascinante
animal, transformou de alguma forma meu cotidiano e minha vida. E quando me
lembro da cena, a alimentá-lo com cinco bolinhas de ração, me decorre uma
extrema tristeza e desolação, minha mente e coração se enchem de lágrimas só
de lembrar daquela módica ação.

 

Enfim, depois de toda essa amargurada história, pude, através da primeira
experiência de morte lembrável e impactante na minha vida, descobrir que o
amor e tristeza, ambos considerados extremos distantes um do outro, na
verdade são os dois sentimentos mais próximos que podem existir. O apego a
algo é o fator que cria a tristeza e impõe em algum momento um barreira para
felicidade, o paredão da prostração e melancolia. Isso é um fato e não pode ser
mudado.

 

Um paradigma singelo e medíocre pode ser simplesmente o encerramento
de algum programa de televisão ou série favorito. É dado o seguinte: nos
momentos em que é possível assistir a esta série ou programa, se personifica a
sensação de conforto e veneração à ambas. Porém, em algum momento quando
as gravações se encerram, o sentimento primordial se personifica (raiva e ódio),
depois, entram em vigor outros sentimentos, menos perigosos, contudo, mais
persistentes (tristeza e desolação), os quais são os responsáveis pela criação da barreira que não nos permite obter a visão do amor pela série, mas sim a
lamentação pela própria.

 

Esse foi um paradigma obtuso, porém, muito lúdico quando se é levado a
representar o que o amor pode causar. E nesse experimento arremata-se a
dúvida da veracidade da seguinte hipótese: o amor cura a tristeza.
Ao explorar a ponderação em casos práticos variados, pude totalizar que,
a hipótese do “amor ser a cura da tristeza” é errada, errônea, falsa, e finalmente incongruente. A verdadeira hipótese e conclusão real é a seguinte: “O amor leva a tristeza”, de qualquer forma. Sempre o ato de amar alguém ou algo, em algum momento, se transformará e levará a tristeza e melancolia. O amor é perigoso.

 

Essa é a lógica mais real e massacradora que pode explicar quase, senão todos os
problemas psicológicos das pessoas, porém inapreensível para muitas outros
indivíduos. Enfim, não querendo mais me aprofundar, nesse assunto, digo: o
amor cria barreiras; e infelizmente essa é a verdade. Para elucidar, vos lembro
que, já disse Platão uma vez: “Amor: uma perigosa doença mental”, enaltecendo
de uma vez a tese que afirma a procedência dos problemas mentais por conta
do amor.

 

Ao final como conclusão vos digo: mesmo pelo amor ser o causador dos
problemas, barreiras mentais e tristeza, não deixe de amar. Eu concordo em
parte com a frase de Platão, porque mesmo que ele rotule o amor como sendo
perigoso, eu apoio e quero que as pessoas não parem de amar para não caírem
no precipício das outras tristezas, as de não amar. Então conclui-se que é
melhor amar e depois sofrer uma tristeza que pode às vezes ser quebrada com
uma simples lembrança de um sentimento feliz, do que viver sem amar, sempre
triste, com medo de onde a aventura do afeto pode lhe levar.

 

Quase terminando a prosa, acabo de me lembrar de um anúncio em tela
de televisão no qual estava escrito: “Peixonautas, toda terça – quatro da tarde”, e me veio a lembrança mais profunda: do corpo do meu peixe morto no seu
aquário. As lágrimas me vêm, porém, num piscar de olhos, me lembro de todas as
melhores lembranças com meu animal, experiências, brincadeiras, conversas, e
no final, abro um sorriso e penso: “Ele está melhor do que eu”. E no final não me torno um amargurado resguardador da melancolia e desolação da perda. Na
verdade, sou um quebrador das barreiras desses problemas, e assim me
considero um Peixonauta feliz.

Sem palavras para Cony

 

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Ensaio escrever algumas palavras sobre Carlos Heitor Cony desde sábado quando fui informado da morte dele, ocorrida na noite anterior, no Rio de Janeiro. Cony teve o corpo cremado, nesta terçao-feira, e suas cinzas serão levadas para algum local especialmente escolhido por ele e descrito em documento registrado em cartório. Apesar do tempo e de sua passagem, a palavra certa ainda não apareceu. Escrevo uma, deleto. Substituo por outra, desisto. Recomeço. Busco uma palavra para identificá-lo e não encontro. Busca que se iniciou logo que fui convidado pelo Roberto Nonato a falar na rádio CBN, minutos após termos noticiado o falecimento de nosso comentarista.

 

O Arthur Xexéo, que dividiu com Cony o protagonismo do “Liberdade de Expressão”, no ar desde 2001, no Jornal da CBN, e também esteve comigo na conversa com o Nonato, foi direto ao ponto: o Cony era o cara mais culto que conheceu em toda sua vida. A cultura dele realmente era impressionante. Não refugava tema algum que lhe fosse oferecido para comentar no “Liberdade”. Quando muito, pedia para ser o último a falar, como se quisesse antes saber o que pensava seu companheiro de quadro – o que lhe permitiria, se fosse o caso, discordar sem constranger. Assim podia também perceber qual o melhor caminho a percorrer e, especialmente, como dar ao tema, por mais mundano que fosse, uma abordagem histórica.

 

Às vezes arriscávamos, dentro do estúdio, com a equipe do Jornal da CBN, antecipar o que o Cony nos diria sobre determinada notícia. Já estava há tanto tempo no ar com a gente que sabíamos um pouco do que pensava sobre tudo. Mas ele sempre nos surpreendia, seja pelas palavras usadas para se expressar, seja pela história compartilhada, seja pela sinceridade que marcava sua opinião. Uma opinião que não temia rótulos nem patrulha. Oferecida com humor, ironia e deboche, conforme a situação.

 

Lembro que sempre que abordávamos o poder dos bicheiros e o envolvimento deles no crime organizado, Cony preferia se ater a figura do apontador do jogo, que ficava aguardando os apostadores na calçada: um homem bom, inofensivo e amigo, era o que dizia. Ele era assim mesmo: capaz de descrever com romantismo os casos mais escabrosos do noticiário assim como analisava com crueza e sem perdão outros tantos assuntos.

 

Não tinha medo de ser contraditório: falou no “Liberdade”, quando completou 90 anos, que nas festas de aniversário, cantava apenas o “parabéns à você” e se negava a desejar “muito anos de vida”: – Ninguém merece isso, justificou-se. Por outro lado, era categórico ao dizer que, apesar de todos os males da velhice, gostaria de continuar vivo se pudesse escolher.

 

Impressionava-me era a dedicação que tinha com o trabalho. Mesmo aos 91 anos, e diante de dificuldades expostas por doenças que enfrentou nos últimos tempos, não abria mão de sua participação no “Liberdade”. Costumava dizer que estar ao vivo, na rádio, o deixava mais vivo. Declarou em entrevista – que reproduzimos nesta segunda-feira, no Jornal – o orgulho que tinha pela repercussão dos seus comentários na rádio. Logo ele que tem livros que são “campeões de audiência”.

 

Aliás, reescrever “O Beijo da Morte”, ao lado da jornalista Anna Lee, certamente era outro grande motivo para se manter vivo e atento. O livro, sucesso desde que chegou às livrarias em 2003, será relançado em breve com novos capítulos e notas suplementares, além de um novo nome: “Operação Condor”, conforme nos contou em entrevista, nessa segunda-feira, a própria co-autora, ao Jornal da CBN.

 

Cético, provocador, inteligente, contraditório, polêmico, sincero, genuíno, romântico … Temo que qualquer uma dessas e outras palavras que surjam não sejam fidedignas a estatura intelectual e humana do Cony. E talvez por isso minha busca iniciada no sábado não faça o menor sentido. Quem sou eu para querer defini-lo com palavras? Cony falava por si mesmo e seus livros e obras estarão sempre aí à disposição para quem quiser conhecê-lo melhor. Eu não perderia essa oportunidade de jeito nenhum.

 

Conhecer Cony é um privilégio para todos nós, seus leitores e admiradores.

Avalanche Tricolor: entendi o recado, Everson!

 

Avaí 2×2 Grêmio
Brasileiro – Estádio da Ressacada, Florianópolis/SC

 

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Everson Passos aqui embaixo, ao lado do Roberto Nonato, no estúdio da CBN

 

Esta Avalanche não escrevo para você, caro e raro leitor. E tenho certeza de que você entenderá. Também peço encarecidamente aos amigos que reproduzem esta Avalanche em seus blogs dedicados ao Grêmio que poupem seus leitores das minhas palavras, mesmo porque não vou falar do resultado desta noite de domingo. O que falarei aqui é algo muito particular que não gostaria de ver exposto especialmente à sanha intolerante que toma conta da sociedade contemporânea. Mas preciso escrever. Para mim sempre foi a melhor maneira de arrancar a tristeza do coração.

 

Hoje, vou dedicar esta Avalanche a um colorado. Um cara que era capaz de vestir a camisa encarnada (ou estilizada) na alegria e no sofrimento. Nos momentos extremos em que seu time vencia, especialmente quando vencia o meu, ou diante de derrotas copiosas. Ele fazia questão de mostrar-se solidário nesses instantes. Solidário a sua paixão, como muitos de nós torcedores costumamos ser.

 

Falo aqui de Everson Passos, que morreu sexta-feira, dia 27 de outubro, após ter sofrido, há três meses, um derrame cerebral que o tirou a consciência e o desconectou da vida. Foi meu colega na CBN e teimo em acreditar que chegou a trabalhar com o pai lá na Rádio Guaíba de Porto Alegre. Se não o fez, com certeza conheceu meu pai enquanto atuava como jornalista no Rio Grande do Sul, pois o pai foi nosso assunto em comum em mais de uma oportunidade.

 

Ele falava pouco, resmungava muito, dizia certas verdades e nunca nos deixava ser levado pela ilusão das vitórias. E não falo aqui das coisas do futebol, não. É dá vida mesmo. O Everson tinha os dois pés no chão (a não ser quando estava montado em uma bicicleta) e nos colocava no devido lugar sempre que nos atrevêssemos devanear.

 

Chegava a ser engraçado na maneira de se portar diante dos fatos. Olhava de revesgueio, como costumamos dizer lá no Rio Grande, tinha um ar desconfiado e nas poucas palavras que proferia dizia muito.

 

Ao meu lado apresentou algumas edições do Jornal da CBN quando se revelava ainda mais rigoroso com a leitura dos textos. O mesmo rigor que usava no momento de redigir ou editar as reportagens. Um rigor que não se voltava aos colegas, mas a ele próprio.

 

Foi esse mesmo rigor que fez com que ele decidisse voltar para o Rio Grande do Sul. Deixou a rádio e São Paulo porque acreditava que tinha uma missão muito mais importante: cuidar da mãe que vivia sozinha desde a morte do pai. O destino lhe pregou uma peça. Poucos meses depois de chegar a terra natal sofreu o derrame e a mãe ficou para lhe dar carinho e apaziguá-lo até a morte.

 

E mesmo na morte, Everson não deixou de ser Everson.

 

Ao morrer com apenas 51 anos, sem precisar dizer uma só palavra, nos manda um recado ao estilo dele. Escancara a fragilidade do ser humano e nos faz ver como desperdiçamos nossos momentos com picuinhas, desentendimentos baratos entre amigos, colegas de trabalho, torcedores e mesmo irmãos, pais e mães. É como se estivesse nos dizendo: vai cuidar da sua vida!

 

Valeu, Everson! Anotei o recado.