Conte Sua História de São Paulo: a primeira moradia na pensão da Alameda Nothmann

 

Por Clênio Falcão Lins Caldas
Ouvinte da CBN

 

 

Naquele início de tarde de 30 de março de 1954, uma terça-feira, chovia a cântaros na então “cidade que mais cresce no mundo”. O coletivo da empresa “Pássaro Marrom” chegou a capital paulista em meio ao trânsito caótico e congestionado, e se dirigiu à Avenida Rio Branco, ponto de partidas e chegadas de ônibus rodoviários. A cidade ainda não dispunha de uma estação rodoviária.

 

O garoto, que era eu, com seus sete anos, ainda estava atônito e cansado pela viagem iniciada às sete da manhã, na estação rodoviária do Rio de Janeiro, na Praça Mauá. Ao lado dos pais e dois irmãos, eu observava o burburinho de transeuntes ali na calçada, em frente ao escritório da empresa de ônibus. No reloginho de pulso marcavam 14 horas, em ponto.

 

Juntada a modesta bagagem, o pai procurava um carro de aluguel para nos levar a pensão da Dona Doralice, no bairro da Bela Vista, na Martimiano de Carvalho.

 

Todos acomodados no sedã Ford de cor preta, rumamos para o endereço anunciado Assim que chegamos, meu pai foi falar com a senhora proprietária da pensão, enquanto o aguardávamos ansiosos para descansar. Mas ele voltou desanimado. Não havia lugar para a família. Estava lotada.

 

Por indicação do chofer, partimos para os Campos Elísios onde provavelmente encontraríamos abrigo em outra pensão. Alameda Nothmann. Trânsito pesado de ônibus, carros e veículos de carga. Assim que o automóvel estacionou, lá foi meu pai mais uma vez falar com os donos da estalagem. Dessa vez, retornou feliz, pois Dona Aparecida aceitou nos receber. Era um modesto quarto que abrigou toda a família.

 

Eu não continha a emoção.

 

Não obstante o cansaço, corri para a grande janela que dava para a rua e, embevecido, debrucei-me encantado com o ruído do trânsito lá fora. Tudo era novo!

 

Quatro dias atrás residia no sossegado bairro de Madalena, no Recife, com passagem de 48 horas pela cidade do Rio de Janeiro — minha cidade natal. Agora integrava a população de alguns poucos milhões na metrópole considerada a maior do Brasil. Era muito para minha pouca idade e minha discreta experiência em viagens distantes de onde havia passado dias tranquilos da infância.

 

Ao mesmo tempo, era um desafio aproveitar aquela feliz oportunidade de chegar a majestosa capital que acabara de completar o seu quarto centenário. Tão importante, tão emocionante quão diferenciada que a partir daquela data tomei a decisão de recordar com a família e os conhecidos que povoariam sua existência o marco de 30 de março, inicio de um período de minha vida que jamais será olvidado.

 

E assim tem sido nestes 65 anos na vida deste garoto carioca, criado na capital pernambucana em sua primeira infância e agora celebrando sua terceira naturalidade como cidadão paulistano.

 

Clênio Falcão Lins Caldas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

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