Conte Sua Histórias de São Paulo: o esqueleto dos prédios da Berrini

 

Por Soraia Mergulhão
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci no interior. Acostumei a uma vida numa cidade que é muitas vezes extremamente provinciana. Para mim, São Paulo representa a abertura de horizonte. O inusitado, uma aventura! 

 

Parece que no dia a dia minha cabeça está sempre abaixada, olhando pro chão. Ao entrar na Metrópole, ergo os olhos e os sentidos se apuram. Um portal se abre, para me desafiar. Empurrar.

 

Criança ainda, fomos à Capital visitar os primos que moravam em Santana, um bairro residencial. No caminho, observava as casas bem juntinhas, grudadas umas as outras, pareciam meio sufocadas. A primeira impressão que tive da cidade é que não havia espaço ali.

 

Para nos impressionar, nossos primos nos levaram ao metrô. Um trem muito rápido e silencioso, segundo me explicaram. Na estação, andei na escada rolante pela primeira vez, com medo de tropeçar nos degraus que surgiam de repente. Venci meu primeiro obstáculo! 

 

Uma década se passaria e lá estava eu, descendo do ônibus, em frente ao Hospital da Aeronáutica, no fim dos anos 1980: fim da ditadura, início do curso de piloto.

 

Lembro da construção ampla e amarela com corredores limpos, cheios de pessoas sérias usando fardas. Nas vezes que lá estive para exames médicos, sentada aguardando minha vez, ouvia as histórias dos pilotos e comandantes de linhas aéreas comerciais comentando seus vôos, suas vidas. Eu era uma espiã coletando informações de um outro mundo.

 

Uma vez, conheci um comandante que fazia a ponte aérea Rio-São Paulo. Ele perguntou se eu gostaria de conhecer uma cabine de avião comercial 

 

– Óbvio que sim!! Que pergunta!

 

Fomos de táxi a Congonhas. Ele me conduziu a pé pela pista do aeroporto até entrarmos num Electra, um turbo-hélice que fazia o trajeto. Na cabine mostrou como tudo funcionava, enquanto ligava a aeronave. Foi uma grande emoção ouvir os motores acordando ao simples toque num botão! 

 

Poucos anos depois, eu namorava um rapaz que morava perto da Berrini. Início dos anos 1990. A região era um canteiro de obras. O estado embrionário do que iria se tornar aquela região. Novamente, descia eu do ônibus e percorria algumas quadras a pé observando os esqueletos dos prédios se erguendo e os grandes poços abertos para as fundações. Andávamos muito a pé. Íamos andar na Paulista, assistir a filmes no cine Belas Artes ou no Shopping Iguatemi. O namoro não durou muito, mas o hábito de andarilha ficou — o gosto de percorrer as ruas de casas velhas ou prédios modernos, enquanto me misturo aos transeuntes só para descobrir como eles vivem.

 

Nunca mais perdi o hábito de explorar em respeitoso silêncio os recantos, curvas e ângulos desta quase esquizofrênica senhora — sim, porque apesar do nome, São Paulo, eu acho que esta cidade é mulher. Só pode ser. Só uma mãe poderia acolher a tantos, tão diferentes e se permitir ser deformada, inchada, modificada e ainda esconder uma beleza inocente para ser descoberta por aqueles que conseguem ver além do óbvio.

 

Soraia Mergulhão é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

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