Conte Sua História de São Paulo 466: o restaurante do futuro que me leva ao passado

 

Por Breno Lerner
Ouvinte da CBN

 

 

Fui uma única vez ao Giratório. Tinha uns 11 anos e meu avô Maurício que conhecia tudo da cidade lá me levou. Analisando hoje era um cenário que poderia tranquilamente estar no filme Tempos Modernos, de Chaplin.

 

Entrava-se por uma porta tipo saloon, fazia-se e pagava-se o pedido por número:

 

1 — arroz/feijão/bife/salada

 

2 — arroz/feijão/carne assada/fritas

 

Acho que eram 20 números no total. Tinha uma deliciosa lasanha, carne assada à brasileira e as duas salvações dos office-boys: a macarronada e o arroz com dois ovos, por preço baixo. O pedido era por interfone à cozinha —- o primeiro de São Paulo, trazido da Itália pelo dono da casa. Lavávamos as mãos e para tirar a água usávamos o primeiro secador a ar da cidade.

 

Sentava-se em uma cadeira, frente a um balcão que por sua vez ficava diante de uma envidraça cozinha oval. O balcão e a cadeira giravam ao redor da cozinha. Na primeira janela, você recebia sua comida e bebida. Tínhamos uns 20 ou 30 minutos para comer. Chegava-se então à janela das sobremesas e, em seguida, em outra janela na qual devolvia-se pratos, copos e talheres. Giro completo, alimentação feita, voltava-se a porta de saloon para ir embora.

 

Uma queixa recorrente era que quem pedia a carne assada à brasileira não comia em tempo de completar o giro e precisava de um extra, para prejuízo da fila.

 

A iniciativa foi da família Barioni, uma família de artistas e inventores. Mário bolou o restaurante; Ézio não só dirigia a casa como construiu máquinas de lavar prato, descascadores de batata e aquela secadora de mãos. O terceiro irmão, Baby Barioni, também ajudava. Ele foi o criador dos Jogos Abertos do Interior.

 

O restaurante Giratório funcionou na rua Amador Bueno, hoje rua do Boticário, de 1958 a 1968 quando fechou sufocado pelos custos da renovação do aluguel e operacionais.

 

Não vou jamais conseguir descrever a vocês meu fascínio quanto entrei e vi aquilo tudo funcionando. Era como ser transportado ao futuro.

 

Hoje, vivo no futuro e tenho uma saudade danada do passado.

 

Breno Lerner é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias de São Paulo visite o meu blog miltonjung.com.br

7 comentários sobre “Conte Sua História de São Paulo 466: o restaurante do futuro que me leva ao passado

  1. Também conheci o restaurante giratório. Conto para as pessoas e elas não entendem como podia ser e se isso era possível. Era muito pequena, mas tenho flashes na memória de chegar ao local, dos acentos, das janelas de onde saíam os pratos e de “rodar” até chegar a sobremesa. Era muito legal, lembrança muito boa, mas que ninguém mais que conheço tem. Cheguei a achar que era invenção da minha cabeça. Obriga por confirmar minha lembrança. 😁

  2. Também conheci o restaurante giratório. Conto para as pessoas e elas não entendem como podia ser e se isso era possível. Era muito pequena, mas tenho flashes na memória de chegar ao local, dos acentos, das janelas de onde saíam os pratos e de “rodar” até chegar a sobremesa. Era muito legal, lembrança muito boa, mas que ninguém mais que conheço tem. Cheguei a achar que era invenção da minha cabeça. Obriga por confirmar minha lembrança. 😁

  3. Frequentei .

    a maionese era “salada russa”

    o primeiro restaurante verdadeiramente democrático que frequentei (sem mesas reservadas ) cadeiras giratórias , boys e executivos lado a lado.

    Quando uso as “esteiras” da estação Paulista/Consolação (Metrô) me remete a estas memórias .

  4. Li este artigo em um outro site. Sou outro dos filhos do Ezio. Tb muito me orgulha ver que o Gira (como chamávamos) é lembrado e reconhecido e o autor tem muitos méritos, mas cometeu (não por culpam dele, claro), alguns enganos.
    1- No “giro”, havia ainda uma outra janela para o café.

    2- O inventor e executor do Gira foi o TIO do meu pai, Mario Genari Filho, quew apesar de terem quase a mesma idade, não eram irmãos.

    3- Meu pai teve outros negócios, (restaurante, açougue, fabrica de brindes de cristal, etc), mas NUNCA gerenciou nenhumdeles. Era gravador (o melhor), ganhava muito $ e somente investia. Quem administrava com maestria os negócios era um “tio postiço” chamado Breno. Após o passamento do tio Breno e alguns outros acontecimentos desastrosos, tudo ruiu.

    4- Tio baby, este sim, irmão mais novo de meu pai, nunca teve nada a ver com o Gira. Tinha um cantinho no 2o. andar para suas “aventuras”, como criar os jogos abertos do interior, mas nunca participou em nada do restaurante.

    5- O Giratório de SP não foi o único. Na verdade pertencia a uma sociedade e tio Mario resolveu abrir um no RJ onde morava. Como a sociedadde não tinha capital, meu pai comprou o de SP para a sociedade ter $ pra construção. O 3o. foi em Santos e um em Portugal nunca saiu do projeto.

    Espero ter contriubuido….

Deixar mensagem para ROBERVAL RODRIGUES BARIONI Cancelar resposta