Conte Sua História de São Paulo 466: os passeios de bar em bar na noite paulistana

 

Carlos Ferreira Lima
Ouvinte da CBN

 

 

São Paulo nunca foi uma cidade, digamos, muito tranquila. Sempre teve seus bandidos, alguns até famosos. Mas entre os anos de 1970 e 1980 dava para atravessar, por exemplo, sem medo, de madrugada, a Praça da Sé — ao menos era o que eu fazia, sem susto, sem sobressaltos.

 

Na Praça da Sé mesmo, do lado esquerdo de quem entra no imponente prédio de fachada de estilo jônico e granito negro da Caixa Econômica Federal, havia um bar minúsculo, desses que não suportariam três fregueses em pé, chamado Toca da Onça, que ficava aberto 24 horas. As sugestões de ‘comes e bebes’ eram poucas, e honestas: servia um sanduíche de linguiça do tipo Bragança, saboroso, feito na chapa. Podia-se até encomendar a compra da linguiça, a granel, por quilo. Depois que o bar fechou, o lugar virou loja de cartuchos, cujo letreiro até outro dia ainda estava estampado no toldo. Voltou a fechar.

 

Eu trabalhava no BCN — Banco de Crédito Nacional, que também não existe mais, na Rua Boa Vista. Algumas vezes, às sextas-feiras, após o expediente e quando não tinha aula, caminhava até o Bexiga que na época bombava como hoje ferve a Vila Madalena. Havia bares como o Café do Bexiga, o Persona e o Boca da Noite. Daqueles tempos, resistem o Café Piu Piu e o Café Aurora.

 

O Persona era de um artista plástico, todo decorado com espelho e velas. Nele jogava-se o Persona com um espelho, um par de velas e um disco do tamanho de um long play. Um casal, frente a frente, intercambiava imagens e brincava com isso por um bom tempo. Jazz e rock ao vivo eram as trilhas sonoras. O baixista Pete Woolley estava sempre tocando por lá.

 

Na volta do Bexiga, a pé, de madrugada, pela Santo Amaro, Maria Paula, Viaduto Dona Paulina, chegava a Praça da Sé. Uma parada para comer um sanduíche, beber, provavelmente, uma saideira, descer a General Carneiro e chegar Praça Ragueb Chohfi, no Parque Dom Pedro II. De lá seguia para casa, com um ônibus que circulava 24 horas — coisa rara naquele tempo. Esta linha que seguia para Ferraz de Vasconcelos, na Região Metropolitana, cortava a zona Leste — passava pelo Tatuapé, Carrão, Vila Formosa, Itaquera. Não existe mais, assim como muitos dos bares que frequentei. Assim como a tranqüilidade que me permitia caminhar de madrugada. O que persiste é São Paulo. A nossa São Paulo.

 

Carlos Ferreira Lima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você também as suas lembranças da cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: o primeiro emprego no estúdio dos jingles

 

Cláudio Moreira
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci na Maternidade São Paulo. Hoje, tenho 73 anos. E me veio a mente as lembranças do meu primeiro emprego, em 1961. Fui trabalhar no centro da cidade que para mim era uma consagração, pois fui para a rua mais badalada de São Paulo daquela época, a Barão de Itapetininga. Número 255, Galeria Califórnia. Ali havia a Magson que depois virou Studio G. Martins, onde eram gravados os melhores jingles do rádio e da TV brasileiros.

 

Eu era office-boy e tinha contato direto com os grandes criadores: Gilberto Martins, Heitor Carillo, Carlos Henrique e o o maestro Hector, um argentino. Lá foram criados os jingles da ‘Grapette, quem toma repete’, ‘Tody dá mais energia’ e, entre outros tantos, o do Creme Rugol ….

 

Não segui esse caminho da criatividade. Fui para o mundo financeiro, que não deixa de ser criativo, vai? Agora, aposentado, ouço a CBN boa parte do dia e curto minha neta Duda, de cinco anos. Aprendi muito com aquele pessoal do primeiro emprego. Considero-me um cara alegre e criativo —- ao menos é o que Duda costuma dizer quando fala do vovô.

 

Claudio Moreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva as suas lembranças da cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 466: meu amor preso na jaula do Parque Shangai

 

Cesar Campos
Ouvinte da CBN

 

 

Hoje estou com 65 anos. Quando criança vi coisas incríveis em São Paulo.

 

Meus pais eram separados e eu vivia com minha mãe e irmãos. Esperava com ardor o dia de sábado, quando ele me levava a passear no Parque Dom Pedro II. Cheio de árvores, caminhos ladeados de flores e plantas tropicais. Tinha lagos, uma ilha artificial. Pequeninas pontes. Que o coronel Américo Fontenelli transformou em estacionamento de ônibus.

 

Ao lado do parque D Pedro, meu pai me levava ao Shangai, uma jóia então perene para os olhos de uma criança de seis ou sete anos. Foi lá que tive minha primeira paixão de que me recordo. Uma bela moça, que deveria ter 18 ou 19 anos, que se transfigurava, por um acidente genético ou maldição tribal, em um enorme gorila. Era a Monga, a Mulher-Macaco. Uma morena de maiô, lindas pernas, cabelos ondulados e longos, lábios carnudos. Quando, ao apagar das luzes, ela se transformava e ameaçava sair da jaula, as pessoas corriam e gritavam. Eu ficava firme, como um herói, esperando que ela voltasse a sua beleza natural na próxima sessão. Ou no sábado seguinte.

 

Com minha mãe, eu andava de bonde. Com seu cobrador heróico, que circulava pendurado na boleia com os dedos cheios de notas de dinheiro fazendo troco. Curtia a chuva de dentro do “bonde camarão”, aquele fechado, onde eu via a publicidade do Rum Creosotado.

 

Pegava o bonde na Avenida Celso Garcia, no Brás, onde morávamos, até a Praça Clóvis Bevilacqua; e na Praça da Sé embarcávamos em um segundo bonde que subia a Vergueiro até a Praça Santo Agostinho, onde morava minha madrinha Josefina, amiga de mamãe dos tempos de juventude em Ribeirão Preto. Eu ficava horas na varanda, olhando aquela pracinha com ares europeus, árvores miúdas e banquinhos, ladeada por muros de tijolinhos à vista da Igreja e vivendo, quem sabe, um “dèja-vu” de outras vidas no velho continente.

 

Hoje, invejo as antigas cidades europeias que mantém suas paisagens centenárias e permitem aos velhos caminharem sobre as mesmas calçadas e tocarem os muros que guardam memórias.

 

César Campos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também suas lembranças e envie e para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: os apitos das fábricas agora são raros

 

Dalva Rodrigues
Ouvinte da CBN

 

 

Minha infância foi na Vila Liviero, divisa com São Bernardo. Nossa casa humilde, o quintal, a rua, seus moradores, comércio, quermesse, o circo e o parquinho de diversão. Da janela da frente de minha casa avistava o terreno que diziam ser da Ford. Mas acho que só uma parte era da montadora, onde havia o pátio de automóveis. O restante era uma enorme área verde. Era o que chamávamos de “Pastão da Ford” — um paraíso para brincar, empinar pipa … onde cavalos e bois pastavam, havia um ou outro casebre, algumas hortas, árvores, cercas de madeira e arame farpado querendo impor limite aos invasores.

 

Acordava cedinho com o apito das dezenas de fábricas nos arredores. Abria a janela e olhava a névoa que cobria o Pastão se dissipando aos poucos com a chegada da luz matutina, parecia cenário de filme. Quando o capim gordura estava alto, a tela que via da janela era outra: quase tudo se tingia de rosa avermelhado. Quando o capim estava baixo, virava parque de diversão.

 

Lembro quando com alguns amigos atravessamos a pinguela do córrego, estreita e perigosa. Mais de um quilômetro de caminhada. Fomos fazer um piquenique por lá. Toalha estendida embaixo da árvore mais frondosa, comida, brincadeiras, risadas. A infância se derramava alegremente. Depois o descanso. Deitada no chão observava a vida agitada dos insetos que zanzavam ao redor. Ao longe avistava minha rua, a janela pequenininha de onde olhava o pasto logo cedo. Foi quando o tempo fechou, as nuvens escureceram e raios e trovões anunciaram a tempestade de verão. Sem consciência do perigo ficamos embaixo da árvore gigante até a chuva passar. Fomos protegidos pela nossa inocência. Sorte de criança.

 

Os apitos das fábricas agora são raros. O nosso Pastão foi tomado por hipermercado, condomínios, muros altos que separam as casas do córrego mal cheiroso. Mesmo assim ainda hoje olho o Pastão de minha janelinha, a partir das memórias que não se apagaram totalmente.

 


O capim gordura no “meu pastão” é lindo de olhar.

 


Dalva Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 466: no meio do caminho tinha pastel com caldo de cana

 

Dalvanira Pais de Lima
Ouvinte da CBN

 

 

Lazer na minha infância significava visitar os parentes. A extensão desta cidade e seus arredores garantia que cada tio conseguisse comprar um terreninho e construísse sua casa a quilômetros de distância uma das outras. 

 

Para se chegar a casa de um parente, tomavam-se, no mínimo, dois ônibus e um trem. Isso não era problema, ao contrário. Fazia parte dos atrativos do passeio. Na janelinha do ônibus, me encantei ao descobrir que era capaz de ler os letreiros das lojas — e fazia isso em voz alta.

 

Na caminhada entre o ponto de uma linha de ônibus e outra, passávamos na pastelaria chinesa para comer pastel com caldo de cana. Às vezes, o estômago não aceitava bem essa combinação e eu tinha de descer do ônibus agarrada na mão dos meus pais, deixando para trás muito trabalho para o pessoal da limpeza.

 

No trem, outro ponto alto do passeio era comer biscoito de polvilho. O menino passava chacoalhando a matraca e gritando com uma entonação peculiar: “Biscoito, salgado e doce”.  

 

Depois de um dia inteiro de visita familiar, que podia ser divertida quando tinham primos e primas com quem brincar, era hora de voltar. A maratona de ônibus e trem tinha que ser enfrentada novamente, com a diferença de que eu e meus irmãos, agora, estávamos cansados. Lembro-me que o sono dormido no ônibus ou no trem era tão gostoso que eu torcia para não chegar. No destino, era sacudida e descia feito um zumbi arrastada pelos meus pais.  

 

No Largo do Paissandu, ficava o ponto do último ônibus que precisávamos pegar para chegar em casa. Era nesse momento que encontrava descanso e conforto sentando-me em cima dos pés de meu pai. Seu sapato preto Vulcabrás servia de assento, e suas pernas faziam às vezes de encosto. Imagino quanto não fiz doerem os calos de papai, mas não podia haver assento mais confortável que aquele. 

 

Dalvanira Pais de Lima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva as suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: de pé descalço e a caminho da padaria, em Moema

 

Sérgio Slak
Ouvinte da CBN

 

 

Moro em Moema, na zona Oeste. Nasci em São Paulo. Estou com 61 anos. Tenho muito orgulho em dizer que sou paulistano. Com sete anos, vivia no bairro de Vila Ema, na zona Leste. Com a morte de meu pai nos mudamos para a casa de meus avóes paternos.

 

Era uma casa térrea em um terreno de 400 metros quadrados. Não era de luxo. Era ampla, com quartos grandes, cozinha espaçosa, e uma sala deliciosa de se ficar. O quintal era um sonho. Tinha jabuticabeira e dois pés de figo. Tinha também uma parreira de uva. Todo ano se colhia as frutas nas próprias árvores.

 

Meu avô era aposentado e havia vários canteiros no qual ele plantava verduras, e regava todos os dias com a água que retirava do poço. Moema era muito diferente naquela época. Ruas com pouco movimento. Todas eram de mão dupla. Alguns terrenos eram baldios. Então, a gente jogava bola por ali mesmo. Costumava andar descalços e seguia a pé sozinho até a escola.

 

Em 1974, meu avô vendeu a casa para uma construtora e com a parte da herança da minha mãe mudamos para um sobradinho de vila, no próprio bairro. Logo muitos prédios começaram a ser construídos. Foi inaugurado o Shopping Ibirapuera. E de repente Moema se transformou.

 

As ruas deixaram de ser tranquilas. O trânsito aumentou. A maioria virou mão única. Hoje, tempos prédios de alto padrão e das poucas casas que restaram a maioria é usada para fins comerciais. Algumas resistiram. Como é o caso da minha.

 

Apesar das mudanças, sigo muito feliz em morar aqui. Ao passear pelas calçadas, fecho os olhos e revivo minha infância. Me sinto de pés descalços a caminho da padaria onde comprava pão e leite. No trajeto da escola, que ficava a mais de um quilômetro dali. E brincando no quintal da casa do meu avô.

 

Sérgio Slak é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: o restaurante do futuro que me leva ao passado

 

Por Breno Lerner
Ouvinte da CBN

 

 

Fui uma única vez ao Giratório. Tinha uns 11 anos e meu avô Maurício que conhecia tudo da cidade lá me levou. Analisando hoje era um cenário que poderia tranquilamente estar no filme Tempos Modernos, de Chaplin.

 

Entrava-se por uma porta tipo saloon, fazia-se e pagava-se o pedido por número:

 

1 — arroz/feijão/bife/salada

 

2 — arroz/feijão/carne assada/fritas

 

Acho que eram 20 números no total. Tinha uma deliciosa lasanha, carne assada à brasileira e as duas salvações dos office-boys: a macarronada e o arroz com dois ovos, por preço baixo. O pedido era por interfone à cozinha —- o primeiro de São Paulo, trazido da Itália pelo dono da casa. Lavávamos as mãos e para tirar a água usávamos o primeiro secador a ar da cidade.

 

Sentava-se em uma cadeira, frente a um balcão que por sua vez ficava diante de uma envidraça cozinha oval. O balcão e a cadeira giravam ao redor da cozinha. Na primeira janela, você recebia sua comida e bebida. Tínhamos uns 20 ou 30 minutos para comer. Chegava-se então à janela das sobremesas e, em seguida, em outra janela na qual devolvia-se pratos, copos e talheres. Giro completo, alimentação feita, voltava-se a porta de saloon para ir embora.

 

Uma queixa recorrente era que quem pedia a carne assada à brasileira não comia em tempo de completar o giro e precisava de um extra, para prejuízo da fila.

 

A iniciativa foi da família Barioni, uma família de artistas e inventores. Mário bolou o restaurante; Ézio não só dirigia a casa como construiu máquinas de lavar prato, descascadores de batata e aquela secadora de mãos. O terceiro irmão, Baby Barioni, também ajudava. Ele foi o criador dos Jogos Abertos do Interior.

 

O restaurante Giratório funcionou na rua Amador Bueno, hoje rua do Boticário, de 1958 a 1968 quando fechou sufocado pelos custos da renovação do aluguel e operacionais.

 

Não vou jamais conseguir descrever a vocês meu fascínio quanto entrei e vi aquilo tudo funcionando. Era como ser transportado ao futuro.

 

Hoje, vivo no futuro e tenho uma saudade danada do passado.

 

Breno Lerner é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antônio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias de São Paulo visite o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo 466: um beijo em plena avenida Paulista

 

Por Antonio Jose
Ouvinte da CBN

 

 

Sou Antonio José da Silva Filho, mais conhecido como Tony. Em minhas memórias, me lembro como se fosse hoje. Todas as vezes que passo pela Avenida Paulista, que seja a trabalho, passeando ou pedalando, vem à lembrança:

 

Nos anos 1970 e até meados dos anos 1980, eu morava na Vila Mariana, na rua Itaoca, onde foram travados grandes embates futebolísticos entre os times da Rua Jaci e da Ouvidor Peleja, da Guiratinga e da Santo Irineu, e uma série de outras equipes representando as ruas do bairro.

 

Estudei no Colégio Brasília Machado. E foi lá que conheci uma grande amiga que morava no bairro de Americanópolis, também na zona Sul. Até hoje não sei o por quê, mas meu coração foi com o tempo se derretendo por ela. Um dia, a levei a primeira loja do Macdonald’s aberta na cidade, na Avenida Paulista. A loja ficava na esquina com a Brigadeiro Luís Antônio. Foi no início dos anos de 1980.

 

O encontro foi maravilhoso. Ela, menina meiga, bonita, charmosa, cativante —- uma lista de elogios sem fim. Nunca havia entrado em uma loja assim de fast food. E foi ali mesmo que tudo aconteceu. Nosso primeiro beijo sob olhares espantados da freguesia. Hoje a cena seria bem normal, mas naquele tempo ….

 

Daquele beijo em diante seguiu-se um namoro que se transformou em casamento. Foi em 1987. E até hoje como prometemos a Deus, perante algumas testemunhas, estamos casados e felizes. Como aprendi, o amor é o que o amor faz. Temos dois filhos, Vinícius, de 26 anos, que mora na Malásia e de quem morremos de saudades. E Ana Carolina, nossa princesa, que está com 23.

 

Foi na Avenida Paulista. Ali começou tudo e com certeza será a maior recordação de nossas vidas.

 


Antonio José, o Tony, foi personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto também para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua Historia de São Paulo 466: meu pai Chicó, tios e primos moraram aí

 

Por Paulo Furtado
Ouvinte da CBN

 

 

Minha história de São Paulo começa com o fato de que não sou daí e nunca estive aí. Continua com uma coincidência: nasci em Cuité, na Paraíba, que faz aniversário de emancipação política em 25 de Janeiro, data da fundação de São Paulo. Em Cuité nasceram também meu pai Francisco, Seu Chicó, e meus tios: Benedito, Pedro e Nilo, que assim como alguns primos e milhares de nordestinos migraram para a Terra da Garoa em busca de melhores ventos profissionais.

 

Tio Benedito teve um bar na Rua Vilela, no Tatuapé. Infelizmente não o conheci. Ele casou-se com uma sergipana e teve filhos. Tio Nilo casou com uma boliviana — pessoa da melhor qualidade —-, teve filhos que hoje são empreendedores em Sampa. Tio Pedro casou mas não teve filhos. Voltou a Cuité onde viveu seus últimos dias.

 

Meu pai Chicó também casou. Minha mãe era natural do Rio Grande do Norte, costureira. Ele trabalhou no Ponto Chic — acho que funciona até hoje (vocês que moram por aí podem confirmar). Meu irmão mais velho nasceu em São Paulo. Meus pais voltaram a Cuité, onde abriram uma mercearia e com muito trabalho criaram a nós todos — os seis filhos.

 

Toda essa história tem início nos anos de 1950 e ainda não terminou. Segue hoje graças aos laços de amizade entre os primos, frutos dessas relações que vivem na megacidade que é São Paulo — onde nunca estive e não sei se visitarei algum dia, o que nunca me impedirá de ter com ela uma relação tão íntima.

 


Paulo de Chicó é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Claudio Antonio. Venha contar mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.