O rádio chora a perda de José Paulo de Andrade

 

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A caminho da rádio, cedo, mas não tanto quanto hoje, preso no congestionamento, em São Paulo, a sintonia do meu rádio migrava da CBN para a Bandeirantes; do Zé Paulo para o Hérodoto. Foi a estratégia que encontrei para conhecer mais o rádio e a cidade. Na CBN, apresentava o CBN São Paulo. E na audiência deles procurava o caminho para fazer minha própria carreira por aqui.

 

Zé Paulo tinha voz forte, opinião contundente, não se deixava enganar pela fala mansa do entrevistado —- especialmente se fosse um político. Mesmo que fosse qualquer político. Não fazia distinção partidária. A pergunta era incisiva, bem embasada, e se mal respondida, não aceitava.

 

Fez do microfone instrumento plural, ouviu vozes divergentes em uma época em que não havia no rádio espaço para tantas —- especialmente pela dureza do regime em vigor. Promoveu debates improváveis, com gente que não queria se falar. E aceitou fazer uma conexão inédita de rádio entre o entrevistado dele no Pulo do Gato, na Bandeirantes, e o do Heródoto, no Jornal da CBN, em 1992 — já que de um lado havia um  acusador e de outro um acusado.

 

Depois de ouvir a força da voz e a contundência da opinião, fui apresentado ao coração generoso que batia no peito de Zé Paulo.

 

Foi quando o conheci pessoalmente. Ele estava sentando na cadeira de um restaurante. Levantou-se para me cumprimentar, assim que me apresentei. Uma reverência ao meu pai, Milton Ferretti Jung, que conhecia desde muito tempo. E a cena se repetiu todas às vezes que nos encontrávamos. Zé Paulo falava do pai e eu, orgulhoso de ouvi-lo, pensava: a lenda falando da lenda.

 

A carreira dele e a do pai, estiveram muito sintonizadas. Narraram futebol e brilharam no jornalismo. Foram longevos à frente dos programas que apresentaram: Zé Paulo no “Pulo do Gato” e o pai no “Correspondente Renner”. E apesar de todo o sucesso que fizeram jamais deixaram que isso se transformasse em prepotência. Respeitavam a força do microfone, encaravam a profissão com humildade e assim conquistaram a admiração dos ouvintes e o respeito dos colegas.

 

Encontrei-me no microfone com ele apenas uma vez, durante programa especial, em homenagem aos 90 anos de rádio, apresentado pelo Haissen Abaki, na rádio Estadão. Sentei-me à mesa ao lado do Heródoto Barbeiro, que já estava na RecordNews e do Joseval Peixoto, da Jovem Pan. Zé Paulo estava em casa e conversou com a gente por telefone. Senti-me um guri de calça curta diante daquelas feras. Fui muito mais para ouvir do que falar. E nas poucas vezes que falei, tive vontade de chorar de emoção pela alegria que aquele momento provocava no meu coração. A história do rádio estava ali na minha frente.

 

Hoje cedo, coube-me anunciar a morte de José Paulo de Andrade, aos 78 anos, por Covid-19. Ele vinha há algum tempo enfrentando dificuldades respiratórias devido a doença pulmonar obstrutiva crônica. Mesmo em casa, desde antes da pandemia, não escapou desse vírus que leva embora mais um talento brasileiro. Foi impossível não me emocionar e chorar, com lágrimas que me tiraram do microfone por instantes. Chorei, sim. O rádio chora a perda de uma de suas maiores referências. Seus admiradores, também. Todos nós devemos muito à jornada que Zé Paulo teve em vida ao nosso lado.

 

À família, nossa solidariedade diante do luto!

3 comentários sobre “O rádio chora a perda de José Paulo de Andrade

  1. Milton

    Hoje, ao ouvir o anúncio da passagem do José Paulo de Andrade por você, foi impossível não ir as lágrimas, primeiro porque veio a minha lembrança o Trabuco do Vicente Leporace, que na década de 1970 foi substituído pelo O pulo do Gato. Quanta história, quanta lembrança me veio. Eu menino, depois adolescente na minha Pirassununga me vi como pessoa e ser pensante por meio da voz deles e do Hélio Ribeiro, outro ícone da minha agora fase de jovem adulto. Mais tarde vieram: Osmar Santos, o Faustão e sua Turma no Balance. Algum tempo depois, mas ainda ouvindo eventualmente o José Paulo de Andrade, virei fã do Heródoto Barbeiro, as 6 horas da manhã, seguia a turma do José Paulo, agora íntimo, junto com o Joelmir e o Salomão e alongava a manhã ouvindo um gaúcho, com uma voz incrível, das 10 as 12 horas. Nossa! Um dia veio a frustração da saída do Heródoto e o início de uma nova jornada com o Milton das 6 as 9hs30.
    Quanta história… a história da minha vida a partir da história do rádio de São Paulo, ou seria a história da minha vida.
    Chorei e emudeci, como você.
    Obrigado… por terem sido ótimas companhias.
    Abração

  2. Prezado Milton,

    Minha solidariedade com você e com a família do José Paulo. Impossível foi não se emocionar ouvindo mais cedo você na CBN. Fiquei ainda mais seu fã. Cordial abraço,

  3. Triste sim, esse momento onde deixaremos de ouvir voz e os comentários do amigo do rádio Zé Paulo, porem, agradecido pela oportunidade de ouvir e de um jeitinho especial homenagear esses grandes profissionais do rádio .
    Descanse Zé Paulo , desta jornada . Forte abraço.

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