Conte Sua História de São Paulo: o Jacarandá da Bahia na sala de casa, no Cambuci

Adalberto Pedromônico

Ouvinte da CBN

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Estávamos por volta de 1958. Eu aos 13 anos, meus irmãos, todos os seis, mais velhos. Morávamos na Rua Backer, 361, no Cambuci, num sobrado de três andares, que meu pai, o bem humorado e popular Migué, alugara, aproveitando uma boa fase. Ele já não residia com a família, pois encontrara uma cabrocha mais alinhada aos seus apetites. 

Apesar da separação, certo dia, trouxe um presente para a família: um jogo de sala de jantar com mesa, oito cadeiras, buffet e cristaleira. Peças de marcenaria dignas de figurar em uma sala de gente rica — coisa que não éramos. Todo orgulhoso, Migué fez as apresentações, frisando tratarem-se de móveis construídos em Jacaranda da Bahia. Não me era compreensível todo aquele orgulho, uma vez que faltava mesmo era o que por em cima da mesa. Sempre recomendava os devidos cuidados com os móveis.

Já desde 1956, meu irmão Angelo, o Lilo, juntara-se a amigos do bairro, com o propósito de criarem um grupo de teatro amador que pudesse preencher essa lacuna que se sentia na comunidade. Conhecíamos vários grupos da Mooca, do Brás, do Ipiranga, de Santana … do Cambuci não se tinha notícia. Além de dispor de palcos em pequenos salões paroquiais, clubes, São Paulo exibia um número grande de teatros, entre eles o João Caetano, o Paulo Eiró e o Arthur Azevedo. Destacava-se o Teatro São Paulo, na Liberdade, beirando a rua da Glória, hoje ocupado pela Av. 23 de Maio.

Estávamos ensaiando uma peça de Amaral Gurgel, o drama “Os Transviados”, que exigia um grande esmero na montagem cênica e tínhamos reservado o Teatro São Paulo para a estreia. A ação se passava em dois ambientes, um tribunal do júri, e o salão principal da residência da família. Na semana da estreia, conseguimos montar o tribunal e parte da sala: faltavam algumas peças fundamentais como a mesa de jantar, buffet e cristaleira.

A única solução visível era transferir o Jacaranda da Bahia para o teatro, tendo o cuidado de obter a concordância de Dona Angelina, minha mãe. Claro que estávamos apostando que papai não viesse naquele domingo. Mas, veio. Como tirar os móveis sem que ele visse? Convidei-o a ir até a cozinha para me ajudar a consertar um velho relógio Patec Corona que pertencera ao pai dele. E eu havia ganhado de presente.

Enquanto representava minha cena na cozinha, meu irmão e amigos retiravam a mobília da sala e a carregavam em um Chevrolet. Dali zarparam para o teatro. Passada meia hora, Patec vistoriado, Migué saiu da cozinha e se deparou com a sala vazia.  Senti ímpetos de me esconder em algum buraco que não achei e só fiquei observando meu pai trocando de cor várias vezes, feito um lagarto de São Roque. Ainda tentei uma desculpa, mas sem sucesso.

Tudo o que me ocorreu, foi sair em disparada até a Rua da Independência e pegar um bonde rumo à Praça João Mendes, descendo às portas do Teatro São Paulo, a poucas horas da estreia do espetáculo salvo pelo seu contra-regra: eu ….

Adalberto Miguel Pedromônico é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou inscreva-se no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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