Conte Sua História de São Paulo: o Jacarandá da Bahia na sala de casa, no Cambuci

Adalberto Pedromônico

Ouvinte da CBN

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Estávamos por volta de 1958. Eu aos 13 anos, meus irmãos, todos os seis, mais velhos. Morávamos na Rua Backer, 361, no Cambuci, num sobrado de três andares, que meu pai, o bem humorado e popular Migué, alugara, aproveitando uma boa fase. Ele já não residia com a família, pois encontrara uma cabrocha mais alinhada aos seus apetites. 

Apesar da separação, certo dia, trouxe um presente para a família: um jogo de sala de jantar com mesa, oito cadeiras, buffet e cristaleira. Peças de marcenaria dignas de figurar em uma sala de gente rica — coisa que não éramos. Todo orgulhoso, Migué fez as apresentações, frisando tratarem-se de móveis construídos em Jacaranda da Bahia. Não me era compreensível todo aquele orgulho, uma vez que faltava mesmo era o que por em cima da mesa. Sempre recomendava os devidos cuidados com os móveis.

Já desde 1956, meu irmão Angelo, o Lilo, juntara-se a amigos do bairro, com o propósito de criarem um grupo de teatro amador que pudesse preencher essa lacuna que se sentia na comunidade. Conhecíamos vários grupos da Mooca, do Brás, do Ipiranga, de Santana … do Cambuci não se tinha notícia. Além de dispor de palcos em pequenos salões paroquiais, clubes, São Paulo exibia um número grande de teatros, entre eles o João Caetano, o Paulo Eiró e o Arthur Azevedo. Destacava-se o Teatro São Paulo, na Liberdade, beirando a rua da Glória, hoje ocupado pela Av. 23 de Maio.

Estávamos ensaiando uma peça de Amaral Gurgel, o drama “Os Transviados”, que exigia um grande esmero na montagem cênica e tínhamos reservado o Teatro São Paulo para a estreia. A ação se passava em dois ambientes, um tribunal do júri, e o salão principal da residência da família. Na semana da estreia, conseguimos montar o tribunal e parte da sala: faltavam algumas peças fundamentais como a mesa de jantar, buffet e cristaleira.

A única solução visível era transferir o Jacaranda da Bahia para o teatro, tendo o cuidado de obter a concordância de Dona Angelina, minha mãe. Claro que estávamos apostando que papai não viesse naquele domingo. Mas, veio. Como tirar os móveis sem que ele visse? Convidei-o a ir até a cozinha para me ajudar a consertar um velho relógio Patec Corona que pertencera ao pai dele. E eu havia ganhado de presente.

Enquanto representava minha cena na cozinha, meu irmão e amigos retiravam a mobília da sala e a carregavam em um Chevrolet. Dali zarparam para o teatro. Passada meia hora, Patec vistoriado, Migué saiu da cozinha e se deparou com a sala vazia.  Senti ímpetos de me esconder em algum buraco que não achei e só fiquei observando meu pai trocando de cor várias vezes, feito um lagarto de São Roque. Ainda tentei uma desculpa, mas sem sucesso.

Tudo o que me ocorreu, foi sair em disparada até a Rua da Independência e pegar um bonde rumo à Praça João Mendes, descendo às portas do Teatro São Paulo, a poucas horas da estreia do espetáculo salvo pelo seu contra-regra: eu ….

Adalberto Miguel Pedromônico é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou inscreva-se no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o sonho do soldado Dadá

 

Por Duarte Alves da Silva
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci em 1959, no Brás. Deixei o bairro após a morte de meu pai. Minha mãe, dois irmãos e eu, fomos para o Ipiranga onde meus tios e três primos moravam, em um sobrado. Lembro quando meu tio nos levou para ver a inauguração da iluminação da avenida Dom Pedro I, que liga o Ipiranga ao Cambuci. Nos anos de 1970 havia também um espetáculo de luz e som, no Museu do Ipiranga, que eu adorava. No Ipiranga passei minha juventude, brinquei na rua, joguei bola no campinho perto de casa

 

 

Aos 18 anos, me alistei no Exército. Na minha turma, havia mais 25 soldados, cada um de um canto da cidade. Treinamos no quartel do Ibirapuera e fomos para uma corporação, na Liberdade, a 4ª CSM — Circunscrição do Serviço Militar. Foi um período bom com os novos amigos. Um ano depois, demos baixa e nenhum seguiu carreira militar.

 

Eu conheci a irmã de um soldado que servia comigo. Eles moravam na Nove de Julho com a São Gabriel. Casamos três anos depois e fomos morar na estrada de Itapecerica da Serra, na Vila das Belezas. Tivemos dois filhos.

 

Trinta e nove anos depois do serviço militar, recebi um convite pelo Facebook, de um ex-colega Humberto Souza, o Dadá, perguntando se eu havia servido o Exército, em 1978. Ele e o soldado Ripari, tinham decidido reunir a todos para comemorar 40 anos de turma. Os dois foram em busca da lista completa dos jovens que tinham feito serviço militar juntos naquele ano. O quartel já havia mudado da Liberdade para o Cambuci. Após um pedido oficial de informação, tiveram acesso a lista completa de nomes e partiram atrás de cada um dos integrantes. Formaram um grupo de WhatsApp, justo no aniversário de São Paulo, em 2017.

 

Foram vários almoços com o Ripari para organizar o evento; e descobri que ele havia trabalhado no mesmo grupo que eu, o Machline, apesar de nunca termos nos encontrado. Infelizmente, às vésperas da comemoração de 40 anos, Humberto Souza, o Dadá, morreu, mas nós decidimos levar em frente o desejo dele. Reunimos dez dos 26 soldados. Como cada um vivia em uma região diferente da outra, marcamos nosso reencontro no centro de São Paulo, o que ocorreu no dia 24 de novembro de 2018 —- em uma demonstração de que a imensidão da cidade não é suficiente para afastar velhos conhecidos.

Duarte Alves da Silva  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças da cidade e envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Coloque o podcast do Conte Sua História de São Paulo entre os seus favoritos.

Conte Sua História de São Paulo: Cambuci, o bairro onde nunca morei

 

Por Julio Araujo
Ouvinte da CBN

 

Minha relação com o Cambuci vem desde os meus avós que habitaram no bairro entre 1915 e 1948. Minha avó nasceu e foi criada no bairro num tempo em que a cidade de São Paulo era bem provinciana, há mais de 100 anos. Meu avô, de origem italiana, argentino de nascimento, foi sempre ligado ao comércio, teve caminhão de frutas, também foi “chofer de praça” num ponto do Largo do Cambuci. Foi também sócio de um mercadinho na Avenida Lins de Vasconcelos, no coração do bairro.

 

No Cambuci também nasceu, em 1925, minha mãe, na Rua Gama Cerqueira. Foi criada no bairro e só saiu quando se casou. Ela sempre contava histórias de lá, dos carnavais passados, da vida dura. Morou com a família também em outras ruas, sempre pagando aluguel.

 

Nos anos 1920, o bairro já era bem desenvolvido, devido à sua localização próxima ao centro da cidade.

 

Na década de 1950 apresentava características de bairro aristocrático, com ótima infraestrutura, ruas asfaltadas e muitas ainda com paralelepípedos. Havia a linha do bonde para o centro da cidade.

 

A minha primeira lembrança do bairro remete quando tinha 6 ou 7 anos. Era 1957, meu avô era sócio num mercadinho da Lins de Vasconcelos, próximo à Aclimação. Minha mãe me levava para visitá-lo e lá ele servia sanduíche e guaraná sem gelo. Durante muito tempo me intrigou o porquê de aquele refrigerante ter um gosto tão diferente. E a culpa era do fato de não estar gelado!

 

Quanto eu completei 11 anos, eu ia ajudá-lo no mercadinho e pude conhecer toda a redondeza, pois realizava entregas em domicílio. Eu percorria a Avenida Lacerda Franco, a própria Lins de Vasconcelos e as travessas do entorno. Numa dessas andanças, pela primeira vez entrei num prédio de apartamentos, o Edifício Ligia Maria. Fiquei assustado ao ver as pessoas morarem tão apertadas, aquelas unidades uma colada na outra. Eu fazia a entrega e ia embora.

 

Sempre ouvi que o primeiro mercado com sistema de auto-serviço foi no Cambuci: o Peg Pag. Havia também o cine Riviera, onde hoje está a igreja Renascer. Lembro da Copa de 1962, o jogo Brasil x Espanha transmitido no rádio da Auto Escola Lins, que ficava ao lado do mercadinho, com a transmissão do locutor Pedro Luiz.

 

O jogo estava muito nervoso, Espanha ganhava de 1 a 0, parecia o fim. Eu bem moleque também sofria, mas acho que mais por causa de ver os adultos sofrerem tanto. Eles suavam, embora fizesse um frio tremendo naquele dia. Veio o segundo tempo e “Gooool de Amarildo!!”, o Brasil empatava. Que alívio! Eu olhava pros adultos e contemplava a felicidade deles. Depois veio o segundo gol. Virada! Brasil ia pra finais da Copa do Chile.

 

E todos foram pro mercadinho comemorar, beberam, comeram traziam noticiais de que a TV Record iria exibir o videotape no outro dia. Meu avô não se entusiasmava tanto, afinal ele era argentino. Enfim, todos estavam muito felizes. A Avenida Lins foi tomada à noite pelos moradores, era o mês de junho, também o mês das festas juninas.

 

Passou o tempo, me afastei do Cambuci, eu já estava na idade militar com medo de servir o Exército, em plena ditadura, e ir pra Quitaúna, ou Barueri, que eram quartéis longe à beça. Inventei de tudo pra não servir. Nada funcionou. Estava chegando o momento. No derradeiro dia, o praça que chamava os convocados já havia dito onde serviriam e muitos deles foram para longe. Chegou minha vez, ele olhou pra mim e riu ironicamente, finalmente disse: “sossegado hein?!” Pensei, estou livre. Mas ele continuou: “você vai servir no Batalhão de Saúde… no Cambuci.. só tem sossegado lá!

 

Puxa! Eu não queria servir de jeito algum, mas era no Cambuci, nos fundos do Hospital Militar. Tudo de bom. Perto de casa. Depois que eu estava lá dentro o mesmo soldado era praça velha cumprindo o período de núcleo-base
Fiquei no quartel um ano num período do auge da ditadura militar, em 1969.

 

Incorporei no dia 16 de maio. O quartel já havia passado por uma invasão com roubo de armas do corpo da guarda do hospital um ano antes. Foi um período em que, apesar das dificuldades decorrentes das constantes prontidões e do clima político tenso, eu me reencontrei com o bairro, o que me deixava muito contente.

 

No carnaval de 1970, eu estava de serviço e na quarta-feira de cinzas saí com outros soldados para ver o término dos desfiles no Anhangabaú. Ficamos bem próximos dos componentes da última escola a desfilar. O nome: Império do Cambuci. Muitas coincidências.

 

Em 1970, dei baixa do Exército e aí começou a dificuldade para encontrar emprego, eu havia parado de estudar no segundo ano colegial. Eu não sabia muito o que queria. Trabalhei um ano numa gráfica na Vila Prudente, mas não parava em emprego algum. Até que em 1972 encontrei no jornal dois anúncios para atuar em escritórios. Um era na Votorantim, no escritório da Praça Ramos de Azevedo e o outro era… adivinha onde? No Cambuci, na empresa Lastri Indústria Gráfica, que ficava na rua Independência.

 

Novamente o Cambuci entrava na minha vida. No teste na Votorantin nada deu certo, eu só pensava em terminar logo e ir para o Lastri, —sim com “o” como os gráficos diziam, embora a nova geração pronunciasse a Lastri. No Lastri fui muito bem e me contrataram.

 

O bairro também se caracterizava pelo grande número de indústrias gráficas existentes, as maiores do estado e, como o Lastri, que não existe mais, do Brasil.

 

Passou o tempo, o Cambuci envelheceu, as famílias tradicionais mudaram de lá. Muitas foram para bairros mais recentes que se formaram, como a minha família. Na década de 1990 conheci o restaurante do cantor da jovem guarda, o Ed Carlos, com o nome de Ed Carnes, na Rua Theodureto Souto, que até hoje se encontra no mesmo local. Um local muito agradável e aconchegante.

 

Vejo que atualmente o bairro está se modernizando e voltando aos poucos a ganhar importância.

 

Enfim, muita coisa ocorreu na minha vida envolvendo o bairro do Cambuci e queria um dia relatar. Por isso tenho um sentimento muito grande pelo bairro.

 

Ahh! apesar do bairro fazer parte da minha vida, nunca morei por lá e nasci na Vila Monumento. Morar não morei, mas meu coração sempre terá um lugar para o Cambuci.

 

Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe desta homenagem a nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: ah, Cambuci, nunca me esquecerei

 

Por Eli Carmo

 

 

Ouço a chuva no fim de tarde — as pessoas reclamam da chuva, eu amo a chuva— lembra a minha infância. Nasci no século passado, início dos anos 1970, no Hospital Nove de Julho, mas vivo na zona Leste de São Paulo a vida inteira.

 

Quando criança, minha mãe sempre levava a gente para a casa dos parentes. Perdi minha mãe este ano, vítima de um AVC. Meu pai já não está conosco há 14 anos. Infarto. Os parentes moravam no bairro da Cambuci. Ah! Cambuci, nunca me esquecerei. Avenida Lins de Vasconcelos.

 

Lembro-me que pegávamos o ônibus, aquele antiguinho da CMTC, e íamos minha irmã do meio e eu — éramos três menininhas —  ajoelhadas no último banco, olhando a paisagem. Como eu gostava de passear na casa dos parentes.

 

Minha vovó, assim a chamávamos, também morava por ali e geralmente íamos em festinhas de aniversário ou para  passar o dia. Tio Toninho morava com ela — que saudades tio!

 

Minha mãe era muito nervosa, a gente não podia fazer nada de errado senão apanhava quando chegasse em casa. Mas minha mãe tinha também seus momentos de nostalgia, ela adorava levar a gente lá na praça da República para ver os patinhos nadando. Ah! Naquele tempo era tudo tão diferente, existia doçura nas coisas.

 

E quando inaugurou o metrô da Sé, em 1978? Eu tinha uns 12 anos e fomos todos, inclusive meu irmãozinho que na época já tinha quatro aninhos, e passeamos para lá e para cá gratuitamente. Nossa, que passeio maravilhoso!

 

Bom, jamais esquecerei também os passeios de escola Íamos no ônibus cantando aquele clássico “vejam essa maravilha de cenário”— Marinho da Vila — brincando com o motorista e com as pessoas na rua, é claro, mas não colocávamos a cabeça fora do ônibus não, a “fessora” chamava atenção.
Nesses passeios, conheci o Zoológico, o Museu do Ipiranga, o Playcenter e até a Teatro Municipal — fiquei encantada.

 

Onde pude levar meus filhos nesses passeios, eu levei. Hoje, já são adultos e trilham seus próprios caminhos.

 

Eli do Carmo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie a sua história da cidade para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: os primeiros passos com meu avô

 

Por Carlos Garabet Giovoglanian

 

 

Nasci nessa cidade, que já foi chamada de São Paulo de Piratininga, em 7 de janeiro de 1958. Filho do Senhor Kaspar, imigrante da Grécia, descendente de armênios, que aqui chegou em 31 de outubro de 1951 e da Dona Maria que também aqui nasceu.

 

No Cambuci, bem perto do Pátio do Colégio, dei meus primeiros passos junto com minha avó que me levava para passear. Encantava-me escorregar em caixas de papelão, no jardim diante da Paróquia São Joaquim, igreja imponente que se destaca naquele velho bairro. Era dia de festa quando íamos caminhar no Jardim da Aclimação, com seu lindo lago, que recebeu esse nome inspirado pelo ”Jardin d’Acclimatation”, de Paris. Era lá que aves e gados trazidos do interior se aclimatavam na Capital, daí Jardim da Aclimação.

 

Ainda me lembro de todos aqueles trabalhadores que passavam diante de casa vendendo leite quentinho, ordenhado diretamente das cabras com seus sinos badalando anunciando sua chegada; do vendedor de biju com sua matraca; do floricultor espanhol com suas lindas rosas e palmas e do verdureiro Argemiro com sua carroça.

 

Fui estudar no Externato José Bonifácio, escola de idioma armênio, no bairro do Bom Retiro, que fica atrás da Catedral São Jorge na Avenida Santos Dumont. Depois no Colégio Nossa Senhora da Glória, dos irmãos Maristas, cuja imagem do Irmão Justino me acompanhará pelo resto dos meus dias.

 

Visitar meu primo que morava em Santo Amaro era uma viagem emocionante. De táxi alcançava o Largo Ana Rosa e de lá tomava o bonde que me levava até a Estátua do Bandeirante Borba Gato, pertinho do Clube Banespa com suas lindas piscinas onde no verão íamos nos refrescar. Santo Amaro parecia muito distante pois era repleto de áreas verdes, matas e riachos que ainda não haviam sido devastadas pelas construções. Na volta, a passagem pelo Parque do Ibirapuera era obrigatória para nos divertir e nos instruir, com seus jardins, balanços, sorveterias, Museu da Aviação, que já não está mais lá, o planetário e o Pavilhão Japonês, homenagem a esse povo que tanto fez por nossa cidade.

 

Todos os meses ia ao centro e descia na Praça da Sé, caminhava pela Rua Direita até alcançar a Praça do Patriarca e entrava na Galeria Prestes Maia para comprar passe de ônibus da CMTC. A cidade se modernizava e em plena Praça da Sé tive o enorme prazer de fazer uma chamada por telefone diretamente da cabine recém instalada, em 1972.

 

Em 1974, já estudando no Colégio Arquidiocesano, no bairro da Vila Mariana, fiz minha primeira viagem pelo metrô recém-inaugurado que nos levava da Estação Santa Cruz até a Estação Jabaquara. Em 1976, ingressei na Escola de Engenharia Mauá onde me formei. E em 1992, me casei com a Rose, que vinda de Marília também adotou São Paulo.

 

Carlos Garabet Giovoglanian é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha comemorar os 464 anos da nossa cidade: escreva a sua história para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o passeio de mãos dadas com o meu pai até o Cambuci

 


Por Roberto Furtner Caldeira

 

 

 

A brisa suave anunciava a chegada do outono na cidade, varrendo ladeira abaixo as folhas das árvores prestes a adormecer. O toc-toc dos sapatos apressados atravessando a rua de paralelepípedos era o prenúncio de mais um entardecer.

 

Seria mais um final de dia normal naquela cidade que via seu sonho de virar metrópole se aproximar a passos largos. Mas não para mim. Então aos 6 anos de idade, as terças feiras eram especiais. O dia da semana em que voltava a pé com meu pai do centro da cidade até nossa casa no bairro do Cambuci.

 

Como fazia toda semana, ao final do expediente meu pai me apanhava na escola. Ele gostava de caminhar, hábito adquirido nos tempos em que tudo em São Paulo ficava à distância de uma caminhada, se muito uma viagem de bonde.
Segurando firme sua mão, olhando o mundo de baixo para cima, eu sentia um misto de temor e excitação. Aquela caminhada de quarenta minutos era repleta de estímulos, de aventuras.

 

De um lado o ronco dos carros nacionais em meio aos antigos e bojudos carros americanos que ainda circulavam, brilhantes, imponentes. De outro lado o bonde alaranjado, com aposentadoria já anunciada, apinhado de pessoas em busca de um lugar em seus assentos de madeira gasta. Suas rodas emitindo um guincho estridente em função do atrito contra os trilhos de metal.

 

A medida em que nos afastávamos da praça da Sé em direção à Baixada do Glicério, os prédios mais altos ficavam para trás e surgiam restaurantes, bares e luminosos de neon. Uma profusão de cheiros, sons, vozes e risadas.
Me divertia especialmente na frente dos bares que naquela época jogavam as tampinhas de garrafa na calçada. Tampinhas de refrigerante, de cerveja e de pinga. Até ensaiei uma coleção, consumida meses depois pela corrosão do metal das tampinhas.

 

Como sempre, em meio a nossa animada conversa, parávamos no meio do caminho para comer pastel. O meu sempre de queijo, o de meu pai sempre de carne.

 

Após o lanche retomávamos nossa caminhada, cruzando pela baixada do Glicério, até chegarmos à outrora famosa rua do Lava Pés, conhecida pelo riacho e por ser a última parada dos viajantes para beber água e se refrescar antes de subir para o centro da cidade, nos tempos do império.

 

A caminhada então alcançava sua reta final ao cruzarmos o largo do Cambuci, já próximos de casa. Nasci e cresci no Cambuci. Embora nunca tivesse visto de perto uma árvore da espécie, cedo soube que o nome do bairro era homenagem a uma fruta outrora abundante na região.

 

Já no último quarteirão passávamos pelo açougue do seu Jairo, padaria do seu Milton, sapataria do seu Manuel e barbearia do Antônio. Naquela pequena comunidade todos nos conheciam pelo nome e acenavam ao nos verem passar.
Antes de entrarmos em casa meu pai refazia o ritual diário: colocar uma garrafa de vidro destinada ao leite, dentro da caixa de metal ao lado do portão, para que o padeiro pudesse trocar por uma garrafa cheia quando trouxesse o pão na madrugada seguinte. Leite que seria devidamente fervido para o café da manhã.

 

Ouvíamos o som dos cascos do cavalo trotando rua abaixo, puxando a carroça do catador de sucata. A brisa continuava, de tempos em tempos. O céu, mais escuro naquela época, mostrava um negrume salpicado de estrelas por todos os lados. Pedia para meu pai me apontar o cruzeiro do sul antes de entrarmos em casa onde minha mãe nos aguardava.

 

Como um herói que voltava da guerra cheio de estórias para contar, eu entrava em casa de peito estufado, dono do mundo, contando as novidades. Minha mãe ouvia tudo com atenção e o devido ar de surpresa. O único ponto de discórdia: ela achava que pastel não era um bom jantar para uma criança.

 

O tempo passou, eu me tornei adulto, a cidade se multiplicou.

 

Hoje já não consigo chegar aos lugares com uma caminhada apenas. O bonde se foi há tempos. Não mais consigo ver as estrelas com a mesma clareza, quanto mais apontar o cruzeiro do sul para meus filhos. Só quando viajamos para fora da cidade.

 

Tampinhas de garrafa de metal quase não existem mais. Não sabemos mais o nome dos vizinhos direito. Leite entregue em casa é coisa do passado. Açougue virou seção de supermercado.

 

Aquela cidade de indivíduos cedeu lugar a uma cidade de instituições. Para o bem, e para o mal.

 

Porém ainda caminho com meu pai, pela rua arborizada que ele escolheu para viver sua aposentadoria. Já aos 80 anos, hoje é a sua mão que busca apoio em meu braço. Aquela mesma mão que me guiou pela São Paulo de outros tempos.

 

Conversamos sobre causos da vida, enquanto a brisa suave anuncia a chegada de outro outono na cidade, varrendo ladeira abaixo as folhas das árvores prestes a adormecer.

 

Foto-ouvinte: Tantos postes no meio do caminho

 

Poste no meio do caminho

A prefeitura foi zelosa com os moradores de Cambuci – sul de Minas – e reformou a avenida, mas o desenho dos seus engenheiros não combinava com o dos postes da companhia de energia elétrica. Resultado: ir do Jardim Américo para o bairro Santo Antonio pela velha estrada rural se transformou uma prova de obstáculos. Cleber Lambert, ouvinte-internauta que registrou o fato, diz além dos postes do meio do caminho, a avenida ficou inacabada e o calçamento está solto, um transtorno para carros, bicicletas, pedestres, carroças e calaveiros que passam por lá.

Foto-ouvinte: E por falar em poda

Quaresmeira

À esquerda, como era. À direita, como ficou a quaresmeira após a passagem dos funcionários da prefeitura pela rua dos Pescadores, no bairro do Cambuci, na capital paulista. O ouvinte-internauta José Antonio Rey tentou impedir o corte que ele considerou “drástico”, mas foi informado que alguém da vizinhança havia registrado queixa contra quaresmeira, pois esta estaria ameaçando cair.