A generosidade do destino e o direito de chorar

Foto Priscila Gubiotti

Foi um dia intenso. De trabalho e de emoção. Tão intenso que só me despedirei da segunda-feira que se iniciou ontem, às 4h30 da manhã, assim que der o ponto final neste texto. E a entenderei encerrada neste adiantado da hora porque para concluí-la de forma justa era preciso antes agradecer a todas as pessoas que carinhosamente me escreveram ou gravaram depoimentos para marcar meus dez anos de Jornal da CBN.

Comecei na CBN em dezembro de 1998 e assumi o comando do principal jornal da emissora em 28 de fevereiro de 2011, em lugar de Heródoto Barbeiro. Uma baita responsabilidade. Não fosse apenas um dos fundadores da rádio, ainda era jornalista referência para meu trabalho e conduta.

Leia aqui o texto que escrevi na minha estreia como âncora do Jornal da CBN.

Foi um dos meus filhos quem lembrou, em reportagem que foi ao ar nessa segunda-feira, o dia em que Mariza Tavares, diretora de jornalismo, me convidou por telefone para o cargo. Na cadeira do escritório coletivo que temos em casa, com o encosto jogado para trás e olhando para o alto, ao desligar contei a novidade. Ele, ainda bem jovem e diante da minha cara de espanto, perguntou: “e isso é bom, não é?”. Meu “sim” não passou confiança, segundo ele. Teria sido a primeira vez que me viu inseguro diante de uma decisão. Mal sabe ele. 

Pouco tenho a reclamar das oportunidades que surgiram em minha carreira desde que a iniciei, em agosto de 1984, na rádio Guaíba de Porto Alegre. O destino me foi generoso. O primeiro passo teve influência do pai. Foi ele quem pediu para que me aceitassem em uma vaga não-remunerada de estagiário. Dali pra frente, foi por minha conta e risco. No Correio do Povo, no jornalismo do SBT, na rápida passagem na rádio Gaúcha e na vinda para São Paulo, quando fui contratado pela TV Globo. Por aqui, trabalhei na TV Cultura, na Rede TV, no portal Terra e na CBN.

Meu colega Marcelo Lins, na “Conversa de Primeira” de terça-feira, comentou que todo o profissional que tenha tido a oportunidade de estar por dez anos à frente de um mesmo produto jornalístico é merecedor de respeito. Confesso que nunca havia pensado nessa longevidade, talvez porque assisti ao meu pai permanecer por ao menos 50 anos apresentando o mesmo noticiário de rádio. O que significa uma década nesta linha do tempo, não é mesmo?!?

Fiquei feliz. Sensibilizado. Chorei. Talvez porque o tempo que vivemos nos deixe mais frágil —- a mim com certeza. Estou muito mais vulnerável. Não daquele jeito que me senti quando fui convidado para encarar o desafio do Jornal da CBN. Aquela vulnerabilidade —- do “será que serei capaz?” ou “se não der certo?”— é diferente desta que estamos experimentando. Aquela vem acompanhada pela satisfação profissional; a de agora, pela tristeza profunda das vidas perdidas na pandemia. 

Verdade, também, que meu choro veio por motivos diferentes. 

Nesses dez anos de Jornal da CBN, engoli seco para contar a história da tríplice tragédia no Japão, ocorrida dez dias depois de assumir o programa; solucei e sofri diante do microfone enquanto levávamos ao ar notícias do acidente de avião da Chapecoense; gaguejei durante os relatos do incêndio no Ninho do Urubu, no Rio; e tive de interromper minha fala quando anunciei a morte de José Paulo de Andrade.

Ao completar dez anos, chorei ao ouvir a voz de minha mulher e meus filhos, ao reconhecer a fala de colegas que respeito e admiro muito, de amigos que fiz nessa caminha. e ao ler mensagens de ouvintes generosos. Chorei por entender que a insegurança do início foi recompensada; me impediu que a arrogância se sobrepusesse; me fez querer aprender e corrigir; errar e pedir desculpas —- à audiência e aos companheiros de redação.

Chorei porque se aprendi alguma coisas nestes dez anos foi que não devemos ter vergonha de nossos sentimentos e desejos. 

A todos que me ensinaram essa lição, e me ajudaram a percorrer esse caminho, obrigado!

Ouça a reportagem completa que a rádio CBN produziu para lembrar meus dez anos no Jornal da CBN.

7 comentários sobre “A generosidade do destino e o direito de chorar

  1. Parabém Milton! Merecidíssimas essa homenagem dos teus familiares e colegas de trabalho! Que venham mais 10, 20, 30 anos de ancoragem integra e ética de verdade! Forte abraço!

  2. Parabéns Milton.
    Sou ouvinte assíduo do Jornal e confesso que quando o Professor Heródoto saiu, fiquei balançado em não ouvir mais a CBN, no seu início mudava para a Band, voltava para a CBN, até que você deu conta do recado.
    Hoje não consigo deixar de ouvi-lo e seu comentário é bem parecido com o que eu penso, apesar do Grêmio, pois, sou Palmeiras e nossas histórias insistem em se cruzar…rsrsrsr.
    Parabéns Milton, admiro seu trabalho e sua clareza nas informações, continue assim.
    Grande abraço,
    Fábio Porlan

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