Avalanche Tricolor: minha cadeira azul

Grêmio 0x4 Flamengo

Copa do Brasil — Arena Grêmio

Minha cadeira azul fica ali ao lado da tela da televisão, onde assisto a todos os jogos de meu time. É o lugar que encontrei para jamais esquecer o Grêmio que já fomos. O metal frio do assento ondulado e do encosto curvado teve sua cor recuperada; o número que a identificava no anel superior do Olímpico Monumental, também: J-104 aparece na cor branca sobre o fundo preto. Quando a recebi de presente —- generosidade de meu irmão, Christian —- logo pensei nos milhares de torcedores que a usaram ao longo de sua vida útil no saudoso estádio. Quem sabe até eu tenha sentado nela em um domingo qualquer de futebol. 

Foi em cadeiras azuis como essa que forjei minha paixão pelo Grêmio. E você, caro e raro leitor desta Avalanche, não tem ideia de como ela  moldou minha personalidade e meu caráter. De quantas vezes saltei sobre ela com os dois pés para comemorar o gol impossível e a virada improvável. De quantas vezes, me ajoelhei diante dela para não ver o desastre que se avizinhava. De quantas vezes, escondi minha cabeça sobre o assento para que meus colegas não me vissem chorando a derrota sofrida.

Foi em uma dessas cadeiras azuis e de ferro frio que suportei anos a fio sem um título estadual. Foi nela que, ao lado de meu pai, vibrei como nunca com o gol de André Catimba, naquele Gre-Nal histórico de 1977. Dela presenciei a conquista da América na batalha final contra o Peñarol. Foram elas, as centenas e centenas de cadeiras que ornavam de azul o setor das cativas do velho estádio, que me uniram a amigos, serviram de assento para conversas animadas e aninharam alguns amores platônicos que minha timidez impedia de revelar àquelas torcedoras que vestiam a camisa tricolor. 

Hoje, foi para a cadeira azul, ao lado da televisão, que olhei, ao fim da partida. Em silêncio, enquanto absorvia o que acabara de acontecer no gramado de Humaitá, perguntava a ela onde está o meu Grêmio, aquele que não temia qualquer adversário por mais forte que fosse; que mesmo quando o futebol não se expressava pela qualidade, se superava na força e na coragem? O que aconteceu com a nossa Imortalidade, que um dia nos permitiu ascender de divisão com apenas sete jogadores em campo? Que já nos fez virar placares de forma inimagináveis? Que me fez ter orgulho de meu time mesmo em momentos de derrota?

Com a frieza típica do ferro, que se tornava mais penetrante ainda quando exposto ao inverno do Rio Grande do Sul, a cadeira azul nada me disse. Porque nada há para dizer em um momento como esse. E o melhor que ela pode fazer é ficar ali, parada, servindo-me como uma memória do que fomos, lembrando-me que, a despeito de já termos passado por momentos dramáticos, encontramos forças para nos recuperar. E soubemos reescrever a história.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s