Conte Sua História de São Paulo: as caminhadas de um barriga-verde na capital dos paulistas

Julio Cesar Refosco

Ouvinte da CBN

Photo by Andre Moura on Pexels.com

Fui paulistano. Engraçado dizer isso! É que morei em São Paulo por uns dois anos apenas, suficientes para me apaixonar. Depois voltei para Santa Cataria, onde nasci. Aliás, Santa esta que parecia não fazer parte da geografia do paulistano. Quando cheguei à capital, em 1987, para o estágio no Instituto Florestal, cuja sede era na Cantareira, me chamavam de gaúcho. Expliquei que era barriga-verde. Continuei sendo gaúcho para eles.

Morei perto do Hospital do Câncer, na Liberdade. E para chegar à Cantareira levava mais de uma hora entre metro e ônibus. No início gostava desse trajeto:  passava por lugares pitorescos, citados em letras de músicas como o Jaçanã da famosa “Trem das Onze”. As referências musicais são tão marcantes que certo dia fui conhecer a esquina da Ipiranga com a São João; em outro, passeie pela rua Augusta e imaginei como seria descer aquilo a 120 por hora.

Caminhando e andando, percebi que nem tudo eram flores.  Havia contradições, problemas, exclusão, marginalidade, concentração de renda e problemas urbanos quase insolúveis, que faziam parte da complexidade desse lugar.

Dividia um apartamento com dois artistas, meu irmão que é músico e um amigo artista plástico. Com tais companhias, é claro, aproveitamos muito às noites e os programas que a cidade oferecia, sobretudo ali no Centro Cultural São Paulo, que ficava a poucas quadras de casa, na Rua Vergueiro e tinha uma programação de primeira ordem, a preços bem acessíveis. 

Uma daquelas noites bem aproveitadas ficou na memória. Chegando em casa, após umas cervejas, adormeci em sono incomodado pelos ruídos da cidade incansável, seu trânsito, suas sirenes. O que a princípio parecia sonho, aos poucos foi se mostrando realidade pois, da minha cama ouvia uma movimentação de vozes que entrava pela janela. Me levantei sonolento e fui para a varanda de onde observei uma cena inusitada, tanto que pensei que ainda estava sonhando.

Um objeto luminoso muito grande pairava no céu, movendo lentamente suas luzes flamejantes. Na minha racionalidade sonolenta fiquei pasmo. A cena era quase uma pintura e demorei um tempo até perceber, dentre as luzes e cores que do objeto radiavam, que se tratava de um balão. A confusão toda com gente correndo, sirenes tocando, era porque o balão estava descendo sobre uma casa próxima. No fim das contas, alguém no telhado da casa conseguiu pegar o balão e resolver o problema sem grandes consequências.

Hoje, ainda vou a São Paulo a trabalho ou lazer; e sempre aproveito a cidade. Nas últimas vezes que estive por aí , fui com minha mulher e meus filhos para eles conhecerem este lugar tão interessante, que reúne gente de todos os cantos, característica que torna a cidade um retrato demográfico do Brasil. Retrato do qual, como catarinense, fui protagonista. Catarinense, tá. E não gaúcho!

Julio Cesar Refosco é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

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