Confissão de quem recebeu uma medalha

Medalha Alberto André
Foto Juliano Verardi – DICOM/TJRS

Ameaço escrever este texto desde segunda-feira. Algo indefinido me impedia. Talvez indecisão. Talvez pudor.

Fui escolhido para receber a Medalha Alberto André, um reconhecimento a trajetórias relevantes no jornalismo gaúcho, concedida pela Associação Riograndense de Imprensa.

Uma das razões que me tolhiam o desejo de escrever era a frase que ouvi do falecido ministro Raul Jungmann: medalha não se pede, não se nega e não se conta — ensinamento que me acompanhou desde então. Evidentemente que não a pedi — nem mesmo a vaidade de um leonino teria sido capaz de me levar a cometer essa barbaridade. Menos ainda a neguei. Ao contrário. Aceitei-a. Não imediatamente, porque nos primeiros minutos da ligação que recebi do presidente da ARI, José Nunes, pensei que o convite era para apresentar a cerimônia.

Como não contar? Como não dividir com amigos e conhecidos essa conquista? Há momentos que pedem silêncio. Outros, partilha.

Vaidade à parte — e ela sempre está a nos levar ao pecado —, momentos como esses pedem publicidade. Com escrúpulo e comedimento.

Deixei o Rio Grande do Sul há 35 anos. Vivo em São Paulo há mais tempo do que vivi em minha terra natal. Muitas memórias e valores ainda estão presentes. A casa em que morei da infância até o início da vida adulta segue por lá. Foi onde dormi nas duas noites em que estive em Porto Alegre.

Meus irmãos, Christian e Jacqueline, são presença viva da família criada pela Ruth e pelo Milton. A Saldanha Marinho, a Getúlio Vargas, o viaduto Otávio Rocha, os escombros do estádio Olímpico, a sede da RBS: tudo me remete aos tempos em que morei na capital gaúcha. A linha de ônibus que cruza a perimetral, o ponto de táxi na esquina e alguns endereços que só eu sou capaz de entender o significado me fazem relembrar experiências marcantes — nem sempre positivas, mas bastante representativas.

Voltar à terra para ser homenageado pela trajetória no jornalismo é também um reconhecimento a quem se atreveu a seguir a carreira de meu pai e meus tios. Como fiz questão de lembrar na fala em agradecimento à medalha recebida, sou de uma família de jornalistas. Milton Ferretti Jung é o meu maior referencial — por tudo o que herdei como filho e como jornalista. Meus tios Tito Tajes e Aldo Jung também foram relevantes no trabalho que realizaram nas redações e importantes na minha formação. Dar sequência a essa trajetória me impunha uma enorme responsabilidade.

A Medalha Alberto André foi, para mim, uma certificação. A demonstração de que fui capaz de levar em frente o legado desta família de jornalistas. A certeza de que a escolha, feita em 1981, quando entrei na faculdade de jornalismo da PUC-RS, apesar de arriscada, foi acertada. Saber que essa mesma medalha esteve no peito de Marques Leonan e Carlos Kober, dois de meus professores na academia, e de Ruy Carlos Ostermann e Lauro Quadros, duas das minhas referências quando eu ainda era apenas um guri de calça curta, foi motivo de orgulho.

Ver naquele mesmo espaço profissionais com a trajetória de Affonso Ritter, que aos 89 anos destacou em suas palavras o papel preponderante do jornalista, a despeito de todo o avanço tecnológico que assistiu ao longo de sua carreira, me fez acreditar na valorização do ser humano.

Abraçar colegas que estiveram ao meu lado no início de minha carreira, como Flávio Dutra e Cláudia Coutinho, e receber a medalha das mãos de Kátia Hoffman, autora do livro Milton Gol-Gol-Gol Jung, que conta a trajetória de meu pai, foi emocionante.

Diante de todos os sentimentos que se expressaram nesses dias em que estive em Porto Alegre, e mesmo com todas as restrições que me imponho, não registrar esse momento de alegria talvez fosse menos humildade e mais egoísmo. E, neste caso, o silêncio não me pareceria virtude, apenas omissão.

Por isso estou aqui, nesta inconfidência, a dividir com você a felicidade e o orgulho de ser jornalista.

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