Por Christian Müller Jung
A busca por votos no ambiente digital transformou as redes sociais na principal vitrine da política moderna. Quando partidos abrem espaço para influenciadores e personagens populares em suas listas de candidatos a deputado estadual e federal, porém, essa estratégia pode ir muito além da simples busca por popularidade: está relacionada também ao funcionamento do nosso sistema eleitoral.
Para entender essa dinâmica, vale olhar para o modo como as vagas na Câmara dos Deputados e nas assembleias legislativas são distribuídas e para o impacto que esse modelo produz no debate público.
No Brasil, a eleição para deputado é proporcional. Isso significa que os votos dados aos candidatos de um mesmo partido ou federação, somados aos votos dados diretamente à legenda, ajudam a definir quantas cadeiras aquele grupo político terá direito de ocupar.
É aí que entram os candidatos de grande apelo popular. Uma votação expressiva aumenta o total de votos do partido ou da federação e pode contribuir para que o grupo conquiste mais cadeiras. Por isso, candidatos com grande capacidade de atrair eleitores são conhecidos como “puxadores de votos”. O sistema atual, porém, estabelece limites para que candidatos com votação individual muito baixa sejam beneficiados pelo desempenho da legenda.
Para os partidos, uma votação expressiva também pode produzir efeitos que vão além da eleição daquele candidato, aumentando sua representação política e influenciando a distribuição de dinheiro e espaços destinados às legendas. Essa estratégia, porém, traz efeitos colaterais e pode transformar a política em um espetáculo de entretenimento.
A popularidade, por si só, não prepara ninguém para a rotina parlamentar, que envolve análise de orçamentos, fiscalização do Executivo, negociação política e votação de reformas e leis de grande impacto. Quando a notoriedade é o principal atributo eleitoral de um candidato, surge uma questão legítima: ele está preparado para exercer as responsabilidades do mandato?
Ao mesmo tempo, impor regras rígidas ou testes para medir a capacidade técnica de um candidato esbarra no coração da democracia: o direito de todo e qualquer cidadão de votar e ser votado. Exigências de escolaridade, renda ou outras formas de qualificação já foram usadas historicamente para restringir a participação política de parcelas da população. O Parlamento não foi desenhado para ser um conselho de doutores, mas um espelho da sociedade, aberto a diferentes vozes, experiências e manifestações do eleitorado.
O sistema já passou por ajustes para reduzir algumas dessas distorções, inclusive com a exigência de votação individual mínima em determinadas etapas da distribuição das cadeiras. Ainda assim, permanece uma questão que nenhuma regra eleitoral resolve sozinha: a responsabilidade dos partidos na seleção de seus candidatos e a dos eleitores na escolha de seus representantes.
Diante desse cenário, fica a provocação central: de quem é a responsabilidade pela desvalorização do processo político no Brasil?
É dos partidos, quando apostam em figuras públicas de grande popularidade na expectativa de transformar notoriedade em votos, mesmo quando existem dúvidas sobre o preparo desses candidatos para a complexidade do cargo?
Ou é do eleitor, quando escolhe um candidato pelo protesto, pela fama ou pela identificação com um personagem, sem considerar suas propostas e sua capacidade para exercer o mandato?
Talvez a pergunta mais incômoda seja outra: até onde vai a responsabilidade de quem oferece o candidato e onde começa a responsabilidade de quem deposita o voto?
Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão e mentor na área de comunicação. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).
