
A tecnologia multiplica as possibilidades de comunicação, mas não substitui a força de uma história capaz de emocionar e produzir significado. Esse foi o tema do comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, na CBN, com Jaime Troiano e Cecília Russo.
Inteligência artificial, vídeos personalizados, influenciadores e algoritmos ajudam as marcas a alcançar públicos específicos e produzir conteúdo em grande escala. Essas ferramentas ampliam a distribuição da mensagem. Não garantem, porém, que ela será lembrada.
A explicação está na maneira como os seres humanos compreendem o mundo. Antes mesmo da escrita, histórias eram usadas para transmitir conhecimentos, valores e experiências. Elas organizam acontecimentos, despertam empatia e ajudam o cérebro a guardar informações.
“Faz todo sentido. A tecnologia mudou muito, mas o cérebro humano mudou pouco”, afirmou Cecília.
Essa permanência pode ser percebida nas crianças, que pedem repetidamente a mesma história. A repetição oferece segurança, permite antecipar acontecimentos e reforça vínculos afetivos. Com as marcas, o mecanismo é semelhante: uma narrativa associada a uma emoção tem mais possibilidade de permanecer na memória do que uma mensagem limitada às características de um produto.
Da propaganda para a memória
Cecília citou campanhas que atravessaram gerações, como “Não é assim uma Brastemp”, o primeiro sutiã da Valisere e as histórias de Natal da Coca-Cola. Também lembrou o filme “Tormenta”, de O Boticário, sobre a relação entre uma mãe e o filho. A peça circulou tanto nas mídias tradicionais quanto pelo WhatsApp.
Em todos esses exemplos, o público não guarda apenas o anúncio. Guarda os personagens, os conflitos e as emoções construídas pela narrativa. O slogan pode desaparecer. A história continua circulando.
Isso ajuda a explicar por que contar histórias não é uma alternativa à propaganda. É uma maneira de fazer propaganda sem transformar a mensagem em uma interrupção.
“Uma boa história não interrompe a atenção das pessoas, ela conquista essa atenção”, disse Jaime.
Quando o produto deixa de ser o único protagonista, a marca consegue falar sobre sonhos, desafios e experiências humanas. O vínculo nasce dessa identificação. A pessoa não se reconhece em uma lista de atributos técnicos, mas pode se reconhecer na trajetória de um personagem.
A inteligência artificial já escreve textos, produz imagens e ajuda a criar filmes. Ainda assim, permanece uma decisão anterior à ferramenta: qual história merece ser contada?
Para Jaime, “tecnologia é ferramenta, o significado continua sendo uma construção humana”. Ele recorreu ao psicólogo Jerome Bruner, que identificava duas formas de organizar a experiência: o pensamento lógico e o narrativo. O primeiro apresenta razões e evidências. O segundo conecta acontecimentos e atribui sentido a eles.
Ao final, Jaime citou a permanência da Odisseia, de Homero. A obra atravessou séculos porque trata de temas humanos, como viagem, coragem, perda e desejo de voltar para casa. Mudam o suporte, a linguagem e a tecnologia. A necessidade de encontrar sentido nas histórias permanece.
A marca do Sua Marca
As ferramentas ampliam o alcance da comunicação, mas não criam, por si, relevância ou memória. Marcas lembradas são aquelas que transformam produtos e valores em histórias nas quais as pessoas reconhecem emoções, conflitos e aspirações. A tecnologia pode construir o palco. A narrativa é o que faz o público permanecer na plateia.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.