Genesis no Circo Massimo

De Roma


Operários começam construir palco de 64m de largura e 28 de altura

Phil Collins conclui turnê que marcou o reencontro do Genesis, neste sábado, em Roma. A cidade é um espetáculo construído pela civilização. Tê-la como cenário engrandece ainda mais concertos, óperas e peças de teatro. A programação cultural é intensa e desenhada pela iluminação que contorna monumentos históricos. O Circo Massimo foi o local escolhido para apresentação gratuita do grupo que fez sucesso nos anos 70 e 80.

Em entrevista, Phil Collins falou sobre o retorno: “Sting disse que voltar no Police significa voltar a um casamento. Para nós é a mesma coisa, sendo que nosso casamento é mais velho do que o dele”. No altar do matrimônio, alem de Collins, estarão Tony Banks e Mike Rutherford.

Sábado é dia de voltar para casa. Assim, o consolo é ouvir Genesis no computador, ao som de I Can’t Dance:

Seu passado está condenado a desaparecer

De Roma (de olho em Buenos Aires)

A foto é do autor do texto, Julian Gallo, aos 6 anos

Lembro-me das sessões de slide na sala de casa, a familia em volta da mesa baixa, alguns atirados no sofá e o resto da turma sobre o tapete. Já havíamos decorado a ordem das imagens, mas sempre nos divertíamos como se fosse a primeira vez. Tinha uma que minha irmã odiava, e sempre que aparecia lhe tirava um sorriso amarelo.

Dia desses tentei rever, ao lado de meu irmão, algumas daquelas imagens. O reprodutor exalou cheiro de queimado e slides entortaram. A maioria está salva para a gente rir das nossas roupas, cabelos e poses. Ainda bem.

O arquivo fotográfico tornou-se mais simples com a digitalização, e em uma armadilha que pode condenar nosso passado, como alerta o jornalista argentino Julian Gallo. Especialista em assuntos de tecnologia, ele chama atenção para um cuidado especial que devemos ter com nossas fotografias, em texto publicado no blog Mirà (www.juliangallo.com.ar)

Diz um dos trechos:

“Temos que entender muito claramente que a função de um album online como Flickr não é conservar fotos, e, sim, ajudar a compartilhá-las, ajudar que os outros as vejam. Nada mais. Porém, é inquietante descobrir que as fotos digitais desaparecem sem demasiadas explicações.”

Leia o artigo “Hay que imprimir la memória fotográfica” acessando o link abaixo e aproveite para conhecer muito mais deste interessante argentino (que, além de tudo, é torcedor do Boca Junior):

http://www.juliangallo.com.ar/2007/07/hay-que-imprimir-la-memoria-fotografica/

“Muro Limpo” começa com água e sabão, na segunda

De Roma

Morador paulistano está ficando metido. Ao chegar na cidade dos amigos, a primeira coisa que quer saber é se a poluição visual está sendo combatida. Na capital italiana, não tem outdoor dos moldes que havia em São Paulo, mas cartazes menores colocados sobre a calçada, ou seja, em domínio público e controlado pelo município.

Por contraditório que pareça, em Roma, que conserva como poucas seu patrimônio histórico, revelando fachadas e recuperando monumentos, o desrespeito e a sujeira são grandes, haja vista as condições que estão muros e espaços publicitários da cidade.

Na segunda, dia 16, para mudar esta cara, a prefeitura lança a campanha “Muro Limpo” , com 38 equipes tomando as ruas da região do Campidoglio. Cada uma com três operários munidos de sabão e máquina automática de água. Hoje, somente oito grupos atuam na área. O alvo são os escritos nos muros e a remoção de cartazes irregulares.

O projeto atenderá não apenas o centro histórico. “Mais atividades de decoro vão avante”, disse o prefeito de Roma, Walter Veltroni, que investirá € 5 milhões – pouco mais de R$ 13 milhões – na operação.

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, poderia convidar o colega Veltroni a visitar a capital paulista e ver que apenas a ação radical de controle da poluição visual foi capaz de coibir a ilegalidade.

Recado ao Senhor Walter Maierovitch

De Roma

Leitor assíduo de seu blog, me interessei em especial pela sua nota a propósito da Bocca de La Verittà. Estou habitando em um pequeno e charmoso apartamento na Via Merulana, portanto a E 1,00 e alguns minutos da igreja de Santa Maria in Cosmedin, se pegar o ônibus certo.

Não resisti a tentação e segui para as margens do rio Tevere em busca da verdade. nesta manhã. A igreja do século IV é singela se comparada com outras dezenas que visitamos por aqui como a Basílica de S. Maria Maggiore. Bastante humilde, principalmente para quem ainda tem em mente a riqueza esbajada na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Levando-se em consideração estarmos em período de férias escolares e o bom tempo que se registra na Itália, a fila que se estendia desde a calçada até o interior da igreja não era das mais desafiadoras – nesta época, para entrar na Capela Sistina ou no Coliseu é preciso rogar aos Deuses da Paciência.

Isto, aliás, facilitou uma das tarefas das quais havia me imbuído, verificar se havia a presença de algum brasileiro ilustre e letrado em busca da verdade. Além de um vendedor de pequenas lembranças, logo após o portão de entrada, que ensaiava alguns assovios com o apito que forjava no local, constatei a existência de enorme quantidade de turistas japoneses e, com menos expressão, de outras nacionalidades, também. Brasileiro, era o único representante no momento.

Aproveitei para perguntar ao ambulante, que vendia produtos com autorização da igreja, se havia notado um aumento na freqüência de brasileiros nestes últimos dias. Com certeza, respondeu. Alguém que o senhor tenha visto lhe chamou atenção ? Quase todos com camisa da seleção. Algum de terno e gravata ? E carro oficial ? Nenhum, repetiu várias vezes, sacudindo a cabeça.

Cerca de 15 a 20 minutos depois de chegar, consegui me aproximar da lenda. Como qualquer turista, até para não chamar atenção, coloquei a mão dentro da boca e posei para fotografia. Enquanto o resto do pessoal preparava seus flashes, aproveitei para realizar minha segunda e mais importante tarefa: convidar a Bocca de La Verittà para viajar a Brasília e se instalar na porta de acesso do Congresso Nacional.

Confesso que não tive muito tempo para convencê-la. Os japoneses que vinham logo atrás estavam impacientes. Sugeri que aparecesse na capital federal após o recesso parlamentar, já que entendia o abalo que haveria nas finanças de Santa Maria in Cosmendin se resolvesse deixar o local nestas férias. Tentei-a com a possibilidade de conhecer o nosso “Cristo Maravilha”, no Rio de Janeiro. Disse ter medo (deve ser da concorrência). Insinuei com uma camisa autografada pelos jogadores da seleção de Dunga (sem Ronaldinho e Kaká, ela sequer abriu a boca).

Impassível mas compreensiva, a Bocca me disse que de todos os brasileiros que por lá passaram nessas últimas semanas nenhum teria motivo para perder o dedo que fosse, e sugeriu que voltasse ao portão de entrada, comprasse do vendedor uma miniatura por apenas 6 euros e a levasse para Brasília com um recado: Provate, Renan !


Fila da verdade: sem brasileiros

Leia a nota “Boca da Verdade” escrita por Walter Maierovitch no link abaixo:

http://www.waltermaierovitch.globolog.com.br/archive_2007_06_30_0.html

Uma vitrine para a pirataria

De Roma

Na Piazza del Popolo, após quase duas horas de passeio em uma das mais famosas ruas de comércio da capital italiana, a Via del Corso, entre as principais marcas da moda internacional, o cidadão se depara com a vitrine acima. Lá dentro, uma série de produtos piratas – tipo aqueles vendidos nas ruas de Veneza (veja nota anterior) – recolhidos das mãos de contrabandistas e vendedores ambulantes, que podem ser encontrados nos corredores das estações de metrô e ruas secundárias.

No alto, a mensagem principal: “ No nosso país, os falsos são… bandidos!”. Em baixo, a ameaça para quem ficar tentado às facilidades do comercio ilegal: comprar produtos de contrabando é crime passível de multa de € 10 mil.

Do jeito que crescem as vendas ilegais, logo a campanha terá que expor, em praça pública, não apenas os produtos falsos, mas os próprios falsificadores.

Obs: A vitrine antipirataria fica na Piazza del Poppolo e a vitrine da pirataria na feira de Porta Portese, as margens do Rio Tevere (foto abaixo). Contrabando e produtos falsificados tomam as bancas do comércio popular.

Italianos “cheiram” cocaína e consumo aumenta 62%

De Roma

A poluição da cidade incomoda mesmo turistas acostumados a respirar a sujeira de São Paulo. Não bastasse a fumaça provocada pelos carros, Roma tem uma peculiaridade: partículas de cocaína. Ninguém fica “chapado” só por caminhar na região do Campidoglio, mas o estudo de um grupo de pesquisadores do Instituto de Poluição Atmosférica, do Conselho Nacional de Pesquisa, encontrou vestígio de coca, assim como do componente ativo da maconha e do haxixe. Foi a primeira vez no mundo que se constatou partículas de droga suspensas no ar na cidade.

Um relatório apresentado nesta quarta ao Parlamento talvez explique em parte a constatação anterior: o uso de cocaína cresceu 62% entre os homens de 25 a 34 anos, e 50% entre as mulheres, na comparação entre os anos de 2001 e 2005. Um em cada três italianos fumou maconha pelo menos uma vez na vida.

Prefeito defende água da pena

De Roma (mas de olho em Nova Iorque)


Fontes de água natural são comuns, em Roma

Não sei se a gente fala água da pena ou da bica, em São Paulo. Água da torneira é mais comum, com certeza. Da pena, da bica ou da torneira, é de lá que o prefeito de Nova Iorque quer que o cidadão tome água. A notícia ganhou espaço no noticiário italiano, onde o hábito é comum. Alguns pequenos restaurantes não se acanham em servi-la aos clientes. Água, por sinal, não é problema para moradores e turistas que encontram fontes naturais por todos os lados.

Michael Bloomberg lança o movimento, em Nova Iorque, para reduzir o desperdício e a poluição provocada pelas garrafas de plástico. Segundo a BBC, os nova-iorquinos apóiam a iniciativa. Quem não gostou da proposta foram os produtores de garrafas PET.

Perde-se algo, encontram-se verdades

De Peschiera del Garda

Uma carteira com dinheiro, documento e cartões de crédito e de banco é perdida dentro de um parque de diversões por onde cruzam milhares de turistas, em sua maioria, italianos.

Duas horas depois, a carteira volta ao dono sem dano; enquanto a administradora não foi capaz de cancelar o cartão, mesmo após impor ao cliente uma enxurrada de perguntas, confirmações e repetições.

No incidente descobre-se a honestidade do cidadão e a incompetência da administradora de cartão.

Obs: o fato levou a outras histórias, como a do cidadão, anônimo até hoje, que encontrou o cartão de crédito de uma brasileira e como não havia maneira de encontrá-la teve o cuidado de cancelá-lo na administradora. Ambos tiveram sorte.

Os “nigerianos” chegaram aqui

De Veneza

Negros e altos, eles se vestem muitas vezes com roupas que fogem do estilo ocidental, apesar de ser possível, também, encontrá-los vestindo camisetas de algum ídolo do basquete americano. Todos são muito bons de papo e a abordagem é feita com uma largo sorriso e gestos extravagantes que não escondem seu objetivo. É incomum a capacidade que têm de manter uma conversa por longo tempo com seu interlocutor – na maioria das vezes, mulher – mesmo que este se esforce para seguir em frente. Ou sequer compreenda a língua com que se comunicam.

Os nigerianos (assim são identificados, por aquim, todos que nasceram em qualquer pais da África) se globalizaram. Antes eram vistos em capitais mundiais como Nova Iorque, passaram a atuar em outros centros, como São Paulo, agora se integram, também, ao cenário de Veneza, a pequena cidade italiana que insiste em se manter viva sobre o mar. Com um lençol estendido nas calçadas das estreitas vias, espalham cuidadosamente dezenas de bolsas de “ótima qualidade”, garantem.

Acesse a internet e procure os últimos lançamentos das coleções da Gucci, Fendi e Dolce Gabbana. São estes modelos que estarão à venda por preços convidativos. Começam com uma pechincha, € 80,00 (algo em torno de R$ 216), mas ao ouvirem o primeiro “não” – seja na língua que for – fazem nova proposta. O preço cai a medida que a cliente tenta se desvencilhar do vendedor. Eles nunca desistem, seguem caminhando ao seu lado. É possível conseguir um “desconto” de até 50%.

Se a presa não resistir a tentação, voltar atrás e conferir a qualidade do produto, estará perdida. Dificilmente escapará da compra. O visual das bolsas é convicente.

“O preço é excelente”, insistem. Se o cliente tiver dúvida, basta ir a loja da frente onde as mesmas bolsas podem ser encontradas por até € 800 (R$ 2.160). Esta é outra curiosidade neste comércio ilegal: os nigerianos não se acanham em colocar suas “bancas” e bolsas falsificadas diante da loja “oficial”, para desespero dos lojistas.

Em dois dias, jamais assisti ao “rapa” seja por carabinieri ou qualquer autoridade de fiscalização, apesar de que eles parecem estarem sempre prontos para correr, mesma rotima dos ambulantes ilegais das cidades brasileiras. Os comerciantes – os das lojas – dizem que de vez em quando eles são retirados dali.

Na última noite em Veneza, um deles sorriu para a moça da frente, se aproximou, fez genuflexão, estendeu os braços como lhe abrindo caminho para o consumo, reproduziu algumas palavras em uma língua qualquer e, em poucos segundos, voltou sem a venda: “Venezuela”, disse ao mesmo tempo que levantava os ombros em sinal de resignação.


Pelo Grande Canal passam parte dos produtos falsificados

As linhas tortas da arte que levam a Paraisópolis

De Viena

A irregularidade no desenho de Friedensreich Hundertwasser é proposital e oferece um visual equilibrado com a natureza. Na contradição, está a idéia da sustentabilidade discutida por todos nós, assustados com o aquecimento global, que já se praticava no trabalho deste artista vienense que morreu, em 2000, aos 71 anos.

“Na natureza não há maldade, somente há maldade no homem”, dizia Hundertwasser.

Na casa (foto acima), o visionário provou que é possível o cidadão viver com a natureza sem que nenhuma das partes tenha de abrir mão de seus direitos.

Desde 1986, quando foi concluída, Hundertwasser House, na capital austríaca, foi visitada por milhares de pessoas de todo o mundo. Um passeio na calçada em frente a casa colorida e arborizada e você encontra estudantes e professores de arquitetura e urbanismo debatendo, em inglês, alemão e espanhol (foi o que consegui identificar) , cada detalhe ao nosso alcance.

Os neófitos (dentre os quais este vos bloga), de boca aberta, tem a impressão de que o artista brincava de desenhar, e transformava o brinquedo dele em realidade. É verdade. Basta verificar outros trabalhos que podem ser acessados na internet, em qualquer site de busca.

Enquanto alunos e profissionais, grupos de turistas e curiosos ficam admirados diante do trabalho de Hundertwasser, lá dentro famílias tocam suas vidas. E saber disso, torna tudo ainda mais incrivel.

Olhar o predio residencial de Hundertwasser, no terceiro distrito da capital vienense, me fez lembrar por – e pelas – linhas tortas de Estevão da Paraisópolis, favela da zona sul de São Paulo. Artista, também, sem a fama do personagem desta história, transformou o ritual de uma casa em arte (foto abaixo), apesar de jamais ter passado por escola especializada (coisa, aliás, que Hundertwasser o fez não por mais de três meses).