Conte Sua História de São Paulo: lições de um cadete do Barro Branco especialista em despedidas

Luiz Eduardo Pesce Arruda

Ouvinte da CBN

reprodução Governo de SP

Quando ingressei na Polícia Militar, em 1977, como cadete da Academia do Barro Branco, havia duas oportunidades de se dar bem: ser atleta de uma das equipes da academia ou na CORP – a Comissão de Relações Públicas da Academia. Como para atleta não servia, restou-se a CORP. E como funcionava: todo sábado, 16 cadetes engalanados e sorridentes dirigiam-se a um baile de debutantes, escalados pela academia. Um dançava com a aniversariantes, os demais com as amigas. Todos elegantemente vestidos, de uniforme azul de gala, quepe branco, e espadim reluzente. Arrasavam corações já na entrada do baile.

Eu bem que tentei, mas nunca era escalado. Não sabia dançar. Restou-me a comissão de pêsames. A despeito do motivo do evento, eu passei até a curtir as saídas da academia para os velórios. A paz, o ritual, a lembrança da finitude humana, a insensatez da vaidade, a fugacidade da beleza física. Tudo aquilo dizia muita à minha alma jovem. Era uma materialização de Esclesíastes, na reprimenda à vaidade. E sempre havia café ou um lanchinho para acompanhar.

No fim do curso, quase cinco anos depois, formado em câmara ardente, nos velórios mais prestigiosos de São Paulo, tornei-me uma referência, uma lenda viva, reconhecida pelos pares como o maior expert no assunto.

— Arruda, conheceu o coronel João, o Aviador?

— Fui no velório dele

— O coronel Pedro, o Paraquedista?

— Não conheci em vida, mas fiz câmara ardente para ele.

E fazia minha recomendações: no cemitério da Quarta parada tem um trailer de lanche e a calabresa com queijo é muito honesta. O Gethsêmani e o Morumbi têm uma lanchonete que é uma beleza, mas leva dinheiro porque é tudo muito caro. Se for escalado no Perus ou Santo Amaro, leva lanchinho de casa, porque o serviço é bem fraquinho.

Ao chegar no local, identifique a viúva e os parentes, faça expressão séria, ofereça os pêsames em nome da Academia e cuidado para não entrar em rodinha de gente inconveniente, bêbada e piadistas —- essa fauna sinatrópica que não vive sem um velorizoinho. Mas também, convenhamos, sem esse povo não tem a menor graça.

Luiz Eduardo Pesce Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e acompanhe o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: eu só quero é ser feliz

Grêmio 1×0 Fluminense

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Diego Souza comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O árbitro havia apitado o fim do jogo mas antes de comemorar qualquer coisa ainda procurei para ver onde a bola estava. Precisava me certificar de que nada de errado ainda poderia acontecer. No gol que marcamos, aos 28 do segundo tempo, não foi diferente: apesar da explosão repentina de quem vê a bola na rede, segurei a alegria até a certeza de que não teria o que revisar. 

Torcer para o Grêmio nesta temporada tem sido um sofrimento atrás do outro. Mesmo nos momentos em que o futebol pode nos proporcionar alguma satisfação, surge algo para nos frustrar. 

A bola é lançada na área, seu zagueiro a despacha para longe, mas de alguma maneira ela desvia no braço de um companheiro, e o pênalti é descoberto. Seu atacante é derrubado antes de finalizar em gol: pênalti a seu favor — pode contar com o erro na marca fatal. Seu time sai na frente, faz um gol impossível, e em seguida sofre a virada para provar que a felicidade é um sentimento fugaz, nesses tempos de carência.

Por isso, nesta noite, foi surpreende ver que o técnico decidiu lançar o time para frente, apostar em gente com energia e disposição. Que o lance que deu origem ao gol adversário foi em “flagrante” impedimento — só identificado pela linha virtual do VAR — e, portanto, foi anulado. Que quando Mateus Sarará recebeu a bola próximo da área adversária, ninguém se aproximou para impedir o cruzamento. Que o zagueiro foi incapaz de segurar Diego Souza no chão. Que nosso goleador foi capaz de saltar mais alto do que todos, manusear a cabeça e desviar a bola para dentro do gol — sem nenhuma suspeita de irregularidade.

Se o Grêmio jogou bem ou não, deixo para o analista analisar.

Se o resultado muda nosso rumo no campeonato, deixo para o destino nos destinar. 

Hoje, como se canta na canção:

“eu só quero é ser feliz, feliz, feliz, feliz, feliz

Onde eu nasci, é

E poder me orgulhar …”

Consumidor é ‘figital’ e quer uma relação mais simples e acessível com as marcas

Desde que passamos a fazer parte desta barafunda que a pandemia nos impôs, entender o que está acontecendo é um desafio. Temos muitas pretensões, e poucas convicções. Achamos coisas, imaginamos cenários e quando arriscamos um ‘com certeza’, damos um cavalo de pau na frase para concluir com um definitivo “eu acho”. Pensando bem, melhor assim do que esses loucos que andam a solta nos planaltos e palácios, com suas verdades mentirosas. 

Mesmo diante da incerteza, não duvidamos que a gente está muito mais digital. A despeito das desigualdades de acesso, comprar pela internet foi o recurso que restou para a maioria de nós neste mais de ano e meio de pandemia. Hábito que veio para ficar —- mas não ficar sozinho como bem mostra a pesquisa “A nova jornada do consumidor no e-commerce”, promovida pela MRM Commerce, em parceria com a MindMiners.

Segundo o levantamento, o consumidor brasileiro passou a comprar mais pela internet — foi o que disseram 80% das 1.000 pessoas que participaram da pesquisa. E a maioria, 68%, vai manter o hábito ao fim da pandemia  — o que se pode perceber mesmo agora quando o mal ainda está entre nós, mas muitos vivem como se o pós-pandemia já tivesse se realizado.

Até aqui, sem muito novidade. Comprou-se mais pela internet, mais gente vendeu pela internet, então acostumou-se a fazer negócio pela internet. Óbvio! O ponto que considero interessante, porque ratifica o que tenho ouvido de vários convidados no programa Mundo Corporativo, é que não seremos só ‘físicos’ tanto quanto não seremos só ‘digitais’. 

Senão, vejamos.

Para 71% das pessoas, a jornada começa  com a pesquisa na loja física e a compra se realiza na internet. E o fazem especialmente pelo preço, comodidade, facilidade e diversidade de produtos e marcas. 

Mas não se engane, porque muitos desses não têm o menor pudor de percorrer o caminho inverso, também. Haja vista que  65% afirmaram que começam a pesquisa na internet e compram na loja física. E o fazem principalmente para poder levar o produto na hora e pela experiência na loja. 

reproduçao de tabela da pesquisa MRM Commerce/MindMiners

Aqui uma observação: 39% buscam a experiência na loja, e apenas 22% dizem que compram lá por causa do vendedor. Na minha cabeça, uma experiência gratificante só se faz plena com a participação do vendedor, que vai muito além do moço que me pergunta: “o senhor tá procurando alguma coisa?” — mas isso é assunto para outro artigo e de preferência escrito por alguém que seja entendido no assunto; no máximo sou um consumidor experiente e gastador (apesar da fama de pão duro, entre os amigos do Hora de Expediente).

De volta à pesquisa e ao ponto. 

Se não somos só físico nem só digital, então, somos ‘figital’, um neologismo que tem aparecido com frequência na avaliação de consultores do setor de varejo que estende seus braços para outras áreas da economia.  O problema é que muitas empresas estão demorando para entender que se o consumidor é ‘figital’, o negócio também tem de sê-lo. As operações não podem ser dissociadas, a experiência tem de ser única em todos os ambientes. Meu contato com a marca vai do computador para o celular que me acompanha até o shopping. De lá, segue com aconselhamento ou consultoria, sem que vender seja o único objetivo. E se migro de um espaço para o outro, a percepção tem de ser de que estou sendo atendido pela mesma pessoa ou persona. 

Antes de me despedir, mais um destaque entre tantos  números, dados e informações disponíveis em “A nova jornada do consumidor no e-commerce”.  Facilidade é elemento que predomina nesse relacionamento. Seja na navegação no site, que se reflete na boa experiência de compra online – 69% escolheram a marca devido a esse item; seja em encontrar o que se precisa, no online ou no físico; seja na forma de se comunicar. 

A vida já é complicada demais. O consumidor não tem tempo para se perder em meio a sites, serviços e atendimentos com várias camadas de relacionamento, filtros, códigos, senhas e perguntas mal feitas. Se a ideia é manter o cliente ao seu lado na jornada pós-pandemia – no físico, no online ou seja lá onde for – simplifique-a! Eu agradeço!

Aqui, você tem acesso a pesquisa completa

Avalanche Tricolor: de experiência, esperanças e fracassos

Inter 1×0 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

Kannemann em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Das boas coisas que o tempo nos oferece, a experiência é uma delas, a despeito de saber que essa também é feita da intensidade com que se vive as coisas — senão, como explicar jovens capazes de transformar o mundo como temos vistos recentemente.  No que se refere ao tema de sempre desta coluna,  sou muito experiente — e não escrevo isso para me gabar, apenas para constatar que de Grêmio já vivi muito e intensamente. Sofri como a maioria de vocês, nascidos nestes anos de 2000, nunca sofreram. Chorei na arquibancada, ao lado do gramado e dentro do vestiário, abraçado a meus ídolos. Chorei de dor e de amor. Vivenciei a escassez e a abundância de títulos — sequências que nos ensinam que nada daquilo que experimentamos no momento será eterno (vai passar!). 

Derrotas em clássicos sempre ocorreram. E em uma quantidade inimaginável para os tempos atuais. O que assistíamos até recentemente beirava o ineditismo, chegava ao limiar do impossível, a medida que falamos de uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro. Há quem diga que é a maior. Humilde, como os gaúchos devem ser, a coloco entre as maiores do futebol mundial. Portanto, não surpreende a turma do lado de lá ter dado volta olímpica, desfraldado bandeira, tocado tambor e até feito pose de foto do título(?). Das galhofas com símbolo adversário, prefiro não comentar. Me falta isenção. 

E por isento que não sou, uso a experiência em situações como essa. Em lugar de iniciar meu texto assim que o árbitro encerrou a partida e os jogadores ainda se engalfinhavam no gramado, preferi contemplar o cenário com um copo de vinho em mãos. Ao mesmo tempo que o álcool percorria meu corpo e ascendia ao sistema límbico, atingindo meu senso crítico, meu sangue corria menos quente entre as veias e esfriava meu ânimo. Nesse jogo de compensações que a biologia humana disputa em situações como essa, meu desejo de dizer algumas “verdades” arrefeceu – sim, entre aspas, porque a verdade a que me refiro tem a ver com a reação que costumamos expressar quando a razão se cala e a emoção exacerba, geralmente traduzida em ataques desnecessários, palavras deseducadas, e injustiças. Embevecido – ou seria embebido – preferi a cama às palavras. Deixei para escrever essa Avalanche em momento mais oportuno.

Que bela decisão tomei – pensa o humilde escrevinhador cá com as listras tricolores da sua camisa.

Hoje cedo, quando ninguém ainda estava acordado em casa, deparei com a crônica do colunista de esporte dominical de O Globo, Marcelo Barreto, que tinha como cena de fundo o clássico carioca Botafogo e Vasco, e protagonista, um torcedor vascaíno, desses que se apresentam como “doentes”, apesar de já dar sinais de consciência. O time carioca caiu quatro vezes para a Série B e a possibilidade de permanecer por lá ano que vem chega a ser maior do que a nossa de cair, nesta altura da competição. Ou seja, o clássico de hoje deve ser determinante em diversos aspectos.

Marcelo descreve as reações do amigo vascaíno que fez de sua paixão, resignação — a medida que a idade avançava. Hoje, com o coração endurecido no tempo e na intensidade, não impõe mais medo nos amigos, que temiam atos extremos e vida colocada em risco como resposta às frustrações em campo. O cronista diz que “meu amigo aprendeu a esperar. E ainda não perdeu a esperança. Mas está a um passo de normalizar o fracasso.” As duas primeiras frases guardarei como lição nesta tristeza que me abate; a última, lutarei até o fim para não me dominar. Porque se tem algo com que não devemos jamais nos contentar é com o fracasso, sob o risco de perdemos o título que realmente conta na nossa história: o da imortalidade.

Mundo Corporativo: empresas tem de ser onipresentes na jornada do consumidor, diz Lyana Bittencourt

Foto de Mikhail Nilov no Pexels

“Nesse mundo atual, ninguém sabe tudo, ele é colaborativo, ele é integrado, ele é co-criado. E isso Isso muda. Isso muda as empresas”

Lyana Bittencourt

Ao entregar um cartão de visita é comum a empresária Lyana Bittencourt, CEO do grupo que leva o nome da família, ouvir seus interlocutores perguntando se foi o pai quem fundou a organização. “Foi a mãe”, responde com orgulho. Sim, foi Dona Cláudia quem, há 36 anos, abriu a empresa que presta serviço, orientação, conhecimento e estratégia de atuação para redes de negócios. E abriu, também, caminho para Lyana dar sequência ao trabalho que hoje atende cerca de dois mil clientes:

“Minha mãe deve ter vivido (essa situação) mais ainda, mas eu, quando eu ia para as reuniões, não tinha uma mulher disputando comigo, eram só empresas lideradas por homens. Meus principais competidos são liderados por homens. A nossa é a única feminina. E feminina em espírito”.

A despeito disso, ser uma referência como liderança feminina não é o seu propósito. Ao menos não é essa a intenção quando acorda pela manhã. Na entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN, Lyana disse que o que busca é fazer o seu melhor trabalho, ter uma empresa admirada e ajudar os clientes a realizarem seus sonhos. Entende que ser líder é consequência de um bom trabalho. Como sugestão às mulheres – e homens, também – que pretendem assumir o comando dos seus próprios negócios, recomenda:

“Esse foi um aprendizado que tive com a minha mãe desde muito cedo. Ame aquilo que você faz, descubra algo que te faça acordar; e seja verdadeiro no que você faz. O mundo não tolera mais o fake, o disfarçado”. 

E por falar em mundo … o desafio do momento é entender quais cenários permanecerão em pé depois da experiência que vivenciamos nesta pandemia. Lyana Bittencourt, que realiza consultoria especializada no desenvolvimento, gestão e expansão de redes, enxerga que as empresas terão de ser mais líquidas, flexíveis e adaptáveis. Terão de interpretar as demandas do consumidor omnichannel, que quer ser atendido da maneira que deseja, no local em que estiver e pelo meio que lhe convier.  Ou seja, nem só físico nem só digital: figital. 

“E se as empresas não estiverem atentas a serem essa solução completa que o consumidor deseja, elas vão perder para outras empresas que estão mais completas e mais onipresentes na jornada. Então, eu quero ser uma marca onipresente. Eu tenho que estar no celular do consumidor. Eu tenho que ter a loja. Eu tenho que ter o meu e-commerce. Eu tenho de ter meu market place”. 

Assista ao Mundo Corporativo com Lyana Bittencourt, do Grupo Bittencourt, que fala de outras estratégias necessárias para as empresas estarem sintonizadas com o momento atual.

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: sonhava ser o motorista do “Papa Fila”

Ismael Medeiros

ismaelmedeitos@outlook.com

Nasci em 13 de julho de 1946, no Hospital Umberto Primo, o Matarazzo, próximo de onde meus pais moravam, na rua Herculano de Freitas, na Bela Vista. Aos dois anos mudamos para São Miguel Paulista, onde a economia girava em torno da Nitro Química, fábrica da Votorantim.  Meus avós maternos seguiram morando nos velhos sobrados da Nove de Julho, ao lado do túnel — o que nos levava a visitar frequentes ao Bexiga.

Sair dos limites da zona leste era uma saga. Pegávamos um ônibus até a Penha. Era o ônibus do Toninho, seu proprietário. Depois de passar pela curva da morte, na Ponte Rasa, desembarcávamos na praça Sete de Setembro para, em seguida, subirmos no bonde —  ou o Camarão,  de cor alaranjada, ou o aberto. Na Praça Clóvis Beviláqua, saltávamos de um bonde para outro, para chegar na rua Manoel Dutra, próximo a praça 14 Bis.

Nos bondes, havia propaganda de produtos no alto. Uma das que não esquece tinha um careca correndo atrás do macaquinho que lhe roubara o vidro da loção capilar: “vem cá Simão! Traga a minha loção”.

O ouvinte Ismael é o menino menor desta foto feita na Praça 14 Bis em 1948

Na praça 14 Bis tinha um jardim que seguia até o túnel, com espaços onde andava de bicicleta com o primo Joãozinho. Havia bancos de assentos para apreciar o movimento de carros, geralmente Ford e Chevrolet. Eu e ele apostávamos se passariam mais carros verdes ou pretos. Ainda por lá, ao lado do túnel, tinham dois chafarizes que davam uma vontade louca de mergulhar. 

Ainda lembro do retorno a São Miguel, no fim da tarde, início da noite, quando a cidade virava uma festa de luminosos, colorindo e encantando as pessoas. O meu preferido era o Elmo do Banco Auxiliar de São Paulo que eu avistava do ponto de ônibus, no parque Dom Pedro II – já era época em que os bondes começavam a ser substituídos. Do lançamento do ônibus ‘Papa Fila’,  uma espécie de carreta da CMTC, guardo a lembrança do motorista que ficava isolado no cavalo mecânico, enquanto os passageiros vinham na parte articulada de trás. 

Sonhava ser o motorista daquele ônibus. Fazia do contorno do assento meu voltante. Com a boca, imitava o ronco do motor. Trocava marchas imaginárias. E seguia conduzindo meus passageiros pela Rangel Pestana, Celso Garcia, Penha e de volta a São Miguel Paulista. 

Ismael Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. E ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: um pecado

Atlético MG 2×1 Grêmio

Brasileiro – Mineirão, Belo Horizonte/MG

Campaz comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Um pecado” falou Rafinha em entrevista ainda ao lado do gramado em que o Grêmio acabara de fazer uma de suas melhores partidas neste campeonato. Foi como o lateral gremista definiu o que aconteceu nesta noite em que enfrentamos o líder e virtual campeão do Brasileiro, um estádio estupidamente (no pior sentido da palavra) lotado — a despeito da pandemia que ainda vivenciamos — e a saga de azar que a temporada 2021 nos reserva.

Um pecado Borja perder o gol ainda no início do jogo em contra-ataque que parou no poste adversário. Um pecado saber que o gol que ele marcou na sequência foi anulado por um traço milimétrico e digital do VAR. O mesmo serviço auxiliar do árbitro que foi atento em ver irregularidade de Campaz ao se proteger de uma bola na barreira, mas foi incapaz de identificar a irregularidade na posição do jogador adversário que não respeitou o metro de distância da mesma barreira. Um pecado Chapecó ser tão preciso no lado em que saltou para defender o pênalti mas nem isso ter sido suficiente para alcançar a bola. 

O gol que não entra, o pênalti que é marcado, o gol que não evitamos … os pecados que o Grêmio está pagando por erros que não estão à altura da punição que recebemos. Até quando? Não sei. A noite de hoje, nos sinalizou mudanças de postura e de performance, que se reproduzidas nas demais partidas pode nos tirar deste sufoco que enfrentamos. 

É só não cometermos novos pecados … 

O momento certo para começar, não existe

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Tobi no Pexels

Assim que estiver tudo pronto eu começo!

Essa é uma daquelas frases rotineiras que costumamos dizer quando vamos nos engajar em um novo comportamento, tal como fazer uma dieta, iniciar uma atividade física ou começar um projeto profissional.

E vai começar pelo fim? 

Confesso, faço essa pergunta, curiosa por sua resposta. Afinal, se estiver tudo pronto, não há mais nada ou muito pouco que possa ser feito.

Permita-me a ousadia: gostaria de fazer mais uma pergunta. 

Se você deseja aprender um instrumento musical, se inscreveria em um curso ou para tocar na orquestra da sua cidade?

Por mais óbvio que isso pareça, muitas pessoas criam expectativas para mudanças de hábitos ou alcance de metas como se estes dependessem de fatores externos. Na realidade, iniciar um novo hábito ou desenvolver uma habilidade envolve dedicação e persistência. Leva tempo, causa frustração e desconforto. Envolve processos. Envolve dar um passo por vez. Envolve treinar, errar, recomeçar, falhar, errar de novo, aperfeiçoar. Isso significa progredir.

Numa sociedade imediatista e com baixa tolerância à frustração, ter paciência para progredir soa como falta de foco e de determinação. Sobram ideias de que é preciso ser absolutamente o melhor para poder progredir e, com o endosso promovido pelas redes sociais, ecoam-se expectativas de que todos os feitos devem ser infalíveis.

Padrões que gritam por ser, quando ainda nem estamos

Perdemos tempo em excesso refletindo como seria nossa vida se fossemos de um jeito ou de outro; se tivéssemos isso ou aquilo; a partir de comparações injustas, baseadas em recortes de vidas perfeitas estampadas em posts

Desejamos a perfeição. Não seria isso exatamente o sinônimo de estarmos prontos? Na sua ausência, colocamos lente de aumento em nossos erros ou faltas.  A autocrítica se eleva e procrastinamos, não por preguiça ou dificuldade de resolução, mas como uma estratégia para adiar a tomada de decisão ou o nosso engajamento, aprisionados ao perfeccionismo exagerado que nos enche de temor pelas falhas e possíveis julgamentos alheios; perfeccionismo que nos coloca em labirintos, enviesa o pensamento que surge com pouca lógica. 

Quantas vezes acreditamos que se perdermos peso, seremos mais felizes no amor ou na vida profissional? Quantas vezes adiamos a dieta porque seria melhor começar na segunda-feira e não na próxima refeição?

Não existe momento certo para começar. Não estamos prontos e talvez nunca estejamos, porque mudam-se as necessidades e a vida se encarrega de nos desafiar com novas oportunidades. Como diz Mário Sérgio Cortella: 

“Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta e vai se fazendo”.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sua Marca: quando a marca deve fazer uma harmonização facial

Colégio Bandeirantes ganhou novo logotipo (foto: divulgação)

“Ao longo da história de uma marca é preciso fazer mudanças para preservá-la”

Jaime Troiano

Tá na manchete do site de fofoca. Tá em destaque na televisão. Tá nas páginas de saúde e bem-estar. Harmonização facial é o tema da moda quando o assunto é beleza. É a combinação de uma série de procedimentos estéticos — dizem que suaves e sem cirugia — para corrigir a simetria e a proporcionalidade do rosto. Aplica-se botox, faz-se preenchimento facial, dá-se uma enxugada na papada e um reforço na elasticidade da pele. Bem feito, o resultado é ótimo. E tem quem diga, recupera a auto-estima. Quando dá errado … esquece!

Assim como as pessoas, as marcas também podem passar por uma espécie de harmonização facial, com retoques aqui e ali, capazes de oferecer uma imagem melhor, mais simétrica e moderna. São mudanças que vêm para preservar a marca, explica Jaime Troiano:

“Marcas antigas, tradicionais, algumas com décadas e outras centenárias, não precisam ficar com cara de velha. Devem fazer atualizações e renovações. dentro de certos limites. Por outro lado, não podem, simplesmente, levar uma vida acompanhando a modinha”.

O risco de fazer a harmonização facial da marca sem critério é perder o seu diferencial e ficar com a mesma cara da concorrência, a mesma linguagem e o mesmo conteúdo. A solução é bem parecida com aquela proposta por Jaime e Cecília, quando falamos de inovação das marcas: muda-se sem perder a essência. 

Um bom exemplo, usado pela Cecília Russo para ilustrar o tema, foi a “harmonização facial” do tradicional Colégio Bandeirantes, de São Paulo, fundado em 1944. Há três anos, a escola iniciou uma série de mudanças que passaram pelo nome, logotipo e comunicação com a intenção de expressar melhor a proposta da escola de “olhar à frente”. O colégio assumiu o nome Band, forma como seus alunos se referiam à instituição, e tirou a letra B, símbolo da escola, de dentro de um logotipo quadrado, para dar ideia de flexibilidade. 

“Acho que isso é um bom exemplo de fazer uma renovação: preservar o essencial, e mostrar que essa dualidade, ser tradicional e inovador ao mesmo tempo, é possível”

Cecília Russo

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso com Jaime Troiano e Cecília Russo, e sonorização de Paschoal Junior:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã. Os ouvintes podem participar com mensagens enviadas para marcasdesucesso@cbn.com.br.

Avalanche Tricolor: que vergonha!

Grêmio 1×3 Palmeiras

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Geromel em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A tabela de classificação já não era favorável na noite de sábado, quando sentei diante do computador para planejar o domingo futebolístico. Confesso que, pela primeira vez, o abatimento se expressou no coração deste torcedor (quase) sempre crente nas conquistas impossíveis do tricolor. O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche sabe da minha tese — diante do desespero que assistimos nesta temporada — de que estamos disputando uma Batalha dos Aflitos estendida, em que os aflitos somos nós próprios. E haveremos de vencer, mesmo que tudo aponte no sentido contrário.

O que era ruim, pior ficou.

Tomamos uma virada ainda no primeiro tempo, o VAR apitou mais do que o árbitro – acertou nos dois lances cruciais, registre-se – e o azar deu às mãos à intranquilidade e passeou pelo gramado da Arena. Com cada vez menos rodada para se recuperar e a dificuldade de o treinador e o time enxergarem soluções a curto prazo, a esperança de uma reviravolta se esvaía.

Foi, então, que, ao fim da partida, ouvi as palavras de Geromel, que voltou ao time dois meses depois de se recuperar de uma lesão no pé e fez um jogo quase impecável, a despeito da falta de ritmo:  

“Temos de trabalhar. Não podemos desistir. Só juntos sairemos desta situação. Sabemos que é uma situação incomoda. Faltam 11 jogos e precisamos de seis vitórias. Temos que sair desta situação”. 

A afirmação de nosso zagueiro e capitão mexeu com meu ânimo. Tudo que estava prestes a desmoronar, me pareceu novamente possível — ao alcance de um time que,  com um chacoalhão e a inclusão dos jovens que deram mais ritmo no segundo tempo, se revelará imortal, como dito em seu hino e história. Estava prestes a levantar do sofá, sacudir a poeira e fazer minha reverência à camisa autografada por Geromel que está estendida em um quadro no memorial que mantenho em casa. Mas as cenas que vieram em seguida, me abateram de vez. 

Os alucinados torcedores invadindo o gramado da Arena, quebrando o que viam pela frente, vandalizando o VAR e correndo como baratas tontas (e covardes) me levaram ao fatídico ano de 2004 quando fomos rebaixados. Uma época em que o clube estava destruído, ao contrário de hoje; tínhamos um time muito inferior ao atual; e a sequência de violência nas arquibancadas do Olímpico nos tirou o direito de jogar em casa e com torcida quando mais precisávamos deste apoio. Uma atitude que praticamente definiu nosso destino.

Os torcedores que assim agiram neste fim de domingo, em Porto Alegre, me fazem sentir muito mais vergonha do que o rebaixamento que nos ameaça de forma mais intensa a cada fim de rodada.