Mundo Corporativo: como Kim Maschlup montou a Baskets em apenas um mês e na pandemia

“O melhor caminho é colocar na rua e ver a coisa andando”

Kim Maschlup, Baskets
Foto: reprodução site Baskets.com.br

Queijo de ovelha, pão de batata roxa e bolo de fubá com goiabada. Biscoito de castanha do Pará, cerveja artesanal e aguardente. Essa cesta, tão variada quanto deliciosa, na qual cabem muito mais produtos, corria o risco de ficar vazia, diante da pandemia. Com o fechamento do comércio e o isolamento social, pequenos produtores pelo interior do Brasil perderam acesso a seus consumidores, e os que conseguiam receber as encomendas tinham de ter muita boa vontade com a falta de estrutura de entrega. Foi diante dessa dificuldade que a admiradora de produtos artesanais brasileiros Kim Maschlup assumiu o desafio de criar uma plataforma eletrônica para conectar produtores e consumidores.

Kim é consumidora desses produtos assim como muitos de nós. Se isso a permitiu enxergar o perigo que se avizinhava, foram outros papéis que exerce que despertaram nela o interesse em ajudar essa turma. Kim é administradora de empresa, mestre em liderança no terceiro setor, e inspiradora de negócios com impacto social. Ela também atua em empresas que fazem investimento em novos negócios e ideias.

Com o perdão do trocadilho, foi essa cesta de habilidades e competências que a fez construir a Baskets. E em apenas um mês. Porque com o tamanho da crise que se espalhava não havia tempo a perder. No Mundo Corporativo, Kim Maschlup explicou como foi possível colocar a plataforma no ar, em agosto de 2020. O primeiro passo foi ouvir consumidores e produtores para entender as dores de cada lado. Em seguida, foi o momento de estudar qual o melhor desenho para tornar essa conexão possível: foi quando veio a ideia da plataforma online. Montar a logística para que os produtos estivessem disponíveis em um centro de distribuição único:

“Nesse um mês, eu precisei fazer a curadoria de produtos, alinhar com os produtores como seria esse modelo de negócios, trazer todas as informações deles  e dos produtos e colocar dentro da plataforma. Essa foi a parte que foi a mais trabalhosa”.

Os resultados apareceram rapidamente com o interesse de consumidores e produtores tornando o negócio viável. No início, quando Kim imaginava alcançar até 20 pequenos produtores, 34 aceitaram o convite; hoje são cerca de 50 e mais de 500 produtos – entre os quais aqueles que estão listados no início deste texto. A intenção é alcançar outras partes do Brasil, tanto na oferta como na entrega – o que deve ocorrer em breve.

Aos empreendedores dispostos a construir seu negócio, Kim recomenda que não se perca tempo na busca de projetos perfeitos: essa busca nunca vai cessar. É preciso encontrar o equilíbrio entre a quantidade de informação necessária para desenvolver o negócio e o tempo justo para lançá-lo no mercado. Ela sabe que o processo na Baskets foi mais veloz do que deveria, mas se isso ocorreu foi em nome da urgência do momento. Ouvindo Kim falar, descobre-se que a pressa não é inimiga da perfeição:

“Eu falava: eu preciso fazer para ter as respostas. Enquanto eu não estiver no mercado, enquanto as pessoas não tiverem consumindo, enquanto eu não estiver engajando os produtores, eu nunca vou saber de fato se essa ideia funciona”.

Ao acelerar o projeto e colocá-lo a rodar, Kim também descobriu rapidamente erros que foram sendo corrigidos ao longo do processo. Para ela é preciso estar disposto a errar e se reinventar todos os dias. Assim como trocar informação com pessoas que estão ao seu alcance, pedir feedback, ouvir e aprender. Depois de ter investido do próprio bolso para a ideia se concretizar, convenceu ‘investidores anjos’, no início deste ano, a  acreditarem no modelo de negócio que havia construído. 

“Uma coisa que você vai sempre ouvir de investidores, principalmente neste primeiro momento das empresas é ‘quem são as pessoas que estão por trás daquele negócio? Porque são elas que vão construir aquilo. Independentemente de qual seja o caminho que a empresa vai tomar, é importante entender que existe uma equipe por trás que vai ser capaz de entregar”. 

Assista à entrevista completa de Kim Maschlup, ao Mundo Corporativo:

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Débora Gonçalves e Rafael Furugen. 

Conte Sua História de São Paulo: o Natal das Helôs

Talita Ribeiro

Ouvinte da CBN

Meus avós tiveram quatro filhas – as “Quatro Helôs” – cuja descendência já soma 112 integrantes, entre nativos e agregados. Reunir a família toda para o Natal, como fazíamos há 25 anos, agora nem pensar. Mas que eu pensava, pensava! 


Ainda mais neste ano, 2020, em que nem aos mais próximos tivemos acesso presencial. Desde março, eu precisei me reinventar, como muitos, e criar grupos de Whatsapp para dar aulas de bordado às minhas alunas, através de vídeos caseiros, fotos, textos, áudios e até ligações por vídeo pra cada uma. Que experiência! 


De repente a ideia: por que não formar um grande grupo de Whatsapp – 75 adultos – e preparar uma celebração de Natal com dia e hora marcados, todos juntos? Convoquei um primo de cada ramo “Helô”, para conseguirmos todos os nomes, idades e números de Whatsapp. Também cada primo se responsabilizou por conseguir dois ou três depoimentos por vídeo sobre como foi a vida na pandemia – temos queridos na África do Sul, Estados Unidos, Alto Paraíso, Cunha, Vinhedo, Ubatuba, Taubaté…. Entre ideia e execução, apenas oito dias! 


Criei um grupo de Whatsapp só meu, e lá fui acomodando as postagens, na ordem em que seriam apresentadas: fotos dos nossos avós, das “Quatro Helôs”, dos netos, dos bisnetos e dos trinetos. Depois, uma música de Natal muito popular nos nossos antigos Natais – com a letra para cada um cantar na sua casa e se imaginar cantando em grupo! Depois, o depoimento da prima da África do Sul, cujas crianças nem falam português – mas que apareceram no vídeo usando um aplicativo que as deixou com caras de gatinhos, focinho, orelhas… Uma graça! 


E assim fui mesclando as postagens, até chegar no ápice, que foi uma oração de esperança para o ano de 2021, seguida de um PowerPoint com fotos de absolutamente todos os integrantes da família, por ramo, tendo como fundo uma lindíssima música de Natal que dizia “This is the story”… A história de cada um… E tudo isso aconteceu no dia 19 de dezembro, às cinco da tarde. Por quase uma hora e meia, em que eu ia encaminhando postagem por postagem; aguardando o tempo necessário para que todos lessem, vissem ou ouvissem. Terminada a celebração, todos puderam escrever seus votos de Natal, postar selfies, fotos da pequena família, da infância e… Meu Deus, que festa! 


Estávamos todos dentro de uma grande sala virtual, nos curtindo, nos alegrando. Uma tia de 88 anos – a Helô caçula – chegou a dizer que foi o Natal mais emocionante da vida. No 25 de dezembro, reativamos o grupo e o deixamos aberto a tarde toda, para que todos compartilhassem suas lembranças e fotos dos Natais de cada pequena família! Desta enorme família das Helôs!


Talita Ribeiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe dos festejos de 468 anos da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br com o tema “em cantos de São Paulo”. E ouça seu texto em uma ediçao especial do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca: três lições de branding que encontramos na Casa de Gucci

“Não há marca forte que resista a produto ruim e essa é a crença que faz com que a Gucci tenha toda essa história maravilhosa”

Jaime Troiano

Um assassinato sob encomenda é o centro de uma história de amor, traição, decadência, vingança, luxo … e de algumas lições de branding. Na tela do cinema, essa casa ainda pouco frequentada, desde que a pandemia se iniciou, o diretor Ridley Scott traduziu o que já havia sido bem escrito em livro de Sara Gay Forben, lançado em 2008, e relançado agora, no Brasil, com o nome Casa Gucci. Uma obra que parte de um crime bárbaro, encomendado por Patrizia Reggiani Martinelli, que culminou na morte de Maurizio Gucci, seu ex-marido. Na pesquisa de Sara e na transformação de seu livro em filme, se tem acesso a conceitos que fizeram da Gucci uma das maiores marcas de luxo do mundo.

Jaime Troiano e Cecília Russo foram ao cinema para assistir  à Casa Gucci e de lá saíram entusiasmados não apenas com a trama, mas com o que se pode aprender sobre branding. No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, eles apontaram três lições que devem ser consideradas por todos que estejam diante do desafio de administrar uma marca, mesmo que esta não seja de luxo como a Gucci:

  1. Alma de fundador: a Gucci foi criada em 1922 por Guccio Gucci e foi pelas mãos dos seus filhos, Rodolfo e Vasco, que a marca se tornou um ícone. Eles eram homens do negócio e não homens de negócio, ou seja, eram apaixonados pela arte da moda, eram encantados pelo que faziam e levavam esse encantamento para a marca. Faziam uma gestão de marca com alma e não uma gestão burocrática, fria e calculista. Podiam pecar como gestores, mas compensavam essa falha pela paixão que nutriam pela marca. 

“Alma e paixão pelo negócio movem marcas de sucesso”

Cecília Russo

2. Autenticidade preservada:  O logo GG e as cores verde e vermelha, cores da Itália, em forma de listras, são as representações visuais históricas da marca. E foi exatamente pela insistência e repetição desses ativos que a Gucci favoreceu seu reconhecimento. Não cedeu à tentação de mudança. Porque nem sempre mudar é a melhor estratégia. É preciso coragem para preservar, até bem mais do que para mudar, diz Jaime Troiano. Isso é autenticidade de verdade. 

3. Qualidade não tem preço: uma das melhores falas do filme ocorre quando um dos irmãos diz que o preço alto é aquilo que é esquecido enquanto a qualidade superior permanece

“Garanto a vocês que o filme vale o ingresso que vocês vão pagar.  A aula de branding vem de bônus”.

Cecília Russo

Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um sucesso, com sonorização de Paschoal Júnior

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN.

Mundo Corporativo: Carine Ross, da Newa, pede o engajamento dos líderes em favor da diversidade

Foto de fauxels no Pexels

“Eu entendo que quando a gente está falando de diversidade de inclusão isso precisa estar na estratégia do negócio” 

Carine Ross, Newa

Se sentir respeitada e ouvida no trabalho foi um desafio enorme para Carine Ross, mesmo após ter se formado em comunicação e sociologia, e estar ocupando um cargo de gerência de projetos dentro da Unesco. Diante dessa realidade, passou a entender melhor o drama que muitas mulheres são levadas a encarar no ambiente de trabalho. Sensibilizada pela situação e consciente de sua capacidade, Carine criou, ao lado de amigos, uma organização sem fins lucrativos com a proposta de fomentar o desenvolvimento de mulheres no setor de tecnologia e inovação – ao qual pertencia. Hoje, Carine comanda a Newa, uma consultoria de diversidade, inclusão e inovação:

“Eu percebi que um insight que eu dava podia mudar, muitas vezes radicalmente, a história de vida daquelas mulheres que estavam desistindo das carreiras por esses ambientes serem muito opressores”.

Em entrevista ao Mundo Corporativo, Carine Ross disse que a experiência mostrou que se a intenção era ter um cenário propício à diversidade, precisaria ampliar seu olhar. Não bastaria apenas dar consultoria de carreira às mulheres. Teria de levar seu conhecimento ao alto comando das empresas, traçando estratégias que estivessem alinhadas ao negócio e às pessoas, provocando uma transformação cultural. 

“Quando a gente está entrando em uma organização, precisa entender quais são as dores, principalmente dos grupos que estão lá e os grupos que não estão sendo representados. A partir daí, a gente faz um trabalho com as lideranças”.

Antes mesmo de pensar em tornar as contratações mais plurais em termos de etnia, gênero e orientação sexual, Carine defende que se olhe para as pessoas que fazem parte da empresa e se identifique como os colaboradores se sentem, quais os processos de ascensão profissional e os planos de carreira. É preciso estruturar as políticas internas sob o risco de se desperdiçar os talentos internos e aqueles que serão recrutados. 

“Tudo é feito em paralelo. Temos de revisar, por exemplo, o ‘job description’ para saber como a apresentação da vaga está sendo feita. Se está sendo feita de maneira inclusiva”.

Nesse contexto de transformação para a diversidade, é importante que os profissionais também entendam as suas responsabilidades.  As pessoas precisam ser responsáveis sobre o seu desenvolvimento, e consciência de suas necessidades. Carine lembra que muitas vezes estamos em uma relação abusiva de trabalho e não somos capazes de impor limites, a medida que há uma relação direta de empregador e empregado, e esse está em uma posição vulnerável:

“A chave está pela busca do autoconhecimento …não permita que os outros digam o que você é capaz ou não de fazer. Você tem que saber o que é capaz ou não de fazer. E faça se estiver aí ao seu alcance”.

Na metodologia aplicada pela Newa para fortalecer o tema da diversidade nas empresas e oferecer conteúdo e argumento às pessoas em defesa de seus interesses foi criado um instrumento que pode ser acessado gratuitamente: o Baralho da Diversidade, que reúne perguntas e respostas que ajudam a esclarecer uma série de dúvidas e ampliam o conhecimento sobre o tema.

Assista à entrevista completa do Mundo Corporativo:

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: passeio de Natal

Neusa Stranghette

Ouvinte da CBN

Foto do ouvinte Luis F Gallo

Dezembro de 2005 ou 2006, quando ainda havia passeios para visitar a decoração de Natal do Banco Real, na Av. Paulista. Uma noite, em cinco amigos, nos encontramos na Praça da República e embarcamos no ônibus que fazia esse passeio. Nós e mais metade da população de São Paulo. Muito mais adultos do que crianças!

Se tivéssemos ido a pé teria sido mais rápido, o trânsito não andava. Mas chegamos e do lado de fora já estava lindo, encaramos a fila com disposição e naquele vai-e-vem, até encontramos mais três amigas vindas de São Caetano. Realmente, às vezes São Paulo é uma província.

Finalmente entramos e voltamos aos tempos de criança, embevecidas com Árvore de Natal, gnomos, renas, Papai Noel, as músicas de nossa infância que todos sabiam as letras. Que delícia!

A visita terminou, comemos um pacote de pipocas e pegamos o ônibus de volta para a Praça da República, onde chegamos mais ou menos 11 da noite. E agora? Tínhamos ido separados e estávamos em cinco, quase para o mesmo destino: eu, para Santa Cecília e quatro para Higienópolis. Táxi nenhum vai querer levar…

Mas é perto, vamos a pé, caminhar faz bem! 

Noite quente, bonita, pessoas passeando, tomando seu chopp nos barzinhos … pegamos a Marques de Itu, Amaral Gurgel, Alameda Barros onde eu fiquei, e os outros quatro seguiram para a Dr. Veiga Filho, felizes e encantados!!

São cerca de 15 anos e ainda podíamos andar a pé pela noite de São Paulo, sem nenhuma preocupação nem importunação. 15 anos para dizermos aquela sonora frase: que bons tempos! 15 anos e dos cinco, Norma e Janete já não estão entre nós. Pedro e Manoel mudaram para uma cidadezinha no interior de Minas (loooongeee); e só eu ainda estou aqui em Sampa para dizer que saudade para os tempos não tão antigos e para os amigos que se foram! 

Que saudade!!! 

Neusa Stranghette é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe dos festejos de 468 anos da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br com o tema “em cantos de São Paulo”. E ouça seu texto em uma ediçao especial do Conte Sua História de São Paulo

Avalanche Tricolor: de crenças e maldições

Grêmio 4×3 Atlético MG

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Chamei o pai que está no céu. Pelo santo do pai que não é santo também clamei. A imagem do Padre Reus que o acompanhou em vida esteve na minha mão durante toda a partida. E a vela na mesa permaneceu acesa até o fim. Ao lado dela esteve a imagem encardida de São Judas Tadeu, o das causas impossíveis – generosidade da esposa que se gremista não o é, torce pelo marido ou para que este não sofra como sofreu. Ao lado direito esteve o filho mais velho que nunca me abandonou. Que aprendeu o que é ser gremista quando ressuscitamos na Batalha dos Aflitos. Que soube o que é ser feliz quanto assistiu ao seu time campeão.

Nem o pai redivivo nem o santo aclamado nem a vela acendida nem o filho solidário são capazes de se sobrepor aos fatos. Por mais crenças que tenhamos e depositemos nesta ou naquela figura consagrada, a realidade se impõe aos nossos desejos e se sobrepõem às nossas crenças. Assim como nossa mística é insuficiente para nos fazer vencedores, nossas convicções se revelam incapazes de substituir a inanição e a prepotência que nos contaminaram ao longo da temporada.

O Grêmio está na condição que se encontra por sua conta e risco. 

De nada adianta maldizer os que pouco fizeram por nós. Terceirizar a responsabilidade da desgraça alcançada é trilhar pelo caminho que nos levou a esta condição. 

Se aqui chegamos é porque nos atrevemos a desafiar maldições – e estas não perdoam. Das maiores que acreditamos que venceríamos, está a do terceiro mandato. Fomos mordidos pela mosca azul, aquela de asas de ouro e granada, que se deslumbra e passa a  sonhar com poder e riqueza – assim descrita em poema de Machado de Assis. Que picou nosso presidente, Romildo Bolzan, e todos que acreditamos que mantê-lo no comando  seria o melhor que tínhamos a fazer naquele momento. 

Assim como a maldição da mosca azul definhou a fama e o poder de presidentes que se atreveram a se reeleger na República do Brasil, consumiu a capacidade de o Grêmio consagrar-se no sobrenatural, porque comprometeu nossa sanidade e senso de realidade. Pagamos. E pagamos muito mais caro do que merecíamos por acreditarmos sermos superiores à maldição do terceiro mandato. Não merecíamos todo este mal, a despeito de sermos os únicos responsáveis por irmos em busca dele.

Se chegamos onde chegamos por nossa culpa, nossa tão grande culpa, que sejamos capazes de respeitar o poder da imortalidade que nos notabilizou. E entender que só o alcançamos porque jamais desistimos de lutar. Uma luta que se inicia no amanhã e terá de ser brava ao longo de todo o ano de 2022. Afinal, como aprendemos no poema anônimo; 

“se um dia o mundo acabasse numa tragédia bravia

o mar, e os homens, e as feras, 

tudo, tudo terminasse, 

depois de ter passado um dia 

na fenda de alguma rocha 

onde uma flor desabrocha 

o Grêmio renasceria’

Renasceremos!

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: escutar é essencial no branding

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar.Ninguém quer aprender a ouvir”

Rubem Alves, em Escutatória

Entre o psicólogo, poeta e cronista, nascido em Boa Esperança, no sul de Minas Gerais – autor da frase que precede este texto -, e o Seu Zé, dono da padaria na rua Piauí, na zona oeste de São Paulo, havia muitas diferenças.  Do local de nascença às artes que dominavam. Das carreiras que seguiram ao impacto de seus trabalhos. 

Uma característica, porém, os aproximava: o prazer em escutar. Rubem Alves expôs isso em texto, o Zé da padaria repetia a todo momento no balcão – um exercício que o fazia saber, antecipadamente, o que cada freguês gostava.

Quem conta essa história é Jaime Troiano que, aliás, conheceu de perto os dois. O Seu Zé quando era criança e frequentava a padaria do bairro de Higienópolis. Rubem Alves, profissionalmente, na realização de trabalhos em conjunto e pelos textos do escritor. Na conversa que tivemos no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso,Jaime e Cecília Russo destacaram a importância da escuta para quem pretende ser profissional de branding:

“Escutar é abrir o coração para um contato que, acima de tudo é revestido de empatia. Se você não fizer isso, qualquer que seja a empresa, pequena média ou grande, nunca vai entender qual é a expectativa verdadeira do seu cliente”

Jaime Troiano 

Ouvir o outro também exige humildade – não apenas no branding. Mas é essencial, sob o risco de o profissional que administra a marca ver o mundo apenas como um reflexo de si mesmo, dos seus próprios desejos.

Para Cecília, escuta-se pouco porque se tem pressa, ansiedade e falta de humildade. Reproduz-se nas relações do cotidiano, o que Henry Kissinger, diplomata americano, teria dito certa vez aos jornalistas: “quais são as perguntas que vocês têm para as minhas respostas”. Quando agimos assim, estamos em um caminho muito errado em branding:

“A gente tem de praticar exatamente o oposto. A gente precisa praticar esse exercício da humildade porque escuta acima de tudo é humildade e projetos de branding bem resolvidos estão enraizados nessa escuta” 

Cecília Russo

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso com a participação especial de Rubem Alves, em edição de Paschoal Júnior:

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN.

Avalanche Tricolor: se é para morrer, que seja de aflição

Corinthians 1×1 Grêmio

Brasileiro – Arena de Itaquera, SP/SP

Geromel, Gigante, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O locutor da TV falou em rebaixamento virtual. Confesso que não sei bem o que isso significa. Fosse no esporte eletrônico, faria algum sentido. No futebol de verdade – este disputado no gramado, com suor e inspiração; no qual vencer as bolas divididas é preciso; em que lutar é essencial e driblar é fazer a diferença – os fatos só se concretizam no apito final. 

No dicionário, virtual é o que existe apenas em potência. É o que poderá vir a ser, existir, acontecer ou praticar-se. Virtual era a derrocada gremista, em 2005. E o que assistimos foi a maior de todas as conquistas, porque foi a superação do inacreditável, do inimaginável. 

Quem imaginaria um time com essa campanha jogar o fino da bola como temos feito em muitos desses últimos jogos que disputamos. Jogos como o de hoje, em que uma torcida inteira se armou para nos vencer e teve de sair de seu estádio comemorando um pífio e insuficiente empate conquistado com um gol mágico, na bacia das almas. 

Confesso: sempre que vejo reações como essas no adversário – e estou aqui lembrando dos encardidos que nos venceram uma vez e festejaram como se fosse o título que não ganharam em toda uma temporada -, só me sinto ainda maior, a despeito da pequenez de nosso desempenho na maior parte da temporada. E se me sinto assim é porque acredito na ideia que um clube não é grande pelo resultado de uma partida ou temporada. O é por sua história. E a nossa é enorme. Isso ninguém é capaz de negar. 

O capítulo final do Campeonato Brasileiro de 2021 ainda não foi escrito. Disseram-me que para reverter a tragédia, precisaremos vencer o último jogo e esperar que dois times que estão na parte baixa da tabela não marquem um só ponto nos dois jogos – a começar pelos que disputarão nessa segunda-feira. Enquanto não o fizerem, estamos na disputa. Aflitos, mas na batalha. E se é para morrer, que seja de aflição, como em 2005.

Mundo Corporativo: a arte da comunicação é falar as várias línguas, diz Daniel Bruin, da Abracom

“Você tem que investir em reputação para estar vivo no mercado”  

Daniel Bruin, Abracom
Foto de Mikael Blomkvist no Pexels

Empresas podem ter fábricas, ter equipamentos e ter licença para executar serviços, mas nada disso terá mais valor do que sua reputação. Essa verdade está expressa em números: 50% do patrimônio das dez maiores empresas em valor de mercado, nas bolsas americanas, se referem a reputação; a líder no ranking é a Apple e esse percentual chega a 56%. Se reunir todas as empresas com ações, no ano passado, 35% do valor total dessas estavam depositados neste ativo.

A reputação é essencial para a sobrevivência dos negócios e demanda investimentos em comunicação, diz o presidente da Abracom, Daniel Bruin, em entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN. A associação reúne as agências de comunicação corporativa, no Brasil, e identificou que o faturamento global do setor, que tinha sido de pouco mais de R$ 3 bilhões, em 2019, se repetiu em 2020, e deve fechar 10% maior, em 2021.

“As empresas não fizeram cortes (em comunicação corporativa) porque têm um ativo que é a reputação. Quantas – e não vou citar nenhuma específica – tiveram algum problema operacional ou com seus funcionários ou no tratamento do público: e quanto elas perderam? Tiveram o seu valor na bolsa afetado, passaram a vender menos e fizeram menos negócios”.

De acordo com levantamento recente são 895 agências ativas no Brasil, que trabalham com cerca de 3.500 empresas e contratam em torno de 17 mil profissionais, segundo a Abracom. Danilo lembra que se no início o setor empregava apenas jornalistas, muitos saídos de redações, hoje, as agências contratam também relações públicas, especialistas em marketing e em tecnologia, entre outras funções, oferecimento mais completo às empresas:

“A gente entende que comunicação é a arte de falar várias línguas com vários públicos … Um desafio para a gente nesse mercado é adotar o nosso vocabulário, tanto para  a plataforma que vai usar como para o público com quem quer conversar”.

Por falar em desafio, a desinformação é dos maiores riscos enfrentados atualmente pelas empresas, agências e seus profissionais. Daniel chega a dizer que é a preocupação número um do setor. E confessa que ainda há muitas incertezas em relação a forma de tratar fenômenos como o da “cultura do cancelamento”. Para monitorar a superabundância de informações – precisas ou não – que circulam sobre uma empresa ou um negócio, são necessários “1.000 olhos e 1.000 ouvidos”:

“Uma verdade por levar dias para ser dita e acreditada, mas uma mentira se constrói em segundos”. 

Quer saber mais sobre comunicação corporativa, assista ao vídeo da entrevista completa com Daniel Bruin, presidente da Abracom, ao Mundo Corporativo.

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: aquele não foi um verão qualquer

Samuel de Leonardo

Ouvinte da CBN

Foto do ouvinte Luis Fernando Gallo

Foi numa tarde, lembro muito bem, quase final de Verão quando a vi pela primeira vez, meus olhos brilharam e o meu coração acelerou, linda a segui com olhos atentos descendo a Rua Cristiano Viana, no Bairro de Pinheiros, e quando por mim passou desafiou o vigor dos meus 21 anos. Encantando fiquei com a beleza da moça e a segui sem pudor, entortei o pescoço, entornei as ideias, admirei o seu jeitinho, acompanhei seus passos, fiz dos meus desejos um alvoroço. Não, não podia perdê-la de vista, minha cabeça era só emoção, um quê de cobiça, acabara a razão. Até pensei, aí meu Deus, é coisa para tratar-se com o analista.

Que sorte a minha, entrou no edifício, na mesma empresa na qual eu trabalhava, a extinta Fudap, não perdi tempo, fui constatar o que tão bela menina faria naquele local. Bisbilhotei mesmo e sem nenhum remorso acreditei que não faria mal, com a idade que tinha sentia-me o tal. Nesta primeira abordagem nada apurei, mas pressentia que um desafio estava por vir.  Acreditei na minha sorte mais uma vez quando soube que seria mais uma colega de trabalho, bom começo, pensei, já é um bom atalho. Não poderia perder a concentração. Marquei território, mas com discrição desta vez não agiria só pelo coração. A conquista merecia uma estratégia e um elaborado plano de ação. 

Não seria fácil, entendi que outros fariam marcação cerrada na belezura, então tinha que provar que seria capaz de conquistar tão meiga criatura, demonstrei simpatia, cortejei, me dediquei sem hesitar, suei, transpirei, me inspirei.  Mas a moça o que tinha de formosura tinha também de linha dura. Não, não a perderia sem insistir com afinco, faria o impossível e até me entortaria todo assim como faz o contorcionista, confesso acreditei que tudo aquilo era amor à primeira vista.

 Os dias passando numa rapidez desenfreada desde aquele início de fevereiro, eu ainda prudente, pouco avançara. Outras estações passaram, mais um Verão por vir. Sentia-me tal quais as folhas no Outono soltas, a vagar pelas ruas. Faltou-me o aconchego e o calor no Inverno, agora a Primavera anunciando renovação e eu só na intenção. O natal chegando, um presente o meu coração pedia. Na certa sabia que nutria por ela uma paixão secreta. Secreta então foi a chave da questão. Verdade que alguém a tirara no sorteio do amigo oculto, assim como oculto eu me manteria. Eu seria o falso amigo secreto na brincadeira de então.  Rotineiramente depositava os meus bilhetinhos na caixinha e bem sei que todos ela recebia, pois respostas vinham em profusão, um tanto de ingenuidade nas mensagens, outro tanto de emoção. Simples papeizinhos com recadinhos singelos proporcionaram por algum tempo um envolvente elo.

Na noite da entrega dos embrulhos secretos, na festa de confraternização, os presentes foram trocados e os amigos revelados. Ela não me tirara, eu tampouco ela. Pensei então em enfrentar o perigo, criei coragem e revelei que fora eu o falso amigo. Com um lindo e envolvente sorriso ela confessou, bem que desconfiava, tinha plena certeza de quem fora o autor de tal proeza.       Uma fresta se abrira, ajudara a aproximação, oportunidade escancarada chance conquistada. Daí para um convite para sairmos foi muito suave. Cinema amanhã, um lanche quem sabe ou um simples passeio pela cidade.

O dia seguinte para passar foi uma eternidade. As tarefas rotineiras não me rendiam e eu precavido para ninguém desconfiar de tamanha euforia. A jornada se finda, muito a fazer na noite que prometia. O pensamento um turbilhão, tantas coisas a pensar, incertezas em demasia, só não antecipara que a minha vida mudaria.                                 

Era 21 de dezembro (de 1977) início da estação, primeira noite daquele Verão, não de um Verão qualquer como o tempo provaria. Uma chuvinha teimosa a cair sobre as ruas paulistana, e só ela precavida portava a sombrinha agora comigo dividida. Uma vez mais sorte minha. Oportunidade para caminharmos juntinhos na calçada, segurando o braço dela, driblando as poças d’água e protegidos por uma umbrela. Um sanduiche partilhado, um suco, um copo e dois canudos, um beijo ainda tímido e moderado foi o começo de tudo. Um filminho para descontrair sem ousadia para evitar um bofete, em cartaz no Cine Gazeta, da Avenida Paulista, uma película emblemática, “Aeroporto 77”.

 Não recordo o que assisti se é que vi. Também nada sei do avião, se caiu ou em qual destino aportou, a única certeza é que o meu coração desde então decolou, continua a viajar, já são quarenta e dois Verões e até hoje não pousou.

SAMUEL DE LEONARDO é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Participe dos festejos de 468 anos da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br com o tema “em cantos de São Paulo”. E ouça seu texto em uma edição especial do Conte Sua História de São Paulo