Saúde mental não é um bicho de 7 cabeças

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Mariana Montrazi no Pexels

O filme ´´Bicho de Sete Cabeças“ (2000), dirigido por Laís Bodanzky, se tornou aclamado no cinema brasileiro ao provocar reflexões sobre os abusos praticados nos hospitais psiquiátricos, desde o uso de eletrochoques como punições às internações de longa permanência que promoviam o isolamento e exclusão social de pacientes, com pouca ou nenhuma finalidade terapêutica.

Infelizmente, essa foi a realidade de muitos doentes mentais até a década de 80, quando novas medicações permitiram uma transformação no atendimento psiquiátrico, que substituiu as longas internações por tratamentos ambulatoriais. Paralelamente, inúmeras denúncias de maus tratos e desrespeito aos direitos humanos desses pacientes permitiram o crescimento de movimentos antimanicomiais, levando ao desmonte de grandes hospitais psiquiátricos no Brasil.

Tal movimento teve início na década de 70, com o médico italiano Franco Basaglia, na cidade de Trieste, cujos ideais preconizavam a desinstitucionalização do paciente psiquiátrico e sua reinserção na sociedade, considerando que os modelos psiquiátricos de tratamento, vigentes até então, contribuíam com a exclusão e opressão dos pacientes.

Esses ideais se difundiram por vários países, incluindo o Brasil, cujo movimento envolveu a defesa pelos direitos humanos e pelo resgate da cidadania dos pacientes com transtornos mentais, contribuindo, ainda, para o movimento da Reforma Psiquiátrica.

Com o lema “por uma sociedade sem manicômios”, profissionais, pacientes, familiares e instituições acadêmicas questionaram o modelo de assistência centrado nas internações, denunciaram as violações aos direitos dos pacientes e propuseram um novo modelo de atenção em saúde mental, incluindo ações para a reabilitação psicossocial através da inserção pelo trabalho, cultura e lazer.

Pessoas com transtornos mentais já foram perseguidas e executadas nos tribunais da inquisição. Pessoas com transtornos mentais já foram internadas e torturadas.

Pessoas com transtornos mentais muitas vezes se tornam invisíveis ou permanecem rotuladas por uma sociedade que ainda concebe a doença mental como sinônimo de fragilidade. 

Atualmente, falar sobre transtornos mentais deixou de ser assunto restrito aos consultórios de psiquiatria e psicologia. Especialmente com a pandemia e as mudanças por ela impostas, temas como depressão e ansiedade se tornaram mais acessíveis e até mesmo mais familiares para muitos de nós.  

De certo modo, isso revela mudanças históricas e culturais significativas relacionadas à saúde mental, apesar da ocorrência, ainda frequente, de estigmas e preconceitos.

Será que estamos mais conscientes? Será que descobrimos, finalmente, que o adoecimento mental faz parte da nossa humanidade?

No dia 18 de maio, comemoramos o Dia Nacional de Luta Antimanicomial. Um movimento que trouxe novas perspectivas para as pessoas com transtornos mentais. Um movimento que abriu caminhos que ainda percorremos, para que novas mudanças ocorram e permitam que “bicho de sete cabeças” seja apenas nome de filme e não sinônimo das dificuldades enfrentadas na promoção e tratamento em saúde mental.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: de futebol, de Bruno Covas e da alegria de viver

Inter 1×2 Grêmio

Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre/RS

Ricardinho comemora gol da virada em homenagem ao pai morto por Covid-19 Foto Lucas Uebel GrêmioFBPA

Deve achar estranho o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche que depois de mais uma vitória em clássico, de virada, na casa do adversário e em final de campeonato, eu tenha demorado tanto para me apresentar neste espaço. Em outros tempos, a publicação viria ainda com o suor encardido do jogo sofrido e a emoção aflorando do coração à mente e da mente aos dedos que digitam cada palavra deste espaço. Estranho não é meu comportamento. São os tempos em que vivemos.

Estranhos e complexos. Difíceis de serem digeridos. Tomados de absurda desconsideração com o outro. Com a vida. Com a gente querida. Noticiamos mortes e a elas —- sim, com direito a pronome pessoal de tão familiares que se tornaram — somamos outras tantas. E de tanto que noticiamos, passamos a traduzir a tragédia sanitária vivida apenas em números: um + um + mil + uma centena de milhares …

Quando os corpos ganham nomes e histórias, a realidade se apresenta. Foi o que aconteceu comigo neste domingo ao acordar com a informação da morte de Eva Wilma, aos 87 anos, por câncer no ovário. Ela fazia parte da família, não fazia? Se não pelo teatro —- onde tinha talento impressionante, quase sempre ao lado do amado Carlos Zara —, certamente pela televisão que transformou seu rosto e sorriso populares. Familiares.

O almoço de domingo ainda não estava servido, quando chegou a notícia da morte esperada de Bruno Covas, aos 41 anos, também vítima de câncer. A doença do prefeito acompanhamos mais de perto. Desde que a descobriu, em outubro de 2019, tornou-a pública e a tratou com transparência —- apenas uma das muitas lições que aprendeu com seu avô e guia Mário Covas. Com seu exemplo, deve ter fortalecido muitas outras pessoas que sofrem do mesmo mal. Revelou resiliência e desejo de estar vivo — e isso é um mérito diante de atos que colocam dúvidas sobre a sanidade mental de algumas pessoas que parecem prezar a morte (a dos outros, lógico).

O domingo não havia terminado quando soubemos da morte de MC Kevin, aos 23 anos, vítima aparentemente de sua própria vontade, em situação ainda estranha ao nosso conhecimento. Confesso que do músico do funk sabia pouco. Mas era mais uma cara a ilustrar a morte. E isso tudo me impacta sobremaneira. 

A amenizar a dureza da realidade, havia o futebol na televisão, assistido ao lado do filho mais velho, que há algum tempo tem-se revelado tão ou mais gremista que o pai. Conhece cada jogador. Sabe quem deve entrar. Quem deve sair. Qual o caminho do gol a fazer e o do gol tomado. O futebol em família é outro dos fenômenos que fazem este jogo ultrapassar as fronteiras do esporte — e não vou me atrever a destrinchar essa teoria porque já foi feita por gente de alta qualidade como Gilberto Freyre, Eduardo Galeano e Franklin Foer. Dê um Google neles. Valem a pena!

Nos dois gols que marcamos, depois da decepção de sair atrás no placar, comemoramos juntos em pé no sofá da sala. Batemos as palmas das mãos. Nos abraçamos. Beijamo-nos. Fomos cúmplices no sofrer diante da tela quando aquela bola, quase no fim da partida, relou o travessão — se entrasse resultaria em um empate até aceitável, mas amargo para quem estaria próximo da vitória.

Mesmo naquela alegria fugaz do futebol e talvez até por isso, uma imagem não me saía da cabeça: a do dia em que o prefeito Bruno Covas apareceu ao lado de seu filho Tomás, de 15 anos, na arquibancada do Maracanã, semi-fechado devido a pandemia.

Apenas alguns poucos tiveram aquele privilégio. E a crítica sobre o prefeito foi intensa, pois enquanto ele estava por lá, deixava para trás a ordem de todos ficarmos em casa, aqui em São Paulo. Parecia uma contradição. Um desrespeito. Devia solidariedade ao povo paulistano, dizia-se. 

Covas explicou que seria uma oportunidade única torcer pelo Santos ao lado do filho, em uma final de Libertadores. Nunca disse, mas deixava explícito que lá estava não porque seria a única, mas porque seria a última. Ele tinha consciência do avanço da doença. Do drama pessoal que passava. Da dor de perder os momentos mais intensos de nossas vidas. Que em breve, não sabia quando, mas em breve, teria de abrir mão tão cedo de tudo aquilo que só nós que estamos vivos podemos usufruir, mesmo que não saibamos valorizar. 

Estar na arquibancada ao lado do filho era um prazer do qual Covas não queria abrir mão, a despeito das críticas que ouviria. Fui cúmplice dele ao não criticá-lo. Ele tinha esse direito. E o exerceu. Quem já se deu a oportunidade de pular na arquibancada e abraçar seu pai pelo gol assinalado ou o título conquistado, vai me entender. Já o fiz como pai e como filho. Tomás levará para a vida o gesto e o exemplo do pai, que nos deixa muitas lições — a começar a de termos consciência do que realmente é importante no nosso cotidiano, a quem devemos prezar e dedicar o nosso amor.

Espero um dia aprender essa lição por completo. Que não seja tarde.

PS: Ricardinho, que ilustra foto deste post, perdeu o pai e o avô recentemente e segue compartilhando com eles a alegria de cada gol.

Conte Sua História de São Paulo: o recado que recebi na garrafa espatifada no chão

Suely Schraner

Ouvinte da CBN

Foto de Markus Spiske no Pexels

Vírus e governo rindo na nossa cara.

Tempo governado por ansiedades. Incertezas. Sufoco do acaso. 

Nem é mais 2020. 2021 nem é. 

Que seja pelo menos de travessia para afetos coletivos sem egoísmo exclusivista. 

Engaiolados estamos. Pandemia infinita. 

Máscaras e Distanciamento. A nossa vacina por ora. 

Calor humano intermediado por fibra ótica. 

Encontros  e abraços apertados,  adiados. 

Pensamentos fragmentados. Afagos sonhados.

A distância mais longa percorrida até então: a calçada do portão de minha casa.

Na manhã ensolarada, uma garrafa de vinho espatifada dentro da garagem.

Algumas formigas ébrias rodopiavam no que restava do líquido. 

Será que jogaram a garrafa no calar da noite e não ouvi? 

Aí o telefone tocou. O amigo presente do outro lado da linha explicou:

Tentou deixar um vinho de presente, na noite anterior. Não quis tocar, respeitando o distanciamento. Pegou uma cordinha no carro e amarrou a garrafa. Cuidadosamente passou-a por cima das grades e foi descendo. O nó se desfez e plaft. Lá se foi o néctar dos deuses. O caminho de Baco definitivamente interrompido.

Ele não se deu por vencido. Comprou outro e retornou no dia seguinte. Dessa vez, tocou a campainha e mantendo o distanciamento entregou o presente. 

Amizades e afetos, um elixir para todas as dores. 

São Paulo cíclica, rogai por nós.

Suely Schraner é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. contesuahistoria@cbn.com.br é o nosso e-mail. Escreva para cá e ouça outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br e no podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: Carolina Utimura, uma ativista disposta a inspirar a jovem potência, no Brasil

Foto de Andrew Neel no Pexels

“Acho que o que eu sempre tive foi humildade de saber que eu preciso aprender com essas gerações mais velhas, mais experientes … E algo que eu sempre trouxe para mim é que eu vou tentar completar essa falta de experiência com muito estudo” Carolina Utimura

Iniciar uma reportagem com Carolina Utimura sem dar destaque para a idade dela parece impossível. Não é sempre que se conversa com uma Chief Executive Officer de apenas 26 anos. Cargo, aliás, que ocupa na Eureca, desde o ano passado, ou seja, desde que tinha 25. Eu tentei, na entrevista que fiz no programa Mundo Corporativo e vai ao ar nesse sábado, no Jornal da CBN. E o fiz já na primeira pergunta.

Ao me responder se o “seu mérito é a sua idade?”, Carolina de cara revelou a maturidade que a levou ao posto de comando da empresa especializada na seleção e desenvolvimento de jovens para vagas de estágio e trainee: 

“Tive um monte de privilégio na minha formação. Fazer uma faculdade pública. Tenho uma família me ajudou a investir na formação. Fazer um trabalho voluntário dentro de uma empresa júnior. Eu acho que foi uma sequência de coisas que me ajudaram a acelerar um pouco mais a carreira”. 

Uma carreira para a qual se preparou desde os tempos da universidade, quando conheceu o movimento de empresas júnior, que reúne alunos de diversas áreas e interesses em organizações e ações empreendedoras que prestam serviços para pequenos negócios. É uma enorme oportunidade de desenvolver habilidades de comunicação, liderança e trabalho em equipe.  Já entre os mais novos, Carolina se destacou como ativista da juventude e, no último ano da faculdade, foi eleita presidente da Federação Brasileira de Empresas Júnior. 

“Desde quando entrei no primeiro ano havia o desafio de cuidar de uma empresa de verdade, fazer projetos reais para clientes reais, atendíamos microempresas da região. No meu caso em Bauru. Temos metas financeiras, de projetos e qualidade destes projetos. E conseguimos nos conectar com pessoas de todo o Brasil”

Com a pandemia, o número de jovens desempregados aumentou consideravelmente e programas de estágio e treinamento também não cresceram a ponto de absorver essa mão de obra e oferecer a experiência que necessitam para entrarem no mercado de trabalho. 

O Brasil tem hoje 50 milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos, um número que equivale a toda a população da Argentina e cinco vezes a de Portugal. Cerca de 30% desses jovens estão desempregados e sem estudar, o que leva técnicos a identificá-los como a geração ‘nem-nem’ — uma expressão que é rechaçada por Carolina Utimura (e por este jornalista, também):

“…porque não transmite a causa raiz desse problema. Especialmente depois da pandemia, vemos um movimento muito forte de evasão escolar, evasão universitária, do desemprego juvenil, também. A gente vê que tem causas muito atreladas a ele conseguir ingressar ao ensino superior, conseguir terminar seus estudos, a ter acesso a boas vagas de trabalho, a própria  composição da família. São alguns pontos que acabam dificultando essa potencia dos jovens”.

O impacto do momento atual, de acordo com Carolina, deverá ser percebido na mudança de comportamento dos mais jovens:

“Eu gosto de falar de juventudes, com s, no plural, trazendo a diversidade que temos dentro desse público. Alguns comportamentos que a gente trazia dos milênios, da geração Z, de serem impacientes, não quererem ficar muito tempo no trabalho, vão mudar, porque a instabilidade financeira pode ser um item do cenário que a gente está vivendo”.

Na Eureca, a busca de candidatos a vaga de estágio ou trainee não passa pelo que chamam de “jovem de prontidão”, o de melhor faculdade e de melhores escolas, mas pelos que têm de potencial. Algumas das características que se destacam são o de ser questionador, ter visão crítica, empatia, que permite entender os colegas de trabalho, clientes e consumidor. Com a pandemia cresceu, também, a necessidade de se saber fazer a autogestão emocional para enfrentar os momentos de volatilidade e inconstância.

Além, de atuar na colocação dos candidatos, a empresa desenvolve uma série de trabalho para a capacitação dos jovens. Para aqueles interessados em se beneficiar das oportunidades oferecidas, é possível encontrar as vagas de trabalho disponíveis no site Eureca.me.

Para Carolina Utimura, a verdadeira potencia dos jovens brasileiros somente será percebida quando se melhorar a gestão e qualidade do ensino, adaptando-o às necessidades do mundo atual:

“Boa parte dos jovens passa pela escola sem ter habilidade de interpretação de texto, sem habilidade de fazer contas mais básicas da matemática; então, quando a gente fala muito sobre transformação digital e indústria 4.0, a gente também tem de falar sobre uma revolução educacional 4.0”.

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, às 8h10 da manhã, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. O programa também está disponível em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Avalanche Tricolor: Ferreirinha é o futebol jogado com prazer

Grêmio 3×1 Lanús

Sul-Americana — Arena Grêmio

A bola a caminho do gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Um time com personalidade. Disposto a provar sua superioridade. Retomar o futebol que encantou o Brasil e a América, mesmo que para isso precise rever posicionamento, reajustar peças e revezar jogadores. Desde a primeira rodada da Copa Sul-Americana, o Grêmio tem tido 100% de aproveitamento, superando adversários dentro e fora de casa —- respeitando-os, com certeza, mas expressando em campo o futebol mais elevado que construiu nos últimos anos.

Hoje, entramos em campo com uma formação um pouco diferente daquela que estamos acostumados. O Grêmio deixou no banco jogadores que precisam retomar o fôlego para as partidas finais do Campeonato Gaúcho, demonstrando a importância de se ter um elenco equilibrado e o compromisso que assumiu de provar que, a despeito do revés inicial na temporada, segue grande e vitorioso.

Tiago Nunes escalou um time reforçando na entrada área com dois volantes que ofereceram mais segurança à defesa, sem perder a qualidade na distribuição de jogo: Thiago Santos, que tem se destacado positivamente, e Lucas Silva, que fez sua melhor partida desde que chegou ao Grêmio.

Havia ainda um terceiro falso volante na equipe: Matheus Henrique. O pequeno gigante do nosso meio de campo estava mais livre para armar lá na frente e chegar à área.

Como dizem os comentaristas de esporte: volante moderno tem de colocar o pé na área. Assim como havia feito na partida do fim de semana, pelo Gaúcho, Matheusinho surgiu entre os zagueiros para marcar de cabeça, aos dois minutos de jogo. Concluiu jogada construída por Ferreirinha.

Aliás, caro e raro leitor desta Avalanche, se você ainda não tirou algumas horas do dia para assistir a este guri jogar bola lá pelo lado esquerdo do Grêmio, não demore muito. Gente da qualidade de Ferreirinha não costuma ter vida longa no Brasil. Em breve, algum gringo estará assediando o menino. Ele faz chover. Raro atacante que dribla sem vergonha. Que irrita o marcador com seu talento. Que joga pra frente, em direção ao gol. E invariavelmente consegue chegar ao seu destino. Hoje, além da assistência para Matheus Henrique, marcou mais duas vezes. A primeira, depois de encontrar Rafinha livre na direita e correr para dentro da área para fulminar de cabeça no gol adversário. E a segunda, empurrando a bola bem passada por Diego Souza. Não por acaso, em quatro partidas nesta Copa Sul-Americana, Ferreirinha foi considerado o melhor jogador em campo em três delas —- incluindo a de hoje. Ferreira é o futebol jogado com prazer. 

Sorria (?), sua carteira de vacinação está sendo filmada

O controle sobre nossos dados ganhou reforço extra nos últimos tempos com a LGPD —- aquela sigla que obriga empresas a dizerem o que fazem com as suas informações. Apesar da força da lei, sabemos que tendemos a ter pouco cuidado sobre nossos dados e cometemos deslizes nos mais simples gestos, já não bastassem os roubos e vazamentos que ocorrem diariamente. 

Hoje, soube de mais uma graças ao alerta da jornalista Rizzo Miranda, da FSB Comunicações, feito em artigo sobre inovação: “criminosos se aproveitam da felicidade daqueles que se vacinam e compartilham a carteirinha na rede”. Chama atenção para o hábito que os brasileiros têm de comemorar —- e devemos mesmo comemorar — quando tomam a vacina contra a Covid-19 registrando em foto ou vídeo sua imagem com a carteirinha de vacinação em mãos. Sem perceber, oferecemos informações a quem não deve. Ou não presta.

De acordo com números da Pfase, que desenvolve soluções de cibersegurança, desde o início do ano, mais de 53 milhões de crimes por estelionato digital foram registrados.

Nessa ficha corrida, encontramos golpes como clonagem de WhatsApp, uso de perfis falsos e fake news — nesta situação usada para vender produtos falsos. Têm ainda os diversos tipos de phishing —- que são métodos para fisgar informações confidenciais, como senhas e número de cartão de crédito. Só com phishing bancários já são 14 milhões de registros. E, claro, que o queridinho dos ciberladrões são os golpes com o PIX.

De volta a inocente e feliz carteira de vacinação. Rizzo Miranda calcula o volume de informação que as fotos espalhadas pelas redes sociais oferecem aos piratas digitais. Até agora o Brasil tem cerca de 54 milhões de pessoas que receberam ao menos a primeira dose da vacina. Soma-se a isso o fato de sermos considerados um dos povos mais sociais do mundo, o que nos leva a ter 99 milhões de usuários no Instagram e 130 milhões no Facebook. “Dá para projetar o estrago que fotos comemorativas de vacinação podem provocar”, escreve.

A recomendação é que você siga comemorando o dia da vacina, mas deixe a carteirinha no bolso. 

Avalanche Tricolor: futebol e vitória no Dia das Mães

Grêmio 2×0 Caxias

Gaúcho — Arena Grêmio

Gol de Matheus, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Mesmo tonto depois do golpe na cabeça, na sequência do gol que marcou, Matheus Henrique ainda teve noção de procurar a microcâmera presa na parte alta da rede, olhar com carinho e mandar mensagem para a mãe: ‘eu te amo!’, teria dito ele —- foi o que entendi a partir de leitura labial. A mãe deve ter ficado orgulhosa tanto quanto preocupada pelo lance que levou o guri ao chão e o impediu de comemorar o gol que selou a presença do Grêmio em mais uma final de Campeonato Gaúcho.

Hoje, ao sair na frente no placar, aos 29 minutos do primeiro tempo, praticamente nocauteou o adversário, que já havia vencido na primeira semifinal, por 2 a 1, fora de casa. Tendo diante de si um time que não fazia resistência, o Grêmio limitou-se a levar o jogo até o fim, ainda que Ferreirinha insistisse em impor velocidade, driblar os adversários e tentar o gol. De tanto insistir, aos 37 do segundo tempo, deixou seus marcadores para trás com uma cruzada de pernas e marcou no canto esquerdo do goleiro. Fez por merecer. 

No primeiro gol tinha sido o responsável pela assistência ao fazer o lateral dançar e cair dentro da área. No segundo, foi protagonista desde o início da jogada. Deve ter deixado orgulhosa a mãe, a quem ajudava no trabalho da feira quando ainda era um guri de calça curta lá no Mato Grosso do Sul.

Geromel completou 300 jogos, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Outra mãe — e essa tive o prazer de conhecer —- que deve ter ficado bem feliz neste domingo é a do Geromel, ao ver o filho entrar em campo pela 300ª vez, vestindo a camisa do Grêmio. Nosso zagueiro e capitão cumpriu bem o seu papel, afastou os poucos riscos que o adversário ofereceu e demonstrou enorme esforço para posicionar a defesa que ainda se ajusta ao comando do novo técnico. 

Verdade que mãe é uma figura curiosa. Nem precisa que o filho faça gol, jogue bem, tenha talento e persistência para estar feliz com o pimpolho. A despeito do que o menino faça ou desfaça, ela sempre estará por perto para ajudar, acolher, disciplinar se necessário e justificar o que encontrar no caminho dele. 

Lembro muito da minha, que perdi cedo, quando estava começando a vida adulta. Era quem colocava ordem na família, puxava a orelha na bagunça e arremessava o chinelo para nos aquietar. Assim como era a primeira a partir em nossa defesa, abraçar e desculpar. 

Foi minha protetora sempre que precisei. Me safou de constrangimentos quando meu Grêmio aprontava das suas nas rodadas do fim de semana pelo Campeonato Gaúcho, especialmente nos clássicos regionais. No dia seguinte às derrotas clamorosas, era minha cúmplice. Percebendo minha dificuldade de encarar os colegas que torciam para o adversário, me perguntava antes de sair de casa se eu estava me sentindo bem: era a senha para eu fazer uma cara de dor e pedir para voltar para cama.

Naquele tempo, as segundas-feiras pós-decisão costumavam ser duras. Mas a Dona Ruth era forte. E não me deixava só. Atualmente, as segundas-feira até que têm sido muito generosas comigo —- até porque, convenhamos, o Campeonato Gaúcho perdeu boa parte da sua importância no calendário. Mas trocaria todos esses dias de vitória por tê-la ao meu lado neste domingo e poder, assim como fez Matheusinho, mandar um beijo para ela e dizer: “eu te amo, mãe!”

Às mães atípicas

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Especialmente na semana que comemoramos o Dia das Mães, o estereótipo materno invade os meios de comunicação, enaltecendo aquela que sabe de todas as coisas, que é a rainha do lar, capaz de tudo suportar. 

Ao longo do tempo,  o conceito de maternidade sofreu profundas mudanças históricas e culturais, mas a manutenção de uma visão poética e romantizada, por vezes, limita discussões e não corresponde à realidade de inúmeras mulheres. 

Maternidades típicas e atípicas.

Maternidade que por vezes vai além da noite mal dormida, da dúvida entre o aleitamento materno ou a mamadeira, do choro de cólica ou de colo.

Mães atípicas.

Sua maternidade é construída com o filho que tem deficiência,  transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras.

Falo sobre essas mães. Mães que muitas vezes são esquecidas.

Descobriram com a maternidade uma jornada de desafios que excedem os padrões.

Frequentemente estão sozinhas ou são acompanhadas por olhares que englobam um misto de pena e responsabilização.

Onde falharam?

A pergunta que também ressoa em seus pensamentos, gerando culpa e impotência.

Não falharam.

Fizeram e fazem o melhor que podem, mas como não são heroínas, e sim mulheres de carne e osso, nem sempre conseguem fazer tudo o que gostariam.

Por vezes faltam recursos financeiros e educacionais, acesso a tratamentos adequados, apoio familiar, medidas governamentais. Mas não faltam o seu empenho, a sua dedicação, seu amor genuíno e uma vontade de seguir em frente mesmo quando parece não haver mais energia capaz de sustentar o seu corpo cansado, exausto pela rotina.

Lutam batalhas mais penosas, quando precisam exigir que seus filhos sejam incluídos e não sofram os preconceitos de uma sociedade cuja medida de valor se baseia excessivamente na análise  de desempenhos acadêmicos e sucessos profissionais em detrimento do afeto.

Perdem a paciência, sentem  tristeza. Perdem o sono, sentem medo. 

Vocês não são perfeitas, queridas mães. E está tudo bem. O que não vai bem é a nossa incapacidade de acolher a sua preocupação e o seu pranto, de conhecer as suas necessidades e lhes oferecer uma ajuda eficaz.   

Sim. Nós que somos mães, pais, filhos ou irmãos típicos, estamos falhando com vocês.

Parabéns para cada mãe. Para cada uma que apesar de não ter superpoderes, pode simplesmente ser. E isso, vamos combinar, já dá um trabalho danado!

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: a casa 147 dos Vedolins

Ieda Vedolin

Ouvinte da CBN

Hospedaria dos Imigrantes, SP, reprodução Wikipedia

Essa história, começa com a mensagem que recebi de Eduardo Vedolin, meu sobrinho, que durante a pandemia pesquisou como foi a imigração da família:

“O Ano de 1886 foi de muito luto nas famílias daquela cidade — Campo de San Martino, região do Veneto. Devido as más condições de vida da época deve ter tido alguma doença que atingiu a todos. — ou causada pela desnutrição ou por uma peste contagiosa. Foi quando houve maior número de mortes registradas na cidade, vitimando pessoas de todas as idades. 

A casa 147, onde moravam os Vedolins, foi testemunha disso. Em menos de um mês, três pessoas morreram: a Elisabetta, então com 20 anos, a pequena Matilde, com apenas dois, e a mãe, Angela, com 55. A casa tinha sete moradores, passou a ter apenas quatro no fim de 1886. E, em breve, teria cinco, pois a Catarina já estava grávida do Emílio, mas ele não chegaria a morar nem por um ano nela.

Provavelmente isso motivou o casal Osvaldo e Catarina a buscar novas condições de vida, fora daquele lugar. E deixaram a casa 147 em fevereiro de 1888, com destino ao porto de Genova. Embarcaram no vapor Ila de Lozana para Santos, chegando em 19 de março do mesmo ano”

No emaranhado de nomes e datas que se seguiram a mensagem de Eduardo, relembramos nossa história. Meus pais, avós de Eduardo, Wilma Thomé e Attilio Vedolin, foram namorados de infância que acabaram por se casar, tendo seus pais e avós partido da Itália em direção ao Brasil no fim do século 19. A primeira parada de todos foi na Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca. Nos relato, tivemos passagem pelo Belenzinho, pela Vila Operária Maria Zélia, pelo Brás e seus casarões que serviram de lar aos Schiavo e Thomé. 

Neste inicio de século 21, dentro de nossas casas, voltamos ao passado de nossos ancestrais. Imaginamos os medos diante do desconhecido, fomos tocados pela esperança de uma vida melhor, e encontramos histórias de coragem e esperança. 

Ieda Vedolin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração da carta foi uma gentileza do cônsul da Italia Fillipo La Rosa. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para conhecer outras histórias da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo

Mundo Corporativo: “a gente não quer uma comunidade de idiotas”, diz Glauter Jannuzzi

Foto de fauxels no Pexels

“Os gregos diziam que os idiotas eram aquelas pessoas que nao cultuavam o bem comum apenas o bem privado. Então, a gente não quer uma comunidade de idiotas …”

Na costura entre o que escreveu o autor húngaro Frigyes Karinthy, em 1929, sobre o estreitamento da relação das pessoas, e a tecnologia do blockchain, de data mais recente (2008), Glauter Jannuzzi nos oferece uma colcha de conhecimento que fortalece a ideia da vida em comunidade. Ele é diretor de Comunidades da Microsoft para a América Latina, empreendedor social e autor do livro “O poder do peoplechain — como comunidades podem tornar empresas e profissionais mais valiosos’ (AltaBooks).

Peoplechain foi como Glauter batizou essa corrente que se faz necessária entre as pessoas, seja no ambiente empresarial seja no campo pessoal:

“O conceito de comunidade ou de meetups é a ideia de que quando você sai do ambiente corporativo e vai para um de comunidade, você se sente mais seguro para mostrar o que você sabe; e encontra quem ajuda você a preencher algumas lacunas e alguns gaps de conhecimento”.

Na formação desses grupos, criados na maior parte das vezes de forma expontânea, ganham os indivíduos. E as empresas também: aquelas consideradas mais valiosas, tais como Apple, Microsoft e Google, já perceberam que não é possível trabalhar somente com os seus colaboradores e funcionários. Para alcançar o conhecimento e atender as novas demandas que surgem a todo momento, precisam estar conectadas com a comunidade ao seu entorno.

Diante das mudanças provocadas pela pandemia, que necessariamente não impede a formação desses grupos, Glauter alerta para o risco de substituirmos a conexão humana pela digital:

“Estamos há um ano e um pouquinho na frente de telas e às vezes perdemos a conexão humana com aqueles que nos cercam, na família, na vizinhança …. estamos tendo um momento de contra-senso: ouvimos muito falar em influenciadores e corremos o risco de criarmos egossistemas. Ou seja estamos muito conectados há várias pessoas, mas talvez não nas causas mais importantes”.

Ego e vaidade, aliás, são os principais motivos de atrito em comunidades. As duas palavras apareceram em destaque: 46% das respostas de cerca de 300 pessoas, de 20 países da América Latina, quando Glauter quis saber quais as “tretas” que mais precisavam ser resolvidas nessas relações. Claro que ao buscar a opinião delas, a maioria líderes de comunidades, ele foi além:

Com base nas respostas e na experiência que desenvolveu ao longo do tempo, Glauter descreve no livro “O poder do peoplechain” como funciona o método PLACE, que envolve cinco passos:

Seguindo essa trajetória, Glauter definiu dois tipos de profissionais que podemos encontrar no mercado de trabalho: o rico e o pobre — termos que não se referem ao poder econômico de cada um, mas a capacidade de criar relações produtivas nas comunidades:

“O profissional pobre, ele pensa muito no próprio umbigo, ele está sozinho, ainda vive em um mundo de ilha, isolado no mundo. Consegue até gerar o seu patrimônio, mas está muito focado na própria persona, no ego, e acaba criando um “egossistema” e não um “ecossistema”. E o profissional rico, ao contrário, ele não é uma ilha, é uma ponte,  entre outras pessoas, e nesse sentido, ele sabe dar valor ao tempo e as pessoas com as quais se conecta”

O conceito do peoplechain, o resultado completo da pesquisa que desenvolveu e a descrição do método PLACE estão publicados no livro “O poder do peoplechain”. O caro e raro leitor deste blog pode comprar o livro no site da Altabooks com desconto de 50% ao usar o cupom CBN50.

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site da CBN, na nossa página do Facebook e no canal do YouTube. O programa vai ao ar aos sábados no Jornal da CBN, aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo, e em podcast. Colaboram com o programa: Juliana Prado, Bruno Teixeira, Matheus Meirelles e Débora Gonçalves.