A sociedade andrógina de Domenico De Masi

 

Por Julio Tannus

 

Tenho me referido aqui a alguns autores e suas reflexões sobre a época que vivemos atualmente. Em geral suas considerações são negativas. Já o professor de Sociologia do Trabalho da Universidade de Roma, Domenico de Masi, faz uma análise positiva. Aqui vai:

 

Enquanto a sociedade rural precisou de sete mil anos para produzir a sociedade industrial, a sociedade industrial precisou de somente duzentos anos para produzir a sociedade pós-industrial. O que entendo por sociedade pós-industrial? Entendo que é uma sociedade cujo epicentro não existe mais a produção de bens materiais em grande escala, mas sim a produção de bens imateriais em grande escala, ou seja, a produção de serviços, de informação, de estética, de símbolos e de valores.

 

Os valores da sociedade industrial eram o racionalismo e a produtividade… E o racionalismo da sociedade industrial era um racionalismo distorcido em relação ao racionalismo que quiseram os iluministas. Os iluministas, no final do século XVI, contrapunham a razão humana à completa falta de uma pesquisa científica, à magia. Na indústria, porém, o racionalismo iluminista foi aplicado de maneira pragmática.

 

Quando as indústrias falam de racionalismo querem dizer isto: tudo o que é bom é racional; tudo que é racional é masculino; tudo que é masculino tem a ver com a produção e tudo o que tem a ver com a produção é feito nos locais de trabalho. Contrariamente, tudo o que é emotivo é negativo; tudo que é emotivo é feminino; tudo o que é feminino tem a ver com a reprodução e tudo o que tem a ver com a reprodução é feito em casa.

 

Por isso, a indústria separou nitidamente os locais de vida e os locais de trabalho; o tempo de trabalho do tempo livre. E quando termina o trabalho, todos voltam para casa na mesma hora. E quando começa o trabalho, todos devem ir para a ele na mesma hora. E quando chegam as férias, todos a tiram ao mesmo tempo. Um escritor italiano diz que, nas horas de pico, até o adultério é impossível! Tudo é complicado. Ora, a tudo isto a sociedade pós-industrial contrapõe uma situação completamente diferente. Os valores da sociedade pós-industrial são de outro tipo. A sociedade industrial apreciava a executividade acima de tudo, a obediência, a ductilidade, a conformidade. A sociedade pós-industrial aprecia sobretudo a flexibilidade e a criatividade. A sociedade industrial apreciava sobretudo a prática. A sociedade pós-industrial, a estética. Se um relógio é duzentas vezes mais preciso do que o necessário, qual a necessidade de aperfeiçoá-lo ainda mais, do ponto de vista prático? Aquilo que hoje distingue dois relógios não é a prática mas sim o design. A estética é um dos grandes valores da sociedade pós-industrial. E um outro valor é a emotividade, que é conjugada com a racionalidade. Não mais só a racionalidade, não mais a emotividade como um fator negativo, mas a emotividade como um fator importantíssimo da alma humana. E a sociedade pós-industrial aprecia ainda a subjetividade. Não mais somente coisas de massa, consumo de massa, política de massa, sindicato de massa, tempo livre de massa, mas cada um quer ser apreciado como único. Como indivíduos únicos. Kirkegaard dizia: “Gostaria que sobre meu túmulo estivesse escrito: Aqui jaz aquele único”. Ora, emotividade, subjetividade e estética são três valores tipicamente femininos, dos quais os homens descuidaram durante os duzentos anos da sociedade industrial e que só as mulheres continuaram a cultivar. Por isso, junto com a criatividade, a flexibilidade, a emotividade, a estética, um outro valor importante é a feminilização. Isto é, a sociedade pós-industrial não é nem homem, nem mulher: é andrógina. É uma sociedade na qual são apreciados tanto os valores tipicamente femininos, como os valores tipicamente masculinos. E cada homem descobre que tem em si mesmo uma parte feminina, da mesma forma que as mulheres descobrem que têm em si mesmas certas capacidades que eram típicas dos homens. As sociedades que ainda não perceberam a feminilização são sociedades bárbaras. Infelizmente, acredito que no próximo século não existirá a paridade entre o homem e a mulher, mas que as mulheres serão superiores por um pequeno detalhe: as mulheres podem ter filhos sem ter um marido enquanto que os homens não podem ter filhos sem ter uma mulher.

 

Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier)

A mentira no mundo corporativo

 

 

Nas palestras para executivos e empresas um dos pontos que destaco é que a mentira jamais deve pautar a política de comunicação corporativa. Quando houver informações que devem ser mantidas em sigilo, seja por questões estratégicas seja por questões legais, o porta-voz deve ser sincero, pedir desculpas se for o caso e dizer de forma direta que não pode comentar o assunto. Se possível, ofereça alguma dado que seja útil ao interlocutor demonstrando boa vontade em atendê-lo. Porém, jamais, em nenhuma situação, por mais grave que seja, minta. A mentira fragiliza a corporação e seus profissionais. Agora ou daqui a pouco, nós vamos descobrir a verdade.

 

A mesma regra deve prevalecer nas relações internas dos profissionais, no entanto é evidente que os mentirosos estão à solta. Afinal, a mentira é inerente ao ser humano e muitas vezes garantia de sobrevivência não apenas nas corporações. Há os que mentem para agradar e os que mentem para escapar de situações constrangedoras. Há os que mentem para prejudicar e os que mentem para se beneficiar. Há mentiras aceitas socialmente e mentiras reprováveis. O maior cuidado que devemos ter é quanto a dimensão e o efeito desta mentira.

 

Em 29 anos de redação cruzei por muitos mentirosos. E, confesso, contei as minhas também. Espero que nenhuma tenha prejudicado colegas ou empresa. Nunca foi esta a intenção nem soube de mal que tenha sido cometido por este ato. Vale o destaque: mentir para o público nem pensar, é condenável, é execrável, um desserviço à sociedade. Podemos, como jornalista, não publicar toda a verdade em determinados momentos porque esta se constrói no decorrer dos fatos e não a temos desde os primeiros instantes. Nem sempre ao se cobrir casos jornalístico se tem o domínio de todos os acontecimentos e para se chegar a verdade final são necessárias investigações mais profundas. De qualquer forma, busca-se sempre publicar a verdade daquele momento, que pode ser transformada diante de novas informações.

 

Um caso engraçado de mentiroso: um ex-colega – omito o nome não para mentir, mas para nos preservar – era incapaz de ouvir qualquer assunto sem contar algo extraordinário do qual teria feito parte. Os que conheciam a fama dele, costumavam provocar alguns assuntos apenas para ver como se sairia. Uma das histórias mais interessantes foi quando ouviu grupo de colegas falando de acidentes de avião e ele, sem constrangimento, contou que já havia pilotado e, por habilidade e sorte, conseguira escapar de uma tragédia ao pousar o monomotor sobre a rede de fios elétricos. Tentou convencer os colegas ainda de que Dolores Duran compôs para ele a música ‘A Noite do Meu Bem’, em 1959, e, em uma de suas viagens à Washington, foi convidado por assessor de JFKennedy para visitá-lo na Casa Branca. Não estou mentindo, não. Foi isso mesmo que ele contou. Se duvidar, pergunte ao meu pai, também colega do referido. Foi ele, aliás, que, em texto publicado aqui no Blog do Mílton Jung, apelidou nosso companheiro de rádio de Barão de Münchhausen, nascido no século 18, que serviu ao exército alemão e de tantas histórias extraordinárias e inverossímeis virou personagem de livro infanto-juvenil e de filmes para o cinema.

 

Infelizmente assisti a casos de mentiras que me levaram a questionar o comportamento ético do jornalista. Conto um dos que mais me incomodaram: uma ex-colega foi pautada a cobrir um assunto pois seu diretor de departamento tinha interesses comerciais no produto que seria apresentado. Ao retornar para a redação, o editor tentou entender qual o interesse jornalístico da reportagem e a jornalista, sincera, explicou a situação. Ao ser cobrado, o diretor negou que tivesse pautado a repórter. Ela foi demitida e o mentiroso garantiu seu emprego por mais alguns anos, a despeito do peso que levou na consciência. Em situações como essa, quando seu superior mente, é preciso avaliar bem se vale a pena permanecer naquele ambiente de trabalho e quanto estas situações podem prejudicar a sua imagem profissional.

 

Quanto a colegas mentirosos é sempre bom usar uma régua simples. Mentiras engraçadas, sorria; mentiras brandas, releve; mentiras graves, denuncie ou vá para bem longe para não ser contaminado.

Avalanche Tricolor: Gol, Ravens!

Inter 2 x 1 Grêmio
Gaúcho – Erechim (RS)

 

 

Desculpe, aí! Mas nesta Avalanche, o futebol virou secundário. O brasileiro, claro. Por que o americano é destaque. Explico por quê? Segundo meu amigo de Hora de Expediente Luis Gustavo Medina, o Teco, no SuperBowl, o grande show que é a final da NFL, em Nova Orleans, dos dois times que se capacitaram para a disputa, o Ravens, de Baltimore, é o time mais parecido com o Grêmio. Nem tanto pela cor quase azul no símbolo e detalhes na camisa predominantemente branca, mas pela forma de jogar e potencial em, com raça, superar todos os demais talentos (perceba a habilidade do nosso “volante” na foto acima). E não é que os “azuis” de Baltimore venceram por 34 a 31 o San Francisco 49ers, em uma partida emocionante e com direito a apagão? Neste período de entressafra, na qual os titulares gremistas estão centrados na Libertadores e o Campeonato Gaúcho está na mão de uma gurizada, o espírito da Imortalidade resolveu aterrisar em Nova Orleans e contaminar o ânimo dos gremistas do Ravens. E eu, que estive longe tanto do futebol brasileiro como do americano, nesse fim de semana, só tenho a comemorar: Gol, Ravens!

Conte Sua História de SP: caminhando, descobri a cidade

 

Por Sérgio Mendes
Ouvinte-internauta da CBN

 


Ouça o texto que foi ao ar no CBN SP sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

Não tenho como não dizer a quem quer que me pergunte sobre esta cidade, que o centro é a parte mais bonita daqui. Foi nele a minha primeira parada. Cheguei em Junho de 1998 e além dos muitos sonhos, não tinha de minha posse mais nada. Fui morar numa kitinete na Rua Abolição, bem pertinho da CMSP.
Pra quem caminha por aquelas ruas sem pressa de chegar a lugar nenhum, ele se revela outro, muito diferente da visão que se possa ter de dentro de algum veículo, por detrás de janelas.

 

E foi por causa de longas caminhadas que descobri o que vou contar.
Daquela época para agora, nem dá pra dizer que muita coisa mudou. O centro vive sendo maquiado para agradar quem passa por ele de carro.

 

Eu tinha que caminhar a distância entre ele e a Avenida Brás Leme em Santana, e o que fiz foi aproveitar pra olhar os detalhes que todos os dias se repetiam.

 

A jornada começava atravessando o Viaduto 9 de Julho e depois dele à direita em direção ao Anhangabaú pela lateral da estação de Metrô. Uma vez no vale, dava início a maratona de verdade com a visão das duas pontes que circunscrevem o caminho através dele; o viaduto do Chá e mais a frente o Viaduto Santa Efigenia, que visto debaixo, é olhada de tirar o fôlego.

 

Pertinho do viaduto do Chá, os jardins do Teatro Municipal e mais acima ele próprio , são outra vista que sozinha vale um passeio mais frouxo. Seguindo à frente, uma disputa para os olhos; à esquerda o largo do Paiçandu e na esquina o prédio dos correios enfeitado com esfinges na sua magnífica fachada. À direita, dois outros marcos paulistanos que são os prédios do Banespa e o edifício Martinelli.

 

Na minha visão fantasiosa vejo o Anhangabaú como uma área de cafés, teatros, cinemas, bares, vida noturna ao ar livre, aproveitando também a estonteante Galeria Prestes Maia.

 

Na Tiradentes, onde outra vez encontram-se mais ícones da cidade como a Estação e o Parque da Luz, sem falar da Pinacoteca e mais adiante o Museu de arte Sacra. Na época ainda não existia a Sala São Paulo ou o Museu da Língua Portuguesa e o Memorial da Resistência, mas hoje eles também já estão lá.
Seguia até a Avenida Santos Dumont, quando numa parada, o Rio Tietê convida a uma olhada e reflexão profunda sobre o que realmente queremos da nossa cidade a partir do que fazemos com ela.

 

Nas águas sujas que já serviram a banhistas e lugar das regatas de um clube de mesmo nome do saudoso rio, as marcas do nosso descaso com a cidade. Lembranças de um tempo, quando outros paulistanos a aproveitavam melhor.
Adiante ainda pela Santos Dumont, uma Praça, homenagem como o nome da avenida a este brasileiro que é pai da aviação!

 

Depois, o Campo de Marte e finalmente a Avenida Brás Leme onde terminava a minha caminhada.

 

É certo que não somente estas partes do centro são belas. Ele não é o que é pelos edifícios ou monumentos. O centro é emblemático por conter a cidade inteira dentro dele. É também a referencia que se possa ter de qualquer lugar e São Paulo não é exceção.

 

Para dizer que pensamos esta cidade, é preciso que seu centro e toda a História que contém, estejam restaurados e reluzam a importância de tudo nele.
Hoje não moro mais lá, mas sempre que sinto falta de estar de verdade em São Paulo, arranjo uma desculpa qualquer na minha agenda, e me dou de presente uma tarde caminhando por aquelas ruas do meu melhor lugar pra se fazer História nesta cidade.

Mundo Corporativo: o segredo das apresentações poderosas

 

Antes de oferecer uma solução, mostre o problema, pois se o cliente não se sentir na angústia, ele não compra. A recomendação, que para alguns pode soar cruel, é do especialista em palestras Roberto Shinyashiki, entrevistado do programa Mundo Corporativo da CBN. Com a experiência de mais de três décadas de palco e negociação, Shinyashiki apresenta algumas das estratégias, para você preparar uma apresentação capaz de conquistar seu público, que estão no livro “O segredo das apresentações poderosas – pessoas de sucesso sabem vender ideias, projetos e produtos”, lançado pela Editora Gente.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, no site da CBN, com participação dos ouvintes-internautas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelo Twitter @jornaldacbn. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

Cidadania não se faz vazia

 

Por Nei Alberto Pies
Professor e ativista de direitos humanos

 

“Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”. (Paulo Freire)

 

A cidadania não é vazia. Ela reveste-se de conteúdos e práticas que traduzem, necessariamente, atitudes, vivências e oportunidades que todos realizamos em sociedade. Cidadania é a possibilidade concreta de todos e todas usufruírem das condições materiais, culturais e científicas produzidas por uma nação e pelo mundo. Para alguns poucos, talvez, cidadania não signifique mais do que reconhecimento. Para a maioria, no entanto, cidadania representa a possibilidade de participar do mundo, a partir de condições de uma vida na dignidade. A dignidade humana envolve questões elementares como educação, habitação, alimentação, saúde, lazer, trabalho, consideração e respeito.

 

O Brasil promoveu, nos últimos anos, importantes avanços para combater a pobreza e as desigualdades sociais, mas ainda vivemos sob a regência de uma “cidadania de papel”. Gilberto Dimenstein, autor do livro “O cidadão de papel”, afirma que “cidadão de verdade é aquele que é respeitado e pode se sentir digno ao pagar impostos”. Ainda vivemos situações onde a cidadania não acontece por conta da própria burocracia estatal que se encarrega de dificultar o acesso aos bens e serviços básicos. A burocracia, o papel, atrapalha e dificulta muito a cidadania. A legislação brasileira, tida como uma das mais avançadas, não garante cidadania. Para tirá-la do papel, é preciso exigir e cobrar permanentemente a sua efetividade no cotidiano de nossas comunidades. Mas como cobrá-la se nem sempre temos pleno conhecimento de nossos direitos ou se não temos disponibilidade pessoal ou coletiva para cobrá-la?

 

A decadência do poder da cidadania leva as pessoas a apostar na sorte. Os direitos passam a ser vistos como possibilidades sujeitas a trocas ou favores e não como elementos de exigibilidade. Muitos brasileiros, infelizmente, são induzidos a crer que a sua vida sempre depende da bondade, conhecimento ou influência de alguém. Desta forma, vivem passivamente à espera de dias melhores, sem tomar as suas iniciativas.

 

Para vivermos uma cidadania ativa, precisamos construir condições de “empoderamento” através da informação, conhecimento, orientação e organização das pessoas em suas comunidades. Quem conhece seus direitos, participa de sindicatos, grupos ou associações, passa da apatia cidadã para uma postura de sujeito de direitos, tornando-se capaz de reclamar e atuar na defesa e promoção dos direitos, sem pestanejar. Ao perceber os limites de sua atuação individual, passa a ser também um sujeito social, capaz de buscar soluções de forma coletiva e organizada. A organização coletiva, para a conquista dos direitos, é a melhor forma de transformar “letra morta” (lei) em realidade.
Ao contrário dos valores individualistas e egoístas, a luta por direitos humanos se faz na cooperação, no amor e na solidariedade. Lutar por direitos é acreditar nas potencialidades humanas e na liberdade de cada um e cada uma realizar as suas escolhas.

As leis e os homens na tragédia de Santa Maria

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Foi preciso uma tragédia da enormidade dessa ocorrida em Santa Maria, causadora de comoção não só no Brasil, mas no exterior, que enlutou, no mínimo, 230 famílias em nosso país, para nos alertar sobre o que sempre desconfiávamos: temos leis pontuais, tal qual as que se referem à abertura de boates e estabelecimentos similares, absurdamente falhas. Algumas são estaduais, outras municipais. Umas e outras, porém, seja porque não preveem todos os quesitos imprescindíveis para as qualificar, seja porque quem tem a obrigação de fiscalizar a sua aplicação, por vários razões, certas delas condenáveis, faz vistas grossas.

 

Pergunto-me como uma lei que não liga para aquela que seria uma exigência obrigatória visando à liberação de casas de espetáculos, especialmente as que pretendem receber número elevado de clientes, não prevê que essas possuam portas suficientes para facilitar, em situações normais ou, acima de tudo, em emergências, a saída rápida das pessoas. Ou será que as leis existentes não tratam desta necessidade? Quem sabe, no entanto, isso esteja escrito, mas os fiscais, por isso ou aquilo, descumpram a exigência? Se a boate Kiss, por omissão da lei ou não sei de quem, tivesse, pelo menos, duas portas e não uma miserável saída apenas, provavelmente, a madrugada de domingo não terminaria de maneira tão trágica, mesmo que houvesse sido consumida pelas chamas provocadas pelo “sputnik” lançado contra o teto de espuma por um idiota.

 

Como de hábito, sempre que há uma tragédia, discutem-se leis e outras providências para evitá-las Essas, passado um tempo, acabam caindo no esquecimento A de Santa Maria, talvez, pela sua desgraçada magnitude, venha a receber outro tratamento. Oxalá isso aconteça. Senti-me ao tomar conhecimento do trágico episódio como se fosse um indiano ou morador de um desses países orientais, pródigos em desastres provocados pelos homens ou pela natureza. Mesmo sem confiar muito nisso, espero que os culpados pelo domingo mais trágico dos gaúchos, sejam punidos. Seja lá como for, nada, nada mesmo, será capaz de aliviar a dor das mais de 200 famílias que perderam seus entes queridos.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: obrigado por me dar o direito de sorrir

 

Grêmio 1 (5) x 0 (4) LDU
Libertadores – Arena Tricolor

 

 

A bola rolava no gramado, jogadores lutavam contra um adversário duro e um árbitro mole e os torcedores empurravam o time à frente. Mas havia uma tristeza intrínseca iludida pelas emoções que o futebol nos provoca. Uma tristeza representada na tarja preta na manga das camisas tricolores e em faixas carregadas pela torcida. Sinais que lembravam a morte dos mais de 230 jovens em Santa Maria ainda muito presentes na memória do povo brasileiro, e gaúcho em especial. Qualquer cosquista, por maior satisfação que nos oferecesse, não seria suficiente para mudar a realidade do dia seguinte, quando a tensão do jogo se esvairia e perceberíamos como é fugaz a alegria diante da dimensão da tragédia ocorrida no interior do Rio Grande do Sul. Quis o destino, porém, nos dar o direito de sorrir por alguns instantes nesta noite. Um sorriso sofrido por tudo que envolvia o jogo e pela forma como a vitória chegou. E um sorriso particular pela conquista individual de Marcelo Grohe ao defender a última bola do jogo e calar os críticos incapazes de enxergar o ser humano acima de suas vaidades pessoais.

 

Obrigado, Grêmio, por me dar um só motivo para sorrir nesta semana.

 

Brasil em Davos: saem os holofotes, aparece a sombra

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

O pequeno crescimento brasileiro em 2012 resultou no desapontamento do Fórum Econômico Mundial em nosso país, que até então era o queridinho nas análises desenvolvimentistas. Certamente o 1% fez com que reaparecessem os antigos e saturados buracos estruturais. Impostos altos, maquina estatal grande e emperrada, corrupção endêmica, etc.

 

O brasileiro Carlos Ghosn, presidente mundial da Renault-Nissan em debate sobre o Brasil, ressaltou a exportação de matéria prima sem valor agregado, e a questão dos impostos. Efeito e causa.

 

Alexandre Tombini, do Banco Central, apontou que deveremos crescer 3% em 2013, o que segundo sua ótica é bom. Mas excelente é a relação entre o crescimento e o pleno emprego em que o Brasil vive, graças inclusive ao um milhão de postos de trabalho criados neste ano.

 

Então, qual dos olhares é o correto, o externo da incerteza, ou o interno da popularidade de Dilma e do otimismo de Tombini?

 

Pela característica da população economicamente ativa usufruindo do bônus demográfico, e pela riqueza dos recursos naturais, o Brasil poderá contrabalançar as fraquezas da estrutura geral. Governamental, tributária, política e moral. A questão é saber quanto tempo vamos precisar para extirpar os nossos problemas estruturais. Segundo o jornalista Clóvis Rossi, Davos acaba de demonstrar que a fila anda e já aparecem países com chances de substituir os Brics. Encabeçado pelo México, surgem, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Turquia.

 

Sem bola de cristal, podemos exercitar o exercício futuro através de Darwin. Os países que melhor se adaptarem às novas condições de competição sobreviverão com as melhores posições. Podemos também usar a velha piada dos dois executivos na floresta, sobreviventes de uma queda de avião. Diante de um leão faminto um deles tira da maleta um tênis. O outro não entende:

 

– “Você acha que vai correr mais que o leão com esse tênis?”.
– “Não, eu só preciso correr mais do que você”.

 

É melhor irmos preparando um bom tênis, qualquer que seja a nova fera que apareça .

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras

O 'jeitinho brasileiro' é inimigo da prevenção

 

Favela-prédio

 

Somos o país do ‘jeitinho’ e nos orgulhávamos disso, pois sinalizava nossa capacidade de improvisar, encarar as situações mais complexas e oferecer soluções práticas. Nos tornamos refém desta história quando a exceção passou a ser regra e transformamos em definitivas medidas que tinham caráter provisório. Poucos duvidam que o Brasil não consiga realizar a Copa do Mundo ou os Jogos de 2016, pois sabem que na hora certa faz-se um puxadinho, pede-se emprestado, decreta-se feriado ou se oferece atendimento especial para privilegiados e pedimos compreensão aos demais, em nome da nação. Na boate Kiss não era diferente a “boa intenção” em manter a casa aberta para a gurizada se divertir, mesmo porque quando somos mais jovens basta um bom som e uma ótima companhia para a festa rolar.

 

O ‘jeitinho brasileiro’ deixa aberta a porta corta fogo do prédio para o ar circular, faz galhofa com as simulações de incêndio organizadas por solitários brigadistas (quando eles existem); entrega para o mestre de obra a função de engenheiro e substitui o projeto do arquiteto por rabiscos no papel de pão (esse não existe mais com certeza). As placas de trânsito são meramente ilustrativas: se o limite é 60km, andamos a 80Km, pois temos certeza de que não haverá problema; se o sinal é de “Pare”, lemos reduza a velocidade. Problemas de saúde, resolvemos no balcão da farmácia; exames preventivo são perda de tempo.

 

Em um resort no litoral baiano, construído com dinheiro de fundo de pensão, as normas de seguranças eram muito rígidas a ponto de me chamar atenção. Não precisei muito tempo para descobrir o motivo: o seguro de vida feito por executivos estrangeiros exige a estrutura para pagasr indenização em caso de acidente. A obscesão pela prevenção que nos causa incomoda é obrigatória em países da Europa e nos Estados Unidos. Por isso, enquanto no Brasil tanto faz como tanto fez, nos prédios americanos as portas abrem para fora. É para a rua que se vai quando há situação de risco e o acesso tem de ser facilitado.

 

Precisamos implantar a cultura da prevenção e as escolas serão importantes nesta iniciativa. Não defendo a criação de uma matéria específica para o assunto, a grade escolar já está completamente ocupada. Podemos, porém, discutir o assunto com os alunos de forma interdisciplinar, em palestras, atividades extra-curriculares e campanhas internas. Que escola realiza treinamento de fuga, preparando seus estudantes para casos de risco? Curitiba, na administração Jaime Lerner, levou o tema da reciclagem à sala de aula e mudou o comportamento das famílias.

 

Os governos – União, Estado e Municípios – devem usar as verbas publicitárias, desperdiçadas em “propaganda política” para mobilizar a sociedade. São Paulo, ano passado, incentivou o respeito à faixa de segurança e diminui os acidentes nos pontos em que a campanha se concentrou.

 

Em casa, na empresa, na Igreja, na sociedade em que atua, é sua a responsabilidade. Com seus filhos, pais, parentes, amigos e colegas insista na ideia de que o “jeitinho brasileiro” é inimigo da cultura da prevenção.