Conte Sua História: Ronnie Von vai a Santo Amaro

 

Ronnie Von era garotão, nascido e vivido no Rio, quando foi convidado para visitar a casa de Nilton Travesso, em São Paulo. Era fácil chegar lá. Bastava pegar um táxi no aeroporto de Congonhas, ir até a avenida Santo Amaro e entrar no segundo farol à direita. A primeira surpresa foi saber que o nome do santo batizava uma estrada, uma rua e uma avenida – havia um bairro, também. Pediu para ir na mais famosa e teve sorte, aquele era o caminho. Procurou o farol e não encontrou nenhum. Ao fim da avenida, ouviu do motorista: “Terminou aqui, onde o senhor quer descer”. Foi quando descobriu que o farol paulistano era o semáforo no Rio.

Esta foi uma das muitas histórias de São Paulo contada pelo cantor, compositor, publicitário e apresentador de Tv Ronnie Von no programa que abriu a série em homenagem aos 457 anos da capital paulista. A entrevista, ao vivo, no CBN SP foi marcada por momentos de emoção, ao menos para este jornalista.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo com Ronnie Von

Nesta semana, personagens e personalidades serão convidados do Conte Sua História de São Paulo – 457 anos. Você também pode participar do progama que vai ao ar, tradicionalmente, aos sábados, às 10 e meia da manhã. Envie seu texto ou marque uma entrevista no site do Museu da Pessoa.

Que São Paulo você quer no fim desta década ?

 

Paulistanos, os de nascença e os que se aprochegaram, querem deixar a cidade. Ao menos mais da metade deles disse isso em pesquisa feita pelo Ibope, encomendada pela Rede Nossa São Paulo (leia aqui). Opinião que não me surpreende dada a relação que temos com o ambiente urbano.

É o trânsito, é a escola, é o trabalho, é a poluição, é a violência. É um monte de coisa que nos atrapalha todo o dia. É tanta coisa que tem uma hora que a gente pensa em voz alta: “tô louco pra ir embora daqui”. O propósito não costuma vingar e a maioria prefere ficar por estas bandas seja porque é onde estão as oportunidades, a família e a nossa vida seja porque fora dela também não se tem certeza de que algo melhor haverá.

E como é aqui mesmo que viveremos, esta semana é ótima para refletirmos sobre que cidade queremos para nós. No dia 25 de janeiro, São Paulo completa 457 anos de fundação e uma série de atividades está programada para celebrar a capital paulista.

Aproveitando este clima, o CBN SP leva ao ar, a partir de hoje, uma provocação. Pelo twitter, pelo e-mail ou aqui mesmo no Blog, responda: “Que São Paulo você quer no fim desta década ?”

Imagine como você gostaria que esta cidade fosse dentro de 10 anos, e não deixe de pensar o que você poderia fazer para torná-la possível. As ideias que forem enviadas ao CBN SP vão ao ar durante a semana e as mais interessantes serão apresentadas, também, no programa especial em homenagem a São Paulo que será apresentado, ao vivo, no Pátio do Colégio, dia 25, terça-feira, das 9 e meia ao meio-dia.

Programação

Na festa promovida pelo CBN SP no dia do aniversário de São Paulo duas atrações musicais estão confirmadas: Zé Geraldo e o pessoal que integra o projeto Retrato.

No centro da festa um convidado especial: o livro. Além de entrevistas sobre a importância da leitura na nossa vida, o CBN SP estará de mãos dadas com a Campanha Doe um Livro, que surgiu no Twitter e incentiva o cidadão a doar livros que são distribuídos para escolas públicas e bibliotecas.

Você que pretende assistir ao programa, antes de sair de casa procure na sua biblioteca os livros que podem ser doados e leve até o Pátio do Colégio.

Acompanhe outros programas da CBN em homenagem aos 457 anos de São Paulo:

Por dentro de São Paulo, com os pontos curiosos da capital paulista apresentados por Heródoto Barbeiro (7h15 e 14h20)

Ser Paulistano, em que personalidades falam sobre a identidade com São Paulo em reportagens apresentadas por João Vito Cinquepalmi (11h10 e 17h45)

Conte Sua História de São Paulo, com depoimentos de personagens que contarão mais um capítulo da nossa cidade em entrevistas ao vivo para mim, no CBN SP (10h02)

Adaptação, mudança e coragem para combater enchentes

 

Debate na CBNSão Paulo tem jeito e recursos para enfrentar as enchentes, concordaram os três convidados do debate promovido pelo CBN SP, neste sábado. Há necessidade de se adaptar às mudanças do clima e rever nosso comportamento, disseram eles. Nem todos se entenderam, porém, quando o assunto era saber se as medidas que estão sendo adotadas seguem o caminho certo.

Em torno da mesa do estúdio que discutou “Ambiente urbano e mudança climática”, duas visões contaminadas pelo pensamento político, sim, mas muito bem intencionadas e embasadas: Eduardo Jorge, secretário municipal do Verde e Meio Ambiente, ligado ao PV, e Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e ex-vereador do PT. Ao lado deles, um técnico disposto a mostrar que há tecnologia e conhecimento sendo desenvolvidos, professor Hélio Diniz, do Instituto de Geociência da USP.

Eduardo Jorge deixa claro que se a discussão é sobre a mudança do clima não há tempo a perder, chegou duas horas antes do programa. Aproveitou para colocar em dia vários e-mails pendentes. Na camiseta desbotada, um recado: o meio ambiente é o equilíbrio. O professor Hélio fez aquecimento antes do debate ao explicar para o pessoal da redação o que leva a terra se mover a ponto de causar a tragédia assistida na área serrana do Rio. E Nabil Bonduki chegou quando todos estavam no estúdio e disposto a apontar erros das administrações municipal e estadual no combate às enchentes.

Com números e ações, o secretário Eduardo Jorge se esforça para mostrar as diferenças no comportamento dos governos paulista e paulistano com os do Rio de Janeiro diante da mudança do clima. Disse que enquanto na capital paulista foram removidas cerca de 20 mil famílias de áreas de risco, em seis anos, na serra fluminense tiraram apenas dez famílias.

Mesmo com estes dados, o problema na capital ainda é grave. Levantamento do IPT que não está à disposição do público mostra que ainda existem 29.993 famílias morando em 407 áreas de risco, informa o secretário.

Bonduki lembra que a prefeitura erra ao promover a saída das famílias através do pagamento de aluguel social. Segundo ele, é preciso políticas habitacional e fundiária para impedir que estes deixem uma área de risco por outra.

Pouco depois, o repórter Juliano Dip relata que encontrou famílias que viveram esta situação no Jardim Romano. Ficaram alagados ano passado, perderam a casa, receberam o aluguel social e se mudaram para o Jardim Pantanal. Estão alagados de novo.

E como o assunto é ocupação do solo, o professor Diniz comenta que fez pesquisa no Vale do Paraíba e identificou que 99% das estradas vicinais foram construídas ao lado do rio, em local impróprio e arriscado. Uma lógica que também marcou o desenvolvimento da capital paulista com avenidas sendo instaladas sobre e na várzea dos rios e córregos.

Foi a oportunidade para Eduardo Jorge alertar para a construção de parques lineares e o risco que mudanças no Código Florestal podem trazer para o ambiente urbano. Na réplica, Bonduki criticou o investimento na Nova Marginal que impermeabilizou a região e beneficiou o transporte individual.

Antes de encerrar perguntei sobre qual seriam as prioridades no combate às enchentes:

Eduardo Jorge

– Remover as quase 30 mil famílias de áreas de risco

Nabil Bonduki

– Políticas habitacional e fundiária para reduzir a especulação imobiliária e baratear o preço da terra;
– Desestímulo ao uso do automóvel com investimento em corredor de ônibus;
Liberar fundos de vales

Hélio Diniz

– Criação de selo verde para infraestrutura, ou seja obras apenas com respeito ao meio ambiente.
– Armazenamento da água da chuva

Acompanhe o debate nos links a seguir:

Governo promove ações para evitar o efeito estufa, diz Eduardo Jorge

Ações do governo são paliativas, critica Nabil Bonduki

Viabilização de Plano Diretor de Macrodrenagem é importante para evitar enchentes, afirma professor Diniz

Quais são as prioridades para evitar novas enchentes ?

De estrada

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De estrada” na voz e sonorizado pela autora

Sabe quando a gente pega a estrada errada e continua, e continua, e continua tanto, e vai tão longe que fica difícil voltar?

a gente acaba parando
por um tempo
no lugar onde foi parar

Aí dá aquela vontade de conhecer outro lugar, acaba se encantando com o próximo, e fica literalmente hipnotizado pela beleza e pela riqueza de mais um. Acaba se perdendo.
Pois foi o que aconteceu com a gente. Foi o que aconteceu com todos nós.

Não adianta apontar o dedo para a turma do lado de lá, para o parente, para o ex ou o pretendente, o mandante ou o obediente. Não dá mais tempo. É tempo de abrir bem os olhos, de criar vergonha na cara, cada um fazendo o que sabe fazer. Fazendo direito, fazendo às claras, sem segundas, terceiras ou quartas intenções. Sem vender a alma. Do gari à presidente. Nós. Todos nós: os bonitinhos, os feios, as marombadas, as gordinhas. Nós. Os burros, os inteligentes, descolados e condenados. Nós. Espertalhões e bobalhões.

Fomos longe demais pela estrada errada, e depois de tanto tempo, tanto dinheiro, tanta energia gasta, da enorme distância do verdadeiro ponto de origem e do verdadeiro destino, a gente se dá conta de que ficou igual a todo mundo, como queria, vestindo igual, tendo carro igual, usando joia igual, falando igual, sofrendo mais e curtindo menos; a gente se dá conta de que vendeu a alma e, com ela, a graça.

Isso que tem acontecido em volta, no meio, dos lados, em cima e embaixo, é a prova de que este é o lugar errado; onde chegamos, todos. O que a gente vê é a paisagem errada!

Foi isso que nos hipnotizou? É difícil de acreditar! É isso que continua nos fazendo destruir o verdadeiro e a água do terreiro; o bosque, o pássaro, a borboleta? É essa ganância desmesurada, esse egoísmo generalizado e banalizado que deixa um amargo na boca, essa tristeza que sempre sobra no coração, esse medo e esse desalento que se mostram no olhar, que incluídos em letrinhas minúsculas no final do contrato vieram no pacote e levaram em troca o bom-humor, e transformaram tudo em dor, em desgraceira, em resgate onde acaba cabendo saque, num palco de lágrimas e horrores onde cabem boatos criminosos?

Em que lugar do caminho se perdeu o prazer de dirigir na estrada, sem rumo, à noite, só para ouvir no silêncio, com o corpo inteiro, as músicas favoritas, no rádio do carro? Onde se perdeu o prazer de acampar; de dormir no embalo dos pingos da chuva? De nadar na cachoeira sem medo de verminose, de virose ou de cirrose? Onde está nossa cidade antiga, nosso berço, cercado, protegido, fotografado e cuidado diariamente para que ninguém o destrua, para que ninguém o desfigure, para que a gente se lembre de onde veio e para onde estava indo?

O que nos cerca nos escoa por entre os dedos e não ecoa o prazer esperado, porque traz consigo a desgraça, a tristeza, o isolamento, a solidão, a armadilha que nos atraiu até aqui, até agora.

Está tudo sossobrando porque nem o Planeta nos aguenta mais. Não aguenta tanto desrespeito, tanta prepotência de quem se julga dono dele. Se não pararmos agora e não assumirmos, cada um, o seu latifúndio de responsabilidade, criaremos filhos apenas para que ajudem a suportar, nas costas, a custo das próprias vidas, até o último segundo, os pilares da Terra.

Não custa lembrar que, hoje e sempre, não é dado apenas a um ou a poucos, entender e traduzir a magnitude da Vida. É preciso que haja quorum, que estejamos juntos, todos, porque só o todo pode compreender O Todo.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: Saudade do Gaúcho

 

Grêmio 2 x 2 Lajeadense
Gaúcho – Olímpico Monumental

A televisão ainda passava jogos em video tape. A tecnologia oferecida não permitia transmissões de partidas a longa distância, ao menos não a um custo que valesse a pena investir. Jogo ao vivo e em cores era na arquibancada e os mais próximos disputados pelo Campeonato Gaúcho.

Era uma época em que competição daquele quilate não exigia aumentativo para ser valorizada. Desconfio que esta mania de chamar as disputas de Gauchão, Paulistão e outras coisas mais surgiu no momento em que a importância destes campeonatos diminuiu.

Gauchão pra gente era o Paixão Cortês que surge na ilustração do Xico Silva.


Seja como for, foi nas viagens ao interior do Rio Grande do Sul que aprendi como se joga futebol de verdade. Deixava-se Porto Alegre para cruzar o estado e éramos abrigados em estádios de madeira, com alambrado despencando, vestiários precários e torcida adversária vibrando como se fosse final de Mundial.

Foi nestes gramados – forma de dizer porque há muito a grama não era vista nem plantada naqueles campos – que assisti às mais impressionantes retrancas; zagueiros que trocariam um Troféu Belford Duarte pela canela do primeiro atacante que se atrevesse cruzar na intermediária; carrinhos que riscavam o chão e trilhavam o caminho com faíscas da chuteira de cravo antes de alcançar a perna alheia.

E eu gostava muito de tudo aquilo.

Jogar futebol era uma aventura, principalmente para os jogadores que chegavam da capital, sempre um alvo a ser abatido. Mesmo assim, o meu time era melhor e superava todas estas intempéries. Voltava para a “cidade grande” com sangue na camisa, barro nas meias, calção corroído pela poeira e a satisfação pela batalha vencida.

Sofri muito ao lado do campo vendo tudo isso acontecer. Vibrei e chorei com vitórias incríveis. Entendi que no futebol nem sempre o melhor ganha, é preciso também ter mais coração. Sabe aquela coisa de raça e determinação ? Pois é, nos jogos do Gaúcho era mais do que necessário.

Eu fui forjado torcedor neste campeonato, onde ganhei meu primeiro título – história já contada neste blog.

Muitos de nós passamos a nos apaixonar pelo futebol nas competições estaduais que se iniciaram neste fim de semana. Não exatamente neste arremedo de jogos disputados em fórmulas que mal conseguimos explicar aos nossos filhos. Hoje, os grandes times entram em campo preocupados em preservar seus jogadores para os jogos importantes da temporada.

O Grêmio, por exemplo, está de olho na pré-Libertadores, no dia 26 de janeiro, e para se livrar dos compromissos do Gaúcho fará, nos próximos dias, uma sequência absurda de partidas para um time que recém começa o ano – a largada para esta maratona foi hoje. Jogou muito bem no primeiro tempo, sem fôlego para marcar mas com talento na troca de bola. No segundo, cansou, desistiu ou estava desacostumado com as coisas do Estadual.

Distante do Olímpico e de volta ao papel de torcedor de PPV, assisti à partida sem a apreensão do passado. Sinal dos tempos, talvez. Apesar disso, tenha certeza de uma coisa: eu ainda acho muito bom ser campeão Gaúcho.

Veja mais ilustrações do Xico Silva no álbum do Picasa

A beleza das negras e das asiáticas

 

Por Dora Estevam
 
Toda vez que começa a semana de moda brasileira vem à tona o assunto: modelos negras. Impressão que dá é que elas desaparecem assim que acaba a temporada. E com elas se vai o assunto. também.

Não sei o que acontece com as moças fora das temporadas. Este mês, por exemplo, a Vogue Brasil fez editorial dedicado às negras, com enfoque na brasilidade da mulher. Apenas confirma a regra: estamos em época de semana de moda, e depois?

Bem, as mulheres negras têm muito bom gosto, elas se vestem muito bem, sem contar a pele, o tipo físico e os famosos dentes. Realmente, são charmosas e atraentes.

E como todas as mulheres, arrasam nas ruas de São Paulo, Nova Iorque, Paris e Londres.

Acompanhe fotos de algumas dessas maravilhosas e super elegantes:


 

Outro tipo de mulher que dificilmente encontramos em passarelas ou editoriais são as orientais. Elas ficaram confinadas em bairros como Liberdade e Bom Retiro, em São Paulo. Mas, a forma e o estilo de como elas se vestem está muito longe dos típicos vestidos justos de cetim japoneses e chineses.

Estas mulheres arrasam no figurino, além do bom gosto nas combinações. Sem contar a cabeleira lindíssima. Aproveite algumas amigas fotografadas nas ruas que superam todo e qualquer preconceito:

Com estas belíssimas mulheres, tão exóticas e bem vestidas, não saia de casa sem antes das uma espiada, novamente, nas fotos. Vale a inspiração.

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida no Blog do Mílton Jung

As imagens deste post são do site Stockholm StreetStyle.com

Esta maldita obra humana

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Trabalha na Guaíba de Porto Alegre e se consagrou na narração esportiva e locução do “Correspondente Renner”. Apesar de muitos o conhecerem como a “Voz do Rio Grande”, seu talento também se expressou na escrita, em crônicas que foram publicadas no Correio do Povo e nos extintos jornais Folha da Manhã e Folha da Tarde. A insistência da família o tira do confortável papel de ‘palpiteiro’ do blog para protagonista. A partir de hoje, integra a equipe de comentaristas do Blog do Mílton Jung para orgulho de todos nós (e do Gregório e do Lorenzo, também):

Deslizamento e morte em Mauá

Estou estreando neste blog, agora não mais com comentários eventuais e descompromissados sobre isso e aquilo, às vezes usando um pseudônimo, outras, o meu próprio, que só é diferente do nome do dono deste espaço, na internet, porque não é acentuado. Quando meu pai me registrou, inspirado no autor de “Paraíso Perdido”, o poeta John Milton, os cartórios não exigiam o acento na letra “i”.

Gostaria de iniciar este prazeroso trabalho, um pedido que foi quase uma ordem do Mílton e de Gregorio e Lorenzo, meus netos, tratando de amenidades. O que acontece no Rio de Janeiro, que enfrenta tragédia sem precedentes em nosso país, obriga-me a me fixar nela. Na manhã de hoje, com o número de vítimas fatais aumentando a cada instante, ouvi Gilmar Altamirano da Universidade da Água, um dos entrevistados do Mílton, no CBN-São Paulo, dizer que aquilo que está ocorrendo, é culpa nossa porque “invadimos a natureza”. É uma frase pequena, mas absolutamente verdadeira, embora não seja, é claro, a única explicação para a desgraça que se abate sobre moradores e turistas nas várias cidades atingidas por chuvas torrenciais e constantes.

Meu filho, no seu blog, disse, em outras palavras, mais ou menos a mesma coisa que o seu entrevistado (leia aqui). Até assistir às imagens da tragédia, imaginava que nada poderia ser mais destrutivo do que os tsunamis. Enganei-me. O Rio e mesmo São Paulo (em escala bem menor, com certeza) pagam altíssimo preço, seja no lado humano, seja em forma de prejuízos materiais, pela invasão da natureza. E por tudo que a acompanha nesta maldita obra humana.

Mais da metade dos moradores querem deixar São Paulo

 

Nova pesquisa sobre a percepção dos moradores de São Paulo mostra que o número de pessoas que querem deixar a cidade ainda é maior do que o daqueles que pretendem ficar por aqui. O trabalho é realizado pela Rede Nossa São Paulo, com coleta de dados do Ibope, e será entregue à cidade no dia 20 de janeiro. Reproduzo abaixo, parte do texto divulgado pela organização, agora à tarde:

Em resposta à pergunta “Caso pudesse, sairia de São Paulo para viver em outra cidade, ou não sairia de São Paulo?”, 51% das 1.512 pessoas pesquisadas responderam que sairiam. Outros 48% disseram que não sairiam e 1% não souberam ou não responderam.

Embora o percentual de moradores que revelam o desejo de morar em outra cidade ainda seja maioria, o índice caiu em relação à pesquisa anterior, realizada em dezembro de 2009. Na ocasião, 57% dos pesquisados disseram que sairiam de São Paulo, se pudessem. No ano anterior – em novembro de 2008 – o índice foi de 46%.

Outro dado já tabulado – e que, certamente, é um dos pontos que influenciam a vontade das pessoas de viver em São Paulo – está relacionado à sensação de insegurança. Para a pergunta “Pensando no seu dia-a-dia, que situações mais fazem com que você sinta medo na cidade de São Paulo?”, entre as respostas mais citadas estão: “violência em geral”, “tráfico de drogas”, “alagamentos” e “trânsito”

E a chuva é que leva a culpa

 

“Chuva mata um sem-número de pessoas”.

A manchete se repete a cada noticiário. Está no rádio, na TV, na primeira página dos jornais e em toda rede. Está errada na análise, apesar de certa na síntese jornalística. Editamos o cotidiano e neste exercício corremos o risco da injustiça e imprecisão, como neste caso em que a causa natural não tem culpa do que fazemos na natureza.

A chuva não matou, nós estamos cometendo suicídio.

Morreram às centenas neste verão porque ao tomarmos o rumo das cidades, há 50 anos, não preparamos o ambiente urbano para esta invasão. A cidade de São Paulo tinha 3,8 milhões de pessoas na década de 60 e, atualmente, conta (se é que dá pra contar) com mais de 11 milhões. Ganhamos uma cidade de Londres inteirinha, sem planejamento nem pensamento.

Esta população se espraiou desenhando uma mancha urbana por onde ainda não havia cidade – em alguns lugares é de se duvidar que já tenha. Sem encanamento jogou o esgoto no córrego, sem coleta despejou lá também o lixo produzido. Sem lei nem autoridade, ocupou terrenos, tomou a várzea do rio, escalou morros, e se amontoou nas favelas. Cada um se virou como pode.

Hoje, 20% dos que vivem em São Paulo estão no entorno das represas de Guarapiranga e Billings, que deveriam apenas nos servir a água já escassa na região metropolitana.

Os prédios cobrem suas áreas de lazer; as casas põem o cimento sobre a terra; os grandes pátios são pintados de asfalto; ruas e avenidas passam por cima do córrego; bairros são fundados abaixo do rio.

Gastamos – ou gastaram por nós – mais de R$ 1,3 bilhão para tirar área verde e construir novas faixas na Marginal e esquecemos de aumentar investimento para rebaixar a calha do Tietê.

Tiramos – ou tiraram de nós – R$ 12,8 milhões que deveriam ser colocados em obras antienchente na zona leste para terminar uma ponte estaiada no Tatuapé.

Não surpreende que em sete anos, a cidade de São Paulo que tinha 315 áreas de risco passou para 400. Surgiram mais de 12 por ano, apenas na capital.

Os gastos da prefeitura em publicidade subiram para R$ 126 milhões nem por isso se pensou em campanha permanente e medida educativa para mudar o comportamento do cidadão que joga lixo na rua.

Desperdiçamos mais de R$ 1 bilhão por ano enterrando lixo e não botamos um tostão na ampliação de centrais de reciclagem.

E a chuva é que leva a culpa?

Somos todos responsáveis pelo que assistimos no noticiário. Seja porque não cuidamos do nosso entorno, seja porque não cobramos de quem tem nas mãos dinheiro – o dinheiro dos nossos impostos -, equipamento e poder.

Se a chuva é natural, a tragédia é humana. E o que se fez no ambiente urbano, desumano.