De céu e inferno


Por Maria Lucia Solla

Ouça “De céu e inferno” na voz da autora

Angustia

há dois modos apenas
de curar a vida
lamber a ferida
ou roer
as
penas

há dois modos da boca sorrir
arrastar a cara com ela
ou com a cara amarela
só
rir

há dois modos de ser amada
dançar ao som do amor
driblar aqui ali a dor
ou partir para o jogo do tudo
ou
nada

há dois modos de ser
ser na vida ser com ela
ou assistir da janela
e de inveja
pa
de
ser

há dois modos de chegar ao céu
reconhecer o inferno
partilhar com ele o denso véu
ou negar o demo e vagar
ao
léu

há dois modos de dizer a que veio
pular na frente
vim
gritar de trás olha eu aqui
enfim
ou estagnar na fileira
do
meio

há dois modos de sonhar
assistir ao sonho do outro
esticar o pescoço torto
ou sonho a sonho
or
ques
trar

há dois modos de beijar
a alma nos lábios do outro entregar
ou sonegar
sonegar
só
negar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza cursos de Comunicação e Expressão, aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung provocando nossos sentimentos de todos os modos.

Conte Sua História de São Paulo: O trem da vida

 

Por Elza Guerra Alemán
Ouvinte-internauta

Ouça “O trem da vida” com sonorização de Cláudio Antonio

Bairro do Brás

O ano de 1947 corria. E corria mesmo. Minha mãe falava todos os dias que o ano estava passando muito veloz. Isto porque ela não queria mudar-se do bairro do Brás onde morávamos e meu pai já havia estipulado o mês de janeiro para a mudança. A cada 24 horas mais se aproximava o dia de irmos para outro bairro, o longínquo Real Parque. Era longe, muito longe, naquelas montanhas cheias de eucaliptos, depois da ponte sobre um grande rio. Varias vezes tínhamos ido até lá visitar a família Valladares – o senhor Andrés, dona Luisa e suas duas filhas. Até que achávamos divertido passar o dia na granja deles! Enquanto minha mãe se lamentava, eu e minha irmã não víamos a hora de mudar de casa.

Meu pai tinha uma hospedaria no bairro do Brás, na rua Dr. Almeida Lima. Era a “Pensão Brasil”, um hotelzinho de poucas ou nenhuma estrela e onde também morávamos.

Nessa ocasião, eu tinha 7 anos. Estava no primeiro ano do curso primário, na Escola Normal Padre Anchieta. Todos os dias, pela manhã, passava pela rua 21 de abril para chamar minha coleguinha Olímpia e juntas chegávamos à avenida Rangel Pestana, no belo colégio, para as aulas da professora Idalina Guerra.

Apressadamente o ano caminhava para seu final.

Meus pais procuravam levar-nos, a mim e a minha irmãzinha, a todos os lugares onde provavelmente seria muito difícil voltar depois da mudança. Íamos então com mais freqüencia aos cinemas do bairro. No Piratininga, no Brás Polytheama, no Universo, assistiamos filmes espanhóis, americanos, brasileiros e argentinos. Quando íamos a noite, a sessão era de dois filmes e não podíamos ficar na sala de exibição depois das vinte e duas horas. O lanterninha vinha avisar meus pais para se retirarem com as crianças. Alguns filmes, talvez o “Sob a luz de meu bairro”, o “24 horas na vida de uma mulher” ou o “Os sinos de Santa Maria” eles não puderam ver o final, pois certamente tiveram que sair antes de terminada a sessão. Era a lei na época.

O Teatro Colombo, no largo da Concórdia, além de espetáculos musicais e peças de teatro, também exibia filmes. Lá, nas matineés de algazarra, assistíamos desenhos e seriados cujos finais nunca mais saberíamos.
Aquele final de ano rendia em passeios. Fomos ao circo montado na rua Visconde de Parnaiba , quando levavam a peça “Os milagres de Lourdes” e lembro-me que eu e minha irmãzinha choramos emocionadas.

De outra feita vimos também a peça “O Ébrio”, talvez no mesmo circo, onde também nos derretemos em lágrimas.

O Parque Shangai, instalado no parque Dom Pedro, era um acontecimento. E lá fomos nós ver todas aquelas luzes, brinquedos que se moviam, a mulher gigante que ria, ria sem parar e acho que se chamava Chica Pelanca.

Assistir aos casamentos na igreja Bom Jesus era também uma grande distração. Tenho a impressão que não perdemos nenhum sábado. E depois de analisar os vestidos das noivas e os trajes dos convidados passávamos pela rua Caetano Pinto para que minha mãe pudesse matar a saudade de seu tempo de criança.(Foi ali que meu pai a viu pela primeira vez, quando não passava de uma menina, filha de imigrantes espanhóis).

Atravessar as Porteiras do Brás, quando estas se fechavam, era cansativo, pois tínhamos que subir uma escada de muitos degraus, andar por um corredor e descer do outro lado. Dentro da estação de trens, no local de embarque, havia uma balança para pesar volumes. Não sei como funcionava, porém quando meu pai nos pesava, a balança soltava um cartãozinho com desenho de algum animal. Lembro-me que sempre recebia o desenho de um carneirinho, talvez pelo meu pouco peso. Gostava de ouvir o sinal avisando que as porteiras iriam se fechar ou abrir. Elas barravam o fluxo de carros, bondes e ônibus que cruzavam a avenida Rangel Pestana, para a passagem dos trens.

Mas, voltemos a Pensão Brasil que tinha altas portas e janelas idem que se abriam para a rua. A construção seria com certeza do século XIX. Fazia parte de uma serie de casas geminadas, que nessa época, anos 40, eram residências de famílias proletárias. Meu pai alugara duas daquelas casas, que possuíam muitos quartos e as transformou em um pequeno hotel. Hotel que servia tanto aos estudantes da Escola

Aeronáutica, da rua Visconde de Parnaíba, como aos migrantes, despejados aos montes na Estação do Norte. Esses eram seus hospedes. O grupo de casas fazia vizinhança ao “Laticínios Paulista”, a usina de leite, que por sua vez ficava junto a outra passagem dos trens. Uma passagem também com porteiras que cortava a rua dr. Almeida Lima.

Pensam que não? Lembro-me e ainda penso ouvir o barulho dos trens… dos vagões de carga, do trem de luxo, da litorina… ouço o barulho das caixas metálicas, arrastadas pelos funcionários do Leite Paulista…com vasilhames de vidro…na calçada que estava constantemente molhada…

Aquele 25 de dezembro chegou num instante. A Aurora Pazzito, o Alfredo, a Maria, a menina bem vestida da última casa, eu e minha irmã, logo cedo saímos a rua para mostrarmos os presentes que havíamos ganhado. Uma boneca, um joguinho de sofá, panelinhas e um revolver do Roy Rogers faziam a alegria daquela meninice.

Os dias rolaram como bolinhas de gude na ladeira. E uma noite ouvi minha mãe nos chamando para ouvir os apitos das fábricas, as buzinas dos carros, os estrondos dos fogos de artifícios, os meninos com paus batendo nos postes. Era a festa do reveillon. Terminava 1947 e nascia um ano novo.

Dias depois, nossa parca mudança chegava ao Real Parque. Casas pequenas com grandes quintais, árvores, cachorros, galinhas e pássaros. Água de poço. Rua de barro. Era uma nova etapa, um novo trajeto do trem de nossas vidas.


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br.

Neta escreve “Sem Remetente”

 

Neta Mello em lançamento de livro (Foto: Blog da Neta)

‘Sem Remetente’ guarda segredos em cartas escritas durante toda uma vida e leva o leitor ao próximo capítulo porque sempre parece que algo novo está para ser desvendado. Não é capaz, porém, de esconder características da autora Neta Mello, ao menos aquelas que ela nos permite conhecer em seus textos no blog ou em entrevistas como a que concedeu ao CBN São Paulo, que foi ao ar no dia de Natal.

O perfil de historiadora é evidente nos detalhes com que constrói os personagens e desenha os cenários por onde passam a família da Dona Julia, a escrevinhadora. As mulheres que surgem na trama tem a força da escritora. Perguntei qual das personagens femininas era ela, e a resposta está na segunda parte da entrevista que você acompanha aqui no blog.

Antes de chegar até lá, porém, Neta (pronuncie com ‘e’ fechado) conta o que a inspirou para tornar ‘Sem Remetente’ (Scortecci Editora) seu primeiro romance. Antes havia escrito “Crônicas Memórias” e “Pauliceia Ignorada”, a partir de histórias contadas por personagens anônimos da capital paulista.

Ouça a primeira parte da entrevista de Neta Mello

Agora, ouça o que diz Neta Mello na segunda parte da entrevista

Conheça mais de Neta Mello e “Sem Remetente” no Blog da Neta.

(Alertado pela Neta, descobri que a primeira parte da entrevista estava em alta rotação. Consertado o problema, uso a falha técnica para descobrir mais uma faceta da autora: segundo mensagem escrita por ela, os filhos disseram que a mãe é assim mesmo, acelerada, em altíssima rotação)

Coisas da Vida

 

Por Christian Jung
Do Blog MacFuca

Milton Ferretti Jung, ontem e hoje

O título do texto parece bem atual, mas na verdade reproduz o nome de um comentário que era redigido e lido pelo meu Pai, lá pelos anos de 1950 na então Rádio Canoas. Tenho vários deles em casa e me impressiono como o conteúdo na época era praticamente o que se vê ainda hoje. Reclamações ao prefeito Leonel Brizola do aumento das passagens de ônibus, a avenida São Pedro alagada após a chuvarada, o bonde que não conseguia passar, os carros que se arriscavam e os transeuntes chegando atrasados ao trabalho.

Bom, o que me traz aqui não é o conteúdo dos textos isso pode ficar para outro dia. O que me traz aqui mesmo é o locutor em questão.

Destes anos que já vivi, me dou o direito de analisar determinadas situações, visto que o tempo nos dá ao menos a possibilidade de refletirmos.

Filho de radialista, me criei sempre com a desconfiança e a palavra coerente de minha mãe dizendo que tudo que eu reclamava em frente ao rádio (em relação a ela, é lógico) meu Pai escutava na rádio. Sempre olhei para aquele aparelho de madeira sobre o balcão com desconfiança e, por vezes, resolvi mudar o teor da conversa para possíveis cobranças ao fim do dia. Sabe como é, entre falar e correr o risco, o silêncio era a melhor opção. Evidentemente que minha mãe contava tudo e sempre quando aquela “voz do rádio” chegava em casa era informada sobre os ‘acontecidos’ do filho mais novo. (Certamente da irmã mais velha e do irmão do meio, também, mas esses assuntos não eram de minha alçada). Afinal de contas ele era o locutor oficial do Correspondente Renner, como o é até hoje.

As cobranças dele sempre foram brandas, eu é que me apavorava. Sabe como é, Pai é Pai.

Lá em casa se acordava, almoçava e dormia com a característica de abertura do Correspondente Renner (hoje, atropelada pela tecnologia e falta de sensibilidade). Até mesmo quando pegava carona de carro com os pais de alguns colegas de colégio lá estava ele. Meu Pai! Trazendo as últimas informações das agências de notícias. Rádio ligado era como uma transferência à distância da relação afetuosa de alguém que me ensinou desde pequeno que “pano que cai no chão não se esfrega no carro”. Filosofia masculina de quem não passa o domingo sem um paninho na máquina.

Ainda se não bastasse a leitura do noticiário, tinha a locução esportiva, narração essa que lhe deu o apelido de o “Homem do Gol, Gol, Gol”. Bordão gravado em muitos discos de vinil da história do futebol brasileiro. Caminhar pela rua com ele era escutar no mínimo duas ou três vezes alguém gritando “Milton Gol-Gol-Gol Jung”. Era sempre isso. Bem, tinha também os dias de jogos. Morávamos, aliás, moro ainda perto do Olímpico e de fato meu Pai nunca escondeu ser gremista. Essa coisa de ficar fazendo gênero não é com ele. Dependendo do resultado, ao fim da partida, sempre tinha um cidadão que passava em frente de casa, esses vizinhos meio descompensados, que gritava: “Milton Jung, gremista filha da p…”. Já era folclor, eu dizia pro Pai. Olha só, o Vitor Hugo passou por aí (esse era o nome do artista que fazia os elogios). E assim me criei neste meio radiofônico tendo como rotina as visitas à Rádio Guaíba e ao Correio do Povo, de onde pegava os restos de chumbo dos linotipos pra colocar dentro dos carrinho de plástico para ficarem pesados e não capotarem nas brincadeiras.

Enfim, desde que me dei conta de identificar de quem eram as vozes que escutava quando ainda bebê, nunca mais parei de ouvir a voz do meu Pai. E lá em casa, a palavra voz tem uma poesia incrível porque se vive dela também. Aprendi a relação que tem ler e interpretar ou somente ler. Que quem te escuta, visualiza as palavras. Que da voz que produzimos, o oxigênio é a nossa gasolina. Que a quem nos ouve, devemos respeito, e para isso precisamos ser confiantes, fortes, alegres e, principalmente, coerentes com a informação que estamos passando.

Se ele algum dia me disse isso?

Não, nunca precisou, porque a admiração que sempre tive e tenho até hoje e a postura correta de bom profissional, sempre me fizeram entender que esses que gritam o seu nome na rua, gritam porque o que lhes chega é muito mais que notícias, é a mais pura poesia de quem nasceu com o dom de transformar um simples aparelho de rádio em um companheiro inseparável.

Por isso Pai, depois de um tempo te vendo afastado do rádio e mesmo com todas as mudanças na nossa velha e eterna Rádio Guaíba, tenho que te dizer que o sentimento de saber que tu estás ali dentro daquela caixa de madeira que eu achava que tu me escutavas, me dá a completa percepção que o teu tempo ainda não se acabou, que o velho microfone Neumann de Fita continua lá, no mesmo lugar, te esperando, esperando a pressão da tua voz pra funcionar. Porque não só ele, mas todos os teus fiéis ouvintes, os que virão a ser, e, principalmente, eu nos meus 43 anos, preciso muito ouvir a tua voz.

Volta Pai, porque estas coisas que aconteceram e as que estão por vir, “São Coisas da Vida.”

Um grande beijo!

Christian Jung é mestre de cerimônia, meu irmão e filho e radialista. Este texto foi escrito originalmente no Blog Mac Fuca do qual ele é o autor.

Formspring.me tira dúvidas no serviço público

 

O Governo do Estado de São Paulo está lá. Já encontrei ao menos um secretário municipal. E conversei com um subprefeito que também explora a nova rede social Formspring.me. No caso, subprefeita pois a entrevista foi com Soninha Francine, titular na regional da Lapa e entusiasmada digital. Foi das primeiras a incluir as redes sociais na prestação de serviço público, migrando para o gabinete dela na Câmara, levando para a carreira política e para a função na subprefeitura, a mesma estratégia explorada quando era apenas jornalista.

formspringmeFoi Soninha, por sinal, a primeira que vi usar o Formspring.me com o objetivo de discutir temas relacionados a função pública que exerce. O cidadão vai até a página da subprefeitura da Lapa na rede social, faz a pergunta, reclama da poda de árvore que nunca acontece, da reforma necessária na avenida principal ou da verticalização que incomoda tanta gente, e Soninha – ou seu pessoal de apoio – tenta esclarecer pela rede. Pareceu-me a maneira mais produtiva de explorar a facilidade proporcionada pela ferramenta. Por isso, foi a ela que procurei na quarta-feira para apresentar esta rede que surgiu há um mês. Claro que o bate-papo extrapolou o tema digital e se voltou para os problemas reais.

Ouça a entrevista da subprefeita da Lapa Soninha Francine

Exercitei minha função voyer nestas três últimas semanas quando fui informado do surgimento do Formspring.me até me lançar na rede, também. Ainda é preciso testar alguns formatos, identificar os melhores caminhos, e ter muita paciência. Estando no ar há pouco tempo, começou em 25 de novembro de 2009, o serviço desenvolvido pela Formspring.com, aplicativo que permite que as pessoas criem todo tipo de formulário para pesquisa, ainda apresenta problemas.

Desde que passei a responder perguntas enviadas por ouvintes-internautas, me deparei com a rede fora do ar na maior parte do tempo. Aliás, quando o Twitter sai do ar está baleiando; o que diremos quando a queda for no Formspring.me ? Formatando ? Formigando, como responderam alguns seguidores no Twitter ? O melhor é que não ocorra com tanta frequência.

Também não gostei de tuitar automaticamente a resposta publicada na nova rede. Fica mal formatada no Twitter e já ouvi algumas reclamações.

Reservar mais um tempo no dia para responder a perguntas de ouvintes-internautas não chega a ser um problema. A vantagem desta rede é que a resposta se tornará pública e poderá atender a mais pessoas.

Aqui no blog, abri espaço para o aplicativo. Está na barra lateral direita. Basta preencher o box com a pergunta e clicar no botão enviar. Ou, então, vá direto para www.formspring.me/miltonjung. Responderei assim que possível. Como faço há 10 anos, quando a ferramenta digital mais moderna de pergunta e resposta que tínhamos à disposição era o e-mail.

De Chacrinha a Lula, filhos de Pernambuco

 

Por Carlos Magno Gibrail

Lula e Chacrinha

Conceitos e preconceitos, dicotomias e isonomias, talvez expliquem o talento de comunicação destes dois pernambucanos cultos e sem erudição.

De Chacrinha, vimos a consagração com o título de “professor honoris causa” da Faculdade da Cidade, as inúmeras teses e dissertações acadêmicas que analisam seu desempenho na área de comunicação, ou ainda as homenagens como a de Gilberto Gil, em “Aquele abraço” (…o Velho Guerreiro balançando a pança e comandando a massa...). Atestados de sucesso.

De Lula, os 72% de aprovação em fim de mandato ou a Copa 2014 e a Olimpíada 2016, ou ainda “That is the man”, que sinalizam uma eficiência inquestionável em comunicação.

Chacrinha, radialista vigoroso; Lula, sindicalista agressivo; começaram as carreiras estribados em intensa comunicação com estilos próprios e carismáticos. Quase sempre no limite entre a ética padrão e a manutenção da personalidade.

Do “Velho guerreiro”, segundo ele próprio, acima de tudo um ouvinte de rádio e radialista extremado, temos:

– “Quem não se comunica se trumbica”
– “Eu vim para confundir e não para explicar”
– “Vocês querem bacalhau?” Campanha para seu patrocinador Casas da Banha, quando desovou um enorme
encalhe de bacalhau, apostando na premissa que brasileiro adora um presentinho.

Abelardo, o pernambucano de Surubim, tinha consciência que sua mensagem era popular, e entre o padrão vigente na mídia a uma linguagem direta com seu público, não hesitava em optar pelo rudimentar.

O homem de Garanhuns, recentemente em São Luiz do Maranhão não teve dúvida em usar termo inapropriado para o cargo de Presidente da República. Disse que “vai tirar o povo da merda” e foi ovacionado.

Segunda-feira, Mílton Jung sob o título “Não basta governar, tem de parecer e comparecer” analisou ação e comunicação no episódio das enchentes na capital paulista, do Prefeito Kassab, um político erudito. Economista pela FEA USP e engenheiro pela POLITÉCNICA USP, lastreado por moderno equipamento de Marketing agiu de forma elitista. Falou para letrados e compareceu tarde aos locais acidentados pelas enchentes.

Milton cita opinião do Prof. José de Souza Martins da Filosofia da USP publicada domingo no Estadão, que comparou o Prefeito e as chuvas com o Presidente e o palavrão : “Kassab se revelou mau ator porque seguiu à risca o roteiro de seu desempenho como prefeito, pois não compreendeu em tempo que o cenário havia sido mudado, dominado agora pelas apreensões e emoções do desastre. Lula, por seu lado, revelou-se bom ator, ainda que incorreto na expressão que usou, justamente porque violou o roteiro prescrito para quem governa”.

 

Parece que o Professor Martins tem razão, pois ontem o G1 da Globo publicou : “Lula rouba a cena com discurso divertido e emocionado no Prêmio Brasil Olímpico”. Deixou o calhamaço contendo o discurso programado de lado, e de improviso divertiu a plateia preponderantemente de atletas, com linguagem adequada ao momento sem se distanciar do estilo pessoal.

Ao se aproximar o ano eleitoral será oportuno que os políticos cuidem de si, ao invés de apontar erros e defeitos dos adversários.

As propostas devem privilegiar tanto conteúdo quanto forma e não podem deixar de considerar as características de cada um. Se culto, habilitar a erudição, se erudito habilitar a cultura. E plagiando Milton, não basta se candidatar, tem de parecer e comparecer.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas, e assistiu ao Chacrinha na TV

Promessa descumprida: obra está parada na Câmara

 

Praça da Câmara Municipal de São Paulo

“Até o fim do ano vai ficar tudo organizado”

Foi o gerente de obras da Emurb-SP Norberto Duran que assumiu o compromisso público em entrevista ao CBN São Paulo, há três meses. Ele se referia a obra de requalificação paisagística no entorno da Câmara Municipal de São Paulo que já estava atrasada mais de um ano e custará cerca de R$ 800 mil.

Em setembro, o ouvinte-internauta Marcos Paulo Dias havia fotografado o local e mostrado que a obra estava parada. Foi lá esta semana, novamente, e nada mudou.

Injustiça minha, mudou sim. A placa que anunciava a “requalificação paisagística” foi retirada da parede da Câmara (veja a foto acima).

A alegação era de que, contrato assinado e obra iniciada, se descobriu que haveria necessidade de licença ambiental para a remoção de goiabeiras e de árvores de coquinho ornamental. A Subprefeitura da Sé até aquele momento não havia emitido o documento.

A reforma por si só já era discutível, pois a mesma praça deverá ser modificada quando for construído o prédio anexo da Câmara Municipal, previsto para ser iniciado em 2010 (leia aqui).

Leia e ouça a entrevista com o gerente da Emurb, Norberto Duran, no dia 30 de setembro de 2009, ao CBN SP

Prefeito veta lei que garante acesso a cegos em lan house

 

Uma lei vetada e outra a espera da palavra decisiva do prefeito Gilberto Kassab (DEM) levaram a vereadora Mara Gabrilli (PSDB) a questionar o compromisso da administração municipal com a causa da pessoa deficiente. Descartada, foi a proposta de obrigar as lan houses a adaptarem computadores e ambiente para cegos; no aguardo, o projeto que cria o censo da inclusão e pretende mapear onde vivem as pessoas com deficiência ou restrição de mobilidade.

Mara Gabrilli foi secretária municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida na administração Serra/Kassab, por isso o tom de sua crítica durante entrevista ao CBN SP surpreendeu e revelou o quanto ela está incomodada com as atitudes tomadas até aqui pelo prefeito, ao menos em relação ao tema.

Na conversa, além de explicar a que se prestam as duas leis aprovadas na Câmara, a vereadora tucana também falou sobre regras que estão em vigor há algum tempo mas não estão sendo cumpridas na capital: uma de 1988 que obriga tornar acessível todas as calçadas no entorno de prédios públicos; outra, mais recente, que exige a recuperação de cerca de 3 mil km de calçadas localizadas em rotas estratégicas do município.

Ouça a entrevista da vereadora Mara Gabrilli (PSDB)

Em tempo: a lei que obriga as lan houses a se adaptarem para clientes cegos, é de autoria da vereadora Gabrilli e do vereador Ricardo Teixeira (PSDB).


Agora o outro lado
(atualizado 12:30 de 23/12)

O secretário municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, Marcos Belizário, disse que não sabe os motivos ténicos que levaram a prefeitura a decidir pelo veto ao projeto de lei que prevê acessibilidade de cegos a lan houses. Em entrevista ao CBN SP, apesar de ter explicado que o parecer da secretaria dele havia sido favorável,
ressaltou que donos de lan houses teriam alegado dificuldades técnicas para a implantação do sistema exigido.

Ouça a entrevista com o secretário Belizário que falou também sobre os problemas das calçadas não-acessíveis