Palmeiras 0 x 1 Grêmio
Brasileiro – Palestra Itália
Oi, Mahmoud
Você ainda não me conhece. Sou jornalista. Tenho 45 anos. E tive de deixar minha cidade em busca de uma vida profissional melhor. A escolha foi pessoal. Não fui muito longe. De Porto Alegre até aqui, em São Paulo, foram menos de duas horas de viagem de avião. Aqui, também, encontrei minha nova família, casei, tive dois filhos, e fiz amigos.
Se você falar com seu pai verá que sua caminhada foi muito mais difícil, apesar de ter apenas cinco anos. Sua família palestina trocou a casa em Bagdá, no Iraque, por barracos de lona em campos de refugiado, na Jordânia, quando as perseguições começaram. O medo da morte era inerente a vida mesmo sob uma suposta proteção jordaniana. E, certamente, não era o que seus pais gostariam de oferecer a você.
Há um ano você chegou a São Paulo, também de avião, com o que sua família havia conseguido juntar nestes anos. Foi para uma casa simples mas respeitável em Mogi das Cruzes, na região metropolitana, para começar mais uma etapa da vida. Encontrou novos amigos, foi para a escola e teve espaço para brincar. Brincadeira de criança brasileira. Jogar bola.
Ao correr atrás da primeira bola de couro que sujava com o pó da rua, descobriu uma nova paixão. Eu assisti ao vídeo no qual você conta para qual time torce. Me emocionei, Mahmoud. E fiquei pensando por que um garotinho palestino que já enfrentou tantas dificuldades em tão pouco tempo de vida, que vem morar em um País desconhecido, vai escolher um time tão distante dele. Lá do Sul. Que poucas vezes aparece na televisão que você tem na sala da casa.
Ao ver o Grêmio entrar em campo, neste domingo, no Palestra Itália, em São Paulo, e um pequeno grupo de torcedores comemorar, lembrei de você, Mahmoud. Imaginei como você deveria estar feliz sentado no chão sobre o tapete, com a bola tricolor entre as mãos e os olhos vidrados na tela da TV.
Quando o Grêmio foi para o ataque, quando o Grêmio foi atacado; enquanto sofria sentado no estúdio aqui da rádio onde trabalho, enquanto via meus colegas palmeirenses sofrendo; no momento em que uma lágrima envergonhada correu de alegria no meu rosto; lembrei de você em todos estes momentos.
Eu conheço muito pouco de você, Mahmoud. Sei que aprendeu com seus pais e seu povo. Enfrentou preconceito. Sofreu com a morte e desaparecimento de amiguinhos. Foi alvo de injustiça e falta de compreensão. E nunca desistiu.
Poderia ter escolhido um time mais fácil, um time do povo, das grandes massas nacionais, da simpatia dos críticos, Mas você foi gostar logo do meu Grêmio.
A vitória de hoje, Mahmoud, não vai nos dar o título de campeão que todos buscam. Mas você sabe que não nos serve a conquista passageira. Queremos fazer a história. Assim como seu povo a constrói neste momento.
Parabéns, Mahmoud, você é um menino de coragem. E o Grêmio, como vimos nesta tarde de domingo, mais uma vez, foi um time corajoso. Pensando bem, acho que você já nasceu gremista
De Mílton Jung